Tratado de Fisiologia Médica
Contrações Prematuras
pode bloquear a condução de impulsos no sistema de Purkinje ventricular
periférico. A Figura 13-8 mostra a patologia conhecida como alternância
elétrica, que resulta de bloqueio intraventricular parcial de batimentos
cardíacos alternados. Esse ECG mostra também taquicardia (frequência
cardíaca rápida), que provavelmente foi a razão para ter ocorrido o
bloqueio, porque, quando a frequência cardíaca é rápida, pode não ser
possível para algumas partes do sistema de Purkinje se recuperar do período
refratário anterior com rapidez suficiente para responder a todos os
batimentos cardíacos sucessivos. De igual modo, muitas patologias que
deprimem o coração, como isquemia, miocardite ou intoxicação por
digitálicos, podem causar bloqueio intraventricular incompleto, resultando
em alternância elétrica.
Figura 13-8. Bloqueio intraventricular parcial — “alternância elétrica” (derivação III).
CONTRAÇÕES PREMATURAS
A contração prematura do coração é a que ocorre antes do tempo em que se
esperaria uma contração normal. Essa patologia é chamada de
extrassistolia, batimento prematuro ou batimento ectópico.
Causas das Contrações Prematuras. A maioria das contrações
prematuras (extrassístoles) decorre de focos ectópicos no coração que
produzem impulsos anormais em tempos diferentes durante o ritmo
cardíaco. As causas possíveis dos focos ectópicos são: (1) áreas locais de isquemia; (2) pequenas placas calcificadas em diferentes pontos no coração
que comprimem o músculo cardíaco adjacente, de modo que algumas das
fibras são irritadas; e (3) irritação tóxica do nodo AV do sistema de Purkinje
ou do miocárdio, o que é causado por infecções, fármacos, nicotina ou
cafeína. A iniciação mecânica das contrações prematuras também é
frequente durante cateterização cardíaca; costuma ocorrer grande número
de contrações prematuras quando o cateter entra no ventrículo direito e
pressiona o endocárdio.
Contrações Prematuras Atriais
A Figura 13-9 mostra extrassístole atrial única. A onda P desse batimento
ocorreu cedo demais no ciclo cardíaco; o intervalo P-R encurta, indicando
que a origem ectópica do batimento está nos átrios perto do nodo AV. De
igual modo, o intervalo entre a contração prematura e a contração seguinte
está prolongado, o que é chamado pausa compensatória. Uma das razões
para essa pausa compensatória é que a contração prematura se originou no
átrio, a alguma distância do nodo sinusal, e o impulso teve de percorrer
parte considerável do músculo atrial antes de atingir o nodo sinusal.
Consequentemente, o nodo sinusal descarregou tardiamente no ciclo
prematuro, o que fez com que a descarga seguinte do nodo sinusal também
aparecesse mais tarde.
Com frequência, ocorrem contrações prematuras atriais em pessoas
saudáveis. Na verdade, costumam ocorrer em atletas, cujo coração está em
condição muito saudável. Patologias tóxicas leves decorrentes de fatores
como tabagismo, falta de sono, ingestão excessiva de café, alcoolismo e uso
de vários medicamentos também podem desencadear essas contrações
prematuras.
Figura 13-9. Batimento prematuro atrial (derivação I).
Déficit do Pulso. Quando o coração se contrai antes do tempo previsto,
os ventrículos não terão se enchido normalmente de sangue, e o débito
sistólico nessa contração é diminuído, deprimido ou quase ausente.
Portanto, a onda de pulso que passa para as artérias periféricas depois de
contração prematura pode ser tão fraca que não seja sentida na artéria
radial. Desse modo, ocorre déficit no número de pulsações radiais em
comparação com o número real de contrações do coração.
Contrações Prematuras do Nodo AV ou no Feixe AV
A Figura 13-10 mostra uma contração prematura que se originou no nodo
AV ou no feixe AV. A onda P está faltando no registro eletrocardiográfico
da contração prematura. Em vez disso, a onda P aparece sobreposta ao
complexo QRS-T, porque o impulso cardíaco seguiu percurso retrógrado
para os átrios ao mesmo tempo em que se dirigiu para os ventrículos; essa
onda P altera pouco o complexo QRS-T, mas a própria onda P não pode ser
distinguida como tal. Em geral, as contrações prematuras do nodo AV têm o
mesmo significado e causas que as contrações prematuras atriais.
Figura 13-10. Contração prematura nodal atrioventricular (derivação III).
Contrações Prematuras Ventriculares
O ECG da Figura 13-11 mostra uma série de contrações prematuras
ventriculares (PCVs), alternando-se com contrações normais. As PCVs
produzem efeitos específicos no ECG:
1. O complexo QRS, em geral, fica muito prolongado. A razão deste
prolongamento é que o impulso é conduzido principalmente pelo
músculo ventricular, com condução muito lenta, e não pelo sistema de
Purkinje.
2. O complexo QRS tem voltagem elevada. Quando o impulso normal
cursa pelo coração, passa por ambos os ventrículos de modo quase
simultâneo; consequentemente, no coração normal, as ondas de
despolarização dos dois lados do coração — em grande parte, com
polaridade oposta entre eles — neutralizam parcialmente umas às outras
no ECG. Quando ocorre a PCV, o impulso quase sempre vai apenas em
uma direção, assim não ocorre esse efeito de neutralização, e todo um
lado do ventrículo ou sua extremidade fica despolarizado à frente do
outro; isso gera grandes potenciais elétricos, como mostrado nas PCVs
naFigura 13-11.
3. Após quase todas as PCVs, a onda T tem a polaridade de potencial
elétrico exatamente oposta à do complexo QRS, porque a condução
lenta do impulso pelo músculo cardíaco faz com que as fibras
musculares que se despolarizam primeiro também repolarizem primeiro.
Algumas PCVs são relativamente benignas em seus efeitos sobre o
bombeamento global pelo coração; elas podem decorrer de fatores tais
como cigarros, ingestão excessiva de café, falta de sono, vários estados
tóxicos leves e até irritabilidade emocional. Inversamente, muitas outras
PCVs decorrem de impulsos desgarrados ou sinais reentrantes originados
em torno das bordas de áreas infartadas ou isquêmicas no coração. A
presença dessas PCVs deve ser considerada com seriedade. As pessoas com
número significativo de PCVs têm, em geral, probabilidade muito mais alta
que a normal de desenvolver fibrilação ventricular letal, presumivelmente
desencadeada por uma das PCVs. Esse desenvolvimento é verdade,
sobretudo quando as PCVs ocorrem durante o período vulnerável para
causar fibrilação, exatamente ao final da onda T, logo que os ventrículos
estão saindo da refratariedade, como ainda será explicado neste Capítulo.
Figura 13-11. Contrações prematuras ventriculares (PCVs) representadas pelos grandes complexos QRS-T anormais (derivações II e III). O eixo das contrações prematuras é marcado de acordo com os princípios da análise vetorial explicados no Capítulo 12; ele mostra a origem da PCV perto da base dos ventrículos.
Análise Vetorial da Origem de Contração Prematura Ventricular
Ectópica. No Capítulo 12 foram explicados os princípios da análise
vetorial. Aplicando esses princípios, pode-se determinar, pelo ECG
na Figura 13-11, o ponto de origem da PCV. Observe que os potenciais das
contrações prematuras, nas derivações II e III, são ambos fortemente
positivos. Colocando esses potenciais nos gráficos das derivações II e III e
resolvendo por análise vetorial para o vetor QRS médio no coração,
encontra-se que o vetor dessa contração prematura tem sua extremidade
negativa (origem) na base do coração e sua extremidade positiva apontando para o ápice. Desse modo, a primeira parte do coração a se despolarizar
durante a contração prematura fica perto da base dos ventrículos, que,
portanto, é o local do foco ectópico.
Distúrbios da Repolarização Cardíaca – a Síndrome do QT
Longo. Lembre-se de que a onda Q corresponde à despolarização
ventricular, enquanto a onda T corresponde à repolarização ventricular. O
intervalo Q-T é o intervalo de tempo entre a ponta de Q e o término da onda
T. Distúrbios que retardem a repolarização do músculo ventricular após o
potencial de ação causam potenciais de ação prolongados e, por
conseguinte, longos intervalos QT no ECG, condição que é chamada
síndrome do QT Longo (SLQT).
A razão principal de preocupação com a SLQT é que a repolarização
retardada do músculo ventricular aumenta a suscetibilidade da pessoa para
desenvolver as arritmias ventriculares conhecidas como torsades de pointes,
o que literalmente significa “torcer as pontas”. Esse tipo de arritmia tem as
características mostradas na Figura 13-12. A forma do complexo QRS pode
variar com o passar do tempo, com o início da arritmia seguindo contração
prematura, pausa e outra contração prematura com longo intervalo QT, que
pode desencadear arritmias, taquicardia e, em certos casos, fibrilação
ventricular.
Distúrbios da repolarização cardíaca que levam à SLQT podem ser
hereditários ou adquiridos. As formas congênitas da SLQT são distúrbios
decorrentes de mutações nos genes dos canais de sódio ou de potássio. Pelo
menos 10 mutações distintas desses genes, todas causadoras de grau
variável do prolongamento Q-T, já foram identificadas.
Mais comuns são as formas adquiridas da SLQT, associadas a distúrbios
eletrolíticos do plasma, como a hipomagnesemia, a hipocalemia e a
hipocalcemia, ou à administração de doses exageradas de fármacos antiarrítmicos, como a quinidina, e de alguns antibióticos, como as
fluroquinolonas ou a eritromicina, que prolongam o intervalo Q-T.
Embora algumas pessoas com SLQT não apresentem outros sintomas
importantes (além do prolongamento do intervalo Q-T), outros apresentam
desmaios e arritmias ventriculares que podem ser desencadeadas pelo
exercício físico, por emoções fortes, como medo ou ira, ou quando
alarmadas por barulho. As arritmias ventriculares, associadas à SLQT,
podem em alguns casos evoluir para a fibrilação ventricular e morte súbita.
O tratamento pode incluir o sulfato de magnésia, para a SLQT aguda, e
para a SLQT de longa duração podem ser usados medicamentos
antiarrítmicos, como os bloqueadores beta-adrenérgicos ou a implantação
cirúrgica de desfibrilador cardíaco.
Figura 13-12. Desenvolvimento de arritmia, na síndrome do QT longo (SLQT). Quando o potencial de ação do músculo ventricular é prolongado pela repolarização retardada, uma despolarização prematura (linha tracejada na figura superior esquerda) pode ocorrer antes de completada a repolarização. Despolarizações prematuras repetidas (figura superior direita) podem levar a múltiplas despolarizações em certas circunstâncias. Nas torsades de pointes (figura inferior), batimentos ventriculares prematuros levam a pausas, a prolongamento pós-pausa do intervalo Q-T e arritmias. (Modificado de Murray KT, Roden DM: Disorders of cardiac repolarization: the long QT syndromes. In: Crawford MG, DiMarco JP [eds]: Cardiology. London: Mosby, 2001.)