Tratado de Fisiologia Médica
Fluxo Sanguíneo Gastrointestinal — “Circulação Esplâncnica”
direção anal por 5 a 10 centímetros antes de cessar. Ao mesmo tempo, o
intestino às vezes relaxa vários centímetros adiante, na direção do ânus, o
que é chamado “relaxamento receptivo”, permitindo que o alimento seja
impulsionado mais facilmente na direção anal do que na direção oral.
Esse padrão complexo não ocorre na ausência do plexo mioentérico.
Portanto, o padrão é denominado reflexo mioentérico ou reflexo
peristáltico. O reflexo peristáltico e a direção anal do movimento do
peristaltismo constituem a chamada “lei do intestino”.
MOVIMENTOS DE MISTURA
Os movimentos de mistura diferem nas várias partes do trato alimentar. Em
algumas áreas, as próprias contrações peristálticas causam a maior parte da
mistura, o que é especialmente verdadeiro quando a progressão dos
conteúdos intestinais é bloqueada por esfíncter, de maneira que a onda
peristáltica possa, então, apenas agitar os conteúdos intestinais, em vez de
impulsioná-los para frente. Em outros momentos, contrações constritivas
intermitentes locais ocorrem em regiões separadas por poucos centímetros
da parede intestinal. Essas constrições geralmente duram apenas de 5 a 30
segundos; então, novas constrições ocorrem em outros pontos no intestino,
“triturando” e “separando” os conteúdos aqui e ali. Os movimentos
peristálticos e constritivos são modificados em diferentes partes do trato
gastrointestinal para propulsão e mistura adequadas, como é discutido para
cada porção do trato no Capítulo 64.
FLUXO SANGUÍNEO GASTROINTESTINAL —
“CIRCULAÇÃO ESPLÂNCNICA”
Os vasos sanguíneos do sistema gastrointestinal fazem parte de sistema
mais extenso, denominado circulação esplâncnica, mostrado na Figura 63-
6. Essa circulação inclui o fluxo sanguíneo pelo próprio intestino e os
fluxos sanguíneos por baço, pâncreas e fígado. O plano desse sistema é tal
que todo o sangue que passa por intestino, baço e pâncreas flui,
imediatamente, para o fígado por meio da veia porta. No fígado, o sangue
passa por milhões de diminutos sinusoides hepáticos e, finalmente, deixa o
órgão por meio das veias hepáticas, que desembocam na veia cava da
circulação geral. Esse fluxo de sangue pelo fígado, antes de retornar à veia
cava, permite que as células reticuloendoteliais, revestindo os sinusoides
hepáticos, removam bactérias e outras partículas que poderiam entrar na
circulação sanguínea do trato gastrointestinal, evitando assim, o transporte
direto de agentes potencialmente prejudiciais para o restante do corpo.
Os nutrientes não lipídicos e hidrossolúveis, absorvidos no intestino
(como carboidratos e proteínas), são transportados no sangue venoso da
veia porta para os mesmos sinusoides hepáticos. Aqui, as células
reticuloendoteliais e as células principais do parênquima do fígado, as
células hepáticas, absorvem e armazenam temporariamente metade a três
quartos dos nutrientes. Inclusive, grande parte do processamento químico
intermediário desses nutrientes ocorre nas células hepáticas. Discutiremos
essas funções nutricionais do fígado nos Capítulos 68 a 72. Quase todas as
gorduras absorvidas pelo trato intestinal não são transportadas no sangue
porta, mas, sim, pelo sistema linfático intestinal e, então, são levadas ao
sangue circulante sistêmico por meio do ducto torácico, sem passar pelo
fígado.
Figura 63-6. Circulação esplâncnica.
ANATOMIA DO APORTE DE SANGUE
GASTROINTESTINAL
A Figura 63-7 mostra o plano geral da circulação de sangue arterial no
intestino, incluindo as artérias mesentérica superior e mesentérica inferior,
que suprem as paredes dos intestinos delgado e grosso, por meio de sistema
arterial arqueado. A artéria celíaca, que supre de sangue o estômago, não
está mostrada na figura.
Ao entrar na parede do intestino, as artérias se ramificam, e artérias
menores percorrem em ambas as direções o perímetro do intestino. As extremidades dessas artérias convergem no lado diametralmente oposto ao
da artéria maior de que se originaram. Dessas artérias perimetrais, artérias
ainda menores penetram na parede intestinal, espalhando-se (1) pelos feixes
musculares; (2) pelas vilosidades intestinais; e (3) pelos vasos submucosos,
sob o epitélio, servindo às funções secretoras e absortivas do intestino.
A Figura 63-8 mostra a organização especial do fluxo sanguíneo em uma
vilosidade intestinal, incluindo pequena arteríola e vênula interconectadas
por sistema de múltiplas alças capilares. As paredes das arteríolas são muito
mus culosas e muito ativas no controle do fluxo sanguíneo para o vilo.
Figura 63-7. Suprimento de sangue arterial para os intestinos através da rede mesentérica.
Figura 63-8. Microvasculatura do vilo, mostrando um arranjo em contracorrente do fluxo sanguíneo nas artérias e nas vênulas.
EFEITO DA ATIVIDADE INTESTINAL E FATORES
METABÓLICOS NO FLUXO SANGUÍNEO
GASTROINTESTINAL
Sob condições normais, o fluxo sanguíneo, em cada área do trato
gastrointestinal, bem como em cada camada da parede intestinal, está
diretamente relacionado ao nível local de atividade. Por exemplo, durante a
absorção ativa dos nutrientes, o fluxo sanguíneo pelas vilosidades e nas
regiões adjacentes da submucosa aumenta por cerca de oito vezes. Da
mesma maneira, o fluxo sanguíneo, nas camadas musculares da parede
intestinal aumenta com atividade motora mais intensa no intestino. Por
exemplo, depois de refeição, a atividade motora, a atividade secretória e a
atividade absortiva aumentam; então, o fluxo de sangue aumenta bastante,
mas depois diminui para os valores de repouso no período seguinte de 2 a 4
horas.
Possíveis Causas do Aumento do Fluxo Sanguíneo Durante a
Atividade Gastrointestinal. Embora a causa ou as causas precisas do
aumento do fluxo sanguíneo durante a atividade gastrointestinal intensa
ainda sejam obscuras, alguns fatores são conhecidos.
Primeiro, várias substâncias vasodilatadoras são liberadas pela mucosa do
trato intestinal, durante o processo digestivo. A maioria dessas substâncias é
hormônio peptídico, como colecistocinina, peptídeo vasoativo intestinal,
gastrina e secretina. Esses mesmos hormônios controlam atividades
motoras e secretórias específicas do intestino, como discutido nos
Capítulos 64 e 65.
Em segundo lugar, algumas das glândulas gastrointestinais também
liberam na parede intestinal duas cininas, calidina e bradicinina, ao mesmo
tempo em que secretam outras substâncias no lúmen. Essas cininas são
potentes vasodilatadores que se supõe causarem grande parte da vasodilatação intensa, que ocorre na mucosa, simultaneamente com a
secreção.
Em terceiro lugar, a redução da concentração de oxigênio na parede
intestinal pode aumentar o fluxo de sangue intesti nal por 50% a 100%;
assim, a intensidade metabólica mais intensa da mucosa e da parede
intestinal, durante a atividade intestinal, provavelmente diminui a
concentração de oxigênio o suficiente para provocar grande parte da
vasodilatação. A diminuição do oxigênio pode ainda quadruplicar a
concentração de adenosina, vasodilatador bem conhecido que poderia ser
responsável por grande parte do aumento do fluxo.
Dessa forma, o aumento do fluxo sanguíneo, durante a fase de atividade
gastrointestinal intensa, é provavelmente a combinação de muitos dos
fatores mencionados antes, aliados e outros ainda por descobrir.
Fluxo Sanguíneo em “Contracorrente” nas Vilosidades. Observe,
na Figura 63-8, que o fluxo arterial entra no vilo e o fluxo venoso sai dele,
correm em direções opostas, e que os vasos são paralelos e próximos.
Devido a essa disposição vascular, grande parte do oxigênio sanguíneo se
difunde das arteríolas diretamente para as vênulas adjacentes, sem passar
pelas extremidades dos vilos. Até 80% do oxigênio podem passar por esse
atalho e assim não servirão às funções metabólicas locais dos vilos. O leitor
reconhecerá que esse tipo de mecanismo de contracorrente nas vilosidades é
análogo ao mecanismo de contracorrente nos vasos retos da medula renal,
discutido em detalhes noCapítulo 29.
Em condições normais, esse desvio do oxigênio das arteríolas para as
vênulas não é lesivo às vilosidades, mas em condições patológicas, nas
quais o fluxo sanguíneo para o intestino fica bastante comprometido como,
por exemplo, no choque circulatório; o déficit de oxigênio nas pontas das
vilosidades pode ser de tal monta que as pontas ou até mesmo todas as
vilosidades podem ter morte isquêmica e desintegrar-se. Portanto, por essas e outras razões, em muitas doenças gastrointestinais, as vilosidades ficam
seriamente comprometidas, o que leva à grande diminuição da capacidade
absortiva intestinal.
CONTROLE NERVOSO DO FLUXO SANGUÍNEO
GASTROINTESTINAL
A estimulação dos nervos parassimpáticos para o estômago e o cólon distal
aumenta o fluxo sanguíneo local, ao mesmo tempo em que aumenta a
secreção glandular. É provável que esse aumento do fluxo seja
consequência da maior atividade glandular e não efeito direto da
estimulação nervosa.
Por outro lado, a estimulação simpática tem efeito direto em
essencialmente todo o trato gastrointestinal, causando vasoconstrição
intensa das arteríolas com grande redução do fluxo sanguíneo. Depois de
poucos minutos de vasoconstrição, o fluxo, em geral, retorna a valores
próximos dos normais por meio do mecanismo denominado “escape
autorregulatório”. Isto é, os mecanismos vasodilatadores metabólicos
locais, provocados pela isquemia, predominam sobre a vasoconstrição
simpática e dilatam as arteríolas, com retorno do fluxo sanguíneo nutriente,
necessário às glândulas e à musculatura gastrointestinal.
A Importância da Redução Nervosa do Fluxo Sanguíneo
Gastrointestinal Quando Outras Partes do Corpo Necessitam de
Fluxo Sanguíneo Extra. Uma das principais utilidades adaptativas da
vasoconstrição simpática no intestino é permitir a interrupção do fluxo
sanguíneo gastrointestinal e esplâncnico por breves períodos de tempo,
durante o exercício pesado, quando o coração e os músculos esqueléticos
necessitam de maior fluxo. Além disso, no choque circulatório, quando
todos os tecidos vitais do corpo estão em risco de morte celular, por ausência de fluxo sanguíneo — especialmente, o cérebro e o coração —, a
estimulação simpática pode reduzir em muito o fluxo sanguíneo
esplâncnico por algumas horas.
A estimulação simpática também promove forte vasoconstrição das veias
intestinais e mesentéricas de grande calibre. Essa vasoconstrição diminui o
volume de sangue nessas veias e desloca, assim, grande quantidade de
sangue para outras partes da circulação. No choque hemorrágico ou em
outros estados de baixo volume de sangue, esse mecanismo pode fornecer
de 200 a 400 mililitros de sangue extra para manter a circulação sistêmica.
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