Tratado de Fisiologia Médica

John E. Hall · Capítulo 287 de 351

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Tratado de Fisiologia Médica

Fluxo Sanguíneo Gastrointestinal — “Circulação Esplâncnica”

direção anal por 5 a 10 centímetros antes de cessar. Ao mesmo tempo, o

intestino às vezes relaxa vários centímetros adiante, na direção do ânus, o

que é chamado “relaxamento receptivo”, permitindo que o alimento seja

impulsionado mais facilmente na direção anal do que na direção oral.

Esse padrão complexo não ocorre na ausência do plexo mioentérico.

Portanto, o padrão é denominado reflexo mioentérico ou reflexo

peristáltico. O reflexo peristáltico e a direção anal do movimento do

peristaltismo constituem a chamada “lei do intestino”.

 

MOVIMENTOS DE MISTURA

Os movimentos de mistura diferem nas várias partes do trato alimentar. Em

algumas áreas, as próprias contrações peristálticas causam a maior parte da

mistura, o que é especialmente verdadeiro quando a progressão dos

conteúdos intestinais é bloqueada por esfíncter, de maneira que a onda

peristáltica possa, então, apenas agitar os conteúdos intestinais, em vez de

impulsioná-los para frente. Em outros momentos, contrações constritivas

intermitentes locais ocorrem em regiões separadas por poucos centímetros

da parede intestinal. Essas constrições geralmente duram apenas de 5 a 30

segundos; então, novas constrições ocorrem em outros pontos no intestino,

“triturando” e “separando” os conteúdos aqui e ali. Os movimentos

peristálticos e constritivos são modificados em diferentes partes do trato

gastrointestinal para propulsão e mistura adequadas, como é discutido para

cada porção do trato no Capítulo 64.

 

FLUXO SANGUÍNEO GASTROINTESTINAL —

“CIRCULAÇÃO ESPLÂNCNICA”

Os vasos sanguíneos do sistema gastrointestinal fazem parte de sistema

mais extenso, denominado circulação esplâncnica, mostrado na Figura 63-

6. Essa circulação inclui o fluxo sanguíneo pelo próprio intestino e os

fluxos sanguíneos por baço, pâncreas e fígado. O plano desse sistema é tal

que todo o sangue que passa por intestino, baço e pâncreas flui,

imediatamente, para o fígado por meio da veia porta. No fígado, o sangue

passa por milhões de diminutos sinusoides hepáticos e, finalmente, deixa o

órgão por meio das veias hepáticas, que desembocam na veia cava da

circulação geral. Esse fluxo de sangue pelo fígado, antes de retornar à veia

cava, permite que as células reticuloendoteliais, revestindo os sinusoides

hepáticos, removam bactérias e outras partículas que poderiam entrar na

circulação sanguínea do trato gastrointestinal, evitando assim, o transporte

direto de agentes potencialmente prejudiciais para o restante do corpo.

Os nutrientes não lipídicos e hidrossolúveis, absorvidos no intestino

(como carboidratos e proteínas), são transportados no sangue venoso da

veia porta para os mesmos sinusoides hepáticos. Aqui, as células

reticuloendoteliais e as células principais do parênquima do fígado, as

células hepáticas, absorvem e armazenam temporariamente metade a três

quartos dos nutrientes. Inclusive, grande parte do processamento químico

intermediário desses nutrientes ocorre nas células hepáticas. Discutiremos

essas funções nutricionais do fígado nos Capítulos 68 a 72. Quase todas as

gorduras absorvidas pelo trato intestinal não são transportadas no sangue

porta, mas, sim, pelo sistema linfático intestinal e, então, são levadas ao

sangue circulante sistêmico por meio do ducto torácico, sem passar pelo

fígado.

Figura 63-6. Circulação esplâncnica.

 

ANATOMIA DO APORTE DE SANGUE

GASTROINTESTINAL

 

A Figura 63-7 mostra o plano geral da circulação de sangue arterial no

intestino, incluindo as artérias mesentérica superior e mesentérica inferior,

que suprem as paredes dos intestinos delgado e grosso, por meio de sistema

arterial arqueado. A artéria celíaca, que supre de sangue o estômago, não

está mostrada na figura.

Ao entrar na parede do intestino, as artérias se ramificam, e artérias

menores percorrem em ambas as direções o perímetro do intestino. As extremidades dessas artérias convergem no lado diametralmente oposto ao

da artéria maior de que se originaram. Dessas artérias perimetrais, artérias

ainda menores penetram na parede intestinal, espalhando-se (1) pelos feixes

musculares; (2) pelas vilosidades intestinais; e (3) pelos vasos submucosos,

sob o epitélio, servindo às funções secretoras e absortivas do intestino.

A Figura 63-8 mostra a organização especial do fluxo sanguíneo em uma

vilosidade intestinal, incluindo pequena arteríola e vênula interconectadas

por sistema de múltiplas alças capilares. As paredes das arteríolas são muito

mus culosas e muito ativas no controle do fluxo sanguíneo para o vilo.

 

Figura 63-7. Suprimento de sangue arterial para os intestinos através da rede mesentérica.

Figura 63-8. Microvasculatura do vilo, mostrando um arranjo em contracorrente do fluxo sanguíneo nas artérias e nas vênulas.

 

EFEITO DA ATIVIDADE INTESTINAL E FATORES

METABÓLICOS NO FLUXO SANGUÍNEO

GASTROINTESTINAL

 

Sob condições normais, o fluxo sanguíneo, em cada área do trato

gastrointestinal, bem como em cada camada da parede intestinal, está

diretamente relacionado ao nível local de atividade. Por exemplo, durante a

absorção ativa dos nutrientes, o fluxo sanguíneo pelas vilosidades e nas

regiões adjacentes da submucosa aumenta por cerca de oito vezes. Da

mesma maneira, o fluxo sanguíneo, nas camadas musculares da parede

intestinal aumenta com atividade motora mais intensa no intestino. Por

exemplo, depois de refeição, a atividade motora, a atividade secretória e a

atividade absortiva aumentam; então, o fluxo de sangue aumenta bastante,

mas depois diminui para os valores de repouso no período seguinte de 2 a 4

horas.

 

Possíveis Causas do Aumento do Fluxo Sanguíneo Durante a

Atividade Gastrointestinal. Embora a causa ou as causas precisas do

aumento do fluxo sanguíneo durante a atividade gastrointestinal intensa

ainda sejam obscuras, alguns fatores são conhecidos.

Primeiro, várias substâncias vasodilatadoras são liberadas pela mucosa do

trato intestinal, durante o processo digestivo. A maioria dessas substâncias é

hormônio peptídico, como colecistocinina, peptídeo vasoativo intestinal,

gastrina e secretina. Esses mesmos hormônios controlam atividades

motoras e secretórias específicas do intestino, como discutido nos

Capítulos 64 e 65.

Em segundo lugar, algumas das glândulas gastrointestinais também

liberam na parede intestinal duas cininas, calidina e bradicinina, ao mesmo

tempo em que secretam outras substâncias no lúmen. Essas cininas são

potentes vasodilatadores que se supõe causarem grande parte da vasodilatação intensa, que ocorre na mucosa, simultaneamente com a

secreção.

Em terceiro lugar, a redução da concentração de oxigênio na parede

intestinal pode aumentar o fluxo de sangue intesti nal por 50% a 100%;

assim, a intensidade metabólica mais intensa da mucosa e da parede

intestinal, durante a atividade intestinal, provavelmente diminui a

concentração de oxigênio o suficiente para provocar grande parte da

vasodilatação. A diminuição do oxigênio pode ainda quadruplicar a

concentração de adenosina, vasodilatador bem conhecido que poderia ser

responsável por grande parte do aumento do fluxo.

Dessa forma, o aumento do fluxo sanguíneo, durante a fase de atividade

gastrointestinal intensa, é provavelmente a combinação de muitos dos

fatores mencionados antes, aliados e outros ainda por descobrir.

 

Fluxo Sanguíneo em “Contracorrente” nas Vilosidades. Observe,

na Figura 63-8, que o fluxo arterial entra no vilo e o fluxo venoso sai dele,

correm em direções opostas, e que os vasos são paralelos e próximos.

Devido a essa disposição vascular, grande parte do oxigênio sanguíneo se

difunde das arteríolas diretamente para as vênulas adjacentes, sem passar

pelas extremidades dos vilos. Até 80% do oxigênio podem passar por esse

atalho e assim não servirão às funções metabólicas locais dos vilos. O leitor

reconhecerá que esse tipo de mecanismo de contracorrente nas vilosidades é

análogo ao mecanismo de contracorrente nos vasos retos da medula renal,

discutido em detalhes noCapítulo 29.

Em condições normais, esse desvio do oxigênio das arteríolas para as

vênulas não é lesivo às vilosidades, mas em condições patológicas, nas

quais o fluxo sanguíneo para o intestino fica bastante comprometido como,

por exemplo, no choque circulatório; o déficit de oxigênio nas pontas das

vilosidades pode ser de tal monta que as pontas ou até mesmo todas as

vilosidades podem ter morte isquêmica e desintegrar-se. Portanto, por essas e outras razões, em muitas doenças gastrointestinais, as vilosidades ficam

seriamente comprometidas, o que leva à grande diminuição da capacidade

absortiva intestinal.

 

CONTROLE NERVOSO DO FLUXO SANGUÍNEO

GASTROINTESTINAL

 

A estimulação dos nervos parassimpáticos para o estômago e o cólon distal

aumenta o fluxo sanguíneo local, ao mesmo tempo em que aumenta a

secreção glandular. É provável que esse aumento do fluxo seja

consequência da maior atividade glandular e não efeito direto da

estimulação nervosa.

Por outro lado, a estimulação simpática tem efeito direto em

essencialmente todo o trato gastrointestinal, causando vasoconstrição

intensa das arteríolas com grande redução do fluxo sanguíneo. Depois de

poucos minutos de vasoconstrição, o fluxo, em geral, retorna a valores

próximos dos normais por meio do mecanismo denominado “escape

autorregulatório”. Isto é, os mecanismos vasodilatadores metabólicos

locais, provocados pela isquemia, predominam sobre a vasoconstrição

simpática e dilatam as arteríolas, com retorno do fluxo sanguíneo nutriente,

necessário às glândulas e à musculatura gastrointestinal.

 

A Importância da Redução Nervosa do Fluxo Sanguíneo

Gastrointestinal Quando Outras Partes do Corpo Necessitam de

Fluxo Sanguíneo Extra. Uma das principais utilidades adaptativas da

vasoconstrição simpática no intestino é permitir a interrupção do fluxo

sanguíneo gastrointestinal e esplâncnico por breves períodos de tempo,

durante o exercício pesado, quando o coração e os músculos esqueléticos

necessitam de maior fluxo. Além disso, no choque circulatório, quando

todos os tecidos vitais do corpo estão em risco de morte celular, por ausência de fluxo sanguíneo — especialmente, o cérebro e o coração —, a

estimulação simpática pode reduzir em muito o fluxo sanguíneo

esplâncnico por algumas horas.

A estimulação simpática também promove forte vasoconstrição das veias

intestinais e mesentéricas de grande calibre. Essa vasoconstrição diminui o

volume de sangue nessas veias e desloca, assim, grande quantidade de

sangue para outras partes da circulação. No choque hemorrágico ou em

outros estados de baixo volume de sangue, esse mecanismo pode fornecer

de 200 a 400 mililitros de sangue extra para manter a circulação sistêmica.

 

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