Tratado de Fisiologia Médica
Funções Fisiológicas do Hormônio do Crescimento
do crescimento com 14 crescimento pelos somatotropos
(somatostatina) aminoácidos
Hormônio inibidor da prolactina Dopamina (uma Inibe a secreção e a síntese de
(PIH) catecolamina) prolactina pelos lactotropos
ACTH, hormônio adrenocorticotrópico; FSH, hormônio foliculoestimulante; LH, hormônio
luteinizante; TSH, hormônio tireoestimulante.
Áreas Específicas no Hipotálamo Controlam a Secreção de
Hormônios Liberadores e Inibidores Hipotalâmicos Específicos.
Todos ou a maioria dos hormônios hipotalâmicos são secretados pelas
terminações nervosas da eminência mediana, antes de serem transportados
para a hipófise anterior. A estimulação elétrica dessa região excita essas
termina ções nervosas e, consequentemente, causa a liberação,
essencialmente, de todos os hormônios hipotalâmicos. No entanto, os
corpos celulares neuronais, que dão origem a essas terminações nervosas na
eminência mediana, estão loca lizados em áreas discretas do hipotálamo ou
em áreas intimamente relacionadas da região prosencefálica basal. Os locais
específicos dos corpos celulares neuronais, que formam os diversos
hormônios liberadores ou inibidores hipotalâmicos, ainda não são bem
conhecidos, de modo que tentar delinear essas áreas, neste Capítulo, poderia
dar origem a equívocos.
FUNÇÕES FISIOLÓGICAS DO HORMÔNIO DO
CRESCIMENTO
Todos os principais hormônios da hipófise anterior, com exceção do
hormônio do crescimento, exercem seus efeitos, principalmente, por meio
do estímulo de glândulas-alvo, incluindo a glândula tireoide, o córtex
adrenal, os ovários, os testículos e as glândulas mamárias. As funções de
cada um desses hormônios hipofisários estão tão intimamente relacionadas
com as das respectivas glândulas-alvo que, com exceção do hormônio do crescimento, suas funções são discu tidas nos Capítulos subsequentes,
juntamente com as glândulas-alvo. Entretanto, o hormônio do crescimento
não age por meio de glândula-alvo específica, mas exerce seus efeitos,
diretamente, sobre todos ou quase todos os tecidos do organismo.
O HORMÔNIO DO CRESCIMENTO PROMOVE O
CRESCIMENTO DE DIVERSOS TECIDOS DO CORPO
O hormônio do crescimento, também chamado hormônio somatotrópico ou
somatotropina, é uma molécula pequena de proteína, contendo 191
aminoácidos em cadeia única, com peso molecular de 22.005. Ele provoca
o crescimento de quase todos os tecidos do corpo que são capazes de
crescer. Promove o aumento de tamanho das células e elevação do número
de mitoses, causando a multiplicação e diferenciação específica de alguns
tipos celulares, tais como as células de crescimento ósseo e células
musculares iniciais.
A Figura 76-5 mostra gráficos típicos do peso de dois ratos da mesma
ninhada em fase de crescimento, em que um recebeu injeções diárias de
hormônio do crescimento, e o outro não. Essa figura mostra aumento
acentuado do crescimento do rato que recebeu o hormônio, nos primeiros
dias de vida, como também quando os dois ratos atingiram a idade adulta.
Nos estágios iniciais do desen volvimento, todos os órgãos do rato tratado
aumentaram, proporcionalmente, em tamanho; depois de atingir a idade
adulta, a maioria dos ossos interrompeu seu crescimento, enquanto muitos
dos tecidos moles continuaram a crescer. Esse resultado é explicado porque,
depois que as epífises dos ossos longos se unem, não é possível ocorrer
crescimento adicional dos ossos, mesmo que a maioria dos outros tecidos
do corpo seja capaz de continuar a crescer durante a vida.
Figura 76-5. Comparação entre o ganho de peso de um rato injetado diariamente com hormônio do crescimento com outro de mesma ninhada.
O HORMÔNIO DO CRESCIMENTO TEM DIVERSOS
EFEITOS METABÓLICOS
Além de seu efeito geral de provocar o crescimento propriamente dito, o
hormônio do crescimento apresenta diversos efeitos metabólicos
específicos, incluindo (1) aumento da síntese de proteínas, na maioria das
células do corpo; (2) aumento da mobilização dos ácidos graxos do tecido
adiposo, aumento do nível de ácidos graxos no sangue e aumento da
utilização dos ácidos graxos, como fonte de energia; e (3) redução da
utilização da glicose pelo organismo. Assim, de fato, o hormônio do
crescimento aumenta a quantidade de proteína do corpo, utiliza as reservas
de gorduras e conserva os carboidratos.
O Hormônio do Crescimento Promove a Deposição de
Proteínas nos Tecidos Apesar de ignorarmos os mecanismos exatos pelos quais o hormônio do
crescimento amplia a deposição de proteínas, uma série de efeitos diferentes
é conhecida, e todos estes poderiam levar ao aumento da deposição de
proteínas.
Aumento do Transporte de Aminoácidos através das
Membranas Celulares. O hormônio do crescimento aumenta
diretamente o transporte da maioria dos aminoácidos, através das
membranas celulares, para o interior das células. Isso eleva as
concentrações de aminoácidos nas células e presume-se ser responsável, no
mínimo em parte, pelo aumento da síntese das proteínas. Esse controle do
transporte dos aminoácidos é similar ao efeito da insulina no controle do
transporte da glicose através das membranas, como discutido nos
Capítulos 68 e 79.
Aumento da Tradução do RNA para Provocar a Síntese de
Proteínas pelos Ribossomos. Mesmo quando as concentrações de
aminoácidos não estão elevadas nas células, o hormônio do crescimento
continua a aumentar a tradução do RNA, fazendo com que a síntese
proteica pelos ribossomos, no citoplasma, ocorra em quantidades mais
elevadas.
Aumento da Transcrição Nuclear do DNA para Formar RNA. Em
intervalos de tempo mais prolongados (24 a 48 horas), o hormônio do
crescimento também estimula a transcrição do DNA no núcleo, levando à
formação de quantidades aumentadas de RNA. Isso promove maior síntese
proteica e crescimento se houver energia, aminoácidos, vitaminas e outros
requisitos para o crescimento estão disponíveis. No final das contas, essa
pode ser a função mais importante do hormônio do crescimento.
Redução do Catabolismo das Proteínas e dos Aminoácidos.
Além do aumento da síntese de proteínas, ocorre redução na quebra das
proteínas celulares. O motivo provável para isso é que o hormônio do
crescimento também mobiliza grandes quantidades de ácidos graxos livres
do tecido adiposo, e estes são utilizados para fornecer a maior parte da
energia para as células do organismo, agindo, assim, como um potente
“poupador de proteínas”.
Resumo. O hormônio do crescimento aumenta quase todos os aspectos da
captação de aminoácidos e da síntese proteica pelas células e, ao mesmo
tempo, reduz a destruição das proteínas.
O Hormônio do Crescimento Amplia a Utilização das
Gorduras como Fonte de Energia
O hormônio do crescimento apresenta um efeito específico, ao liberar os
ácidos graxos do tecido adiposo, aumentando, assim, a sua concentração
nos líquidos orgânicos. Além disso, nos tecidos do organismo, ele aumenta
a conversão de ácidos graxos em acetilcoenzima A (acetil-CoA) e sua
utilização como fonte de energia. Consequentemente, sob a influência do
hormônio do crescimento, a gordura é utilizada como fonte de energia,
preferencialmente ao uso de carboidratos e de proteínas.
A capacidade do hormônio do crescimento de promover a utilização de
gordura, junto com seu efeito anabólico proteico, leva ao aumento da massa
corporal magra. No entanto, para a mobilização de gordura pelo hormônio
do crescimento, há necessidade do decurso de diversas horas, enquanto o
aumento da síntese das proteínas pode se iniciar em período de minutos, sob
a influência do hormônio do crescimento.
Efeito “Cetogênico” do Hormônio do Crescimento em Excesso.
Sob a influência de quantidade excessiva de hormônio do crescimento, a mobilização de gordura do tecido adiposo fica, eventualmente, tão
acentuada, que grande quantidade de ácido acetoacético é formada pelo
fígado e liberada nos líquidos orgânicos, dando origem, assim, a quadro de
cetose. Essa mobilização excessiva de gordura do tecido adiposo também
provoca, muitas vezes, a deposição de gordura no fígado.
O Hormônio do Crescimento Reduz a Utilização dos
Carboidratos
O hormônio do crescimento provoca diversos efeitos que influenciam o
metabolismo dos carboidratos, incluindo (1) diminuição da captação de
glicose pelos tecidos, como o musculoesquelético e adiposo; (2) aumento da
produção de glicose pelo fígado; e (3) aumento da secreção de insulina.
Cada uma dessas alterações resulta da “resistência à insulina”, induzida
pelo hormônio do crescimento, que atenua as ações da insulina para
estimular a captação e a utilização da glicose pelos musculoesqueléticos e
pelo tecido adiposo e para inibir a gliconeogênese (produção de glicose)
pelo fígado; isso leva a um aumento da concentração da glicose no sangue e
um aumento compensatório da secreção de insulina. Por esses motivos, os
efeitos do hormônio do crescimento são chamados diabetogênicos, e o
excesso do hormônio do crescimento pode produzir alterações metabólicas
muito semelhantes às encontradas nos pacientes portadores de diabetes tipo
II (não dependente de insulina), que são também muito resistentes aos
efeitos metabólicos da insulina.
Os mecanismos exatos pelos quais o hormônio do crescimento provoca
resistência à insulina e diminuição da utilização da glicose pelas células não
são conhecidos. Contudo, os aumentos induzidos pelo hormônio do
crescimento nas concentrações séricas dos ácidos graxos, provavelmente,
contribuem para a deficiência das ações da insulina na utilização da glicose
pelos tecidos. Estudos experimentais indicam que níveis crescentes de ácidos graxos, acima dos valores normais, reduzem, rapidamente, a
sensibilidade do fígado e do musculoesquelético aos efeitos da insulina no
metabolismo dos carboidratos.
Necessidade de Insulina e de Carboidratos para a Ação
Promotora do Crescimento do Hormônio do
Crescimento
O hormônio do crescimento não é capaz de causar crescimento em animais
desprovidos de pâncreas; também não provoca o crescimento se
carboidratos forem excluídos da dieta. Esses fenômenos demonstram que a
atividade apropriada da insulina e a disponibilidade adequada de
carboidratos são necessárias para a eficácia do hormônio do crescimento. A
exigência parcial de carboidratos e de insulina é para fornecer a energia
necessária ao metabolismo do crescimento, mas parece que existem
também outros efeitos. A capacidade da insulina de aumentar o transporte
de alguns aminoácidos para as células é especialmente importante, do
mesmo modo como estimula o transporte da glicose.
O HORMÔNIO DO CRESCIMENTO ESTIMULA O
CRESCIMENTO DAS CARTILAGENS E DOS OSSOS
Apesar de o hormônio do crescimento estimular o aumento da deposição de
proteína e o aumento do crescimento em quase todos os tecidos do
organismo, seu efeito mais óbvio é o de elevar o crescimento esquelético.
Isso resulta de efeitos múltiplos do hormônio do crescimento nos ossos,
incluindo (1) aumento da deposição de proteínas pelas células osteogênicas
e condrocíticas, que causam o crescimento ósseo; (2) aumento da
reprodução dessas células; e (3) efeito específico de conversão de
condrócitos em células osteogênicas, ocasionando, assim, a deposição de
osso novo.
Existem dois mecanismos principais do crescimento ósseo. Primeiro, em
resposta ao estímulo do hormônio do crescimento, os ossos longos crescem,
em comprimento, nas cartilagens epifisárias, onde as epífises nas
extremidades dos ossos estão separadas das partes longas. Esse
crescimento, primeiro, provoca a deposição de nova cartilagem, seguida por
sua conversão em osso novo, aumentando, assim, a parte longa e
empurrando as epífises cada vez para mais longe. Ao mesmo tempo, a
cartilagem epifisária passa por um consumo progressivo, de modo que, ao
final da adolescência, quase não resta qualquer cartilagem epifisária para
permitir o crescimento adicional do osso. Nesse momento, ocorre a fusão
das epífises em cada uma de suas extremidades, de forma que não é mais
possível aumentar o comprimento do osso.
Em segundo lugar, os osteoblastos, no periósteo ósseo e em algumas
cavidades ósseas, depositam osso novo nas superfícies do osso mais antigo.
Ao mesmo tempo, os osteo clastos, presentes no osso (discutido,
detalhadamente, no Capítulo 80), removem o osso antigo. Quando a taxa de
deposição é maior do que a de reabsorção, a espessura do osso aumenta. O
hormônio do crescimento age como forte estimulador dos osteoblastos.
Consequentemente, os ossos podem continuar a aumentar de espessura
durante toda a vida, sob a influência do hormônio do crescimento; isso é
especialmente verdadeiro no caso dos ossos membranosos. Por exemplo, os
ossos da mandíbula podem ser estimulados a crescer mesmo após a
adolescência, causando protrusão anterior do queixo e dos dentes inferiores.
Do mesmo modo, os ossos do crânio podem aumentar de espessura e dar
origem a protrusões ósseas sobre os olhos.
O HORMÔNIO DO CRESCIMENTO EXERCE GRANDE
PARTE DE SEUS EFEITOS por meio DE SUBSTÂNCIAS
INTERMEDIÁRIAS CHAMADAS “SOMATOMEDINAS”
Quando o hormônio do crescimento é aplicado diretamente nos condrócitos
cartilaginosos cultivados fora do organismo, em geral, não ocorre
proliferação ou aumento dos condrócitos. Contudo, o hormônio do
crescimento, injetado no animal intacto, provoca a proliferação e o
crescimento dessas mesmas células.
Em resumo, o hormônio do crescimento leva o fígado (e, em muito menor
extensão, outros tecidos) a formar diversas proteínas pequenas, chamadas
somatomedinas, que apresentam o potente efeito de aumentar todos os
aspectos do crescimento ósseo. Muitos dos efeitos das somatomedinas no
crescimento são similares aos efeitos da insulina no crescimento. Por isso,
as somatomedinas também são chamadas fatores de crescimento
semelhantes à insulina (IGFs).
Pelo menos, quatro somatomedinas foram isoladas, porém a mais
importante dentre elas é, de longe, a somatomedina C (também chamada
fator de crescimento semelhante à insulina I ou IGF-I). O peso molecular da
somatomedina C está em torno de 7.500, e sua concentração no plasma
acompanha, de perto, a secreção do hormônio do crescimento.
Os pigmeus da África apresentam incapacidade congênita de sintetizar
quantidades significativas de somatomedina C. Portanto, embora sua
concentração plasmática de hormônio do crescimento possa estar normal ou
elevada, eles apresentam quantidades diminuídas de somatomedina C no
plasma; aparentemente, isso explicaria a baixa estatura dessa população.
Alguns outros tipos de nanismo (p. ex., nanismo de Lévi-Lorain) também
apresentam esse problema.
Tem sido postulado que a maioria, se não todos, dos efeitos do hormônio
do crescimento resulta da somatomedina C e das outras somatomedinas, em
vez dos efeitos diretos do hormônio do crescimento nos ossos e outros
tecidos periféricos. Ainda assim, as experiências têm demonstrado que a
injeção de hormônio do crescimento, diretamente nas cartilagens epifisárias dos ossos de animais vivos, leva a crescimento dessas áreas de cartilagem e
que a quantidade de hormônio necessária para tanto é minúscula. Alguns
aspectos da hipótese da somatomedina ainda são questionáveis. Uma
possibilidade é que o hormônio do crescimento pode provocar a formação
de quantidade suficiente de somatomedina C no tecido local, de modo a
induzir o crescimento localizado. É também possível que o hormônio do
crescimento seja diretamente responsável pelo aumento do crescimento em
alguns tecidos e que o mecanismo da somatomedina seja um meio
alternativo para aumentar o crescimento, mas nem sempre como fator
necessário.
Curta Duração da Ação do Hormônio do Crescimento, mas
Ação Prolongada da Somatomedina C. O hormônio do crescimento
tem apenas ligação fraca com as proteínas plasmáticas no sangue. Por isso,
ele é rapidamente liberado do sangue para os tecidos, apresentando meia-
vida no sangue inferior a 20 minutos. Em oposição, a somatomedina C tem
ligação forte com uma proteína transportadora no sangue que, à semelhança
da somatomedina C, é produzida em resposta ao hormônio do crescimento.
Como resultado, a somatomedina C é apenas liberada lentamente do sangue
para os tecidos, com uma meia-vida em torno de 20 horas. Essa liberação
lenta prolonga, enormemente, os efeitos promotores do crescimento dos
surtos de secreção do hormônio do crescimento, mostrados na Figura 76-6.
Figura 76-6. Variações típicas na secreção do hormônio do crescimento durante o dia, demonstrando o efeito especialmente potente de exercícios intensos e também a elevada taxa de secreção do hormônio do crescimento que ocorre durante as primeiras poucas horas de sono profundo.
REGULAÇÃO DA SECREÇÃO DO HORMÔNIO DO
CRESCIMENTO
Após a adolescência, a secreção do hormônio diminui lentamente com o
passar dos anos, atingindo, por fim, cerca de 25% do nível encontrado na
adolescência, em pessoas muito idosas.
O padrão da secreção do hormônio do crescimento é pulsátil, aumentando
e diminuindo. Os mecanismos exatos que controlam tal secreção não são
completamente compreendidos, mas sabe-se que diversos fatores
relacionados ao estado nutricional da pessoa ou ao estresse estimulam a sua
secreção: (1) jejum, especialmente com deficiência grave de proteínas; (2)
hipoglicemia ou baixa concentração de ácidos graxos no sangue; (3)
exercício; (4) excitação; (5) trauma; e (6) grelina, hormônio secretado pelo
estômago antes das refeições. O hormônio do crescimento também
aumenta, caracteristicamente, durante as duas primeiras horas de sono
profundo, como mostrado na Figura 76-6. A Tabela 76-3 apresenta o resumo de alguns dos fatores conhecidos que influenciam a secreção do
hormônio do crescimento.
A concentração normal do hormônio do crescimento no plasma do adulto
é entre 1,6 e 3 ng/mL; na criança ou no adolescente, é cerca de 6 ng/mL.
Esses valores podem aumentar no jejum prolongado, atingindo até 50
ng/mL, após as reservas orgânicas de proteínas e de carboidratos terem sido
depletadas.
Sob condições agudas, a hipoglicemia é um estimulante muito mais
potente da secreção do hormônio do crescimento do que é uma redução
aguda da ingestão de proteínas. Por outro lado, em condições crônicas, a
secreção do hormônio do crescimento parece apresentar maior correlação
com o grau de depleção de proteínas celulares do que com o grau de
insuficiência de glicose. Por exemplo, os níveis extremamente elevados de
hormônio do crescimento, que ocorrem durante o jejum, estão intimamente
relacionados à intensidade de depleção de proteínas.
A Figura 76-7 demonstra o efeito da deficiência de proteínas na
concentração plasmática do hormônio do crescimento e também o efeito da
adição de proteínas à dieta. A primeira coluna mostra níveis muito elevados
de hormônio do crescimento em crianças portadoras de deficiência extrema
de proteínas, durante situação de desnutrição proteica chamada
kwashiorkor; na segunda coluna, temos os níveis, nas mesmas crianças,
após três dias de tratamento com quantidades mais do que adequadas de
carboidratos nas suas dietas, demonstrando que os carboidratos não
reduziram a concentração plasmática do hormônio do crescimento. A
terceira e a quarta colunas mostram os níveis após o tratamento com
suplementos proteicos durante 3 e 25 dias, respectivamente, com redução
concomitante do hormônio.
Esses resultados demonstram que, em condições graves de desnutrição
proteica, a ingestão isoladamente de quantidades adequadas de caloria não é capaz de corrigir o excesso de produção do hormônio do crescimento. A
deficiência proteica também deve ser corrigida para que a concentração do
hormônio retorne ao normal.
Tabela 76-3 Fatores que Estimulam ou Inibem a Secreção do Hormônio do
Crescimento
Estimulam a Secreção do Hormônio Inibem a Secreção do Hormônio do do Crescimento Crescimento
Diminuição da glicose no sangue Glicose sérica aumentada
Diminuição dos ácidos graxos livres no Aumento dos ácidos graxos livres no sangue
sangue Envelhecimento
Aumento dos aminoácidos no sangue Obesidade
(arginina) Hormônio inibidor do hormônio do crescimento
Privação ou jejum, deficiência de (somatostatina)
proteínas Hormônio do crescimento (exógeno)
Traumatismo, estresse, excitação Somatomedinas (fatores de crescimento
Exercícios semelhantes à insulina)
Testosterona, estrogênio
Sono profundo (estágios II e IV)
Hormônio liberador do hormônio do
crescimento
Grelina
Figura 76-7. Efeito da deficiência proteica extrema na concentração plasmática do hormônio do crescimento no kwashiorkor. Também foi demonstrado o fracasso do tratamento com carboidratos, mas a eficácia do tratamento com proteínas na redução da concentração do hormônio do crescimento. (Dados de Pimstone BL, Barbezat G, Hansen JD, et al: Studies on growth hormone secretion in protein-calorie malnutrition. Am J Clin Nutr 21:482, 1968.)
O Papel do Hipotálamo, do Hormônio Liberador do
Hormônio do Crescimento e da Somatostatina no
Controle da Secreção do Hormônio do Crescimento
Partindo da descrição anterior dos diversos fatores capazes de afetar a
secreção do hormônio do crescimento, é possível compreender,
prontamente, a perplexidade dos fisiologistas ao tentar desvendar os
mistérios da regulação da secreção do hormônio do crescimento. Sabe-se
que tal secreção é controlada por dois fatores secretados no hipotálamo e,
em seguida, transportados para a hipófise anterior pelos vasos portais
hipotalâmico-hipofisários. Trata-se do hormônio liberador do hormônio do crescimento (GHRH) e do hormônio inibidor do hormônio do crescimento
(também chamado somatostatina). Ambos são polipeptídeos; o GHRH é
composto por 44 aminoácidos, e a somatostatina é composta por 14
aminoácidos.
A região do hipotálamo onde ocorre a origem da secreção do GHRH é o
núcleo ventromedial; essa é a mesma área do hipotálamo sensível à
concentração de glicose no sangue, levando à saciedade, nos estados
hiperglicêmicos, e à sensação de fome, nos estados hipoglicêmicos. A
secreção da somatostatina é controlada por outras áreas próximas do
hipotálamo. Consequentemente, é razoável acreditar que alguns dos
mesmos sinais que modificam os impulsos alimentares comportamentais de
um indivíduo também alteram a secreção do hormônio do crescimento.
De modo semelhante, os sinais hipotalâmicos que representam emoções,
estresses e traumas são capazes de afetar o controle hipotalâmico da
secreção do hormônio do cresci mento. De fato, experimentos mostraram
que as cateco laminas, a dopamina e a serotonina, cada uma liberada por
sistema neuronal diferente no hipotálamo, são capazes de aumentar a
secreção do hormônio do crescimento.
A maior parte do controle da secreção do hormônio do crescimento é,
provavelmente, mediada pelo GHRH, em vez de por meio do hormônio
inibidor somatostatina. O GHRH estimula a secreção do hormônio do
crescimento ao ligar-se a receptores específicos de membrana celular, nas
superfícies externas das células do hormônio de crescimento, na hipófise.
Os receptores ativam o sistema da adenilil ciclase na membrana celular,
aumentando o nível intracelular de monofosfato de adenosina cíclico
(AMPc). Esse aumento apresenta efeitos tanto em curto quanto em longo
prazo. O efeito em curto prazo é o aumento do transporte do íon cálcio para
a célula; em intervalo de minutos, isso leva à fusão das vesículas secretoras
do hormônio do crescimento com a membrana celular e à liberação do hormônio para o sangue. O efeito em longo prazo é o aumento da
transcrição no núcleo dos genes responsáveis pela estimulação da síntese do
hormônio do crescimento.
Quando o hormônio do crescimento é administrado diretamente no sangue
de um animal, pelo período de horas, a secreção endógena do hormônio
diminui. Isso demonstra que a secreção do hormônio do crescimento está
sujeita ao controle de feedback negativo típico, como ocorre,
essencialmente, com todos os hormônios. Ainda não se sabe ao certo a
natureza desse mecanismo de feedback, nem se é mediado pela inibição do
GHRH ou pelo aumento da somatostatina, que inibe a secreção do
hormônio do crescimento.
Resumindo, nosso conhecimento sobre a regulação da secreção do
hormônio do crescimento não é suficiente para descrever o quadro
completo. Ainda assim, devido à secreção extrema do hormônio do
crescimento durante o jejum e ao seu efeito importante em longo prazo para
promover a síntese de proteínas e crescimento tecidual, é possível propor o
que se segue: o maior controlador da secreção do hormônio do crescimento
é o estado de nutrição tecidual em longo prazo, especialmente seu nível de
nutrição proteica. Ou seja, deficiência nutricional ou excesso de
necessidade de proteínas nos tecidos — por exemplo, depois de um período
de exercícios intensos, quando o estado nutricional dos músculos foi
exigido de forma excessiva — de alguma maneira aumenta a secreção do
hormônio do crescimento. O hormônio do crescimento, por sua vez,
promove a síntese de novas proteínas, ao mesmo tempo em que conserva as
proteínas já existentes nas células.
Anormalidades da Secreção do Hormônio do Crescimento
Pan-hipopituitarismo. O termo pan-hipopituitarismo significa a secreção
reduzida de todos os hormônios da hipófise anterior. Essa baixa secreção pode ser congênita (presente desde o nascimento) ou pode ocorrer, repentina ou
lentamente, em qualquer momento da vida, resultando, na maioria das vezes, de
tumor hipofisário que destrói a hipófise.
Pan-hipopituitarismo no Adulto. O pan-hipopituitarismo, que ocorre no início
da vida adulta, resulta, frequentemente, de uma entre três anormalidades comuns.
Duas condições tumorais, os craniofaringiomas ou tumores cromófobos, podem
comprimir a hipófise até que as células funcionantes na região anterior da hipófise
sejam completas ou quase totalmente destruídas. A terceira condição é a
trombose dos vasos sanguíneos hipofisários. Essa anormalidade, ocasionalmente,
ocorre no pós-parto, quando a mãe desenvolve choque circulatório depois do
nascimento de seu bebê.
Os efeitos gerais do pan-hipopituitarismo no adulto são (1) hipotireoidismo; (2)
diminuição da produção de glicocorticoides pelas glândulas adrenais; e (3)
secreção suprimida dos hormônios gonadotrópicos, de modo que as funções
sexuais são perdidas. Assim, o quadro clínico é o de pessoa letárgica (pela
ausência de hormônios tireoidianos), que está ganhando peso (devido à ausência
de mobilização das gorduras pelos hormônios do crescimento,
adrenocorticotrópico, adrenocorticais e tireoidianos) e que perdeu todas as
funções sexuais. Com exceção da anormalidade das funções sexuais, o paciente
pode ser tratado, satisfatoriamente, com a administração de hormônios
adrenocorticais e tireoidianos.
Nanismo. A maioria das circunstâncias de nanismo resulta de deficiência
generalizada da secreção da hipófise anterior (pan-hipopituitarismo) durante a
infância. Em geral, todas as partes físicas do corpo se desenvolvem em proporção
adequada entre si, mas o desenvolvimento está muito reduzido. Uma criança com
10 anos de idade pode apresentar o desenvolvimento corporal de uma criança
com idade de 4 a 5 anos, e essa mesma pessoa, aos 20 anos de idade, pode
apresentar o desenvolvimento corporal de criança entre 7 e 10 anos.
Uma pessoa portadora de nanismo por pan-hipopituitarismo não entra na
puberdade e nunca secreta quantidades suficientes de hormônios gonadotrópicos
para desenvolver as funções sexuais adultas. Em um terço desses casos, no
entanto, apenas o hormônio do crescimento está deficiente; essas pessoas
apresentam maturidade sexual e ocasionalmente se reproduzem. Em um tipo de
nanismo (o pigmeu africano e o anão de Lévi-Lorain), a secreção do hormônio do
crescimento está normal ou elevada, mas existe incapacidade hereditária de
produzir somatomedina C, que é a etapa-chave para a promoção do crescimento
pelo hormônio do crescimento.
Tratamento com Hormônio do Crescimento Humano. Os hormônios do
crescimento de diferentes espécies de animais são bastante diferentes entre si, de
modo que só vão dar origem ao crescimento apenas em uma espécie ou, na maioria das vezes, em espécies muito próximas. Por esse motivo, o hormônio do
crescimento preparado a partir de animais inferiores (exceto, até certo ponto, dos primatas) não é eficaz nos seres humanos. Consequentemente, o hormônio do
crescimento do ser humano é chamado hormônio do crescimento humano para distingui-lo dos outros.
No passado, como o hormônio do crescimento precisava ser preparado a partir
de hipófises humanas, era difícil obter quantidades suficientes desse hormônio para o tratamento de pacientes portadores de deficiência de hormônio do crescimento, exceto em base experimental. No entanto, o hormônio do
crescimento humano pode agora ser sintetizado pela bactéria Escherichia coli,
como resultado da aplicação bem-sucedida da tecnologia do DNA recombinante. Por isso, esse hormônio agora está disponível em quantidades suficientes para fins terapêuticos. Os anões portadores apenas de deficiência de hormônio do
crescimento podem ser completamente curados se forem tratados precocemente em suas vidas. O hormônio do crescimento humano também pode revelar-se
benéfico em outros distúrbios metabólicos, devido às suas amplas funções metabólicas.
Gigantismo. Ocasionalmente, as células acidofílicas produtoras do hormônio do
crescimento da hipófise ficam excessivamente ativas e, às vezes, até mesmo
tumores acidofílicos ocorrem na glândula. Como consequência, são produzidas
grandes quantidades de hormônio do crescimento. Todos os tecidos do corpo crescem rapidamente, inclusive os ossos. Se a condição ocorrer antes da adolescência, antes que a fusão das epífises dos ossos longos ocorra, o tamanho
aumenta, de modo que a pessoa se torna um gigante — com até 2,43 metros de
altura.
O gigante, em geral, apresenta hiperglicemia, e as células beta das ilhotas de
Langerhans no pâncreas costumam degenerar porque se tornam hiperativas
devido à hiperglicemia. Consequentemente, em cerca de 10% dos gigantes, eventualmente, desenvolve-se diabetes melito franco.
Na maioria dos gigantes, na ausência de tratamento, é possível que se
desenvolva pan-hipopituitarismo porque o gigantismo é, geralmente, causado por tumor da hipófise que cresce até que a glândula, propriamente dita, seja
destruída. Essa eventual deficiência global dos hormônios hipofisários, em geral,
leva à morte no começo da idade adulta. No entanto, depois que o gigantismo é diagnosticado, outros efeitos podem, frequentemente, ser bloqueados pela remoção do tumor por microcirurgia ou pela radioterapia da hipófise.
Acromegalia. Se um tumor acidofílico ocorrer depois da adolescência — ou
seja, depois da fusão das epífises dos ossos longos —, o paciente não pode
crescer mais, mas os ossos ficam mais espessos e os tecidos moles continuam a
crescer. Essa condição, mostrada naFigura 76-8, é conhecida como acromegalia.
O aumento é, especialmente, acentuado nos ossos das mãos e dos pés e nos
ossos membranosos, incluindo o crânio, o nariz, as bossas na testa, os sulcos
supraorbitários, a maxila inferior e as porções das vértebras, porque seu
crescimento não cessa na adolescência. Consequentemente, ocorre protrusão da
mandíbula inferior, às vezes chegando até mais de 10 mm, a testa se inclina para
a frente devido ao desenvolvimento excessivo dos sulcos supraorbitários, o nariz
chega a dobrar de tamanho, os pés aumentam, e os sapatos chegam ao tamanho
45 ou mais, os dedos apresentam espessamento extremo, de modo que as mãos
atingem quase duas vezes o tamanho normal. Além desses efeitos, as mudanças
nas vértebras, em geral, levam à curvatura das costas, que é conhecida
clinicamente como cifose. Finalmente, muitos órgãos de tecidos moles, como a
língua, o fígado e especialmente os rins, apresentam-se muito aumentados.
Figura 76-8. Paciente com acromegalia.
O Possível Papel da Diminuição da Secreção do Hormônio do Crescimento
como Causa de Mudanças Associadas ao Envelhecimento
Nas pessoas que perderam a capacidade de secretar o hormônio do
crescimento, algumas características do processo de envelhecimento são
aceleradas. Por exemplo, uma pessoa de 50 anos de idade que está há muitos anos sem hormônio do crescimento pode ter o aspecto de uma pessoa com 65
anos de idade. O aspecto envelhecido parece resultar, principalmente, da
diminuição da deposição de proteínas na maioria dos tecidos do corpo e do aumento da deposição de gordura em seu lugar. Os efeitos físicos e fisiológicos consistem no aumento do enrugamento da pele, diminuição do funcionamento de
alguns dos órgãos e redução da massa e da força muscular.
Com o envelhecimento, a concentração plasmática média do hormônio do
crescimento em uma pessoa de outra forma normal muda, aproximadamente, da
seguinte maneira:
Idade (anos) ng/mL
5 a 20 anos 6
20 a 40 anos 3
40 a 70 anos 1,6
Dessa maneira, é muito possível que alguns dos efeitos normais do
envelhecimento resultem da diminuição da secreção do hormônio do crescimento.
De fato, testes múltiplos do tratamento com hormônio do crescimento em pessoas mais idosas demonstraram três efeitos benéficos importantes de ação antienvelhecimento: (1) aumento da deposição de proteínas no corpo,
especialmente nos músculos; (2) redução dos depósitos de gordura; e (3)
sensação de aumento de energia. Outros estudos, no entanto, mostraram que o tratamento de pacientes idosos com hormônio do crescimento recombinante pode produzir vários efeitos adversos indesejáveis, incluindo resistência à insulina e
diabetes, edema, síndrome do túnel do carpo e artralgias (dores nas articulações).
Portanto, o tratamento com hormônio do crescimento recombinante, geralmente, não é recomendado em pacientes idosos saudáveis, com função endócrina
normal.