Tratado de Fisiologia Médica
O Fluxo da Corrente ao Redor do Coração durante o Ciclo Cardíaco
Intervalo P-Q ou P-R. O tempo decorrido entre o início da onda P e o
início do complexo QRS corresponde ao intervalo entre o começo da
estimulação elétrica dos átrios e o começo da estimulação dos ventrículos.
Esse período é denominado intervalo P-Q. O intervalo P-Q normal é de
cerca de 0,16 segundo. (Com frequência, esse intervalo é chamado intervalo
P-R, porque é comum a onda Q estar ausente.)
Intervalo Q-T. A contração do ventrículo dura aproximadamente do início
da onda Q (ou da onda R, quando a onda Q está ausente) até o final da onda
T. Esse período é denomi nado intervalo Q-T e tem normalmente cerca de
0,35 segundo.
Determinação da Frequência dos Batimentos Cardíacos por
meio do Eletrocardiograma. A frequência dos batimentos cardíacos
pode ser determinada com facilidade no ECG, visto que a frequência
cardíaca corresponde ao inverso do intervalo de tempo entre dois
batimentos car díacos sucessivos. Se, de acordo com as linhas de calibração
do tempo, o intervalo entre dois batimentos for de 1 segundo, a frequência
cardíaca será de 60 batimentos por minuto. O intervalo de tempo normal
entre dois complexos QRS sucessivos de adulto é de cerca de 0,83 segundo,
o que corresponde a uma frequência cardíaca de 60/0,83 vezes por minuto,
ou 72 batimentos/min.
O FLUXO DA CORRENTE AO REDOR DO CORAÇÃO
DURANTE O CICLO CARDÍACO
Registro de Potenciais Elétricos de uma Massa de
Músculo Cardíaco Sincicial Parcialmente Despolarizada
A Figura 11-4 mostra uma massa sincicial de músculo cardíaco que recebeu
um estímulo na região central. Antes da estimulação, a parte externa das células musculares estava positiva, e a parte interna, negativa. Pelas razões
apresentadas no Capítulo 5, durante a discussão sobre os potenciais de
membrana, assim que uma área do sincício cardíaco fica despolarizada,
cargas negativas escapam para o lado externo das fibras musculares
despolarizadas, tornando essa parte da superfície eletronegativa, conforme
representado pelos sinais negativos da Figura 11-4. O restante da superfície
do coração ainda polarizado é representado pelos sinais positivos. Por isso,
quando o terminal negativo de um medidor é conectado à área de
despolarização e o terminal positivo é conectado a uma das áreas ainda
polarizadas, como mostrado à direita na figura, o registro é positivo.
A Figura 11-4 também evidencia as leituras de dois outros medidores com
terminais em posições diferentes da anterior. Essas localizações de
eletródios e leituras correspondentes devem ser estudados cuidadosamente,
e o leitor precisa ser capaz de explicar as causas das leituras de cada
medidor. Pelo fato de a despolarização se propagar em todas as direções
pelo coração, as diferenças de potencial mostradas na figura só persistem
por poucos milésimos de segundo, e as medições da voltagem real só
podem ser realizadas com aparelho para registros de alta velocidade.
Figura 11-4. Desenvolvimento de potenciais instantâneos na superfície de uma massa de músculo cardíaco despolarizada na região central.
O Fluxo das Correntes Elétricas no Tórax ao Redor do
Coração
A Figura 11-5 mostra o músculo ventricular dentro do tórax. Mesmo os
pulmões, que estão, em sua maior parte, cheios de ar, conduzem eletricidade
em grau surpreendente, e os líquidos presentes nos outros tecidos que
circundam o coração conduzem eletricidade ainda com maior facilidade.
Portanto, o coração está de fato suspenso em meio condutor. Quando parte
dos ventrículos se despolariza e, como consequência, fica eletronegativa em
relação ao restante, a corrente elétrica flui da área despolarizada para a área
polarizada por meio de grandes curvas, como pode ser observado na figura.
Vale lembrar aqui o que foi discutido sobre o sistema de Purkinje
no Capítulo 10. O impulso cardíaco chega primeiro ao septo ventricular e,
logo em seguida, propaga-se para as superfícies internas da parte restante
dos ventrículos, como mostram as áreas vermelhas e os sinais negativos
da Figura 11-5. Esse processo faz com que a parte interna dos ventrículos
fique eletronegativa; e as paredes externas dos ventrículos, eletropositivas, com a corrente elétrica fluindo pelos líquidos que banham os ventrículos,
seguindo percursos elípticos como mostrados pelas setas curvas da figura.
Se for calculada algebricamente a média de todas as linhas do fluxo da
corrente (as linhas elípticas), será constatado que o fluxo médio da corrente
é negativo em direção à base do coração e positivo em direção ao ápice.
Durante a maior parte do restante do processo de despolarização, a
corrente também continua a fluir nessa mesma direção, enquanto a
despolarização se propaga da superfície do endocárdio para o exterior do
órgão pela massa do músculo ventricular. Em seguida, pouco antes de a
despolarização completar seu curso pelos ventrículos, a direção média do
fluxo da corrente se inverte durante cerca de 0,01 segundo, fluindo do ápice
ventricular em direção à base, pois as paredes externas dos ventrículos,
situadas junto à base do coração, são a última parte desse órgão a ser
despolarizada.
Assim, nos ventrículos normais, a corrente flui das áreas negativas para as
áreas positivas, principalmente da base do coração para o ápice, durante
quase todo o ciclo de despolarização, exceto bem próximo do final do
processo. E, se um aparelho medidor for conectado a eletródios
posicionados na superfície do corpo, como mostrado na Figura 11-5, o
eletródio que estiver mais próximo da base ficará negativo, ao passo que o
eletródio que estiver mais próximo do ápice ficará positivo, e o aparelho
medidor mostrará registro positivo no ECG.