Tratado de Fisiologia Médica

John E. Hall · Capítulo 47 de 351

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Tratado de Fisiologia Médica

O Fluxo da Corrente ao Redor do Coração durante o Ciclo Cardíaco

Intervalo P-Q ou P-R. O tempo decorrido entre o início da onda P e o

início do complexo QRS corresponde ao intervalo entre o começo da

estimulação elétrica dos átrios e o começo da estimulação dos ventrículos.

Esse período é denominado intervalo P-Q. O intervalo P-Q normal é de

cerca de 0,16 segundo. (Com frequência, esse intervalo é chamado intervalo

P-R, porque é comum a onda Q estar ausente.)

 

Intervalo Q-T. A contração do ventrículo dura aproximadamente do início

da onda Q (ou da onda R, quando a onda Q está ausente) até o final da onda

T. Esse período é denomi nado intervalo Q-T e tem normalmente cerca de

0,35 segundo.

 

Determinação da Frequência dos Batimentos Cardíacos por

meio do Eletrocardiograma. A frequência dos batimentos cardíacos

pode ser determinada com facilidade no ECG, visto que a frequência

cardíaca corresponde ao inverso do intervalo de tempo entre dois

batimentos car díacos sucessivos. Se, de acordo com as linhas de calibração

do tempo, o intervalo entre dois batimentos for de 1 segundo, a frequência

cardíaca será de 60 batimentos por minuto. O intervalo de tempo normal

entre dois complexos QRS sucessivos de adulto é de cerca de 0,83 segundo,

o que corresponde a uma frequência cardíaca de 60/0,83 vezes por minuto,

ou 72 batimentos/min.

 

O FLUXO DA CORRENTE AO REDOR DO CORAÇÃO

DURANTE O CICLO CARDÍACO

 

Registro de Potenciais Elétricos de uma Massa de

Músculo Cardíaco Sincicial Parcialmente Despolarizada

A Figura 11-4 mostra uma massa sincicial de músculo cardíaco que recebeu

um estímulo na região central. Antes da estimulação, a parte externa das células musculares estava positiva, e a parte interna, negativa. Pelas razões

apresentadas no Capítulo 5, durante a discussão sobre os potenciais de

membrana, assim que uma área do sincício cardíaco fica despolarizada,

cargas negativas escapam para o lado externo das fibras musculares

despolarizadas, tornando essa parte da superfície eletronegativa, conforme

representado pelos sinais negativos da Figura 11-4. O restante da superfície

do coração ainda polarizado é representado pelos sinais positivos. Por isso,

quando o terminal negativo de um medidor é conectado à área de

despolarização e o terminal positivo é conectado a uma das áreas ainda

polarizadas, como mostrado à direita na figura, o registro é positivo.

A Figura 11-4 também evidencia as leituras de dois outros medidores com

terminais em posições diferentes da anterior. Essas localizações de

eletródios e leituras correspondentes devem ser estudados cuidadosamente,

e o leitor precisa ser capaz de explicar as causas das leituras de cada

medidor. Pelo fato de a despolarização se propagar em todas as direções

pelo coração, as diferenças de potencial mostradas na figura só persistem

por poucos milésimos de segundo, e as medições da voltagem real só

podem ser realizadas com aparelho para registros de alta velocidade.

Figura 11-4. Desenvolvimento de potenciais instantâneos na superfície de uma massa de músculo cardíaco despolarizada na região central.

 

O Fluxo das Correntes Elétricas no Tórax ao Redor do

Coração

 

A Figura 11-5 mostra o músculo ventricular dentro do tórax. Mesmo os

pulmões, que estão, em sua maior parte, cheios de ar, conduzem eletricidade

em grau surpreendente, e os líquidos presentes nos outros tecidos que

circundam o coração conduzem eletricidade ainda com maior facilidade.

Portanto, o coração está de fato suspenso em meio condutor. Quando parte

dos ventrículos se despolariza e, como consequência, fica eletronegativa em

relação ao restante, a corrente elétrica flui da área despolarizada para a área

polarizada por meio de grandes curvas, como pode ser observado na figura.

Vale lembrar aqui o que foi discutido sobre o sistema de Purkinje

no Capítulo 10. O impulso cardíaco chega primeiro ao septo ventricular e,

logo em seguida, propaga-se para as superfícies internas da parte restante

dos ventrículos, como mostram as áreas vermelhas e os sinais negativos

da Figura 11-5. Esse processo faz com que a parte interna dos ventrículos

fique eletronegativa; e as paredes externas dos ventrículos, eletropositivas, com a corrente elétrica fluindo pelos líquidos que banham os ventrículos,

seguindo percursos elípticos como mostrados pelas setas curvas da figura.

Se for calculada algebricamente a média de todas as linhas do fluxo da

corrente (as linhas elípticas), será constatado que o fluxo médio da corrente

é negativo em direção à base do coração e positivo em direção ao ápice.

Durante a maior parte do restante do processo de despolarização, a

corrente também continua a fluir nessa mesma direção, enquanto a

despolarização se propaga da superfície do endocárdio para o exterior do

órgão pela massa do músculo ventricular. Em seguida, pouco antes de a

despolarização completar seu curso pelos ventrículos, a direção média do

fluxo da corrente se inverte durante cerca de 0,01 segundo, fluindo do ápice

ventricular em direção à base, pois as paredes externas dos ventrículos,

situadas junto à base do coração, são a última parte desse órgão a ser

despolarizada.

Assim, nos ventrículos normais, a corrente flui das áreas negativas para as

áreas positivas, principalmente da base do coração para o ápice, durante

quase todo o ciclo de despolarização, exceto bem próximo do final do

processo. E, se um aparelho medidor for conectado a eletródios

posicionados na superfície do corpo, como mostrado na Figura 11-5, o

eletródio que estiver mais próximo da base ficará negativo, ao passo que o

eletródio que estiver mais próximo do ápice ficará positivo, e o aparelho

medidor mostrará registro positivo no ECG.