Tratado de Fisiologia Médica
Ritmicidade de Alguns Tecidos Excitáveis — Descarga Repetitiva
Figura 5-13. Potencial de ação (em milivolts) de fibra de Purkinje do coração, mostrando um “platô”.
RITMICIDADE DE ALGUNS TECIDOS EXCITÁVEIS —
DESCARGA REPETITIVA
Descargas repetitivas espontâneas ocorrem normalmente no coração, na
maior parte dos músculos lisos, e em muitos neurônios do sistema nervoso
central. Essas descargas rítmicas causam (1) o batimento ritmado do
coração; (2) o peristaltismo rítmico dos intestinos; e (3) alguns eventos
neuronais, como o controle ritmado da respiração.
Quase todos os outros tecidos excitáveis podem descarregar
repetitivamente se o limiar de excitabilidade dos tecidos celulares for
suficientemente reduzido. Por exemplo, mesmo as fibras nervosas mais
calibrosas e as fibras dos músculos esqueléticos que são normalmente muito
estáveis descarregam de forma repetitiva quando colocadas em solução‐
contendo a substância veratridina, que ativa os canais do íon sódio ou
quando a concentração dos íons cálcio cai abaixo de valor crítico, o que
aumenta a permeabilidade da membrana ao sódio.
O Processo de Reexcitação Necessário para a Ritmicidade
Espontânea. Para que ocorra a ritmicidade espontânea, a membrana,
mesmo em seu estado natural, deve ser suficientemente permeável aos íons
sódio (ou aos íons cálcio e sódio, pelos canais lentos de cálcio-sódio), para
permitir a despolarização automática da membrana. Assim, a Figura 5-
14 mostra que o potencial de “repouso” da membrana no centro de controle
do ritmo cardíaco é de somente −60 a −70 milivolts que não é uma
voltagem negativa suficiente para manter os canais de sódio e cálcio
totalmente fechados. Por essa razão, a seguinte sequência ocorre: (1) alguns
íons sódio e cálcio fluem para o interior; (2) essa atividade aumenta a
voltagem da membrana na direção positiva, o que aumenta ainda mais a
permeabilidade da membrana; (3) ainda mais íons fluem para dentro; e (4) a
permeabilidade aumenta mais e mais, até que o potencial de ação é gerado.
Então, ao final do potencial de ação, a membrana se repolariza. Após outro
retardo de alguns milissegundos ou segundos, a excitabilidade espontânea
causa nova despolarização, e novo potencial de ação ocorre
espontaneamente. Esse ciclo continua ininterruptamente, causando a
excitação rítmica autoinduzida dos tecidos excitáveis.
Por que a membrana do centro de controle do coração não se despolariza
logo após ter se repolarizado, em vez de retardar, por quase um segundo,
antes do início do próximo potencial de ação? A resposta pode ser
encontrada pela observação da curva rotulada como “condutância do
potássio” na Figura 5-14. Essa curva mostra que, perto do término de cada
potencial de ação e persistindo por um breve período após, a membrana
torna-se mais permeável aos íons potássio. O aumento do efluxo dos íons
potássio transfere um número enorme de cargas positivas para fora da
membrana, deixando o interior da fibra muito mais negativo do que deveria
acontecer. Essa condição continua por cerca de 1 segundo, após o término
do potencial de ação antecedente, e, desse modo, desloca o potencial de membrana para valor mais próximo do potencial de Nernst para o potássio.