Tratado de Fisiologia Médica

John E. Hall · Capítulo 28 de 351

Páginas do PDF

Tratado de Fisiologia Médica

Ritmicidade de Alguns Tecidos Excitáveis — Descarga Repetitiva

Figura 5-13. Potencial de ação (em milivolts) de fibra de Purkinje do coração, mostrando um “platô”.

 

RITMICIDADE DE ALGUNS TECIDOS EXCITÁVEIS —

DESCARGA REPETITIVA

 

Descargas repetitivas espontâneas ocorrem normalmente no coração, na

maior parte dos músculos lisos, e em muitos neurônios do sistema nervoso

central. Essas descargas rítmicas causam (1) o batimento ritmado do

coração; (2) o peristaltismo rítmico dos intestinos; e (3) alguns eventos

neuronais, como o controle ritmado da respiração.

Quase todos os outros tecidos excitáveis podem descarregar

repetitivamente se o limiar de excitabilidade dos tecidos celulares for

suficientemente reduzido. Por exemplo, mesmo as fibras nervosas mais

calibrosas e as fibras dos músculos esqueléticos que são normalmente muito

estáveis descarregam de forma repetitiva quando colocadas em solução‐

contendo a substância veratridina, que ativa os canais do íon sódio ou

quando a concentração dos íons cálcio cai abaixo de valor crítico, o que

aumenta a permeabilidade da membrana ao sódio.

O Processo de Reexcitação Necessário para a Ritmicidade

Espontânea. Para que ocorra a ritmicidade espontânea, a membrana,

mesmo em seu estado natural, deve ser suficientemente permeável aos íons

sódio (ou aos íons cálcio e sódio, pelos canais lentos de cálcio-sódio), para

permitir a despolarização automática da membrana. Assim, a Figura 5-

14 mostra que o potencial de “repouso” da membrana no centro de controle

do ritmo cardíaco é de somente −60 a −70 milivolts que não é uma

voltagem negativa suficiente para manter os canais de sódio e cálcio

totalmente fechados. Por essa razão, a seguinte sequência ocorre: (1) alguns

íons sódio e cálcio fluem para o interior; (2) essa atividade aumenta a

voltagem da membrana na direção positiva, o que aumenta ainda mais a

permeabilidade da membrana; (3) ainda mais íons fluem para dentro; e (4) a

permeabilidade aumenta mais e mais, até que o potencial de ação é gerado.

Então, ao final do potencial de ação, a membrana se repolariza. Após outro

retardo de alguns milissegundos ou segundos, a excitabilidade espontânea

causa nova despolarização, e novo potencial de ação ocorre

espontaneamente. Esse ciclo continua ininterruptamente, causando a

excitação rítmica autoinduzida dos tecidos excitáveis.

Por que a membrana do centro de controle do coração não se despolariza

logo após ter se repolarizado, em vez de retardar, por quase um segundo,

antes do início do próximo potencial de ação? A resposta pode ser

encontrada pela observação da curva rotulada como “condutância do

potássio” na Figura 5-14. Essa curva mostra que, perto do término de cada

potencial de ação e persistindo por um breve período após, a membrana

torna-se mais permeável aos íons potássio. O aumento do efluxo dos íons

potássio transfere um número enorme de cargas positivas para fora da

membrana, deixando o interior da fibra muito mais negativo do que deveria

acontecer. Essa condição continua por cerca de 1 segundo, após o término

do potencial de ação antecedente, e, desse modo, desloca o potencial de membrana para valor mais próximo do potencial de Nernst para o potássio.