Tratado de Fisiologia Médica
Física Básica dos Potenciais de Membrana
CAPÍTULO 5
Potenciais de Membrana e
Potenciais de Ação
Existem potenciais elétricos através das membranas de praticamente todas
as células do corpo. Algumas células, como as células nervosas e as dos
músculos, geram impulsos eletroquímicos que se modificam, com grande
rapidez, em suas membranas, e esses impulsos são usados para transmitir
sinais por toda a membrana dos nervos e músculos. Ainda, em outros tipos
de células, por exemplo, as células glandulares, os macrófagos e as células
ciliadas, alterações locais dos potenciais de membrana também ativam
muitas funções celulares. Este Capítulo revisa os mecanismos básicos, pelos
quais são gerados os potenciais de membrana tanto durante o repouso
quanto durante a atividade das células nervosas e musculares.
FÍSICA BÁSICA DOS POTENCIAIS DE MEMBRANA
POTENCIAIS DE MEMBRANA CAUSADOS PELA
CONCENTRAÇÃO DE ÍONS
Diferenças através de uma Membrana Permeável
Seletivamente
Na Figura 5-1A, a concentração de potássio é maior na face interna da
membrana da fibra nervosa, mas bastante baixa na sua face externa. Vamos
então assumir que a membrana, nesse instante, é permeável aos íons
potássio e a mais nenhum outro íon. Por causa do alto gradiente de
concentração do potássio, de dentro para fora, existe forte tendência para
que um maior número de íons potássio se difunda para fora através da
membrana. Quando o fazem, eles levam cargas elétricas positivas para o
exterior, criando assim eletro positividade da face externa da membrana e
eletronegatividade na interna, por causa dos ânions negativos que
permanecem no interior, não se difundindo para fora com o potássio. Em
cerca de um milissegundo, a diferença de potencial entre as partes interna e
externa, chamada potencial de difusão, passa a ser suficientemente grande
para bloquear a difusão efetiva do potássio para o exterior, apesar do alto
gradiente de concentração dos íons potássio. Nas fibras nervosas normais de
mamíferos, a diferença de potencial é cerca de 94 milivolts, com
negatividade na face interna da membrana.
A Figura 5-1B mostra o mesmo fenômeno que a Figura 5-1A, só que
dessa vez com alta concentração de íons sódio fora da membrana e baixa
quantidade de íons sódio dentro. Esses íons têm também carga positiva.
Nesse instante, a membrana é muito permeável aos íons sódio, mas
impermeável a todos os outros íons. A difusão dos íons sódio,‐
positivamente carregados, para a parte interna cria potencial de membrana
com polaridade oposta à da Figura 5-1A, com negatividade externa e
positividade interna. Novamente, o potencial de membrana aumenta o
suficiente, dentro de milissegundos, para bloquear a difusão efetiva dos íons sódio para dentro; entretanto a esse tempo nas fibras nervosas de
mamíferos, o potencial fica em torno de 61 milivolts, positivo dentro da‐
fibra.
Desse modo, nas duas partes da Figura 5-1, vê-se que as diferenças entre
as concentrações iônicas nos dois lados de membrana seletivamente
permeável podem, sob condições apropriadas, criar potencial de membrana.
Nas seções seguintes deste Capítulo, mostraremos que muitas variações
rápidas dos potenciais de membrana, durante a transmissão dos impulsos
nervosos e musculares, resultam da ocorrência dessas rápidas variações dos
potenciais de difusão.
Figura 5-1. A, O estabelecimento do potencial de “difusão” através da membrana da fibra nervosa causado pela difusão dos íons potássio de dentro da célula para fora, através da membrana que só é seletivamen te permeável ao potássio. B, O estabelecimento do “potencial de difusão” quando a membrana da fibra nervosa só é permeável aos íons sódio. Note que o potencial de membrana interno é negativo quando os íons potássio se difundem e positivo quando os íons sódio se difundem, em razão dos gradientes de concentração opostos desses dois íons.
A Equação de Nernst Descreve a Relação do Potencial de
Difusão com a Diferença de Concentração de Íons através de
uma Membrana. O valor do potencial de difusão, em toda a membrana,
que se opõe exatamente ao da difusão efetiva de um íon em particular através da membrana é conhecido como potencial de Nernst para esse íon,
termo já introduzido no Capítulo 4. A grandeza do potencial de Nernst é
determinada pela proporção entre as concentrações desse íon específico nos
dois lados da membrana. Quanto maior essa proporção, maior será a
tendência para que o íon se difunda em uma direção, e, por conseguinte,
maior o potencial de Nernst necessário para evitar difusão efetiva adicional.
A equação a seguir, chamada equação de Nernst, pode ser usada para o
cálculo do potencial de Nernst para qualquer íon univalente na temperatura
normal do corpo de 98,6 ºF (37 ºC):
em que FEM é a força eletromotriz e + z é a carga elétrica do íon (p. ex., 1
para K+).
Quando se usa essa fórmula, assume-se, em geral, que o potencial no
líquido extracelular, por fora da membrana, permanece no potencial zero, e
o potencial de Nernst é o potencial no lado interno da membrana. Também
o sinal do potencial é positivo ( +) se o íon, difundindo-se de dentro para
fora, for íon negativo, e negativo (−) se o íon for positivo. Dessa maneira,
quando a concentração dos íons positivos de potássio na parte interna for 10
vezes maior que na parte externa, o log de 10 é 1, de modo que o potencial
de Nernst é calculado como –61 milivolts no lado interno da membrana.
A Equação de Goldman Utiliza-se para Calcular o Potencial de
Difusão quando a Membrana é Permeável a Vários Íons
Diferentes. Quando a membrana é permeá vel a vários íons diferentes, o
potencial de difusão que se desenvolve depende de três fatores: (1) a
polaridade das cargas elétricas de cada íon; (2) a permeabilidade da
membrana (P) para cada íon; e (3) as concentrações (C) dos respectivos
íons no lado interno (i) e no lado externo (e) da membrana. Assim, a seguinte fórmula, referida como equação de Goldman, ou como equação de
Goldman-Hodgkin-Katz, dá o potencial calculado do lado interno da
membrana quando dois íons positivos univalentes, sódio (Na+) e potássio
(K+ − ), e um íon univalente negativo, cloreto (Cl), estão envolvidos.
A partir da equação de Goldman vários pontos-chave tornam-se evidentes.
Primeiro, os íons sódio, potássio e cloreto são os íons mais importantes
envolvidos no desenvolvimento dos potenciais de membrana nas fibras
musculares e nervosas, bem como nas células neuronais do sistema
nervoso. O gradiente de concentração de cada um desses íons, através da
membrana, ajuda a determinar a voltagem do potencial de membrana.
Segundo, o grau de importância de cada um desses íons na determinação
da voltagem é proporcional à permeabilidade da membrana para cada íon
em particular. Isto é, se a membrana tiver permeabilidade zero para os íons
potássio e cloreto, o potencial de membrana passa a ser totalmente
dominado pelo gradiente de concentração dos íons sódio, e o potencial
resultante será igual ao potencial de Nernst para o sódio. O mesmo acontece
para cada um dos outros dois íons, se a membrana só for seletivamente
permeável para um ou para outro.
Terceiro, gradiente positivo de concentração iônica de dentro para fora da
membrana causa eletronegatividade no lado de dentro da membrana. A
razão para esse fenômeno é que o excesso de íons positivos se difunde de
fora quando sua concentração é maior dentro do que fora. Essa difusão leva
cargas positivas para fora, mas deixa os ânions negativos não difusíveis na
parte interna, criando, assim, eletronegatividade na parte interna. O efeito
oposto ocorre quando existe gradiente para íon negativo. Isto é, o gradiente
de íon cloreto, da parte externa para a parte interna, causa eletronegatividade dentro da célula porque o íon cloreto, com cargas