Tratado de Fisiologia Médica

John E. Hall · Capítulo 256 de 351

Páginas do PDF

Tratado de Fisiologia Médica

Organização da Medula Espinal para as Funções Motoras

comando para a medula espinal iniciar o processo de andar.

Não depreciemos o papel do encéfalo, entretanto, pois ele gera os

programas que controlam as atividades sequenciais da medula, por

exemplo, para promover movimentos de rota ção quando são requeridos,

inclinando o corpo para frente durante a aceleração, mudando os

movimentos de caminhada para corrida quando necessário, monitorando

continuamente e controlando o equilíbrio. Tudo isso é executado por meio

de sinais de “comando” e “analíticos”, gerados no encéfalo. Entretanto, são

necessários muitos circuitos neuronais da medula espinal, que são os

objetos dos comandos. Esses circuitos são a base de quase todo o controle

direto dos músculos.

 

ORGANIZAÇÃO DA MEDULA ESPINAL PARA AS

FUNÇÕES MOTORAS

 

A substância cinzenta da medula espinal é a área integrativa para os

reflexos espinais. A Figura 55-1 mostra a organização típica da substância

cinzenta medular em determinado segmento da medula. Os sinais sensoriais

entram na medula pelas raízes sensoriais, também conhecidas por raízes

posteriores ou dorsais. Após entrar na medula, cada sinal sensorial trafega

por duas vias separadas: um ramo do nervo sensorial termina quase

imediatamente na substância cinzenta da medula e provoca os reflexos

espinais segmentares locais e outros efeitos locais; outro ramo transmite

sinais para níveis superiores do sistema nervoso, isto é, para zonas

superiores da própria medula, para o tronco cerebral, ou mesmo para o

córtex cerebral, como descrito nos Capítulos anteriores.

Cada segmento da medula espinal (no nível de cada nervo espinal) contém

muitos milhões de neurônios em sua substância cinzenta. Exceto os

neurônios-relé sensoriais, discutidos nos Capítulos 48 e 49, os outros neurônios são de dois tipos: (1) neurônios motores anteriores; e (2)

interneurônios.

 

Figura 55-1. Conexões das fibras sensoriais periféricas e das fibras corticoespinais com os interneurônios e neurônios motores anteriores da medula espinal.

 

Neurônios Motores Anteriores. Milhares de neurônios, 50% a 100%

maiores que a maioria dos outros neurônios, estão localizados em cada

segmento dos cornos anteriores da substância cinzenta medular e são

chamados neurônios motores anteriores (Figura 55-2). Eles dão origem às

fibras nervosas que deixam a medula pelas raízes ventrais e inervam, diretamente, as fibras musculares esqueléticas. Os neurônios são de dois

tipos: neurônios motores alfa e neurônios motores gama.

 

Figura 55-2. Fibras sensoriais periféricas e os neurônios motores anteriores que inervam os músculos esqueléticos.

 

Neurônios Motores Alfa. Os neurônios motores alfa dão origem às

fibras nervosas motoras grandes do tipo A alfa (Aa) com,

aproximadamente, 14 micrômetros de diâmetro; essas fibras se ramificam

várias vezes após chegarem ao músculo e inervam as grandes fibras

musculares esqueléticas. A estimulação de uma só fibra nervosa alfa excita

de três a centenas de fibras musculares esqueléticas, e a esse conjunto dá-se

o nome unidade motora. A transmissão de impulsos nervosos para os músculos esqueléticos e sua estimulação, para unidades motoras

musculares, foram discutidas nos Capítulos 6 e 7.

 

Neurônios Motores Gama. Ao lado dos neurônios motores alfa, que

promovem a contração das fibras musculares esqueléticas, estão os

neurônios motores gama com aproximadamente metade do tamanho dos

primeiros, localizando-se nos cornos anteriores da medula espinal. Esses

neurônios motores gama transmitem impulsos por fibras nervosas motoras

muito menos calibrosas do tipo A gama (Ag) com cerca de 5 micrômetros

de diâmetro, que inervam as pequenas fibras musculares esqueléticas

especiais, chamadas fibras intrafusais, mostradas nas Figuras 55-2 e 55-3.

Essas fibras constituem o centro do fuso muscular, que auxilia no controle

do “tônus” muscular básico, como discutido a seguir neste Capítulo.

 

Figura 55-3. Fuso muscular, mostrando sua relação com as grandes fibras musculares esqueléticas extrafusais. Note, também, as inervações motora e sensorial do fuso muscular.

Interneurônios. Os interneurônios estão em todas as áreas da substância

cinzenta medular — nos cornos dorsais, nos cornos anteriores e nas áreas

intermediárias entre eles, como mostrado na Figura 55-1. Essas células são

aproximadamente 30 vezes mais numerosas do que os neurônios motores

anteriores. Elas são pequenas e muito excitáveis, exibindo com frequência

atividade espontânea e sendo capaz de disparar tão rapidamente quanto

1.500 vezes por segundo. Elas apresentam bastantes interconexões entre si e

muitas delas fazem sinapse, diretamente, com os neurônios motores

anteriores, como mostrado na Figura 55-1. As conexões entre os

interneurônios e os neurônios motores anteriores são responsáveis pela

maioria das funções integrativas da medula espinal, conforme será discutido

no restante deste Capítulo.

Essencialmente, todos os diferentes tipos de circuitos neuronais descritos

no Capítulo 47 são encontrados no conjunto dos interneurônios das células

da medula espinal, incluindo divergência, convergência, descargas

repetitivas e outros tipos de circuitos. Neste Capítulo, examinamos as

muitas aplicações desses diferentes circuitos na realização dos atos reflexos

específicos pela medula espinal.

Somente poucos sinais sensoriais aferentes, provenientes dos nervos

espinais ou sinais do encéfalo, terminam diretamente sobre os neurônios

motores anteriores. Em vez disso, quase todos esses sinais são transmitidos

primeiro para os interneurônios, onde são adequadamente processados.

Assim, na Figura 55-1, está representado o trato corticoespinal,

proveniente do encéfalo, terminando quase exclusivamente sobre os

interneurônios espinais, onde os sinais desse trato são combinados com

sinais de outros tratos espinais ou de nervos espinais antes de, por fim,

convergir sobre os neurônios motores anteriores para controlar a função

muscular.

As Células de Renshaw Transmitem Sinais Inibitórios para os Neurônios

Motores Circunjacentes. Também localizado nos cornos anteriores da medula