Tratado de Fisiologia Médica
Hipotálamo, uma Grande Sede de Controle do Sistema Límbico
Figura 59-5. Sistema límbico, mostrando a posição-chave do hipotálamo.
HIPOTÁLAMO, UMA GRANDE SEDE DE CONTROLE DO
SISTEMA LÍMBICO
O hipotálamo, apesar do seu pequeno tamanho de somente alguns
centímetros cúbicos (e peso de apenas 4 gramas), contém vias bidirecionais
de comunicação com todos os níveis do sistema límbico. Por sua vez, ele e
suas estruturas intimamente conectadas emitem sinais em três direções: (1)
para trás e para baixo, até o tronco cerebral, principalmente para as áreas
reticulares do mesencéfalo, ponte e bulbo e dessas áreas para os nervos
periféricos do sistema nervoso autônomo; (2) ascendente, em direção a
muitas áreas superiores do diencéfalo e prosencéfalo, especialmente para a
parte anterior do tálamo e porções límbicas do córtex cerebral; e (3) para o
infundíbulo hipotalâmico, a fim de controlar, total ou parcialmente, a
maioria das funções secretórias tanto da hipófise anterior quanto da‐
posterior.
Em consequência, o hipotálamo, que representa menos do que 1% da
massa encefálica, é uma das estruturas de controle mais importantes do
sistema límbico. Ele controla a maioria das funções vegetativas e
endócrinas do corpo, bem como muitos aspectos do comportamento
emocional.
CONTROLE DAS FUNÇÕES VEGETATIVAS E
ENDÓCRINAS PELO HIPOTÁLAMO
Os diferentes mecanismos hipotalâmicos para o controle das múltiplas
funções do corpo são tão importantes que são discutidos, em múltiplos
Capítulos, ao longo de todo este livro. Por exemplo, o papel do hipotálamo
na regulação da pressão arterial é discutido noCapítulo 18; na sede e na
conservação da água, no Capítulo 30; apetite e gasto de energia, no Capítulo
72; na regulação da temperatura, no Capítulo 74; no controle endócrino,
no Capítulo 76. Para ilustrar a organização do hipotálamo como unidade
funcional vamos resumir suas funções vegetativas e endócrinas mais
importantes.
As Figuras 59-6 e 59-7 mostram cortes sagital e coronal aumentados do
hipotálamo, que representa apenas a pequena área na Figura 59-4. Use
alguns minutos estudando esses diagramas especialmente para ver na
Figura 59-6 as múltiplas atividades que são excitadas ou inibidas, quando
os respectivos núcleos hipotalâmicos são estimulados. Além dos centros
mostrados na Figura 59-6, a grande área hipotalâmica lateral (mostrada na
Figura 59-7) está presente em cada lado do hipotálamo. As áreas laterais
são especialmente importantes no controle da sede, da fome e de muitos dos
impulsos emocionais.
Uma palavra de precaução deve ser dita ao estudar esses diagramas,
porque as áreas que causam as atividades específicas não são situadas tão
acuradamente, como sugerido nas Figuras. Também não é conhecido se os efeitos mostrados nas figuras resultam da estimulação de núcleo de controle
específico ou se resultam da ativação de tratos de fibras que saem dele ou
do controle de núcleos, localizados em outros locais. Com essa cautela em
mente, podemos dar a seguinte descrição geral das funções vegetativas e de
controle do hipotálamo.
Figura 59-6. Centros de controle do hipotálamo (corte sagital).
Figura 59-7. Corte coronal do hipotálamo, mostrando as posições mediolaterais dos respectivos núcleos hipotalâmicos.
Regulação Cardiovascular. A estimulação de diferentes áreas do
hipotálamo pode causar muitos efeitos neurogênicos conhecidos do sistema
cardiovascular, o que inclui alterações na pressão arterial e na frequência
cardíaca. Em geral, a estimulação das regiões posterior e lateral do
hipotálamo aumenta a pressão arterial e frequência cardíaca, enquanto a
estimulação da área pré-óptica, em geral, tem efeitos opostos, causando
diminuição tanto na frequência cardíaca como da pressão arterial. Esses
efeitos são transmitidos principalmente pelos centros específicos de
controle cardiovascular, nas regiões reticulares da ponte e do bulbo.
Regulação da Temperatura Corporal. A porção anterior do
hipotálamo, especialmente a área pré-óptica, está relacionada à regulação
da temperatura corporal. Aumento da temperatura do sangue, que flui por
essa área, eleva a atividade dos neurônios sensíveis à temperatura, enquanto
o decréscimo da temperatura diminui sua atividade. Por sua vez, esses
neurônios controlam os mecanismos para aumentar ou reduzir a
temperatura corporal, como discutido no Capítulo 74. Regulação da Água Corporal. O hipotálamo regula a água corporal por
duas maneiras: (1) por criar a sensação de sede, o que faz o animal ou
pessoa beber água; e (2) pelo controle da excreção de água, na urina. A
área, chamada centro da sede, está localizada na região lateral do
hipotálamo. Quando os eletrólitos do líquido, tanto nesse centro como em
áreas próximas, tornam-se muito concentrados, o animal desenvolve desejo
intenso de beber água; ele procurará a fonte mais próxima de água e beberá
o suficiente para retornar ao normal a concentração de eletrólitos no centro
da sede.
O controle da excreção renal de água é realizado principalmente no núcleo
supraóptico. Quando os líquidos corporais ficam muito concentrados, os
neurônios dessas áreas são estimulados. Fibras nervosas desses neurônios se
projetam para baixo, pelo infundíbulo do hipotálamo para a hipófise
posterior, onde as terminações nervosas secretam o hormônio antidiurético
(também chamado vasopressina). Esse hormônio é então lançado na
circulação e transportado para os rins, onde age nos ductos coletores dos
rins para aumentar a reabsorção de água. Isto diminui a perda de água na
urina, mas permite a excreção contínua de eletrólitos, consequentemente
diminuindo a concentração dos líquidos corporais de volta ao normal. Essas
funções foram apresentadas no Capítulo 29.
Regulação da Contratilidade Uterina e da Ejeção do Leite pelas
Mamas. A estimulação dos núcleos paraventriculares causa aumento da
secreção do hormônio ocitocina por suas células neuronais. Por sua vez, a
secreção desse hormônio causa aumento da contratilidade do útero, bem
como a contração das células mioepiteliais circunjacentes aos alvéolos das
mamas, o que, então, leva os alvéo los a esvaziar seu leite pelos mamilos.
Ao final da gravidez, quantidades especialmente grandes de ocitocina são
secretadas, e essa secreção ajuda a promover as contrações do parto que
expelem o bebê. Além disso, toda vez que o bebê sugar a mama da mãe, sinal reflexo do mamilo para o hipotálamo anterior, também causará a
liberação de ocitocina, e ela agora realiza a função necessária de contrair os
dúctulos da mama, expelindo o leite pelos mamilos de tal forma que o bebê
possa se alimentar. Essas funções estão descritas no Capítulo 83.
Regulação Gastrointestinal e da Alimentação. A estimulação de
diversas áreas do hipotálamo leva o animal a experimentar fome extrema,
apetite voraz e um intenso desejo por alimento. A área associada à fome é a
área hipotalâmica lateral. Dessa forma, qualquer dano a essa área em
ambos os lados no hipotálamo leva o animal a perder o desejo pelo
alimento, podendo causar sua morte por inanição, como discutido
no Capítulo 72.
O centro que se opõe ao desejo por comida, chamado centro da saciedade,
está localizado no núcleo ventro medial. Quando esse centro é estimulado
eletricamente, o animal que está comendo para abruptamente de comer e
mostra completa indiferença pela comida. Entretanto, se essa área for
destruída bilateralmente, o animal não poderá ser saciado; ao contrário, seu
centro de fome hipotalâmico ficará hiperativo, com apetite voraz, o que
resultará em grande obesidade. O núcleo arqueado do hipotálamo contém
pelo menos dois tipos diferentes de neurônios que, quando estimulados,
conduzem a um aumento ou a uma diminuição do apetite. Outra área do
hipotálamo que entra no controle geral da atividade gastrointestinal são os
corpos mamilares, que controlam, pelo menos parcialmente, os padrões de
muitos reflexos da alimentação, como o ato de lamber os lábios e a‐
deglutição.
Controle Hipotalâmico da Secreção de Hormônios Endócrinos
pela Hipófise Anterior. A estimulação de certas áreas do hipotálamo
também faz com que a hipófise anterior secrete seus hormônios. Esse
assunto é discutido em detalhes no Capítulo 75 em relação ao controle neural das glândulas endócrinas. Resumidamente, os mecanismos básicos
são os seguintes. A hipófise anterior recebe seu suprimento sanguíneo, em
sua maior parte, pelo sangue que flui primeiro através da parte inferior do
hipotálamo e, então, por meio dos sinusoides da hipófise anterior. À medida
que o sangue passa pelo hipotálamo, antes de alcançar a hipófise anterior,
hormônios específicos de liberação e inibitórios são secretados no sangue
por diversos núcleos hipotalâmicos. Esses hormônios são, então,
transportados pelo sangue, para a hipófise anterior, onde agem nas células
glandulares para controlar a liberação dos hormônios específicos da
hipófise anterior.
Resumo. Várias áreas do hipotálamo controlam funções vegetativas
específicas e endócrinas. As funções dessas áreas ainda não são
completamente compreendidas, de tal modo que as especificações dadas
antes sobre as diferentes áreas para as diferentes funções hipotalâmicas são,
ainda em parte, tentativas.
FUNÇÕES COMPORTAMENTAIS DO HIPOTÁLAMO E
ESTRUTURAS LÍMBICAS ASSOCIADAS
Efeitos Causados por Estimulação do Hipotálamo. A estimulação
ou lesões do hipotálamo, além de demonstrar o papel do hipotálamo na
regulação das funções vegetativas e endócrinas, pode ter, com frequência,
profundos efeitos no comportamento emocional de animais e dos seres
humanos.
Alguns dos efeitos comportamentais da estimulação são os
seguintes:
1. A estimulação da região lateral do hipotálamo, não apenas causa sede e
fome como já discutido, mas também aumenta o nível geral de atividade
do animal, algumas vezes levando à raiva e à luta, como será discutido
adiante.
2. A estimulação do núcleo ventromedial e áreas adjacentes causa
principalmente os efeitos opostos aos ocasionados pela estimulação
lateral hipotalâmica — isto é, sensação de saciedade, diminuição da
alimentação e tranquilidade.
3. A estimulação de zona estreita dos núcleos periventriculares
localizados imediatamente adjacentes ao terceiro ventrículo (ou,
também, pela estimulação da área cinzenta central do mesencéfalo, que é
contínua com essa porção do hipotálamo) usualmente leva a reações de
medo e punição.
4. O desejo sexual pode ser estimulado em diversas áreas do hipotálamo,
especialmente nas porções mais anterior e mais posterior do hipotálamo.
Efeitos Causados por Lesões Hipotalâmicas. As lesões no
hipotálamo em geral causam os efeitos opostos aos causados pela
estimulação. Por exemplo:
1. Lesões bilaterais na região lateral do hipotálamo vão diminuir a sede e
fome até quase a zero, em geral, levando à inanição letal. Essas lesões
causam também extrema passividade do animal com perda da maioria
dos seus impulsos motivacionais.
2. Lesões bilaterais das áreas ventromediais do hipotálamo produzem
efeitos que são, em sua maioria, opostos aos causados pelas lesões na
região lateral do hipotálamo: beber e comer excessivamente, bem como
hiperatividade e muitas vezes surtos frequentes de raiva extrema a menor
provocação.
A estimulação ou lesões em outras áreas do sistema límbico,
especialmente na amígdala, na área septal e nas áreas do mesencéfalo, em
geral, produz efeitos semelhantes aos produzidos pelo hipotálamo. Vamos
discutir alguns deles com mais detalhes adiante.
FUNÇÕES DE “RECOMPENSA” E “PUNIÇÃO” DO
SISTEMA LÍMBICO
Da discussão até o momento já ficou claro que diversas estruturas límbicas
estão, de modo particular, envolvidas com a natureza afetiva das sensações
sensoriais — isto é, se as sensações são agradáveis ou desagradáveis. Essas
qualidades afetivas são também chamadas recompensa ou punição, ou
satisfação ou aversão. A estimulação elétrica de certas áreas límbicas
agrada ou satisfaz o animal, enquanto a estimulação elétrica de outras
regiões causa terror, dor, medo, defesa, reações de escape e todos os outros
elementos da punição. Os graus de estimulação desses dois sistemas
opostos de resposta influenciam muito o com portamento do animal.
Centros de Recompensa
Estudos experimentais em macacos usaram estimuladores elétricos para
mapear os centros de recompensa e punição do cérebro. A técnica usada é a
de implantar eletródios em diferentes áreas do cérebro, de modo que o
animal possa estimular essa área pressionando a alavanca que faz contato
elétrico com o estimulador. Se o estímulo dessa área particular dá ao animal
sentimento de recompensa, então ele vai pressionar a alavanca de novo e de
novo, com frequência de centenas ou até mesmo milhares de vezes por
hora. Além disso, quando oferecida a chance de comer alguma iguaria, em
oposição à oportunidade de estimular o centro de recompensa, o animal em
geral escolhe a estimulação elétrica.
Pelo uso desse procedimento, os principais centros de recompensa foram
localizados ao longo do curso do fascículo prosencefálico medial,
especialmente nos núcleos lateral e ventromedial do hipotálamo. É estranho
que o núcleo lateral deva ser incluído nas áreas de recompensa —
realmente, é um dos mais potentes — porque mesmo estímulos fortes nessa
área podem causar raiva. Entretanto, esse fenômeno tem lugar em muitas áreas, cujos estímulos fracos dão a sensação de recompensa, e estímulos
fortes, a sensação de punição. Centros de recompensa, menos potentes, que
são provavelmente secundários aos principais do hipotálamo, são
encontrados na área septal, na amígdala, em certas áreas do tálamo e nos
gânglios da base, e estendem-se para baixo pelo tegmento basal do
mesencéfalo.
Centros de Punição
O aparelho estimulador, discutido anteriormente, também pode ser
conectado de tal forma que o estímulo para o cérebro sempre continue,
exceto quando a alavanca é pressionada. Nesse caso, o animal não vai
pressionar a alavanca para desligar o estímulo se o eletródio estiver em uma
das áreas de recompensa; mas, quando está em certas áreas, o animal
aprende rapidamente a desligá-lo. A estimulação nessas áreas faz com que o
animal mostre todos os sinais de desprazer, medo, terror, dor, punição e até
mesmo doença.
Por meio dessa técnica, as áreas mais potentes para as tendências de
punição e fuga foram encontradas na substância cinzenta circundando o
aqueduto de Sylvius, no mesencéfalo, e se estendendo para cima, para as
zonas periventriculares do hipotálamo e tálamo. Áreas de punição menos
potentes foram encontradas em algumas localizações da amígdala e do
hipocampo. É particularmente interessante que a estimulação dos centros de
punição pode, muitas vezes, inibir por completo os centros de recompensa e
prazer, mostrando que punição e medo podem prevalecer sobre prazer e
recompensa.
Associação da Fúria com Centros de Punição O padrão emocional que envolve os centros de punição do hipotálamo e de
outras estruturas límbicas, e que também foi bem caracterizado, é o padrão
de fúria, descrito a seguir.
A estimulação forte dos centros de punição do cérebro, especialmente na
zona periventricular e na região lateral do hipotálamo, faz o animal (1)
desenvolver postura defensiva; (2) estender as garras; (3) levantar sua
cauda; (4) sibilar; (5) cuspir; (6) rosnar; e (7) desenvolver piloereção, olhos
arregalados e pupilas dilatadas. Além disso, até a menor provocação causa
ataque selvagem imediato. Esse é aproximadamente o comportamento que
se esperaria do animal que está sendo gravemente punido, sendo o padrão
de comportamento chamado fúria ou ira.
Felizmente, no animal normal, o fenômeno de raiva é freado
principalmente por sinais inibitórios dos núcleos ventromediais do
hipotálamo. Além disso, porções dos hipocampos e do córtex límbico
anterior, especialmente nos giros cingulados anteriores e giros subcalosos,
ajudam a suprimir o fenômeno de raiva.
Placidez e Docilidade. Exatamente o contrário desses padrões
emocionais de comportamento ocorre quando os centros de recompensa são
estimulados: placidez e docilidade.
A IMPORTÂNCIA DA RECOMPENSA E DA PUNIÇÃO NO
COMPORTAMENTO
Quase tudo que fazemos é relacionado, de alguma forma, à recompensa ou
à punição. Se estivermos fazendo algo que é recompensador, continuamos a
fazê-lo; se formos punidos, paramos de fazê-lo. Portanto, os centros de
recompensa e de punição, sem dúvida, se constituem em um dos
controladores mais importantes das nossas atividades físicas, nossos
desejos, nossas aversões e nossas motivações.
Efeito dos Fármacos Tranquilizantes nos Centros de
Recompensa ou Punição. A administração de tranquilizante, tal como
clorpromazina, em geral inibe tanto os centros de recompensa quanto os de
punição; dessa forma, diminuem a reatividade afetiva do animal. Portanto,
presume-se que os tranquilizantes funcionem nos estados psicóticos pela
supressão de muitas das áreas comportamentais importantes do hipotálamo
e de suas regiões associadas ao cérebro límbico.
A Importância da Recompensa ou Punição no
Aprendizado e na Memória — Habituação versus
Reforço
Experimentos em animais mostraram que a experiência sensorial que não
cause recompensa ou punição é pouco lembrada. Registros elétricos do
cérebro mostram que o estímulo sensorial, sentido pela primeira vez, quase
sempre excita áreas múltiplas no córtex cerebral. Entretanto, se a
experiência sensorial não provocar sensação de recompensa ou de punição,
a repetição do estímulo mais e mais vezes leva à extinção quase completa
da resposta do córtex cerebral, isto é, o animal se habitua a esse estímulo
sensorial específico e posteriormente o ignora.
Se o estímulo de fato causar recompensa ou punição, em vez de
indiferença, a resposta do córtex cerebral ficará cada vez mais intensa
durante estimulação repetida em vez de desaparecer, e diz-se que a resposta
é reforçada. O animal acumula fortes traços de memória para sensações que
são recompensadoras ou punitivas, mas por outro lado desenvolve
habituação completa a estímulos sensoriais indiferentes.
É evidente que os centros de recompensa e punição do sistema límbico
têm muito a ver com a seleção da informação que aprendemos, em geral,
descartando mais que 99% e selecionando menos que 1% para retenção. FUNÇÕES ESPECÍFICAS DE OUTRAS PARTES DO