Tratado de Fisiologia Médica
Edema em Pacientes com Insuficiência Cardíaca
Obteve-se certo sucesso em salvar vidas de pacientes em choque
cardiogênico pela utilização de um dos seguintes procedimentos: (1)
remoção cirúrgica do coágulo na artéria coronária, muitas vezes em
combinação com a revascularização do miocárdio; ou (2) cateterização da
artéria coronária bloqueada e infusão de estreptocinase ou de enzimas
ativadoras do plasminogênio tecidual, que promovem a dissolução do
coágulo. Os resultados são ocasionalmente impressionantes quando um
desses procedimentos é instituído dentro da primeira hora do choque
cardiogênico, porém ocorre pouco ou nenhum benefício após 3 horas.
EDEMA EM PACIENTES COM INSUFICIÊNCIA
CARDÍACA
A Insuficiência Cardíaca Aguda não Provoca Edema Periférico
Imediato. A insuficiência cardíaca esquerda aguda pode causar congestão
rápida dos pulmões, com desenvolvimento de edema pulmonar e até mesmo
morte em minutos a horas.
Todavia, a insuficiência cardíaca esquerda ou direita é bastante lenta para
causar edema periférico. Essa situação pode ser mais bem explicada com
referência à Figura 22-3. Quando um coração previamente saudável falha
como bomba, a pressão aórtica cai e a pressão atrial direita se eleva.
Enquanto o débito cardíaco se aproxima de zero, essas duas pressões
convergem para o valor de equilíbrio de cerca de 13 mmHg. A pressão
capilar também cai de seu valor normal de 17 mmHg para a nova pressão
de equilíbrio de 13 mmHg. Dessa forma, a insuficiência cardíaca aguda
grave causa, muitas vezes, queda na pressão capilar periférica, em vez de
aumento. Por isso, experimentos animais, como também a experiência
clínica em seres humanos, mostram que a insuficiência cardíaca aguda
quase nunca resulta em desenvolvimento imediato de edema periférico.
Figura 22-3. Alterações progressivas da pressão aórtica média, da pressão capilar periférica tecidual e da pressão atrial direita, enquanto o débito cardíaco cai do normal para zero.
A Retenção de Líquido pelos Rins a Longo Prazo Causa
Edema Periférico na Insuficiência Cardíaca Persistente
Após o primeiro dia ou mais de insuficiência cardíaca ou de insuficiência
cardíaca ventricular direita, o edema periférico começa a ocorrer
principalmente devido à retenção de líquido pelos rins. A retenção de
líquido eleva a pressão média de enchimento sistêmico, resultando em
tendência aumentada do sangue para retornar ao coração. Isso eleva,
adicionalmente, a pressão atrial direita e retorna a pressão arterial de volta à
normalidade. Logo, a pressão capilar também aumenta de forma
acentuada, causando, dessa forma, a saída de líquido para os tecidos e o
desenvolvimento de grave edema.
Volume urinário reduzido durante a insuficiência cardía ca tem várias
causas conhecidas:
1. Intensidade diminuída do ritmo de filtração glomerular. A
diminuição do débito cardíaco tende a reduzir a pressão glomerular nos
rins em função de (1) pressão arterial reduzida; e (2) constrição
simpática intensa das arteríolas aferentes do rim. Como consequência,
exceto nos graus mais brandos de insuficiência cardíaca, a filtração
glomerular fica menor que a normal. É evidente, pela discussão da
função renal nos Capítulos 27 a 30, que, mesmo uma diminuição muito
branda da filtração glomerular, muitas vezes diminui acentuadamente o
débito urinário. Uma redução do débito cardíaco, para cerca da metade
do normal, pode provocar uma anúria quase total.
2. Ativação do sistema renina-angiotensina e aumento da reabsorção
de água e de sal pelos túbulos renais. O fluxo sanguíneo reduzido para
os rins causa aumento acentuado da secreção de renina pelos rins, e isso,
por sua vez, aumenta a formação de angiotensina II, como descrito
no Capítulo 19. A angiotensina II, por seu turno, tem efeito direto sobre
as arteríolas dos rins, diminuindo ainda mais o fluxo de sangue para os
rins, o que reduz, especialmente, a pressão nos capilares peritubulares
em torno dos túbulos renais, promovendo grande aumento da reabsorção
de água e de sal pelos túbulos. A angiotensina II também age
diretamente sobre as células epiteliais tubulares, para estimular a
reabsorção de sal e água. Por conseguinte, a perda de água e de sal na
urina fica muito diminuída, com acúmulo de grandes quantidades de sal
e de água no sangue e nos líquidos intersticiais em todo o corpo.
3. Aumento da secreção de aldosterona. Grandes quantidades de
aldosterona são secretadas pelo córtex adrenal no estágio crônico da
insuficiência cardíaca. Essa secreção resulta, em grande parte, do efeito
da angiotensina de estimular a secreção de aldosterona pelo córtex
adrenal. Entretanto, parte do aumento da secreção de aldosterona resulta,
muitas vezes, do aumento do potássio plasmático. O excesso de potássio
é um dos estímulos mais potentes conhecidos da secreção de
aldosterona, e a concentração do potássio se eleva em resposta à redução
da função renal em pessoas com insuficiência cardíaca.
O aumento adicional do nível de aldosterona eleva a reabsorção do sódio
pelos túbulos renais. Esse incremento na reabsorção provoca, por sua
vez, um aumento secundário da reabsorção de água por duas razões:
primeira, à medida que o sódio é reabsorvido, a pressão osmótica nos
túbulos diminui, porém aumenta a pressão osmótica nos líquidos
intersticiais renais e essas alterações promovem a passagem por osmose
da água desde os túbulos para o sangue. Segunda, o sódio absorvido e os
ânions que o acompanham, principalmente os íons cloreto, elevam a
concentração osmótica do líquido extracelular em todo o corpo, o que
provoca a secreção de hormônio antidiurético pelo sistema hipotálamo-
glândula hipófise posterior (discutido no Capítulo 30). O hormônio
antidiurético promove, por seu turno, aumento cada vez maior da
reabsorção tubular de água.
4. Ativação do sistema nervoso simpático. Como discutido previamente,
a falência cardíaca causa ativação acentuada do sistema nervoso
simpático que por sua vez exerce vários efeitos que levam à retenção de
sal e água pelos rins: (a) constrição das arteríolas aferentes renais, o que
reduz a filtração glomerular; (b) estimulação da reabsorção tubular renal
de sal e água pela ativação de receptores alfa-adrenérgicos nas células
epiteliais tubulares; (c) estimulação da liberação de renina e da formação
de angiotensina II, que eleva a reabsorção tubular renal; (d) estimulação
da liberação de hormônios antidiuréticos da hipófise posterior que,
então, eleva a reabsorção de água pelos túbulos renais. Esses efeitos da
estimulação simpática são discutidos mais detalhadamente nos
Capítulos 27 e 28.
O Papel do Peptídeo Natriurético Atrial em Retardar o Início da
Descompensação Cardíaca. O peptídeo natriurético atrial (PNA) é
hormônio liberado pelas paredes atriais do coração, quando são distendidas.
Como a insuficiência cardíaca quase sempre aumenta as pressões atriais
direita e esquerda que distendem as paredes atriais, os níveis circulantes de
PNA no sangue aumentam por cinco a 10 vezes na insuficiência cardíaca
grave. O PNA exerce, por sua vez, efeito direto sobre os rins para elevar,
muito intensamente, sua excreção de sal e de água. Assim, o PNA
desempenha papel natural ao participar da prevenção dos sintomas
congestivos extremos durante a insuficiência cardíaca. Os efeitos renais do
PNA são discutidos nos Capítulos 28 e 30.
Edema Pulmonar Agudo no Estágio Tardio da
Insuficiência Cardíaca — Outro Ciclo Vicioso Letal
Causa frequente de morte é o edema pulmonar agudo, que ocorre em
pacientes portadores de insuficiência cardíaca crônica por longo período.
Quando o edema pulmonar agudo sucede em uma pessoa sem nova lesão
cardíaca, ele, em geral, é provocado por alguma sobrecarga temporária do
coração, como poderia resultar de episódio muito intenso de exercício,
alguma experiência emocional, ou até mesmo resfriado grave. Acredita-se
que o edema pulmonar agudo seja resultado do seguinte ciclo vicioso:
1. Aumento temporário da carga sobre o ventrículo esquerdo já
enfraquecido inicia o ciclo vicioso. Devido à capacidade limitada de
bombeamento do coração esquerdo, o sangue começa a se acumular nos
pulmões.
2. O aumento de sangue nos pulmões eleva a pressão capilar pulmonar, e
pequena quantidade de líquido começa a transudar para os tecidos
pulmonares e para os alvéolos.
3. O aumento de líquido nos pulmões diminui o grau de oxigenação do
sangue.
4. A diminuição do oxigênio no sangue causa vasodilatação periférica.
5. A vasodilatação periférica aumenta, ainda mais, o retorno venoso do
sangue da circulação periférica.
6. A elevação do retorno venoso aumenta ainda mais o acúmulo de sangue
nos pulmões, resultando em transudação de maior quantidade de líquido,
mais dessaturação do sangue arterial, maior retorno venoso, e assim por
diante. Dessa maneira, estabelece-se um ciclo vicioso.
Uma vez que esse ciclo vicioso ultrapasse certo ponto crítico, ele
progredirá até a morte do paciente, a menos que medidas terapêuticas
heroicas sejam iniciadas em um prazo de minutos. Os tipos de medidas
terapêuticas heroicas capazes de reverter o processo e salvar a vida do
paciente incluem os seguintes:
1. Colocar torniquetes nos dois braços e nas duas pernas, para sequestrar o
máximo de sangue nas veias e, por conseguinte, diminuir a carga de
trabalho sobre o lado esquerdo do coração.
2. Administrar diurético de ação rápida, como a furosemida, para induzir a
perda rápida de líquido pelo organismo.
3. Administrar ao paciente oxigênio puro, a fim de reverter a dessaturação
do oxigênio do sangue, a deteriora ção cardíaca e a vasodilatação
periférica.
4. Administrar ao paciente fármaco cardiotônico de ação rápida, como um
digitálico para fortalecer o coração.
Esse ciclo vicioso do edema pulmonar agudo pode evoluir, tão
rapidamente, que a morte pode ocorrer de 20 minutos a 1 hora. Logo,
qualquer procedimento que seja bem-sucedido deve ser instituído
imediatamente.