Tratado de Fisiologia Médica
Diuréticos e seus Mecanismos de Ação
CAPÍTULO 32
Diuréticos e Doenças Renais
DIURÉTICOS E SEUS MECANISMOS DE AÇÃO
Os diuréticos aumentam o débito e o volume urinário, conforme o nome
sugere. A maioria dos diuréticos também aumenta a excreção urinária de
solutos, em especial de sódio e cloreto. Na verdade, a maioria dos
diuréticos, usados na clínica, atua diminuindo a reabsorção de sódio pelos
túbulos, causando natriurese (maior débito de sódio), o que, por sua vez,
ocasiona diurese (maior débito de água). Ou seja, na maior parte dos casos,
o aumento da excreção de água ocorre secundariamente à inibição da
reabsorção tubular de sódio, já que o sódio remanescente nos túbulos age de
forma osmótica, diminuindo a reabsorção de água. Na medida em que a
reabsorção tubular renal de muitos solutos, como potássio, cloreto,
magnésio e cálcio, é influenciada igualmente de modo secundário pela
reabsorção de sódio, muitos diuréticos elevam também o débito renal desses
solutos.
O uso clínico mais comum dos diuréticos é para reduzir o volume do
líquido extracelular, especialmente em doenças associadas ao edema e à
hipertensão. Como discutido no Capítulo 25, a perda de sódio pelo corpo
reduz principalmen te o volume do líquido extracelular; portanto, os
diuréticos são administrados, com mais frequência, nas condições clínicas
em que o volume do líquido extracelular esteja elevado.
Alguns diuréticos podem aumentar o débito urinário por mais de 20 vezes,
poucos minutos depois de terem sido administrados. Entretanto, o efeito da
maioria dos diuréticos sobre o débito renal de sal e água diminui em poucos
dias (Figura 32-1) devido à ativação de outros mecanismos compensatórios
desencadeados pela redução do volume do líquido extracelular. Por
exemplo, a diminuição do volume do líquido extracelular pode reduzir a
pressão arterial e a filtração glomerular (FG) e aumentar a secreção de
renina e a formação de angiotensina II; todas essas respostas, em conjunto,
sobrepujam, eventualmente, os efeitos crônicos do diurético sobre o débito
urinário. Assim, no estado estável, o débito urinário se iguala à ingestão,
mas só depois de terem ocorrido reduções da pressão arterial e do volume
de líquido extracelular, aliviando a hipertensão ou o edema que levaram ao
uso dos diuréticos no primeiro momento.
Os diversos diuréticos disponíveis para uso clínico apresen tam diferentes
mecanismos de ação e assim inibem a reabsorção tubular em locais
diferentes, ao longo do néfron renal. As classes gerais de diuréticos e seus
mecanismos de ação estão listados naTabela 32-1, juntamente com os seus
sítios de ação no túbulo.
Figura 32-1. Excreção de sódio e volume do líquido extracelular, durante administração de diuréticos. O aumento imediato da excreção de sódio é acompanhado por diminuição do volume de líquido extracelular. Se a ingestão de sódio se mantiver constante, mecanismos compensatórios igualarão, por fim, a excreção de sódio à sua ingestão, restabelecendo, desse modo, o equilíbrio de sódio.
Tabela 32-1 Classes de Diuréticos, Seus Mecanismos de Ação e Locais Tubulares de
Ação
Local Tubular
Classe de Diurético Mecanismo de Ação de Ação
Diuréticos osmóticos Inibem a reabsorção de água e soluto por Principalmente,
(manitol) aumentarem a osmolaridade do líquido os túbulos
tubular proximais
Diuréticos de alça + + − Alça ascendente Inibem o cotransporte de Na-K-Cl na
(furosemida, membrana luminal espessa de bumetanida) Henle
Diuréticos tiazídicos + − Túbulos distais Inibem o cotransporte de Na-Cl na
(hidroclorotiazida, iniciais membrana luminal clortalidona)
Inibidores da anidrase + Túbulos Inibem a secreção de H e a reabsorção de
carbônica − + proximais HCO , o que reduz a reabsorção de Na 3 (acetazolamida)
Antagonistas da Inibem a ação da aldosterona no receptor Túbulos
aldosterona + tubular, diminuem a reabsorção de Na e coletores (espironolactona, + reduzem a secreção de K eplerenona)
Bloqueadores do + Bloqueiam a entrada de Na nos canais de Túbulos
canal de sódio + coletores Na da membrana luminal, diminuem a (triantereno, + + reabsorção de Na e a secreção de K amilorida)
OS DIURÉTICOS OSMÓTICOS DIMINUEM A
REABSORÇÃO DE ÁGUA POR AUMENTAREM A
PRESSÃO OSMÓTICA DO LÍQUIDO TUBULAR
A injeção na corrente sanguínea de substâncias que não são facilmente
reabsorvidas pelos túbulos renais, como ureia, manitol e sacarose, produz
aumento acentuado da concentração de moléculas osmoticamente ativas nos
túbulos. A pressão osmótica desses solutos, então, reduz, por muito, a
reabsorção de água, eliminando grande quantidade de líquido tubular para a
urina.
Grande volume de urina é também formado em determinadas doenças
associadas ao excesso de solutos que não conseguem ser reabsorvidos do
líquido tubular. Por exemplo, quando a concentração sanguínea de glicose
aumenta muito no diabetes melito, a maior carga filtrada de glicose nos
túbulos excede sua capacidade de reabsorver glicose (isto é, excede seu
transporte máximo de glicose). Acima da concentração plasmática de
glicose de cerca de 250 mg/dL, pouca glicose extra é reabsorvida pelos túbulos; em vez disso, o excesso de glicose permanece nos túbulos, agindo
como diurético osmótico e causando rápida perda de líquido pela urina.
Portanto, uma das características identificadoras de um diabetes melito
incontrolado é a poliúria (micção frequente), que é balancea da pelo alto
nível de ingestão de líquido (polidipsia), devido à desidratação, ao aumento
da osmolaridade dos líquidos extracelulares e à posterior ativação do
mecanismo da sede.
DIURÉTICOS DE “ALÇA” REDUZEM A REABSORÇÃO
ATIVA DE SÓDIO-CLORETO-POTÁSSIO NA ALÇA
ASCENDENTE ESPESSA DE HENLE
Furosemida, ácido etacrínico e bumetanida são diuréticos potentes, que
diminuem a reabsorção ativa no segmento ascendente espesso da alça de
Henle ao bloquearem o cotransportador de 1-sódio, 2-cloreto, 1-potássio,
localizado na membrana luminal das células epiteliais. Esses diuréticos “de
alça” estão entre os mais potentes usados clinicamente.
Ao bloquear o cotransporte de sódio-cloreto-potássio na membrana
luminal da alça de Henle, os diuréticos de alça aumentam o débito urinário
de sódio, cloreto e potássio e de outros eletrólitos, bem como de água, por
duas razões: (1) eles aumentam muito a quantidade de solutos liberados para
as partes distais dos néfrons, e esses solutos atuam como agentes osmóticos,
evitando a reabsorção de água; e (2) eles interrompem o sistema
multiplicador por contracorrente, ao diminuir a absorção de íons da alça de
Henle para o interstício medular, diminuindo, assim, a osmolaridade do
líquido intersticial medular. Devido a esse efeito, os diuréticos de alça
comprometem a capacidade dos rins de concentrar ou diluir a urina. A
diluição urinária fica comprometida porque a inibição da reab sorção de
sódio e de cloreto, na alça de Henle faz com que maior quantidade desses
íons seja excretada junto com a maior excreção de água. A concentração urinária é afetada porque a concentração desses íons no líquido intersticial
da medula renal e, portanto, a osmolaridade da medula renal, fica reduzida.
Consequentemente, a reabsorção de líquido pelos ductos coletores é
diminuída, de modo que a capacidade de concentração máxima dos rins
também fica bastante reduzida. Além disso, a menor osmo laridade do
líquido intersticial da medula renal diminui a absorção de água pela alça
descendente de Henle. Devido a esses múltiplos efeitos, 20 a 30% do
filtrado glomerular pode ser eliminado na urina, produzindo em condições
agudas débito urinário de até 25 vezes acima do normal durante pelo menos
alguns minutos.
OS DIURÉTICOS TIAZÍDICOS INIBEM A REABSORÇÃO
DE SÓDIO-CLORETO NO TÚBULO DISTAL INICIAL
Os derivados tiazídicos, como a clorotiazida, atuam basi camente nos
túbulos distais iniciais, bloqueando o cotransportador de sódio-cloreto da
membrana luminal das células tubulares. Sob condições favoráveis, esses
agentes podem fazer com que 5% a 10% do filtrado glomerular passem para
a urina, que é aproximadamente a mesma quantidade de sódio que costuma
ser reabsorvida pelos túbulos distais.
OS INIBIDORES DA ANIDRASE CARBÔNICA
BLOQUEIAM A REABSORÇÃO DE BICARBONATO DE
SÓDIO NOS TÚBULOS PROXIMAIS
A acetazolamida inibe a enzima anidrase carbônica essencial para a
reabsorção de bicarbonato (HCO −) no túbulo proximal, como discutido 3
no Capítulo 31. A anidrase carbônica é abundante no túbulo proximal, o
local primário de ação dos inibidores da anidrase carbônica. Alguma
anidrase carbônica também está presente em outras células tubulares, como
nas células intercaladas dos túbulos coletores.
Na medida em que a secreção de íons hidrogênio (H+) e a reabsorção de
HCO − nos túbulos proximais estão acopladas à reabsorção de sódio pelo 3
mecanismo de contratransporte dos íons sódio-hidrogênio da membrana
luminal, a menor reabsorção de HCO − também reduz a reabsorção de 3
sódio. O bloqueio da reabsorção de sódio e de HCO − do líquido tubular faz 3
com que esses íons permaneçam nos túbulos e atuem como um diurético
osmótico. Uma das desvantagens previsíveis dos inibidores da anidrase
carbônica é a de que causem certo grau de acidose devido à perda excessiva
de HCO − na urina. 3
OS ANTAGONISTAS DOS RECEPTORES
MINERALOCORTICOIDES DIMINUEM A REABSORÇÃO
DE SÓDIO A PARTIR DA SECREÇÃO DE POTÁSSIO
PARA OS TÚBULOS COLETORES
Espironolactona e eplerenona são antagonistas dos receptores de
mineralocorticoides que competem com a aldoste rona pelo sítio de ligação
nas células epiteliais do tubo coletor e, assim, podem diminuir a reabsorção
de sódio e a secreção de potássio nesse segmento tubular. Como conse‐
quência, o sódio permanece nos túbulos e atua como diurético osmótico,
provocando aumento da excreção de água, bem como de sódio. Como esses
fármacos também bloqueiam o efeito da aldosterona em promover a
secreção de potássio nos túbulos, eles também promovem a secreção nos
túbulos de potássio, diminuindo a excreção de potássio. Os antagonistas dos
receptores de mineralocorticoides também causam movimento do potássio
das células para o líquido extracelular. Em alguns casos, esse movimento
faz com que haja aumento excessivo de potássio no líquido extracelular. Por
essa razão, a espironolactona e outros antagonistas dos receptores dos
mineralocorticoides são referidos como diuré ticos poupadores de potássio.
Muitos dos outros diuré ticos causam perda de potássio pela urina, em contraste com os antagonistas dos receptores de mineralocorticoides, que