Tratado de Fisiologia Médica
Derivações Eletrocardiográficas
Figura 11-5. Fluxo da corrente no tórax ao redor dos ventrículos parcialmente despolarizados. A e B são eletródios.
DERIVAÇÕES ELETROCARDIOGRÁFICAS
As Três Derivações Bipolares dos Membros
A Figura 11-6 mostra as conexões elétricas entre os membros do paciente e
o ECG, para obtenção dos registros eletrocardiográficos das chamadas
derivações bipolares padrão (ou standard) dos membros. O termo “bipolar” quer dizer que o eletrocardiograma é registrado por dois eletródios
posicionados em lados diferentes do coração — nesse caso, nos membros.
Assim, uma “derivação” não é um só fio conectado ao corpo, mas a
combinação de dois fios e seus eletródios para formar um circuito completo
entre o corpo e o eletrocardiógrafo. Em cada exemplo, o eletrocardiógrafo
está representado por aparelho elétrico de medida, embora o verdadeiro
eletrocardiógrafo seja um sistema informático de alta velocidade, associado
a mostradores eletrônicos.
Figura 11-6. Disposição convencional dos eletródios para o registro das derivações eletrocardiográficas padrão. O triângulo de Einthoven está sobreposto ao tórax.
Derivação I. No registro da derivação I dos membros, o terminal negativo
do eletrocardiógrafo é conectado ao braço direito, e o terminal positivo, ao braço esquerdo. Portanto, quando a área pela qual o braço direito se une ao
tórax está eletronegativa, em relação à área pela qual o braço esquerdo se
une ao tórax, o eletrocardiógrafo registra valor positivo, isto é, valor situado
acima da linha de voltagem zero do ECG. Quando ocorre o oposto, o
eletrocardiógrafo registra valor situado abaixo da linha.
Derivação II. Para registrar a derivação II dos membros, o terminal
negativo do eletrocardiógrafo é conectado ao braço direito, e o terminal
positivo, à perna esquerda. Portanto, quando o braço direito está negativo
em relação à perna esquerda, o eletrocardiógrafo exibe registro positivo.
Derivação III. Para registrar a derivação III dos membros, o terminal
negativo do eletrocardiógrafo é conectado ao braço esquerdo, e o terminal
positivo, à perna esquerda. Essa configuração significa que o
eletrocardiógrafo apresentará registro positivo quando o braço esquerdo
estiver negativo em relação à perna esquerda.
Triângulo de Einthoven. Na Figura 11-6, um triângulo, denominado
triângulo de Einthoven, está traçado ao redor da área do coração. Essa
figura geométrica mostra que os dois braços e a perna esquerda formam os
ápices de um triângulo que circunda o coração. Os dois ápices da parte
superior do triângulo representam os pontos pelos quais os dois braços se
conectam eletricamente aos líquidos situados ao redor do coração, e o ápice
inferior é o ponto pelo qual a perna esquerda se conecta a esses líquidos.
Lei de Einthoven. A lei de Einthoven afirma que se os ECGs forem
registrados simultaneamente nas três derivações dos membros, a soma dos
potenciais registrados nas derivações I e III é igual ao potencial da
derivação II.
Potencial da derivação I + Potencial da derivação III = Potencial da derivação II
Por outras palavras, se os potenciais elétricos de duas das três derivações
eletrocardiográficas bipolares dos membros forem conhecidos em um dado
momento, o potencial elétrico da terceira derivação poderá ser determinado
pela simples soma dos dois primeiros. Note, entretanto, que os sinais
positivo e negativo das diferentes derivações precisam ser levados em
consideração quando a soma for realizada.
Por exemplo, suponha-se que, momentaneamente, como mostrado
na Figura 11-6, o braço direito apresente −0,2 milivolt (negativo) em
relação ao potencial médio do corpo, o braço esquerdo apresente +0,3
milivolt (positivo) e a perna esquerda apresente +1,0 milivolt (positivo). Ao
observarmos os medidores da figura, veremos que a derivação I registra
potencial positivo de +0,5 milivolt, porque essa é a diferença entre −0,2
milivolt do braço direito e +0,3 milivolt do braço esquerdo. De modo
semelhante, a derivação III registra potencial positivo de +0,7 milivolt, e a
derivação II registra potencial positivo de +1,2 milivolt, porque essas são as
diferenças instantâneas de potencial entre os respectivos pares de membros.
Agora, note que a soma das voltagens das derivações I e III é igual à
voltagem da derivação II, ou seja, 0,5 mais 0,7 são iguais a 1,2.
Matematicamente, esse princípio, denominado lei de Einthoven, é válido
em dado momento enquanto os três ECG bipolares “padrão” estão sendo
registrados.
Eletrocardiogramas Normais, Registrados pelas Três
Derivações Bipolares Padrão dos Membros. A Figura 11-7mostra
os registros dos ECG nas derivações I, II e III. É óbvio que os ECG, obtidos
por essas três derivações, são semelhantes entre si, porque todos eles
registram ondas P e T positivas, e a parte principal do complexo QRS
também é positiva.
Quando se analisam os três ECG, é possível mostrar, por meio de medidas
cuidadosas e da observação adequada das polaridades, que, em dado momento, a soma dos potenciais nas derivações I e III é igual ao potencial
na derivação II, demonstrando assim a validade da lei de Einthoven.
Pelo fato de os registros obtidos pelas derivações bipolares dos membros
serem semelhantes entre si, não importa muito qual derivação está sendo
registrada quando se quer diagnos ticar diferentes arritmias cardíacas, pois o
diagnóstico das arritmias depende principalmente das relações temporais
entre as diferentes ondas do ciclo cardíaco. Entretanto, quando se busca
diagnosticar lesão no músculo atrial ou ventricular ou no sistema de
condução de Purkinje, é muito importante saber quais derivações estão
sendo registradas, pois as anorma li dades da contração do músculo cardíaco
ou da condução do impulso cardíaco alteram muito os padrões de algumas
derivações, porém podem não afetar outras. A interpretação ECG desses
dois tipos de distúrbios — miopatias cardíacas e arritmias cardíacas — é
discutida separadamente nos Capítulos 12 e 13.
Figura 11-7. Eletrocardiogramas normais, registrados das três derivações eletrocardiográficas padrão.
As Derivações Torácicas (Derivações Precordiais)
Com frequência, os ECGs são registrados pela colocação de eletródio na
superfície anterior do tórax, diretamente sobre o coração, em um dos pontos
mostrados na Figura 11-8. Esse eletródio é conectado ao terminal positivo
do eletrocardiógrafo, e o eletródio negativo, denominado eletródio
indiferente, é conectado, simultaneamente, ao braço direito, ao braço
esquerdo e à perna esquerda, por meio de resistências elétricas iguais, como
mostrado na mesma figura. Em geral, faz-se o registro de seis derivações
torácicas padrão, uma por vez, na parede anterior do tórax, colocando-se o
eletródio torácico de forma sequencial nos seis pontos mostrados no
diagrama. Os diferentes registros são conhecidos como derivações V , V , 1 2
V , V , V e V . 3 4 5 6
A Figura 11-9 mostra ECG de coração saudável, registra dos por essas seis
derivações torácicas padrão. Pelo fato de as superfícies do coração estarem
próximas da parede do tórax, cada derivação torácica registra
principalmente o potencial elétrico da musculatura cardíaca situada
imediatamen te abaixo do eletródio. Por essa razão, anormalidades
relativamente pequenas dos ventrículos, em especial na parede ventricular
anterior, podem provocar alterações acentuadas nos ECG registrados pelas
derivações torácicas individuais.
Nas derivações V e V , os registros do complexo QRS do coração normal 1 2
são na maioria das vezes negativos, porque, como mostrado na Figura 11-8,
o eletródio torácico dessas derivações está mais próximo da base cardíaca
que do ápice, e a base do coração permanece eletronegativa durante a maior
parte do processo de despolarização ventricular. De modo oposto, nas
derivações V , V e V , os complexos QRS são em sua maior parte 4 5 6
positivos, porque o eletródio torácico dessas derivações está mais próximo
do ápice do coração que permanece eletropositivo durante a maior parte da
despolarização.
Figura 11-8. Conexões do corpo com o eletrocardiógrafo para o registro das derivações torácicas. BD, braço direito; BE, braço esquerdo.
Figura 11-9. Eletrocardiogramas normais registrados pelas seis derivações torácicas padrão.
As Derivações Unipolares Aumentadas dos Membros
Outro sistema de derivações muito utilizado consiste na derivação unipolar
aumentada dos membros. Nesse tipo de registro, dois dos membros são
conectados ao terminal negativo do eletrocardiógrafo por meio de
resistências elétricas, e o terceiro membro é conectado ao terminal positivo.
Quando o terminal positivo está no braço direito, a derivação é denominada
aVR; quando está no braço esquerdo, aVL; e quando está na perna
esquerda, aVF.
A Figura 11-10 mostra registros normais das derivações unipolares
aumentadas dos membros. Eles são semelhantes aos registros das
derivações padrão dos membros, com exceção do registro da derivação
aVR, que é invertido. (Por que ocorre essa inversão? Estude as conexões
das polaridades com o eletrocardiógrafo para responder a esta questão.)
Figura 11-10. Eletrocardiogramas normais registrados pelas três derivações unipolares aumentadas dos membros.
Métodos para o Registro de Eletrocardiogramas
Às vezes, as correntes elétricas geradas pelo músculo cardíaco durante cada
batimento do coração alteram os potenciais e as polaridades elétricos nos respectivos lados do coração, em menos de 0,01 segundo. Por essa razão, é essencial que qualquer aparelho para registro de ECG seja capaz de responder
rapidamente a essas variações dos potenciais. Os eletrocardió grafos clínicos
modernos utilizam sistemas informáticos e mostradores eletrônicos.
Eletrocardiograma Ambulatorial
Os ECGs padrão fornecem uma avaliação dos eventos cardía cos elétricos, no
decurso de um curto período de tempo, em geral com o paciente em repouso. Em condições associadas a anormalidades raras, mas importantes nos ritmos
cardíacos, pode ser útil analisar o ECG por um período prolongado, permitindo a
avaliação das variações nos fenômenos elétricos cardíacos que são transitórias e que foram omitidos no ECG padrão. A extensão do ECG para facilitar a avaliação de eventos elétricos cardíacos com o paciente deambulante durante as atividades
diárias cotidianas é chamado eletrocardiograma ambulatorial.
O monitoramento do ECG ambulatorial é muitas vezes usado quando um
paciente apresenta sintomas, que se suspeitam serem causados por arritmia
transitória ou outras anormalidades cardíacas transitórias. Entre esses sintomas
são incluídos dor cardíaca, síncope ou quase síncope, tonturas e batimentos cardíacos irregulares. A informação crucial necessária para diagnosticar arritmias
transitórias graves ou outras doenças cardíacas semelhantes é o registro de um
ECG durante o tempo exato em que ocorre o sintoma. Uma vez que a
variabilidade de um dia para o outro na frequência de arritmias é importante, a detecção precisa muitas vezes de um monitoramento ECG durante todo o dia.
Existem duas categorias de equipamento de registro de ECG ambulatorial: (1)
contínuos, normalmente utilizados por 24 a 48 horas para investigar a relação dos
sintomas e episódios do ECG que provavelmente tenham lugar durante esse
perío do de tempo e; (2) intermitentes, utilizados durante períodos mais longos
(semanas ou meses) para fornecer registros breves e intermitentes, a fim de
detectar eventos que ocorrem com pouca frequência. Em alguns casos, um
pequeno dispositivo do tamanho de um pacote de chicletes chamado gravador
implantável de alça, é colocado logo abaixo da pele no tórax para monitorar a
atividade elétrica do coração de forma intermitente até 2 a 3 anos. O dispositivo
pode ser programado para iniciar a gravação quando o ritmo cardíaco desce
abaixo, ou se eleva acima, de um nível predeterminado ou pode ser ativado
manualmente pelo paciente quando se percebe um sintoma como tonturas, por
exemplo. As melhorias na tecnologia digital de estado sólido e nos equipamentos
de registro com os microprocessadores, permite, atualmente, a transmissão
contínua ou intermitente de dados digitais de ECG por meio de linhas telefônicas,
e sofisticados sistemas de software proporcionam uma análise computadorizada
on-line dos dados enquanto são adquiridos.
Bibliografia
Veja as referências do Capítulo 13.
OceanofPDF.com
CAPÍTULO 12
Interpretação Eletrocardiográfica
das Anormalidades do Músculo
Cardíaco e do Fluxo Sanguíneo
Coronariano: Análise Vetorial
Pela discussão do Capítulo 10 sobre a transmissão do impulso pelo coração,
é óbvio que qualquer variação desse padrão de transmissão pode causar
potenciais elétricos anormais em volta do coração e, consequentemente,
alterar os formatos das ondas no eletrocardiograma (ECG). Por essa razão,
muitas anormalidades sérias do músculo cardíaco podem ser diagnosticadas
pela análise dos contornos das ondas, nas diferentes derivações
eletrocardiográficas.