Tratado de Fisiologia Médica
Fibrilação Ventricular
Segunda, a taquicardia ventricular com frequência inicia a patologia letal
de fibrilação ventricular, em virtude da estimulação repetida rápida do
músculo ventricular, como discutido no tópico seguinte.
Algumas vezes, a intoxicação pela terapia cardíaca com digitálicos produz
focos irritáveis que levam à taquicardia ventricular. Podem ser utilizados
fármacos antiarrítmicos como amiodarona ou lidocaína para tratar a
taquicardia ventricular. A lidocaína diminui o aumento normal na
permeabilidade ao sódio da membrana do músculo cardíaco durante a
produção do potencial de ação, bloqueando, assim, frequentemente a
descarga rítmica do ponto focal que provoca o ataque paroxístico. A
amiodarona apresenta várias ações, como o prolongamento do potencial de
ação e do período refratário do miocárdio e o retardamento da condução AV.
Em alguns casos é necessária uma cardioversão com uma descarga elétrica
no coração para restaurar o ritmo cardíaco normal.
Figura 13-14. Taquicardia paroxística ventricular (derivação III).
FIBRILAÇÃO VENTRICULAR
A mais grave de todas as arritmias cardíacas é a fibrilação ventricular que,
se não interrompida dentro de 1 a 3 minutos, é quase invariavelmente fatal.
A fibrilação ventricular decorre de impulsos cardíacos frenéticos na massa
do músculo ventricular, estimulando primeiro uma parte do músculo ventricular e depois outra, e outra e finalmente voltando para reexcitar o
mesmo músculo ventricular vezes e vezes repetidas — jamais parando.
Quando esse evento acontece, muitas partes pequenas do músculo
ventricular se contraem ao mesmo tempo, enquanto, de igual modo, muitas
outras partes se relaxam. Dessa forma, nunca ocorre contração coordenada
de todo o músculo ventricular a um só tempo, o que é necessário para o
ciclo de bombeamento do coração. Apesar do movimento maciço de sinais
estimulatórios por toda parte dos ventrículos, as câmaras ventriculares não
aumentam de volume nem se contraem, mas permanecem no estágio
indeterminado de contração parcial, e o bombeamento fica ausente ou a ser
feito em quantidades desprezíveis. Portanto, depois que a fibrilação
começa, ocorre inconsciência em 4 a 5 segundos, por falta de fluxo
sanguíneo para o cérebro, e a morte irrecuperável de tecidos começa a
ocorrer em todo o corpo dentro de alguns minutos.
Múltiplos fatores podem desencadear a fibrilação ventricular — pode
ocorrer de a pessoa ter batimento cardíaco normal no momento, todavia, um
segundo mais tarde, os ventrículos estarem em fibrilação. Os que têm
probabilidade especial para desencadear a fibrilação são: (1) choque elétrico
súbito do coração; ou (2) isquemia do músculo cardía co de seu sistema de
condução especializado ou de ambos.
Fenômenos de Reentrada — “Movimentos Circulares”, a
Base para a Fibrilação Ventricular
Quando o impulso cardíaco normal no coração normal percor re a extensão
dos ventrículos, ele não tem para onde ir, porque todo o músculo ventricular
está refratário e não mais pode conduzir o impulso. Portanto, esse impulso
cessa, e o coração aguarda novo potencial de ação surgir no nodo sinusal
atrial.
Em algumas circunstâncias, contudo, essa sequência normal de eventos
não ocorre. Portanto, expliquemos, de modo mais completo, as condições
de fundo que podem iniciar a reentrada e levar aos “movimentos em
círculo” que por sua vez causam a fibrilação ventricular.
A Figura 13-15 mostra várias pequenas tiras de músculo cardíaco que
foram cortadas na forma de círculos. Se uma dessas tiras for estimulada na
posição de 12 horas, para que o impulso só passe em uma direção, o
impulso se propagará, progressivamente, em torno do círculo até retornar à
posição de 12 horas. Se as fibras musculares que foram estimuladas antes
ainda estiverem no estado refratário, o impulso então cessará nesse ponto,
porque o músculo refratário não poderá transmitir o segundo impulso.
Entretanto, existem três condições que podem fazer com que esse impulso
continue a percorrer o círculo, isto é, a causar a “reentrada” do impulso no
músculo que já foi excitado (“movimento em círculo”).
Na primeira, se a via em torno do círculo for muito mais longa que o
normal, no momento em que o impulso retorna à posição de 12 horas, o
músculo, inicialmente estimulado, já não estará refratário, e o impulso
continuará em torno do círculo repetitivamente.
Na segunda, se o comprimento da via permanecer constante, mas a
velocidade de condução diminuir o suficiente, ocorrerá aumento do tempo
para que o impulso retorne à posição de 12 horas. Então, o músculo,
inicialmente estimulado, pode estar fora do estado refratário, e o impulso
pode continuar em torno do círculo repetidas vezes.
Na terceira, o período refratário do músculo pode ficar muito mais curto.
Nesse caso, o impulso também poderá continuar sempre em torno do
círculo.
Todas essas patologias ocorrem em diferentes estados patológicos do
coração humano: (1) tipicamente, existe via mais longa nos corações
dilatados; (2) a diminuição da velocidade de condução muitas vezes decorre de: (a) bloqueio do sistema de Purkinje, (b) isquemia do músculo, (c) níveis
altos de potássio ou (d) muitos outros fatores; e (3) comumente, existe
período refratário mais curto, em resposta a vários medicamentos, como a
epinefrina, ou depois de estimulação elétrica repetitiva. Desse modo, em
muitos distúrbios cardíacos a reentrada pode causar padrões anormais de
contração cardíaca ou ritmos cardíacos anormais, que ignoram os efeitos do
marca-passo do nodo sinusal.
Figura 13-15. Movimento em círculo mostrando a aniquilação do impulso na via curta e a continuação da propagação do impulso na via longa.
Mecanismo de Reação em Cadeia na Fibrilação
Na fibrilação ventricular, veem-se muitas pequenas ondas contráteis
distintas propagando-se ao mesmo tempo em diferentes direções pelo
músculo cardíaco. Os impulsos reentrantes na fibrilação não são
simplesmente impulso único que se propaga em círculo, como mostrado
na Figura 13-15. Ao contrário, degeneram para série de múltiplas frentes de
onda, com o aspecto de “reação em cadeia”. Um dos melhores modos de explicar esse processo na fibrilação é descrever o início da fibrilação por
choque elétrico, com uma corrente elétrica alternada de 60 ciclos.
Fibrilação Causada por Corrente Alternada de 60 Ciclos. No
ponto central dos ventrículos do coração A, na Figura 13-16, é aplicado
estímulo elétrico de 60 ciclos por meio de eletródio estimulador. O primeiro
ciclo do estímulo elétrico ocasiona onda de despolarização que se propaga
em todas as direções, deixando todo o músculo abaixo dos eletródios no
estado refratário. Depois de cerca de 0,25 segundo, parte desse músculo
começa a sair do estado refratário. Algumas partes saem da refratariedade
antes das outras partes. Esse estado dos eventos é representado, no coração
A, por muitas áreas mais claras que representam músculo cardíaco excitável
e por áreas escuras que representam músculo ainda refratário. Agora,
continuando os estímulos de 60 ciclos pelos eletródios, é possível fazer com
que os impulsos só prossigam em determinadas direções pelo coração, mas
não por todas elas. Desse modo, no coração A, certos impulsos caminham
por distâncias curtas até que cheguem a áreas refratárias do coração, onde
são bloqueados. Entretanto, outros impulsos passam por entre as áreas
refratárias e continuam em sua progressão pelas áreas excitáveis. Depois
ocorrem vários eventos em rápida sucessão, todos simultâneos, resultando
no estado de fibrilação.
Primeiro, o bloqueio dos impulsos em algumas direções, mas a
transmissão bem-sucedida em outras direções cria uma das condições
necessárias para o desenvolvimento do sinal reentrante — isto é, a
transmissão de algumas das ondas de despolarização no coração apenas em
algumas direções, mas não em outras.
Segundo, a estimulação rápida do coração causa duas alterações no
próprio músculo cardíaco, ambas predisponentes do movimento de círculo:
(1) a velocidade de condução pelo músculo cardíaco diminui, o que permite
período de tempo mais longo para os impulsos percorrerem o coração; e (2) o período refratário do músculo é encurtado, permitindo a reentrada do
impulso no músculo cardíaco previamente excitado, dentro de tempo menor
do que o normal.
Terceiro, uma das características mais importantes da fibrilação é a
divisão de impulsos, como mostrado no coração A na Figura 13-16. Quando
uma onda de despolarização chega à área refratária no coração, ela se divide
para os dois lados da área refratária. Desse modo, um só impulso passa a ser
duplo. Depois, quando cada um deles chega a outra área refratária também
se divide para formar mais dois impulsos. Desse modo, muitas novas
frentes de ondas estão continuamente sendo formadas no coração por
reações em cadeia progressivas, até que por fim existam muitas ondas
pequenas de despolarização, progredindo em muitas direções ao mesmo
tempo. Além disso, esse padrão irregular da progressão dos impulsos abre
muitas vias cheias de curvas para que os impulsos progridam, alongando
muito a via de condução, que é uma das condições que mantêm a fibrilação.
Também resulta em padrão irregular contínuo de áreas refratárias
irregulares no coração.
Pode-se, com facilidade, ver quando um ciclo vicioso foi iniciado: cada
vez mais impulsos são formados; esses impulsos provocam mais e mais
áreas de músculo refratário, e essas áreas refratárias produzem cada vez
mais divisão dos impulsos. Portanto, a qualquer momento em que uma área
do músculo cardíaco sai da refratariedade, um impulso está muito perto
para reentrar nessa área.
O coração B, na Figura 13-16, mostra o estado final que se desenvolve na
fibrilação. Aí podem-se ver muitos impulsos se dirigindo em todas as
direções, alguns se dividindo e aumentando o número de impulsos, e outros
são bloquea dos por áreas refratárias. De fato, um choque elétrico isolado
durante esse período vulnerável pode, com frequência, provocar um padrão irregular de impulsos que se propagam em múltiplas direções, passando em
torno das áreas refratárias do músculo, levando à fibrilação.
Figura 13-16. A, Início de fibrilação no coração quando estão presentes focos de musculatura refratária. B, Continuação da propagação do impulso fibrilatório no ventrículo em fibrilação.
Eletrocardiograma na Fibrilação Ventricular
Na fibrilação ventricular, o ECG é bizarro (Fig. 13-17) e comumente não
mostra tendência para ritmo regular de qualquer tipo. Durante os primeiros
segundos da fibrilação ventricular, massas de músculo relativamente
grandes se contraem simultaneamente, o que causa ondas grosseiras
irregulares no ECG. Após mais alguns segundos, as contrações grosseiras
dos ventrículos desaparecem, e o eletrocardiograma muda para novo padrão
de ondas muito irregulares e com baixa voltagem. Desse modo, nenhum
padrão eletrocardiográfico repetitivo pode ser atribuído à fibrilação
ventricular. Em seu lugar, o músculo ventricular se contrai, com até 30 a 50 pequenas áreas musculares por vez, e os potenciais eletrocardiográficos
mudam constante e espasmodicamente, porque as correntes elétricas no
coração fluem primeiro em uma direção e, em seguida, em outra, quase
nunca repetindo qualquer ciclo específico.
A voltagem das ondas no ECG da fibrilação ventricular, em geral, é em
torno de 0,5 milivolt, quando a fibrilação ventricular se inicia, mas diminui
rapidamente, de modo que depois de 20 a 30 segundos usualmente é de
apenas 0,2 a 0,3 milivolt. Voltagens diminutas de 0,1 milivolt ou menos
podem ser registradas, por 10 minutos ou mais, depois que começa a
fibrilação ventricular. Como já destacado, visto não ocorrer bombeamento
de sangue durante a fibrilação ventricular o estado é letal, a menos que
interrompido por alguma terapia heroica como eletrochoque imediato do
coração, conforme explicado no tópico a seguir.
Figura 13-17. Fibrilação ventricular (derivação II).
Desfibrilação dos Ventrículos por Eletrochoque
Embora a voltagem moderada de corrente alternada aplicada diretamente
nos ventrículos os leve quase invariavelmente à fibrilação, a corrente
elétrica de alta voltagem que passa pelos ventrículos, por fração de
segundo, pode fazer cessar a fibrilação por lançar todo o músculo
ventricular na refratariedade ao mesmo tempo. Esse feito se consegue
fazendo-se com que corrente intensa passe através do tórax por meio de
grandes eletródios colocados em dois lados do coração. A corrente penetra
na maioria das fibras dos ventrículos ao mesmo tempo, estimulando, assim, essencialmente todas as partes dos ventrículos no mesmo instante e fazendo
com que todas fiquem refratárias. Cessam todos os potenciais de ação, e o
coração fica parado por 3 a 5 segundos voltando a se contrair em seguida,
geralmente com o nodo sinusal ou alguma outra parte do coração passando
a ser o marca-passo. No entanto, se o mesmo foco reentrante que
originalmente jogara os ventrículos na fibrilação ainda está presente, a
fibrilação pode recomeçar imediatamente.
Quando são aplicados eletródios diretamente nos dois lados do coração, a
fibrilação geralmente pode ser interrompida usando 1.000 volts de corrente
direta, aplicada por alguns milésimos de segundo. Quando aplicado por dois
eletródios na parede torácica, como mostrado na Figura 13-18, o
procedimento habitual é carregar um grande capacitor elétrico, com vários
milhares de volts e, em seguida, fazer com que o capacitor descarregue por
alguns milésimos de segundo pelos eletródios e pelo coração.
Na maioria dos casos, a corrente de desfibrilação é fornecida ao coração
na forma de ondas bifásicas, alternando a direção do pulso de corrente
através do coração. Essa forma de administração reduz, substancialmente, a
energia necessária para uma desfibrilação bem-sucedida, o que diminui o
risco de queimaduras e danos ao coração.
Em pacientes com elevado risco de fibrilação ventricular, pode ser
implantado no paciente um pequeno cardioversor desfibrilador implantável
(CDI) alimentado por bateria com fios de eletrodo alojados no ventrículo
direito. O dispositivo é programado de modo a detectar a fibrilação
ventricular e a reverter ao administrar um breve impulso elétrico ao
coração. Os recentes avanços da eletrônica e nas baterias têm permitido o
desenvolvimento de CDI capazes de administrar corrente elétrica suficiente
para desfibrilar o coração, por meio de fios de eletrodo implantados
subcutaneamente, fora da caixa torácica perto do coração, ao invés de no interior ou na superfície do coração. Esses dispositivos podem ser
implantados com uma pequena intervenção cirúrgica.
Figura 13-18. Aplicação de corrente elétrica ao tórax para interromper a fibrilação ventricular.
Bombeamento Manual do Coração (Ressuscitação
Cardiorrespiratória) como Auxiliar da Desfibrilação
A menos que seja desfibrilado em 1 minuto, após o início da fibrilação o
coração em geral estará fraco demais para ser revivido por desfibrilação, em
virtude da falta de nutrição pelo fluxo sanguíneo coronariano. No entanto, ainda é possível reviver o coração por bombeamento manual (compressões