Tratado de Fisiologia Médica
Entrada e Saída de Líquidos são Balanceadas nas Condições Estacionárias
CAPÍTULO 25
Os Compartimentos dos Líquidos
Corporais: Líquidos Extra e
Intracelulares; e Edema
A manutenção de volume relativamente constante e de composição estável
dos líquidos corporais é essencial para a homeostasia. Alguns dos mais
comuns e importantes problemas na medicina clínica ocorrem em função de
anormalidades no sistema de controle, que mantém a homeostasia relativa
dos líquidos corporais. Neste Capítulo e nos Capítulos seguintes a respeito
dos rins, discutiremos a regulação geral do volume do líquido corporal,
constituintes do líquido extracelular, equilíbrio ácido-base e o controle da
troca de líquidos entre os compartimentos extra e intracelulares.
ENTRADA E SAÍDA DE LÍQUIDOS SÃO BALANCEADAS
NAS CONDIÇÕES ESTACIONÁRIAS
A manutenção de volume relativamente constante dos líquidos corporais é
extraordinária, pois existe troca constante de líquidos e solutos com o meio
externo, bem como entre diferentes compartimentos do corpo. Por exemplo,
a entrada de líquidos no corpo é muito variável e deve ser cuidadosamente
combinada com a saída de água, para evitar que o volume de líquido do
corpo aumente ou diminua.
Entrada Diária de Água
A água é adicionada ao corpo por duas fontes principais: (1) ela é ingerida
na forma de líquidos ou pela água nos alimentos, o que ao todo soma um
total de 2.100 mL/dia de água adicionada aos líquidos corporais; e (2) ela é
sintetizada pelo corpo por oxidação de carboidratos, adicionando em torno
de 200 mL/dia. Esses mecanismos proporcionam entrada total de água de
cerca de 2.300 mL/dia (Tabela 25-1). Entretan to, a entrada de água é muito
variável entre as diferentes pessoas e na mesma pessoa em diferentes‐
ocasiões, dependendo do clima, do hábito e do nível de atividade física.
Tabela 25-1 Quantidade Diária de Ganho e Perda de Água (mL/dia)
Normal Exercício Pesado/Prolongado
Ganho
Ingestão de líquidos 2.100 ?
Do metabolismo 200 200
Total ganho 2.300 ?
Perdas
Insensível — pele 350 350
Insensível — pulmões 350 650
Suor 100 5.000
Fezes 100 100
Urina 1.400 500
Total perdido 2.300 6.600
Perda Diária de Água do Corpo
Perda Insensível de Água. Algumas formas de perda de água não
podem ser precisamente reguladas. Por exemplo, os seres humanos
experimentam uma perda constante de água por evaporação no trato
respiratório e por difusão através da pele, o que ao todo corresponde a algo
em torno de 700 mL/dia de perda de água nas condições normais. Isso é
conhecido como perda insensível de água, porque conscientemente não a
percebemos, mesmo que ocorra de forma contínua em todo ser humano
vivo.
Essa perda insensível de água através da pele ocorre independentemente
da sudorese e está presente mesmo em pessoas que nascem sem as
glândulas sudoríparas; a média de perda de água pela difusão através da
pele está em torno de 300 a 400 mL/dia. Essa perda é minimizada pela
camada cornificada cheia de colesterol da pele, que forma barreira contra a
perda excessiva por difusão. Quando a camada cornificada não está
presente, como ocorre nos casos de extensas queimaduras, a intensidade
dessa evaporação pode aumentar por até 10 vezes, para 3 a 5 L/dia. Por essa
razão, as pessoas com queimadura devem receber grande quantidade de
líquidos preferencialmente por via intravenosa, para contrabalançar a perda
de líquido.
A perda insensível de líquido pelo trato respiratório varia em torno de 300
a 400 mL/dia. Quando o ar entra no trato respiratório, fica saturado por
umidade, com pressão de vapor de aproximadamente 47 mmHg, antes de
ser expelido. Em razão de a pressão do vapor do ar inspirado ser geralmente
menor do que 47 mmHg, a água é continuamente perdida pelos pulmões
durante a respiração. Em climas mais frios, a pressão do vapor atmosférico diminui até quase 0, causando perda de água ainda maior pelos pulmões
com a redução da temperatura. Esse processo explica a sensação de
ressecamento nas vias respiratórias durante o frio.
Perda de Líquido no Suor. A quantidade de água perdida através do
suor é muito variável, dependendo de atividade física e da temperatura
ambiente. A quantidade de suor normalmente é de 100 mL/dia, mas em
climas muito quentes ou durante exercícios pesados, a perda de água no
suor geralmente aumenta para 1 a 2 L/hora. Essa perda de líquido pode
rapidamente depletar os líquidos corporais, caso o ganho de líquidos
também não seja aumentado por meio da ativação do mecanismo da sede,
que é discutido no Capítulo 29.
Perda de Água nas Fezes. Normalmente, apenas pequena quantidade
de água (100 mL/dia) é perdida nas fezes. Essa perda pode aumentar para
vários litros por dia em pessoas com diarreia grave. Por essa razão, a
diarreia grave pode ameaçar a vida, caso não seja tratada em poucos dias.
Perda de Água pelos Rins. Outra via pela qual o corpo perde água é
pela urina excretada pelos rins. Múltiplos mecanis mos controlam a
intensidade da excreção urinária. De fato, o meio mais importante pelo qual
o corpo mantém o equilíbrio entre o ganho e a perda de água, bem como o
equilíbrio entre o ganho e a perda de eletrólitos, é pelo controle da
intensidade com que os rins excretam essas substâncias. Por exemplo, o
volume da urina pode ser tão baixo quanto 0,5 L/dia, em pessoa
desidratada, como tão alto quanto 20 L/dia em pessoa que vem ingerindo
grande quantidade de água.
O ganho de eletrólitos pelo corpo também é bastante variá vel. Isso ocorre
com o sódio, o cloreto e o potássio. Em algumas pessoas, o ganho de sódio
pode ser tão baixo quanto 20 mEq/dia, enquanto em outras a entrada de sódio pode ser muito alta (p. ex., 300 a 500 mEq/dia). Os rins deverão