Tratado de Fisiologia Médica

John E. Hall · Capítulo 106 de 351

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Tratado de Fisiologia Médica

Entrada e Saída de Líquidos são Balanceadas nas Condições Estacionárias

CAPÍTULO 25

 

Os Compartimentos dos Líquidos

 

Corporais: Líquidos Extra e

 

Intracelulares; e Edema

 

A manutenção de volume relativamente constante e de composição estável

dos líquidos corporais é essencial para a homeostasia. Alguns dos mais

comuns e importantes problemas na medicina clínica ocorrem em função de

anormalidades no sistema de controle, que mantém a homeostasia relativa

dos líquidos corporais. Neste Capítulo e nos Capítulos seguintes a respeito

dos rins, discutiremos a regulação geral do volume do líquido corporal,

constituintes do líquido extracelular, equilíbrio ácido-base e o controle da

troca de líquidos entre os compartimentos extra e intracelulares.

 

ENTRADA E SAÍDA DE LÍQUIDOS SÃO BALANCEADAS

NAS CONDIÇÕES ESTACIONÁRIAS

A manutenção de volume relativamente constante dos líquidos corporais é

extraordinária, pois existe troca constante de líquidos e solutos com o meio

externo, bem como entre diferentes compartimentos do corpo. Por exemplo,

a entrada de líquidos no corpo é muito variável e deve ser cuidadosamente

combinada com a saída de água, para evitar que o volume de líquido do

corpo aumente ou diminua.

 

Entrada Diária de Água

A água é adicionada ao corpo por duas fontes principais: (1) ela é ingerida

na forma de líquidos ou pela água nos alimentos, o que ao todo soma um

total de 2.100 mL/dia de água adicionada aos líquidos corporais; e (2) ela é

sintetizada pelo corpo por oxidação de carboidratos, adicionando em torno

de 200 mL/dia. Esses mecanismos proporcionam entrada total de água de

cerca de 2.300 mL/dia (Tabela 25-1). Entretan to, a entrada de água é muito

variável entre as diferentes pessoas e na mesma pessoa em diferentes‐

ocasiões, dependendo do clima, do hábito e do nível de atividade física.

 

Tabela 25-1 Quantidade Diária de Ganho e Perda de Água (mL/dia)

Normal Exercício Pesado/Prolongado

Ganho

Ingestão de líquidos 2.100 ?

Do metabolismo 200 200

Total ganho 2.300 ?

Perdas

Insensível — pele 350 350

Insensível — pulmões 350 650

Suor 100 5.000

Fezes 100 100

Urina 1.400 500

Total perdido 2.300 6.600

 

Perda Diária de Água do Corpo

 

Perda Insensível de Água. Algumas formas de perda de água não

podem ser precisamente reguladas. Por exemplo, os seres humanos

experimentam uma perda constante de água por evaporação no trato

respiratório e por difusão através da pele, o que ao todo corresponde a algo

em torno de 700 mL/dia de perda de água nas condições normais. Isso é

conhecido como perda insensível de água, porque conscientemente não a

percebemos, mesmo que ocorra de forma contínua em todo ser humano

vivo.

Essa perda insensível de água através da pele ocorre independentemente

da sudorese e está presente mesmo em pessoas que nascem sem as

glândulas sudoríparas; a média de perda de água pela difusão através da

pele está em torno de 300 a 400 mL/dia. Essa perda é minimizada pela

camada cornificada cheia de colesterol da pele, que forma barreira contra a

perda excessiva por difusão. Quando a camada cornificada não está

presente, como ocorre nos casos de extensas queimaduras, a intensidade

dessa evaporação pode aumentar por até 10 vezes, para 3 a 5 L/dia. Por essa

razão, as pessoas com queimadura devem receber grande quantidade de

líquidos preferencialmente por via intravenosa, para contrabalançar a perda

de líquido.

A perda insensível de líquido pelo trato respiratório varia em torno de 300

a 400 mL/dia. Quando o ar entra no trato respiratório, fica saturado por

umidade, com pressão de vapor de aproximadamente 47 mmHg, antes de

ser expelido. Em razão de a pressão do vapor do ar inspirado ser geralmente

menor do que 47 mmHg, a água é continuamente perdida pelos pulmões

durante a respiração. Em climas mais frios, a pressão do vapor atmosférico diminui até quase 0, causando perda de água ainda maior pelos pulmões

com a redução da temperatura. Esse processo explica a sensação de

ressecamento nas vias respiratórias durante o frio.

 

Perda de Líquido no Suor. A quantidade de água perdida através do

suor é muito variável, dependendo de atividade física e da temperatura

ambiente. A quantidade de suor normalmente é de 100 mL/dia, mas em

climas muito quentes ou durante exercícios pesados, a perda de água no

suor geralmente aumenta para 1 a 2 L/hora. Essa perda de líquido pode

rapidamente depletar os líquidos corporais, caso o ganho de líquidos

também não seja aumentado por meio da ativação do mecanismo da sede,

que é discutido no Capítulo 29.

 

Perda de Água nas Fezes. Normalmente, apenas pequena quantidade

de água (100 mL/dia) é perdida nas fezes. Essa perda pode aumentar para

vários litros por dia em pessoas com diarreia grave. Por essa razão, a

diarreia grave pode ameaçar a vida, caso não seja tratada em poucos dias.

 

Perda de Água pelos Rins. Outra via pela qual o corpo perde água é

pela urina excretada pelos rins. Múltiplos mecanis mos controlam a

intensidade da excreção urinária. De fato, o meio mais importante pelo qual

o corpo mantém o equilíbrio entre o ganho e a perda de água, bem como o

equilíbrio entre o ganho e a perda de eletrólitos, é pelo controle da

intensidade com que os rins excretam essas substâncias. Por exemplo, o

volume da urina pode ser tão baixo quanto 0,5 L/dia, em pessoa

desidratada, como tão alto quanto 20 L/dia em pessoa que vem ingerindo

grande quantidade de água.

O ganho de eletrólitos pelo corpo também é bastante variá vel. Isso ocorre

com o sódio, o cloreto e o potássio. Em algumas pessoas, o ganho de sódio

pode ser tão baixo quanto 20 mEq/dia, enquanto em outras a entrada de sódio pode ser muito alta (p. ex., 300 a 500 mEq/dia). Os rins deverão