Tratado de Fisiologia Médica
Mecanismos de Ação dos Hormônios
Hormônios que se ligam a proteínas plasmáticas são removidos do sangue
com intensidade muito menor (mais lenta) e podem continuar na circulação
por várias horas ou mesmo dias. A meia-vida dos esteroides adrenais na
circulação, por exemplo, varia entre 20 e 100 minutos, enquanto a meia-
vida dos hormônios da tireoide, ligados a proteínas, pode ser de 1 a 6 dias.
MECANISMOS DE AÇÃO DOS HORMÔNIOS
RECEPTORES HORMONAIS E SUA ATIVAÇÃO
A primeira etapa da ação do hormônio é a de se ligar a receptores
específicos, na célula-alvo. As células que não têm receptores para
hormônios não respondem. Os receptores, para alguns hormônios, estão
localizados na membrana da célula-alvo, enquanto outros receptores
hormonais localizam-se no citoplasma ou no núcleo. Quando o hormônio se
combina com seu receptor, essa ação em geral inicia uma cascata de reações
na célula, com cada etapa ficando mais potencialmente ativada, de modo
que até pequenas concentrações do hormônio podem ter grande efeito.
Os receptores hormonais são grandes proteínas e cada célula estimulada
tem em geral uns 2.000 a 100.000 receptores. Igualmente, cada receptor
costuma ser muito específico para um só hormônio; isso determina o tipo de
hormônio que atuará sobre um tecido em particular. Os tecidos-alvo,
afetados por um hormônio, são os que contêm seus receptores específicos.
As localizações para os diferentes tipos de receptores de hormônios, em
geral, são as seguintes:
1. Na membrana celular ou em sua superfície. Os receptores de membrana
são específicos, principalmente para os hormônios proteicos, peptídicos
e catecolamínicos.
2. No citoplasma celular. Os receptores primários para os diferentes
hormônios esteroides são encontrados principalmente no citoplasma.
3. No núcleo da célula. Os receptores para os hormônios da tireoide são
encontrados no núcleo e acredita-se que sua localização está em
associação direta com um ou mais dos cromossomos.
O Número e a Sensibilidade dos Receptores Hormonais São
Regulados. O número de receptores na célula-alvo, em geral, não
permanece constante dia após dia ou, até mesmo, de minuto em minuto. As
proteínas do receptor costumam ser inativadas ou destruídas durante o curso
de sua função e, em outras vezes, são reativadas ou fabricadas novas
proteínas. Por exemplo, o aumento da concentração de hormônio e o
aumento da ligação aos receptores de sua célula-alvo, algumas vezes, fazem
com que o número de receptores ativos diminua. Essa regulação para baixo
(down-regulation) dos receptores pode ocorrer em decorrência de: (1)
inativação de algumas das moléculas de receptores; (2) inativação de parte
das moléculas de sinalização das proteínas intracelulares; (3) sequestro
temporário do receptor para o interior da célula, longe do local de ação dos
hormônios que interagem com os receptores de membrana; (4) destruição
dos receptores por lisossomos depois de serem interiorizados; ou (5)
diminuição da produção dos receptores. Em cada caso, a regulação para
baixo diminui a responsividade do tecido-alvo ao hormônio.
Alguns hormônios causam regulação para cima (up-regulation) dos
receptores e das proteínas de sinalização intracelular; isto é, estimular o
hormônio induz a formação de receptores ou moléculas de sinalização
intracelular, maior que a normal, pela célula-alvo ou maior disponibilidade
do receptor para interação com o hormônio. Quando isso ocorre, o tecido-
alvo se torna cada vez mais sensível aos efeitos de estimulação do
hormônio.
SINALIZAÇÃO INTRACELULAR APÓS A ATIVAÇÃO DO
RECEPTOR HORMONAL
Quase sem exceção, o hormônio afeta seus tecidos-alvo formando,
primeiro, um complexo hormônio-receptor. A formação desse complexo
altera a função do próprio receptor e o receptor ativado inicia os efeitos
hormonais. Para explicar isto, vamos citar alguns exemplos dos diferentes
tipos de interações.
Receptores Ligados a Canais Iônicos. Praticamente todas as
substâncias neurotransmissoras, como a acetilcolina e a norepinefrina,
combinam-se com receptores na membrana pós-sináptica. Essa combinação
causa, quase sempre, alteração da estrutura do receptor, geralmente abrindo
ou fechando o canal para um ou mais íons. Alguns desses receptores
ligados a canais iônicos abrem (ou fecham) canais para íons sódio, outros
para íons potássio, outros para íons cálcio, e assim por diante. A alteração
do movimento desses íons pelos canais causa os efeitos subsequentes nas
células pós-sinápticas. Embora alguns hormônios possam exercer algumas
de suas ações através de ativação de receptores de canais iônicos, a maioria
dos hormônios que abre ou fecha canais iônicos o faz, indiretamente, por
acoplamento com receptores ligados às proteínas G ou ligados a enzimas,
como discutido a seguir.
Receptores Hormonais Ligados à Proteína G. Muitos hormônios
ativam receptores que regulam indiretamente a atividade de proteínas-alvo
(p. ex., enzimas ou canais iônicos) por acoplamento com grupos de
proteínas da membrana celular, chamadas proteínas heterotriméricas de
ligação a guanosina trifosfato (GTP) (proteínas G) (Figura 75-4). Existem
mais de 1.000 receptores conhecidos acoplados às proteínas G, e todos eles
têm sete segmentos transmembrana que formam alça para o interior da
célula e para o exterior da membrana celular. Algumas partes do receptor
que fazem protrusão para o citoplasma celular (especialmente a cauda
citoplasmática do receptor) são acopladas às proteínas G que incluem três partes (i. e., triméricas) — as subunidades a, b e g. Quando o ligante
(hormônio) se une à parte extracelular do receptor, ocorre alteração da
conformação no receptor, ativando as proteínas G e induzindo sinais
intracelulares que (1) abrem ou fecham os canais iônicos da membrana
celular, (2) mudam a atividade de uma enzima no citoplasma da célula, ou
(3) ativam a transcrição gênica.
As proteínas G triméricas são assim denominadas por sua capacidade de
ligar-se a nucleotídeos de guanosina. Em seu estado inativo, as subunidades
a, b e g das proteínas G formam complexo que se liga ao guanosina
difosfato (GDP) na subunidade a. Quando o receptor é ativado, ele passa
por alteração de conformação que faz com que a proteína G trimérica,
ligada ao GDP, associe-se à parte citoplasmática do receptor e troque GDP
por GTP. O deslocamento do GDP por GTP faz com que a subunidade a se
dissocie do complexo trimérico e se associe a outras proteínas de
sinalização intracelular; essas proteínas, por sua vez, alteram a atividade
dos canais iônicos ou de enzimas intracelulares como a adenilil ciclase ou a
fosfolipase C, o que altera a função da célula.
O evento de sinalização é rapidamente terminado, quando o hormônio é
removido e a subunidade a se inativa por conver são de seu GTP ligado em
GDP; depois, a subunidade a, mais uma vez, combina-se às subunidades b
e g para formar proteína G trimérica ligada à membrana e inativa.
No Capítulo 46 são discutidos detalhes adicionais da sinalização da proteína
G, que igualmente são apresentados na Figura 46-7.
Alguns hormônios se acoplam a proteínas G inibitórias (denotadas como
proteínas G ), enquanto outros se unem a proteínas G estimuladoras i
(denotadas como proteínas G ). Dessa forma, dependendo do acoplamento e
do receptor hormonal à proteína G inibitória ou estimuladora, o hormônio
pode aumentar ou diminuir a atividade das enzimas intracelulares. Esse
sistema complexo de proteínas G da membrana celular permite conjunto variado de respostas celulares em potencial a diferentes hormônios, nos
vários tecidos-alvo do corpo.
Figura 75-4. Mecanismo de ativação de um receptor acoplado a proteína G. Quando o hormônio ativa o receptor, o complexo de proteínas G a, b e g inativas, associa-se ao receptor e é ativado, com uma troca de guanotrifosfato (GTP) por guanosina difosfato (GDP). Isso faz com que a subunidade a (à qual está ligado o GTP) se dissocie das subunidades b e g da proteína G e interaja com as proteínas-alvo ligadas à membrana (enzimas) que iniciam sinais intracelulares.
Receptores Hormonais Ligados a Enzimas. Alguns receptores,
quando ativados, funcionam diretamente como enzimas ou se associam
estreitamente às enzimas que ativam. Esses receptores ligados a enzimas
são proteínas que atravessam a membrana por apenas uma vez,
diferentemente das sete alças transmembranas dos receptores acoplados às
proteínas G. Os receptores ligados a enzimas têm seu local de ligação ao
hormônio no exterior da membrana celular e seu local catalítico ou de
ligação a enzima, no interior. Quando o hormônio se liga à parte
extracelular do receptor, é ativada (ou por vezes inativada) uma enzima,
imediatamente dentro da membrana celular. Embora muitos receptores
ligados a enzimas tenham atividade enzimática intrínseca, outros dependem
de enzimas que se associam estreitamente ao receptor para produzir
alterações na função celular.
A Tabela 75-2 lista alguns dos muitos fatores de crescimento peptídicos,
citocinas, e hormônios que utilizam as tirosinas cinases de receptores
hormonais para a sinalização celular. Um exemplo de receptor ligado à
enzima é o receptor de leptina (Figura 75-5). A leptina é o hormônio
secretado por células adiposas e tem muitos efeitos fisiológicos, mas é
especialmente importante na regulação do apetite e do balanço energético,
como discutido no Capítulo 72. O receptor da leptina é membro de grande
família de receptores de citocinas que não contêm, eles mesmos, atividade
enzimática, mas sinalizam por meio de enzimas associadas. No caso do
receptor de leptina, uma das vias de sinalização ocorre por meio de
tirosinocinase da família janus cinase (JACK), a JAK2. O receptor de
leptina existe como dímero (i. e., em duas partes) e a ligação da leptina à
parte extracelular do receptor altera sua conformação, possibilitando
fosforilação e a ativação das moléculas JAK2 associadas ao intracelular. As
moléculas JAK2 ativadas, então, fosforilam outros resíduos de tirosina do
complexo receptor-JAK2 da leptina, para mediar a sinalização intracelular.
Os sinais intracelulares incluem fosforilação de proteínas de transdutor de
sinal e de ativador de transcrição (STAT), o que ativa a transcrição pelos
genes-alvo da leptina a iniciar a síntese proteica. A fosforilação de JAK2
também leva à ativação de outras vias enzimáticas intracelulares como as
cinases de proteínas ativadas por mitógenos (MAPK) e fosfatidilinositol 3-
cinase (PI3K). Alguns dos efeitos da leptina ocorrem rapidamente em
decorrência de ativação dessas enzimas intracelulares, enquanto outras
ações ocorrem de forma mais lenta e exigem síntese de novas proteínas.
Outro exemplo, amplamente usado no controle hormonal da função
celular, é o do hormônio que se liga a receptor transmembrana especial, que
então se torna a enzima ativada adenilil ciclase ao final, que faz protrusão
para o interior da célula. Essa ciclase catalisa a formação de AMPc, o qual
tem múltiplos efeitos na célula para controlar a atividade celular, como ainda será descrito com mais detalhes. O AMPc é chamado segundo
mensageiro, porque não é o próprio hormônio que institui diretamente as
alterações intracelulares; em lugar disso, o AMPc serve como segundo
mensageiro para causar esses efeitos.
Para alguns hormônios peptídicos, como o peptídeo natriurético atrial, o
monofosfato guanosina cíclico, que é apenas pouco diferente do AMPc,
serve de modo semelhante, como segundo mensageiro.
Tabela 75-2 Hormônios Utilizados na Sinalização do Receptor Tirosina Cinase
Fator de crescimento fibroblástico
Hormônio do crescimento
Fator de crescimento do hepatócito
Insulina
Fator de crescimento semelhante à insulina 1
Leptina
Prolactina
Fator de crescimento endotelial vascular
Figura 75-5. Um receptor ligado a enzimas — o receptor de leptina. O receptor existe como homodímero (duas partes idênticas), e a leptina se liga à parte extracelular do receptor, causando fosforilação e ativação da janus quinase 2 (JAK2) intracelular associada. Esse mecanismo causa fosforilação das proteínas transdutoras de sinal e ativadoras da transcrição (STAT), que então ativam a transcrição de genes-alvo e a síntese de proteínas. A fosforilação de JAK2 também ativa vários outros sistemas de enzimas que medeiam alguns dos efeitos mais rápidos da leptina. Y, locais de fosforilação específicos da tirosina.
Receptores Hormonais Intracelulares e Ativação de Genes.
Vários hormônios, incluindo os hormônios esteroides adrenais e os
gonádicos, os hormônios da tireoide, os hormônios retinoides e a vitamina
D, ligam-se a receptores proteicos dentro da célula, e não na membrana‐
celular. Como esses hormônios são lipossolúveis, eles pron tamente atravessam a membrana celular e interagem com receptores no citoplasma
ou no núcleo. O complexo hormônio-receptor ativado então se liga à
sequência do DNA regulador (promotor) específico chamado elemento de
resposta hormonal e, dessa maneira, ativa ou reprime a transcrição de genes
específicos e a formação de RNA mensageiro (mRNA) (Figura 75-6).
Portanto, minutos, horas ou até dias, depois do hormônio entrar na célula,
aparecem proteínas recém-formadas na célula, que passam a ser as
controladoras das funções celulares novas ou alteradas.
Muitos tecidos diferentes têm receptores hormonais intracelulares
idênticos, mas os genes que os receptores regulam são diferentes nos vários
tecidos. Um receptor intracelular só pode ativar a resposta do gene se
estiver presente a combinação apropriada das proteínas reguladoras dos
genes, e muitas dessas proteínas reguladoras são tecido-específicas. Desse
modo, as respostas de diferentes tecidos ao hormônio são determinadas não
apenas pela especificidade dos receptores, mas também pela expressão dos
genes que o receptor regula.
Figura 75-6. Mecanismos de interação de hormônios lipofílicos, como os esteroides, com receptores intracelulares nas células-alvo. Depois que o hormônio se liga ao receptor no citoplasma ou no núcleo, o complexo hormônio-receptor se liga ao elemento de resposta hormonal (promotor) no DNA. Isso ativa ou inibe a transcrição genética, a formação do RNA mensageiro (mRNA) e a síntese proteica.
MECANISMOS DE SEGUNDO MENSAGEIRO PARA
MEDIAR FUNÇÕES HORMONAIS INTRACELULARES
Já notamos antes que um dos meios pelos quais os hormônios exercem
ações intracelulares é pelo estímulo da formação de segundo mensageiro,
AMPc, na face interna da membrana celular. O AMPc então causa efeitos
intracelulares subsequentes do hormônio. Desse modo, o único efeito direto
que o hormônio tem sobre a célula é ativar um só tipo de receptor de
membrana. O segundo mensageiro faz o restante.
O AMPc não é apenas o segundo mensageiro usado pelos diferentes
hormônios. Dois outros especialmente importantes são: (1) os íons cálcio e a calmodulina associada; e (2) produtos da degradação de fosfolipídios da
membrana.
Sistema de Segundo Mensageiro da Adenilil Ciclase-
AMPc
A Tabela 75-3 mostra alguns dos muitos hormônios que usam o mecanismo
adenilil ciclase-AMPc para estimular seus tecidos-alvo, e aFigura 75-
7 mostra o próprio sistema do segundo mensageiro adenilil ciclase-AMPc.
A ligação dos hormônios ao receptor permite o acoplamento do receptor à
proteína G. Se a proteína G estimular o sistema adenilil ciclase-AMPc, ela
será chamada proteína G , denotando proteína G estimuladora. A e
estimulação da adenilil ciclase, uma enzima ligada à membrana pela
proteína G catalisa então a conversão de pequena quantidade de trifosfato e
de adenosina citoplasmático em AMPc, dentro da célula. Isso ativa a
proteínocinase dependente de AMPc, que fosforila proteínas específicas na
célula, desencadeando reações bioquímicas que, finalmente, produzem a
resposta da célula ao hormônio.
Uma vez que o AMPc seja formado dentro da célula ele, em geral, ativa
cascata de enzimas. Isso significa que a primeira enzima é ativada, o que
ativa uma segunda enzima, que ativa uma terceira e assim por diante. A
importância desse mecanismo é que somente algumas moléculas de adenilil
ciclase ativadas na face interna da membrana celular podem fazer com que
muito mais moléculas da enzima seguinte sejam ativadas, fazendo com que
ainda mais moléculas da terceira enzima sejam ativadas e assim por diante.
Desse modo, até a quantidade mais discreta de hormônio atuando sobre a
superfície celular pode iniciar cascata poderosa que ativa toda a célula.
Se a ligação do hormônio a seus receptores for acoplada à proteína G
inibitória (denotada como proteína G ), a adenilil ciclase será inibida, i
reduzindo a formação de AMPc e, finalmente, levando à ação inibitória da célula. Desse modo, dependendo do acoplamento do receptor hormonal à
proteína G inibitória ou estimuladora, o hormônio pode aumentar ou
diminuir a concentração de AMPc e a fosforilação das proteínas-chave no
interior da célula.
A ação específica que ocorre em resposta a aumentos ou diminuições de
AMPc, em cada tipo de célula-alvo, depende da natureza da maquinaria
intracelular — algumas células têm conjunto de enzimas e outras células
têm outras enzimas. Portanto, diferentes funções são desencadeadas em
diferentes células-alvo, tais como iniciar a síntese de substâncias químicas
intracelulares específicas, causar contração ou relaxamento muscular,
iniciar a secreção pelas células e alterar a permeabilidade celular.
Desse modo, a célula da tireoide estimulada por AMPc forma os
hormônios metabólicos tiroxina e tri-iodotironina, enquanto o mesmo
AMPc na célula adrenocortical causa secreção dos hormônios esteroides
adrenocorticais. Em algumas células epiteliais dos túbulos renais distais e
coletores, o AMPc aumenta a permeabilidade à água.
Tabela 75-3 Alguns Hormônios que Usam o Sistema de Segundo Mensageiro de
Adenilil Ciclase-AMPc
Hormônio adrenocorticotrópico (ACTH)
Angiotensina II (células epiteliais)
Calcitonina
Catecolaminas (receptores b)
Hormônio liberador de corticotropina (CRH)
Hormônio folículo-estimulante (FSH)
Glucagon
Hormônio liberador do hormônio do crescimento (GHRH)
Gonadotropina coriônica humana (HCG)
Hormônio luteinizante (LH)
Paratormônio (PTH)
Secretina
Somatostatina
Hormônio tireoestimulante (TSH)
Vasopressina (receptor V , células epiteliais) 2
Figura 75-7. Mecanismo do monofosfato adenosina cíclico (AMPc), pelo qual muitos hormônios exercem seu controle da função celular. ADP, adenosina difosfato; ATP, adenosina trifosfato.
O Sistema de Segundo Mensageiro dos Fosfolipídios da
Membrana Celular
Alguns hormônios ativam receptores transmembranas que ativam a enzima
fosfolipase C fixada às projeções internas dos receptores (Tabela 75-4).
Essa enzima catalisa a degradação de alguns fosfolipídios na membrana
celular, especialmente o bifosfato de fosfatidilinositol (PIP ), em dois 2 produtos diferentes de segundos mensageiros: trifosfato de inositol (IP ) e 3
diacilglicerol (DAG). O IP mobiliza os íons cálcio das mitocôndrias e do 3
retículo endoplasmático, e os íons cálcio então têm seus próprios efeitos de
segundo mensageiro, tais como a contração da musculatura lisa e as
alterações da secreção celular.
O DAG, o outro segundo mensageiro lipídico, ativa a enzima
proteinocinase C, que então fosforila grande número de proteínas, levando
à resposta celular (Figura 75-8). Além desses efeitos, a parte lipídica do
DAG é o ácido araquidônico, o precursor para as prostaglandinas e outros
hormônios locais, causadores de múltiplos efeitos nos tecidos de todo o
corpo.
Tabela 75-4 Alguns Hormônios Que Usam o Sistema de Segundo Mensageiro de
Adenilil Ciclase-AMPc
Angiotensina II (músculo liso vascular)
Catecolaminas (receptores a)
Hormônio de liberação das gonadotropinas (GnRH)
Hormônio de liberação do hormônio de crescimento (GHRH)
Paratormônio (PTH)
Ocitocina
Hormônio de liberação do hormônio tireóideo (TRH)
Vasopressina (receptor V , músculo liso vascular) 1
Figura 75-8. O sistema de segundo mensageiro de fosfolipídios da membrana celular pelo
qual alguns hormônios exercem seu controle da função celular. DAG, diacilglicerol; IP , 3
trifosfato de inositol; PIP , bifosfato de fosfatidilinositol. 2
Sistema de Segundo Mensageiro do Cálcio-Calmodulina
Outro sistema de segundo mensageiro opera em resposta à entrada de cálcio
nas células. A entrada de cálcio pode ser iniciada por: (1) alterações do potencial de membrana, que abrem os canais de cálcio; ou (2) hormônio
interagindo com receptores de membrana, que abrem os canais de cálcio.
Ao entrar na célula, os íons cálcio se ligam à proteína calmodulina. Essa
proteína tem quatro sítios para a ligação do cálcio, e quando três ou quatro
desses locais se ligarem ao cálcio, a calmodulina altera sua forma e inicia
múltiplos efeitos dentro da célula, incluindo ativação ou inibição de
proteinocinases. A ativação das proteinocinases dependentes da
calmodulina causa pela fosforilação a ativação ou inibição de proteínas
envolvidas na resposta da célula ao hormônio. Por exemplo, a função
específica da calmodulina é a de ativar a cadeia leve da miosinocinase, que
atua diretamente sobre a miosina do músculo liso, causando contração do
músculo liso (Figura 8-3).
A concentração normal de íons cálcio na maioria das células do corpo é de
10 −8 −7 a 10 mol/L, o que não é suficiente para ativar o sistema da
calmodulina. Mas quando a concentração do íon cálcio se eleva para 10−6 a
10 −5 mol/L, ocorre ligação suficiente para causar todas as ações
intracelulares da calmodulina. Essa é quase exatamente a mesma
quantidade de alteração do íon cálcio exigida no músculo esquelético para
ativar a troponina C, o que causa contração do músculo esquelético, como
explicado no Capítulo 7. É interessante que a troponina C é semelhante à
calmodulina em função e estrutura proteica.
HORMÔNIOS QUE ATUAM PRINCIPALMENTE SOBRE A
MAQUINARIA GENÉTICA DA CÉLULA
Hormônios Esteroides Aumentam a Síntese Proteica
Outro meio pelo qual os hormônios atuam, especificamente os hormônios
esteroides, é ocasionando a síntese de proteínas nas células-alvo. Essas proteínas então funcionam como enzimas, proteínas de transporte ou
proteínas estruturais, que, por sua vez, exercem outras funções nas células.
A sequência de eventos na função dos esteroides é essencialmente a
seguinte (Figura 75-6):
1. O hormônio esteroide se difunde pela membrana celular e entra no
citoplasma da célula, onde se liga à proteína receptora específica.
2. A proteína receptora-hormônio combinados, então, se difunde ou é
transmitida para o núcleo.
3. A combinação se liga a pontos específicos nos filamentos de DNA nos
cromossomos, o que ativa o processo de transcrição de genes específicos
para formar mRNA.
4. O mRNA se difunde para o citoplasma, onde promove o processo de
tradução nos ribossomos, para formar novas proteínas.
Para dar um exemplo, a aldosterona, um dos hormônios secretados pelo
córtex adrenal, entra no citoplasma das células tubulares renais, que contêm
proteína específica, frequentemente chamada receptor mineralocorticoide.‐
Portanto, nessas células, segue-se a sequência dos eventos citados antes.
Depois de cerca de 45 minutos, a proteína começa a aparecer nas células
tubulares renais e a promover reabsorção de sódio dos túbulos e secreção de
potássio para os túbulos. Desse modo, a ação completa do hormônio
esteroide demora caracteristicamente pelo menos 45 minutos — até várias
horas ou mesmo dias. Isso se contrasta de modo acentuado com a rápida
ação de alguns dos peptídeos e hormônios derivados de aminoácidos, como
a vasopressina e a norepinefrina.
Hormônios da Tireoide Aumentam a Transcrição de
Genes no Núcleo das Células
Os hormônios da tireoide, tiroxina e tri-iodotironina, causam aumento da
transcrição por genes específicos no núcleo. Para conseguir esse aumento da transcrição, esses hormônios primeiro se ligam diretamente às proteínas
do receptor no núcleo, como discutido em maior detalhe no Capítulo
77 (Figura 77-5); esses receptores são fatores de transcrição ativados,
localizados no complexo cromossômico e, talvez, controlem a função dos
promotores genéticos, como explicado no Capítulo 3.
Duas características importantes da função dos hormônios da tireoide no
núcleo são as seguintes:
1. Eles ativam os mecanismos genéticos para a formação de muitos tipos
de proteínas intracelulares — provavelmente 100 ou mais. Muitas dessas
proteínas intracelulares são enzimas que promovem aumento da
atividade metabólica intracelular, praticamente em todas as células do
corpo.
2. Uma vez ligados aos receptores intranucleares, os hormônios da tireoide
podem continuar a expressar suas funções de controle por dias ou até
semanas.
Medida das Concentrações de Hormônios no Sangue
A maioria dos hormônios está no sangue em quanti dades extremamente
pequenas; algumas concentrações não passam de um bilionésimo de miligrama
(1 picograma) por mililitro. Portanto, foi muito difícil medir essas concentrações
pelos meios químicos habituais. Método extremamente sensível, contudo, foi
desenvolvido há cerca de 50 anos e revo lucionou a medida dos hormônios, de
seus precursores e de seus produtos finais metabólicos. Esse método é chamado
radioimunoensaio. Mais recentemente, desenvolveram-se outros métodos, como
ensaios de imunoadsorção ligados a enzimas, para uma medição precisa e de alto
rendimento dos hormônios.
Radioimunoensaio
O método de realizar o radioimunoensaio é o seguinte. Em primeiro lugar,
produz-se um anticorpo altamente específico para o hormônio a ser medido.
Em segundo lugar, pequena quantidade desse anticorpo é (1) misturada à
quantidade de líquido do animal contendo o hormônio a ser medido; e (2)
misturada simultaneamente com quantidade apropriada de hormônio padrão
purificado, marcado com isótopo radioativo. No entanto, condição específica precisa ser cumprida: é necessário haver pouquíssimo anticorpo para se ligar
completamente, tanto ao hormônio radiomarcado quanto ao hormônio no líquido a ser testado. Portanto, o hormônio natural no líquido de ensaio e o hormônio
padrão radioativo competem pelos locais de ligação do anticorpo. No processo de competição, a quantidade de cada um dos dois hormônios, o natural e o
radioativo, que se liga, é proporcional à sua concentração no líquido teste.
Em terceiro lugar, depois da ligação ter alcançado equilíbrio, o complexo
anticorpo-hormônio é separado do restante da solução, e a quantidade de hormônio radioativo ligada a esse complexo é medida por técnicas de contagem
radioativa. Se grande quantidade de hormônio radioativo estiver ligada ao
anticorpo, ficará claro que houve somente pequena quantidade de hormônio natural para competir com o hormônio radioativo e, portanto, a concentração do hormônio natural no líquido testado foi pequena. Inversamente, se apenas
pequena quantidade de hormônio radioativo se ligou, ficará claro que houve grande quantidade de hormônio natural para competir pelos locais de ligação.
Em quarto lugar, para tornar a prova extremamente quantitativa, o procedimento
de radioimunoensaio também é realizado para soluções “padrão” de hormônio não
marcado, em vários níveis de concentração. Depois, faz-se uma “curva padrão”,
como mostrado naFigura 75-9. Comparando as contagens radioativas registradas
dos procedimentos de prova “desconhecidos” com a curva padrão, pode-se
determinar, dentro de margem de erro de 10% a 15%, a concentração do hormônio no líquido testado “desconhecido”. Não mais que bilionésimos ou trilionésimos de 1 grama de hormônio podem ser testados desse modo.
Figura 75-9. “Curva padrão” para radioimunoensaio de aldosterona. (Cortesia do Dr. Manis Smith.)
Ensaio Imunossorvente Ligado à Enzima
Os ensaios imunossorventes ligados à enzima (ELISAs) podem ser usados para
dosar quase qualquer proteína, inclusive hormônios. Esse teste combina a
especificidade dos anticorpos com a sensibilidade de provas enzimáticas simples.
A Figura 75-10 mostra os elementos básicos deste método, que costuma ser
realizado em placas de plástico que têm 96 pequenos reservatórios. Cada
reservatório é revestido com um anticorpo (AB ) específico para o hormônio 1
ensaiado. São acrescentados amostras ou padrões a cada um dos reservatórios,
seguindo-se pela colocação de um segundo anticorpo (AB ), também específico 2
para o hormônio, mas que se liga a local diferente da molécula de hormônio.
Terceiro anticorpo (AB ) é acrescentado, e ele reconhece AB e é acoplado à 3 2
enzima que converte o substrato adequado em um produto que pode ser
facilmente detectado por métodos ópticos colorimétricos ou fluorescentes.
Como cada molécula de enzima catalisa a formação de muitos milhares de
moléculas de produtos, mesmo quantidades muito pequenas de moléculas de
hormônio podem ser detectadas. Diferentemente dos métodos competitivos de radioimunoensaio, os métodos ELISA usam excesso de anticorpos, de modo que
todas as moléculas de hormônio são capturadas nos complexos anticorpo-hormônio. Portanto, a quantidade de hormônio presente na amostra ou no padrão
é proporcional à quantidade do produto formado.
O método ELISA tornou-se amplamente usado em laboratórios clínicos porque
(1) não emprega isótopos radioativos; (2) grande parte da prova pode ser
automatizada usando-se placas com 96 reservatórios; e (3) ele comprovou ser um método com bom custo-eficácia e preciso para avaliar níveis hormonais.
Figura 75-10. Princípios básicos do ensaio imunossorvente ligado à enzima para dosar a
concentração de um hormônio (H). AB e AB são anticorpos que reconhecem o hormônio 1 2 em diferentes locais de ligação e AB é um anticorpo que reconhece AB . É uma enzima 3 2 ligada a AB que catalisa a formação de um produto fluorescente colorido (P) a partir de 3
um substrato (S). A quantidade de produto é medida usando-se métodos ópticos e é proporcional à quantidade de hormônio no reservatório se houver excesso de anticorpos neste.
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