Tratado de Fisiologia Médica
Síntese e Secreção dos Hormônios Adrenocorticais
Os mineralocorticoides receberam este nome porque afetam, especificamente,
os eletrólitos (os “minerais”) dos líquidos extracelulares, sobretudo sódio e
potássio. Os glico corticoides têm este nome por seus importantes efeitos que
aumentam a concentração sanguínea de glicose. Apresentam efeitos adicionais
nos metabolismos proteico e lipídico que são tão importantes para a função
corporal quanto seus efeitos no metabolismo dos carboidratos.
Mais de 30 esteroides foram isolados do córtex adrenal, mas dois deles
apresentam excepcional importância para a função endócrina normal do corpo
humano: a aldosterona, que é o principal mineralocorticoide, e o cortisol, o
principal glicocorticoide.
SÍNTESE E SECREÇÃO DOS HORMÔNIOS
ADRENOCORTICAIS
O CÓRTEX ADRENAL TEM TRÊS CAMADAS DISTINTAS
A Figura 78-1 mostra que o córtex adrenal é composto por três camadas
relativamente distintas:
1. A zona glomerulosa, uma fina camada de células, localizada imediatamente
abaixo da cápsula, constitui cerca de 15% do córtex adrenal. Essas células são
as únicas, na glândula adrenal, capazes de secretar quantidade significativa de
aldosterona porque contêm a enzima aldosterona sintase, que é necessária
para sua síntese. A secreção dessas células é controlada, principalmente, pelas
concentrações no líquido extracelular de angiotensina II e de potássio, os
quais estimulam a secreção de aldosterona.
2. A zona fasciculada, a camada do meio e a mais ampla, constitui cerca de
75% do córtex adrenal e secreta os glicocorticoides cortisol e corticosterona,
bem como pequenas quantidades de androgênios e estrogênios adrenais. A
secreção dessas células é controlada, em grande parte, pelo eixo hipotalâmico-
hipofisário por meio do hormônio adrenocorticotrópico (ACTH).
3. A zona reticular, a camada mais profunda do córtex, secreta os androgênios
adrenais desidroepiandrosterona (DHEA) e androstenediona, bem como
pequenas quantidades de estrogênios e alguns gli cocorticoides. O ACTH
regula a secreção dessas células, embora outros fatores, como o hormônio
estimulante do androgênio cortical, liberado pela hipófise, também possam
estar envolvidos. Os mecanismos de controle da produção adrenal de
androgênios, entretanto, não são tão bem compreendidos quanto os dos
glicocorticoides e mineralocorticoides.
As secreções de aldosterona e cortisol são reguladas por mecanismos
independentes. Fatores como a angiotensina II, que aumentam especificamente a
liberação de aldosterona e causam hipertrofia da zona glomerulosa, não exercem
efeito em outras zonas. Da mesma forma, fatores como o ACTH, que aumentam
a secreção de cortisol e androgênios adrenais e provocam hipertrofia da zona
fasciculada e zona reticular, exercem efeito pequeno, ou nulo, na zona
glomerulosa.
Os Hormônios Adrenocorticais São Esteroides Derivados do Colesterol. Todos os
hormônios esteroides humanos, incluindo os produzidos pelo córtex adrenal, são sintetizados a partir do colesterol. Embora as células do córtex adrenal possam apresentar síntese, de novo, de pequenas quantidades de colesterol a partir do acetato, aproximadamente 80% do colesterol usado para a síntese dos esteroides é fornecido por lipoproteínas de baixa densidade (LDL) no plasma circulante. As LDLs, com alta concentração de colesterol, difundem-se do plasma para o líquido intersticial e ligam-se a receptores específicos, contidos em estruturas chamadas depressões revestidas na membrana das células adrenocorticais. As depressões revestidas são, então, internalizadas por endocitose, formando vesículas, que, por fim, fundem-se com lisossomos celulares e liberam o colesterol que pode ser usado para sintetizar os hormônios esteroides adrenais.
O transporte do colesterol para as células adrenais é regulado por mecanismos de
feedback que podem alterar, acentuadamente, a quantidade disponível para a síntese dos esteroides. Por exemplo, o ACTH, que estimula a síntese de esteroides adrenais, aumenta o número de receptores de LDL nas células adrenocorticais, bem como a atividade das enzimas que liberam o colesterol da LDL.
Uma vez que o colesterol entra na célula, é transportado para as mitocôndrias, onde é
clivado pela enzima colesterol desmolase, formando pregnenolona; essa é a etapa
limitante na formação de esteroides adrenais (Figura 78-2). Nas três zonas do córtex adrenal, esse estágio inicial da síntese de esteroide é estimulado pelos diferentes fatores que controlam a secreção dos principais produtos hormonais, aldosterona e cortisol. Por exemplo, tanto o ACTH, que estimula a secreção de cortisol, como a
angiotensina II, que estimula a secreção de aldosterona, aumentam a conversão de
colesterol para pregnenolona.
Figura 78-2. Vias de síntese de hormônios esteroides pelo córtex adrenal. As enzimas estão em itálico.
Vias de Síntese dos Esteroides Adrenais. A Figura 78-2 ilustra os principais
estágios da formação dos importantes produtos esteroides do córtex adrenal:
aldosterona, cortisol e os androgênios. Praticamente, todos esses estágios ocorrem nas mitocôndrias e no retículo endoplasmático, e duas organelas celulares e alguns estágios ocorrem em outras organelas. Cada estágio é catalisado por um sistema enzimático específico. Uma alteração em uma só enzima, no esquema, pode causar a formação de tipos e proporções relativas muito diferentes de hormônios. Por exemplo, quantidades muito grandes de hormônios sexuais masculinizantes ou outros compostos esteroides, que, normalmente, não estão presentes no sangue, podem ser produzidas após a alteração de apenas uma das enzimas nessa via.
As fórmulas químicas da aldosterona e do cortisol, que são os principais hormônios
mineralocorticoide e glicocorticoide, respectivamente, são mostradas na Figura 78-2. O cortisol tem um oxigênio cetônico no carbono de número 3 e é hidrolisado nos carbonos de números 11 e 21. O mineralocorticoide aldosterona tem um átomo de oxigênio ligado ao carbono de número 18.
Além de aldosterona e cortisol, outros esteroides com atividades mineralocorticoides
ou glicocorticoides, ou ambas, são normalmente secretados em pequena quantidade pelo córtex adrenal. Diversos outros hormônios esteroides potentes, usualmente não formados nas adrenais, foram sintetizados e são usados em diferentes formas terapêuticas. Alguns dos mais importantes hormônios corticosteroides, incluindo os
sintéticos, são os seguintes, conforme resumidos na Tabela 78-1.
Tabela 78-1 Hormônios Esteroides Adrenais em Adultos; Esteroides Sintéticos e suas Atividades Relativas Mineralocorticoide e Glicocorticoide
Concentração
Plasmática Quantidade Média (livre e Média ligada, Secretada Atividade Atividade
Esteroides mg/100 mL) (mg/24h) Glicocorticoide Mineralocorticoide
Esteroides Adrenais
Cortisol 12 15 1,0 1,0
Corticosterona 0,4 3 0,3 15,0
Aldosterona 0,006 0,15 0,3 3.000
Desoxicorticosterona 0,006 0,2 0,2 100
Desidroepiandrosterona 175 20 — —
Esteroides Sintéticos
Cortisona — — 0,7 0,5
Prednisolona — — 4 0,8
Metilprednisona — — 5 —
Dexametasona — — 30 —
9a-fluorocortisol — — 10 125
As atividades glicocorticoide e mineralocorticoide dos esteroides são relativas ao cortisol, cuja
atividade é de 1,0.
Mineralocorticoides
• Aldosterona (muito potente; responsável por cerca de 90% do total da atividade
mineralocorticoide).
• Desoxicorticosterona (1/30 da potência da aldosterona, e secretada em quantidades
muito pequenas).
• Corticosterona (fraca atividade mineralocorticoide).
• 9a-fluorocortisol (sintético; ligeiramente mais potente que a aldosterona).
• Cortisol (atividade mineralocorticoide muito fraca, mas secretado em grande
quantidade).
• Cortisona (sintética, fraca atividade mineralocorticoide).
Glicocorticoides
• Cortisol (muito potente; responsável por aproxima damente 95% do total da atividade
glicocorticoide).
• Corticosterona (responsável por volta de 4% do total da atividade glicocorticoide, mas
muito menos potente que o cortisol).
• Cortisona (sintética, quase tão potente quanto o cortisol).
• Prednisona (sintética, quatro vezes mais potente que o cortisol).
• Metilprednisona (sintética, cinco vezes mais potente que o cortisol).
• Dexametasona (sintética, 30 vezes mais potente que o cortisol).
É evidente, por esta lista, que alguns desses hormônios e esteroides sintéticos
apresentam tanto atividade glicocorticoide quanto mineralocorticoide. É especialmente
significativo que o cortisol, nas condições normais, apresente alguma atividade
mineralocorticoide, porque algumas síndromes de excesso de secreção de cortisol
podem provocar efeitos mineralocorticoides significativos, junto com efeitos
glicocorticoides muito mais potentes.
A intensa atividade glicocorticoide do hormônio sintético dexametasona, que, na
prática, não tem atividade mineralocorticoide, faz com que seja um fármaco
especialmente importante para o estímulo específico da atividade glicocorticoide.
Os Hormônios Adrenocorticais Ligam-se a Proteínas Plasmáticas.
Aproximadamente 90% a 95% do cortisol plasmático liga-se a proteínas plasmáticas,