Tratado de Fisiologia Médica
Câncer
em distúrbios autoimunes. Alguns medicamentos que têm sido utilizados
com sucesso na quimioterapia parecem induzir a apoptose das células
cancerosas.
CÂNCER
O câncer é causado na maioria dos casos, por mutação ou por alguma outra
ativação anormal de genes que controlam o crescimento e a mitose
celulares. Os proto-oncogenes são genes normais que codificam diversas
proteínas responsáveis pelo controle da adesão, crescimento e divisão
celular. Se mutados ou excessivamente ativados, os proto-oncogenes podem
tornar-se em oncogenes com funcionamento anômalo capazes de provocar
câncer. Nos cânceres humanos foram descobertos até 100 tipos distintos de
oncogenes.
Também presentes em todas as células estão os antioncogenes,
denominados também de genes supressores tumorais, que suprimem a
ativação de oncogenes específicos. Portanto, a perda ou a inativação de
antioncogenes podem permitir a ativação de oncogenes que levam ao
câncer.
Por vários motivos, apenas uma fração reduzida das células que passam
por mutação no organismo produzirá um câncer. Em primeiro lugar, a
maioria das células alteradas tem capacidade menor de sobrevivência do
que as células normais e simplesmente morrem. Em segundo lugar, apenas
poucas dessas células alteradas que conseguem sobreviver se tornam
cancerosas, pois mesmo a maioria das células mutantes ainda tem controles
de feedback normais que previnem o crescimento excessivo. Em terceiro
lugar, as células potencialmente cancerosas são frequentemente destruídas
pelo sistema imune do organismo, antes que formem um câncer. A maioria
das células mutantes forma proteínas anormais em consequência de seus genes alterados, e essas proteínas ativam o sistema imune do corpo, e este
forma anticorpos ou linfócitos sensibilizados que reagem contra as células
cancerosas, destruindo-as. Em pessoas com supressão do sistema
imunitário, por exemplo nas que tomam drogas imunossupressoras depois
de um transplante renal ou cardíaco, a probabilidade de desenvolver câncer
é multiplicada até cinco vezes. Em quarto lugar, em geral, diversos
oncogenes devem ser ativados simultaneamente para causar câncer. Por
exemplo, um desses genes poderia promover a rápida reprodução de
linhagem de células, mas o câncer ocorre porque não existe gene mutante
para formar os vasos sanguíneos necessários.
O que causa a alteração dos genes? Considerando o fato de que vários
trilhões de novas células são formados a cada ano, nos humanos, uma
pergunta melhor seria “Por que nem todos nós desenvolvemos milhões ou
bilhões de células mutantes cancerosas?” A resposta é a incrível precisão
com que as moléculas de DNA cromossômico são replicadas em cada
célula antes que a mitose ocorra, e também o processo de leitura de prova
que corta e repara filamentos de DNA anormais antes que o processo
mitótico prossiga. Contudo, a despeito de todos esses sistemas de segurança
estabelecidos na evolução, provavelmente uma célula recém-formada, em
alguns milhões, ainda tem características mutantes significativas.
Assim, como as mutações ocorrem ao acaso, pode-se supor que grande
número de cânceres é o resultado do acaso. Entretanto, a probabilidade de
mutações pode ser aumentada consideravelmente quando o organismo é
exposto a fatores químicos, físicos ou biológicos, incluindo os seguintes:
1. É bem sabido que a radiação ionizante, como raios X, raios gama e
radiação emitida por substâncias radioativas, e mesmo por luz
ultravioleta, pode predispor o indivíduo ao câncer. Os íons formados nas
células de tecidos sob a influência de tal radiação são altamente reativos
e podem romper os filamentos de DNA, causando diversas mutações.
2. Certas substâncias químicas aumentam a probabilidade de mutações.
Descobriu-se, há muito tempo, que vários derivados do corante de
anilina podem causar câncer, de forma que trabalhadores da indústria
química que produzem essas substâncias, se não estiverem protegidos,
têm predisposição maior para o câncer. Substâncias químicas que podem
causar mutação são chamadas carcinógenos. Os carcinógenos que
atualmente causam o maior número de mortes são os da fumaça do
cigarro. Esses carcinógenos, causam cerca de um quarto de todas as
mortes por câncer.
3. Irritantes físicos também podem levar ao câncer, tais como a abrasão
contínua dos revestimentos do trato intestinal por alguns tipos de
alimentos. O dano aos tecidos leva à rápida substituição mitótica das
células. Quanto mais frequente a mitose, maior a probabilidade de
mutação.
4. Em muitas famílias, existe forte tendência hereditária ao câncer. Essa
tendência hereditária resulta do fato de que a maioria dos cânceres
requer não apenas uma mutação, mas duas ou mais para que surja o
tumor. Nas famílias que são particularmente predispostas ao câncer,
presume-se que um ou mais genes cancerosos já se encontrem alterados
no genoma herdado. Portanto, muito menos mutações adicionais são
necessárias para o crescimento do câncer.
5. Em animais de laboratório, certos tipos de vírus podem causar alguns
tipos de câncer, incluindo a leucemia. Esse fenômeno ocorre, em geral,
por uma de duas maneiras. No caso de vírus de DNA, a fita de DNA do
vírus pode se inserir diretamente em um dos cromossomos e, dessa
forma, causar mutação que leva ao câncer. No caso de vírus de RNA,
alguns deles carregam consigo a enzima chamada transcriptase reversa,
que faz com que o DNA seja transcrito do RNA. O DNA transcrito então
se insere no genoma da célula do animal, levando ao câncer. Características Invasivas da Célula Cancerosa. As principais
diferenças entre a célula cancerosa e a célula normal são as seguintes:
1. A célula cancerosa não respeita os limites normais de crescimento
celular; a razão é que essas células presumivelmente não requerem todos
os fatores de crescimento que são necessários para o crescimento de
células normais.
2. As células cancerosas geralmente aderem umas às outras muito menos
do que as células normais. Portanto, elas tendem a vagar pelos tecidos e
entrar na corrente sanguínea, pela qual são transportadas para todo o
corpo, onde formam focos de crescimento canceroso.
3. Alguns cânceres também produzem fatores angiogênicos que fazem
com que novos vasos sanguíneos cresçam no tumor, suprindo os
nutrientes necessários para o crescimento do câncer.
Por que as Células Cancerosas Matam? A resposta à pergunta de
por que as células cancerosas matam normalmente é simples. O tecido
canceroso compete com os tecidos normais pelos nutrientes. Pelo fato de as
células cancerosas proliferarem continuamente, seu número se multiplica
dia após dia; as células cancerosas logo demandam praticamente todos os
nutrientes disponíveis para o organismo ou para uma parte essencial do
corpo. Como consequência, os tecidos normais gradualmente morrem por
desnutrição.
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UNIDADE II
Fisiologia de Membrana,
Nervo e Músculo
RESUMO DA UNIDADE
CAPÍTULO 4 - O Transporte de Substâncias através
das Membranas Celulares
A Membrana Celular Consiste em uma Barreira Lipídica
com as Proteínas de Transporte da Membrana Celular
Difusão
“Transporte Ativo” de Substâncias através das Membranas
CAPÍTULO 5 - Potenciais de Membrana e Potenciais de
Ação
Física Básica dos Potenciais de Membrana
Medida do Potencial de Membrana
Potencial de Repouso de Membrana dos Neurônios
Potencial de Ação dos Neurônios
Propagação do Potencial de Ação
Restabelecimento dos Gradientes Iônicos do Sódio e do
Potássio Após o Término do Potencial de Ação — a
Importância do Metabolismo Energético
O Platô em Alguns Potenciais de Ação
Ritmicidade de Alguns Tecidos Excitáveis — Descarga
Repetitiva
Características Especiais da Transmissão dos Sinais nos
Troncos Nervosos
CAPÍTULO 6 - Contração do Músculo Esquelético
Anatomia Fisiológica do Músculo Esquelético
Mecanismo Geral da Contração Muscular
Mecanismo Molecular da Contração Muscular
Energética da Contração Muscular
Características da Contração do Músculo Como um Todo
CAPÍTULO 7 - Excitação do Músculo Esquelético:
Transmissão Neuromuscular e Acoplamento
Excitação‐Contração
Transmissão dos Impulsos das Terminações Nervosas para
as Fibras Musculares Esqueléticas: a Junção
Neuromuscular
Potencial de Ação Muscular
Acoplamento Excitação‐Contração
CAPÍTULO 8 - Excitação e Contração do Músculo Liso
Contração do Músculo Liso
Regulação da Contração pelos Íons Cálcio
Controles Nervoso e Hormonal da Contração do Músculo
Liso
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CAPÍTULO 4
O Transporte de Substâncias
através das Membranas Celulares
A Figura 4-1 apresenta as concentrações aproximadas dos eletrólitos
importantes e de outras substâncias nos líquidos extracelular e intracelular.
Note que o líquido extracelular contém grande quantidade de sódio, mas
somente pequena quantidade de potássio. O oposto é válido para o líquido
intracelular. O líquido extracelular contém também grande quantidade de
íons cloreto, ao passo que o líquido intracelular contém quantidade muito
pequena desses íons. Porém, as concentrações de fosfato e de proteínas no
líquido intracelular são consideravelmente maiores do que no líquido
extracelular. Essas diferenças são muito importantes para a vida das células.
O propósito deste Capítulo é explicar como essas diferenças são produzidas
pelos mecanismos de transporte das membranas celulares.