Tratado de Fisiologia Médica
Micção
Figura 26-5. Esquema das relações entre os vasos sanguíneos e estruturas tubulares e diferenças entre os néfrons corticais e justamedulares.
MICÇÃO
Micção é o processo pelo qual a bexiga se esvazia quando fica cheia. Esse
processo envolve duas etapas principais: primeira, a bexiga se enche
progressivamente até que a tensão na sua parede atinja nível limiar. Essa
tensão dá origem ao segundo passo, que é um reflexo nervoso chamado
reflexo da micção, que esvazia a bexiga ou, se isso falhar, ao menos causa um desejo consciente de urinar. Embora o reflexo da micção seja um
reflexo autônomo da medula espinal, ele também pode ser inibido ou
facilitado por centros no córtex ou tronco cerebrais.
ANATOMIA FISIOLÓGICA DA BEXIGA
A bexiga, mostrada na Figura 26-6, é câmara de músculo liso, composta por
duas partes principais: (1) o corpo que é a parte principal da bexiga e onde a
urina é armazenada; e (2) o colo, extensão afunilada do corpo, passando
inferior e anteriormente ao triângulo urogenital e conectando-se com a
uretra. A parte inferior do colo da bexiga (colo vesical) também é chamada
uretra posterior, por causa de sua relação com a uretra.
O músculo liso vesical é chamado músculo detrusor. As fibras musculares
estendem-se em todas as direções e, quando contraídas, podem aumentar a
pressão no interior da bexiga até 40 a 60 mmHg. Assim, a contração do
músculo detrusor é a etapa principal no esvaziamento da bexiga. As células
musculares lisas do músculo detrusor são acopladas eletricamente por vias
de baixa resistência elétrica. Portanto, o potencial de ação pode se difundir
por todo o músculo detrusor, de uma célula para adjacente, causando
contração simultânea de toda a bexiga.
Na parede posterior da bexiga, situada imediatamente acima do colo
vesical, existe pequena área triangular, chamada trígono. Na porção mais
inferior, o ápice do trígono, o colo vesical se abre na uretra posterior e os
dois ureteres entram na bexiga nos ângulos mais superiores do trígono. O
trígono pode ser identificado pelo fato de sua mucosa, o revestimento
interno da bexiga, ser liso, em contraste com o restante da mucosa vesical
que é pregueada, formando rugas.
Cada ureter após penetrar na parede da bexiga cursa obliquamente pelo
músculo detrusor e, então, passa por mais de 1 a 2 centímetros por baixo da
mucosa antes de se esvaziar no interior da bexiga.
O colo vesical (uretra posterior) tem 2 a 3 centímetros de comprimento e
sua parede é composta por músculo detrusor, entrelaçado com grande
quantidade de tecido elástico. O músculo nessa área é chamado esfíncter
interno. Seu tônus normalmente mantém o colo vesical e a uretra posterior
vazios e, por conseguinte, evita o esvaziamento da bexiga até que a pressão
na porção principal se eleve acima do limiar crítico.
Além da uretra posterior, a uretra passa pelo diafragma urogenital que
contém camada muscular, chamada esfíncter externo da bexiga. Esse
músculo é do tipo esquelético voluntário, em contraste com o músculo do
corpo vesical e o colo, que são inteiramente do tipo liso. O esfíncter externo
está sob controle voluntário do sistema nervoso e pode ser usado para evitar
conscientemente a micção, até mesmo quando controles involuntários
tentam esvaziar a bexiga.
Figura 26-6. Anatomia da bexiga e da uretra em homens e mulheres.
Inervação da Bexiga. O principal suprimento nervoso da bexiga é feito
pelos nervos pélvicos que se conectam à medula espinal pelo plexo sacro,
principalmente, se ligando aos segmentos medulares S2 e S3 (Figura 26-7).
Os nervos pélvicos contêm fibras sensoriais e motoras. As fibras sensoriais
detectam o grau de distensão da parede vesical. Os sinais intensos de
distensão da uretra posterior são especialmente fortes e os principais
responsáveis pelo início dos reflexos que produzem o esvaziamento da
bexiga.
As fibras motoras do nervo pélvico são fibras parassimpáticas. Essas
fibras terminam em células ganglionares localizadas na parede da bexiga.
Pequenos nervos pós-gan glio nares inervam o músculo detrusor.
Além dos nervos pélvicos, dois outros tipos de inervação são importantes
na função vesical. Os mais importantes são as fibras motoras esqueléticas
no nervo pudendo que inervam o esfíncter externo da bexiga. São fibras
somáticas e inervam e controlam o músculo esquelético voluntário do
esfíncter externo. A bexiga recebe também inervação simpática das cadeias
simpáticas pelos nervos hipogástricos, conectados em sua maioria com o
segmento L2 da medula espinal. Essas fibras simpáticas estimulam
principalmente os vasos sanguíneos e têm pouca relação com a contração
vesical. Algumas fibras nervosas sensoriais também passam pelos nervos
simpáticos e podem ser importantes na sensação de plenitude e, em alguns
casos, de dor.
Figura 26-7. Inervação da bexiga.
TRANSPORTE DA URINA A PARTIR DO RIM, ATRAVÉS
DOS URETERES E PARA A BEXIGA
A urina expelida pela bexiga tem essencialmente a mesma composição do
líquido que sai dos ductos coletores; não existem alterações significativas
na composição da urina que flui pelos cálices renais e ureteres até a bexiga.
O fluxo de urina dos ductos coletores para o interior dos cálices renais os
distende e aumenta sua inerente atividade marca-passo. Com isso, são
desencadeadas contrações peristálticas que se difundem para a pelve renal e
ao longo do ureter, propelindo a urina da pelve renal em direção à bexiga.
Nos adultos, os ureteres têm comprimento de 25 a 35 centímetros (10 a 14
polegadas).
As paredes dos ureteres contêm músculo liso, inervado por fibras
simpáticas e parassimpáticas, assim como por plexos intramurais de
neurônios e fibras nervosas que se estendem ao longo de todo o ureter.
Como ocorre com outras musculaturas lisas viscerais, as contrações
peristálticas ao ureter são aumentadas pela estimulação parassimpática e
inibidas pela estimulação simpática.
Os ureteres penetram na bexiga pelo músculo detrusor na região do
trígono vesical, como mostrado na Figura 26-6. Normalmente, os ureteres
percorrem obliquamente vários centímetros pela parede vesical. O tônus
normal do músculo detrusor comprime a parte do ureter inserida na parede
vesical, evitando o refluxo de urina da bexiga quando ocorre aumento da
pressão intravesical durante a micção ou compressão vesical. Cada onda
peristáltica ao longo do ureter aumenta a pressão no interior do próprio
ureter de modo que a região que passa através da parede vesical se abre,
permitindo fluxo de urina para o interior da bexiga.
Em algumas pessoas, a distância, na qual o ureter percorre através da
parede vesical, é menor que o normal, de modo que a contração da bexiga
durante a micção nem sempre leva à oclusão completa do ureter. Como resultado, parte da urina na bexiga é propelida de volta ao ureter, condição
chamada refluxo vesicoureteral. Esse refluxo pode levar ao aumento do
calibre dos ureteres e, se for grave, também pode elevar a pressão nos
cálices renais e estruturas da medula renal, ocasionando danos a essas
regiões.
A Sensação de Dor nos Ureteres e o Reflexo Ureterorrenal. Os
ureteres são bem supridos com fibras nervosas para a dor. Quando o ureter é
obstruído (p. ex., por cálculo ureteral), ocorrem constrições reflexas
intensas associadas à dor muito forte. Os impulsos da dor também causam
reflexo simpático nos rins que levam à constrição das arteríolas renais,
diminuindo, dessa forma, o volume de urina produzido pelos rins. Esse
efeito é chamado reflexo ureterorrenal e é importante para evitar o fluxo
excessivo de líquido para o interior da pelve renal quando o ureter está
obstruído.
Enchimento da Bexiga e Tônus da Parede Vesical; o Cistometrograma
A Figura 26-8 mostra as variações aproximadas da pressão intravesical com o
enchimento da bexiga com urina. Quando não há urina no interior da bexiga, a
pressão intravesical é de cerca de 0, mas, após o enchimento com 30 a 50
mililitros de urina, a pressão se eleva para 5 a 10 centímetros de água. Urina
adicional — 200 a 300 mililitros — pode se acumular, originando apenas pequena
elevação da pressão; esse nível constante de pressão é gerado pelo tônus
intrínseco da parede vesical. Além de 300 a 400 mililitros, o acúmulo de mais
urina na bexiga causa maior elevação na pressão.
Aumentos rápidos e periódicos da pressão, durando poucos segundos a mais de 1 minuto, se
sobrepõem às variações do tônus. Os picos de pressão podem elevar a pressão por apenas poucos
centímetros de água, ou em mais de 100 centímetros de água. Esses picos pressóricos são
chamados ondas de micção no cistometrograma e são provocados pelo reflexo da micção.
REFLEXO DA MICÇÃO
Referindo-se ainda à Figura 26-8, nota-se que, conforme a bexiga se enche,
muitas contrações de micção se sobrepõem ao tônus basal e começam a aparecer, como mostrado pelos picos tracejados. Elas são o resultado de
reflexo de estiramento iniciado pelos receptores sensoriais de estiramento
na parede vesical. Esses receptores estão presentes principalmente na uretra
posterior, quando essa área começa a ser preenchida com urina nas pressões
vesicais mais altas. Os sinais sensoriais dos receptores de estiramento da
bexiga são conduzidos aos segmentos sacrais da medula pelos nervos
pélvicos; por reflexo, o sinal volta à bexiga pelas fibras nervosas
parassimpáticas pelos mesmos nervos pélvicos.
Quando a bexiga está apenas parcialmente cheia, essas contrações de
micção geralmente desaparecem, de modo espontâneo, após fração de
minuto. Isso ocorre pelo relaxamento do músculo detrusor, que leva
também à diminuição da pressão para a linha de base. Conforme a bexiga se
enche, os reflexos de micção ficam mais frequentes e causam maiores
contrações do músculo detrusor.
Uma vez iniciado o reflexo da micção, pode-se considerá-lo
“autorregenerativo”. Isto é, a contração inicial da bexiga ativa a geração de
mais estímulos sensoriais pelos receptores de estiramento da parede da
bexiga e da uretra posterior. Isso leva a aumento reflexo da contração da
bexiga; assim, o ciclo se repete continuamente até que a bexiga tenha
alcançado alto grau de contração. Após alguns segundos a mais de 1
minuto, o reflexo autorregenerativo começa a fatigar e o ciclo regenerativo
do reflexo da micção se interrompe, permitindo que a bexiga relaxe.
O reflexo da micção é ciclo único completo com (1) aumento rápido e
progressivo da pressão; (2) período de pressão sustentada; e (3) retorno da
pressão ao tônus basal da bexiga. Com a ocorrência do reflexo de micção,
mesmo que não esvazie por completo a bexiga, em geral os elementos
nervosos desse reflexo permanecem inibidos por alguns minutos a mais de
1 hora antes que outro reflexo da micção ocorra. Conforme a bexiga fique cada vez mais cheia, o reflexo da micção passa a ocorrer de forma cada vez
mais frequente e mais eficaz.
Quando o reflexo da micção se torna suficiente para esvaziar a bexiga, ele
produz outro reflexo para relaxar o esfíncter externo através dos nervos
pudendos. Caso esse reflexo de relaxamento do esfíncter externo seja mais
potente do que sua inibição voluntária, a micção ocorre. Caso contrário, a
micção não acontecerá até que a bexiga se encha mais e o reflexo da micção
se torne suficiente para sobrepujar a inibição voluntária.
Figura 26-8. Cistometrograma normal mostrando também ondas de pressão aguda (picos tracejados) causadas pelos reflexos da micção.
Facilitação ou Inibição da Micção pelo Cérebro. O reflexo da
micção é reflexo espinal totalmente autônomo, mas pode ser inibido ou
facilitado pelos centros cerebrais. Esses centros incluem (1) potentes
centros facilitadores e inibitórios no tronco cerebral, localizados
principalmente na ponte; e (2) vários centros localizados no córtex cerebral, que são principalmente inibitórios, mas podem se tornar
excitatórios.
O reflexo da micção é a causa básica da micção, mas os centros superiores
normalmente exercem o controle final da micção como se segue:
1. Os centros superiores mantêm o reflexo da micção parcialmente
inibido, exceto quando se tem vontade de urinar.
2. Os centros superiores podem evitar a micção, até mesmo quando o
reflexo da micção está presente, pela contração tônica do esfíncter
vesical externo, até o momento conveniente para o esvaziamento.
3. No momento da micção, os centros corticais podem auxiliar os centros
sacrais a iniciar o reflexo de micção e, ao mesmo tempo, inibir o
esfíncter vesical externo, de modo que a micção ocorra.
A micção voluntária é em geral iniciada da seguinte maneira: primeiro, o
indivíduo voluntariamente contrai a musculatura abdominal, o que aumenta
a pressão na bexiga e permite que quantidade extra de urina, pelo aumento
de pressão, entre no colo vesical e na uretra posterior, distendendo suas
paredes. Essa ação estimula os receptores de estiramento e desencadeia o
reflexo da micção, inibindo, simultaneamente, o esfíncter uretral externo.
De modo geral, toda a urina é esvaziada, restando resíduo pós-miccional
raramente maior que 5 a 10 mililitros.
Anormalidades da Micção
Bexiga Atônica e Incontinência Causada pela Destruição das Fibras
Nervosas Sensoriais. A contração pelo reflexo da micção não pode ocorrer se fibras nervosas sensoriais da bexiga para a medula espinal forem destruídas,
impedindo, desse modo, a transmissão dos sinais de estiramento da bexiga.
Quando isso acontece, a pessoa perde o controle vesical, apesar das fibras eferentes que se originam da medula para a bexiga e das conexões neurogênicas estarem intactas no cérebro. Em vez do esvaziamento periódico, a bexiga se
enche até atingir a capacidade máxima, quando começam a ser liberadas algumas gotas pela uretra. Essa situação é chamada incontinência de
superenchimento.