Tratado de Fisiologia Médica
Resumo do Sistema Integrado e Multifacetado para a Regulação da Pressão Arterial
Tratamento da Hipertensão Essencial. Os protocolos atuais para o
tratamento da hipertensão recomendam, inicialmente, modificações no
estilo de vida que objetivam aumento das atividades físicas e perda de peso
na maioria dos pacientes. Infelizmente, muitos pacientes são incapazes de
perder peso, e o tratamento farmacológico com fármacos anti-hipertensivos
deve ser iniciado.
Duas classes gerais de fármacos são usadas para tratar a hipertensão: (1)
fármacos vasodilatadores, que aumentam o fluxo sanguíneo renal e ritmo
de filtração glomerular; e (2) fármacos natriuréticos ou diuréticos, que
reduzem a reab sorção tubular de sal e de água.
Os fármacos vasodilatadores em geral causam vasodilatação em muitos
outros tecidos corporais além dos rins. Os diferentes fármacos agem de uma
das seguintes maneiras: (1) pela inibição de sinais nervosos simpáticos para
os rins ou pelo bloqueio da ação da substância transmissora simpática na
vasculatura renal e túbulos renais; (2) por relaxar diretamente os músculos
lisos da vasculatura renal; ou (3) pelo bloqueio da ação do sistema renina-
angiotensina-aldosterona na vasculatura ou nos túbulos renais.
Os fármacos que reduzem a reabsorção de sal e de água pelos túbulos
renais incluem aqueles que, em particular, bloqueiam o transporte ativo de
sódio através da parede tubular; esse bloqueio, por sua vez, impede a
reabsorção de água, como explicado antes neste Capítulo. Esses fármacos
natriuréticos ou diuréticos são discutidos em maiores detalhes no Capítulo
32.
RESUMO DO SISTEMA INTEGRADO E MULTIFACETADO
PARA A REGULAÇÃO DA PRESSÃO ARTERIAL
Neste ponto, já ficou claro que a pressão arterial não é regulada por sistema
único de controle, mas por diversos sistemas inter-relacionados, cada um
realizando função específica. Por exemplo, quando a pessoa tem hemorragia intensa, reduzindo subitamente a pressão, dois problemas se
apresentam ao sistema de controle da pressão. O primeiro é a sobrevida: a
pressão arterial deve retornar para nível suficientemente alto para que a
pessoa possa viver após o episódio agudo. O segundo é o retorno final do
volume sanguíneo e arterial para seus níveis normais, de modo que o
sistema circulatório possa restabelecer sua plena normalidade, e não apenas
para o nível que permita a sobrevida.
No Capítulo 18, vimos que a primeira linha de defesa contra as alterações
agudas da pressão arterial é sistema de controle nervoso. Neste Capítulo,
enfatizamos a segunda linha de defesa, efetuada, em grande parte, pelos
mecanismos renais de controle da pressão arterial a longo prazo. Contudo,
existem outras peças no quebra-cabeça. A Figura 19-17 ajuda a encaixá-las.
A Figura 19-17 mostra em termos aproximados as respostas do controle
imediato (segundos e minutos) e a longo prazo (horas e dias), expressas
como respostas de feedback, de oito mecanismos de controle da pressão
arterial. Esses mecanismos podem ser divididos em três grupos: (1) os que
reagem rapidamente em segundos ou minutos; (2) os que respondem ao
longo de um período intermediário, isto é, de minutos a horas; e (3) os que
provocam a regulação da pressão arterial a longo prazo, durante dias, meses
e anos.
Figura 19-17. Potência aproximada de vários mecanismos de controle da pressão arterial em diferentes intervalos de tempo, após o início de distúrbio da pressão arterial. Note especialmente a resposta infinita (∞) do mecanismo de controle da pressão rim-líquidos corporais, que ocorre após algumas semanas. SNC, sistema nervoso central. (Modificada de Guyton AC: Arterial Pressure and Hypertension. Philadelphia: WB Saunders, 1980.)
Mecanismos Rápidos de Controle da Pressão que Atuam em
Segundos ou Minutos. Os mecanismos rápidos de controle da pressão
consistem, quase inteiramente, em reflexos nervosos ou outras respostas
nervosas. Note na Figura 19-17 os três mecanismos que respondem em
poucos segundos. Eles incluem (1) o mecanismo de feedback dos
barorreceptores; (2) o mecanismo isquêmico do sistema nervoso central; e
(3) o mecanismo quimiorreceptor. Esses mecanismos não só começam a
reagir em poucos segundos, mas também são muito potentes. Após
qualquer queda aguda na pressão, como a causada por hemorragia intensa, os mecanismos nervosos se combinam para causar (1) constrição das veias
e transferir sangue para o coração; (2) aumento da frequência cardía ca e da
contratilidade do coração para fornecer maior capacidade de bombeamento
do coração; e (3) constrição da maior parte das arteríolas, impedindo o
fluxo sanguíneo de sair das artérias; todos esses efeitos ocorrem quase
instantaneamente, elevando a pressão arterial até o valor de sobrevida.
Quando a pressão se eleva subitamente, como ocorre em resposta à rápida
transfusão do excesso de sangue, os mesmos mecanismos de controle
operam no sentido oposto, novamente normalizando a pressão.
Mecanismos de Controle da Pressão que Agem após Vários
Minutos. Diversos mecanismos de controle da pressão só apresentam
respostas significativas após alguns minutos depois da alteração aguda da
pressão arterial. Três desses mecanismos, mostrados na Figura 19-17, são
(1) o mecanis mo vasoconstritor da renina-angiotensina; (2) o relaxamen to
por estresse da vasculatura; e (3) o extravasamento de líquido, através das
paredes capilares para dentro ou fora da circulação, reajustando o volume
de sangue, conforme necessário.
Já descrevemos extensamente o papel do sistema vasoconstritor da renina-
angiotensina, que consiste, em modo semiagudo de aumento da pressão
arterial quando necessário. O mecanismo do relaxamento por estresse é
demonstrado pelo seguinte exemplo: quando a pressão nos vasos
sanguíneos se torna muito alta, esses vasos são estirados de forma contínua
por minutos ou horas; como resultado, a pressão nesses vasos sanguíneos
volta ao normal. Esse estiramento contínuo dos vasos, chamado
relaxamento por estresse, pode atuar como “tampão” da pressão que age
por períodos intermediários.
O mecanismo do deslocamento de líquido capilar representa
simplesmente o fato de que, quando a pressão capilar cai a níveis muito
baixos, o líquido é reabsorvido pelas membranas capilares dos tecidos para a circulação, elevando o volume sanguíneo e a pressão na circulação. Ao
contrário, quando a pressão capilar se eleva em demasia, o líquido é perdido
da circulação para os tecidos, reduzindo, assim, o volume sanguíneo, bem
como praticamente todas as pressões circulatórias.
Esses três mecanismos intermediários são ativados principalmente depois
de 30 minutos a várias horas. Durante esse tempo, os mecanismos nervosos,
em geral, ficam cada vez menos eficazes, o que explica a importância
dessas medidas não nervosas de controle da pressão nos tempos
intermediários.
Mecanismos para a Regulação da Pressão Arterial a Longo
Prazo. O objetivo deste Capítulo foi o de explicar a participação dos rins
no controle da pressão arterial a longo prazo. Na parte mais à direita
da Figura 19-17, é representado o mecanismo rim-volume sanguíneo de
controle da pressão (que é o mesmo mecanismo rim-líquidos corporais para
o controle da pressão), mostrando que são necessárias algumas horas antes
que ele comece a apresentar resposta significativa. Entretanto, esse sistema,
por fim, desenvolve resposta de feedback com ganho infinito para o
controle da pressão arterial. Isso significa que esse mecanismo pode
produzir o retorno quase total da pressão e não apenas parcial para o nível
que promove a eliminação normal de sal e de água pelos rins. Neste ponto,
o leitor já deve estar familiarizado com esse conceito, o assunto principal
deste Capítulo.
Muitos fatores podem afetar o nível de regulação da pressão pelo
mecanismo rim-líquidos corporais. Um deles, mostrado naFigura 19-17, é a
aldosterona. A redução da pressão arterial leva após alguns minutos a
aumento da secreção de aldosterona, o que ao longo das horas ou dias
seguintes desempenha papel importante na modificação das características
de controle da pressão pelo mecanismo rim-líquido corporal.
A interação do sistema renina-angiotensina com a aldosterona e os
mecanismos renais de controle do líquido é especialmente importante. Por
exemplo, a ingestão de sal pela pessoa varia imensamente de um dia para
outro. Vimos, neste Capítulo, que a ingestão de sal pode ser reduzida para
um décimo da normal ou aumentar por 10 a 15 vezes, sem que o nível
regulado da pressão arterial média se altere por mais que poucos mmHg, se
o sistema renina-angiotensina-aldosterona estiver plenamente funcional.
Entretanto, se o sistema não estiver funcional, a pressão sanguínea passa a
ser muito sensível às alterações da ingestão de sal.
Deste modo, o controle da pressão arterial se inicia com medidas
emergenciais pelos mecanismos nervosos, continua com as características
de sustentação pelos controles intermediários da pressão e, por fim, é
estabilizado pelo mecanismo rim-líquidos corporais no nível da pressão
arterial a longo prazo. Esse mecanismo a longo prazo, por sua vez, tem
múltiplas interações com o sistema renina-angiotensina-aldosterona, com o
sistema nervoso e com muitos outros fatores que contribuem para o controle
da pressão arterial em situações especiais.
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