Tratado de Fisiologia Médica

John E. Hall · Capítulo 297 de 351

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Tratado de Fisiologia Médica

Secreção de Bile pelo Fígado

Figura 65-10. Regulação da secreção pancreática.

 

 

SECREÇÃO DE BILE PELO FÍGADO

 

Uma das muitas funções do fígado é a de secretar bile, normalmente entre

600 e 1.000 mL/dia. A bile serve a duas funções importantes:

Primeira, a bile tem papel importante na digestão e na absorção de

gorduras, não porque exista nela alguma enzima que provoque a digestão de

gorduras, mas porque os ácidos biliares realizam duas funções: (1) ajudam

a emulsificar as grandes partículas de gordura, nos alimentos, a muitas

partículas diminutas, cujas superfícies são atacadas pelas lipases secretadas no suco pancreático; e (2) ajudam a absorção dos produtos finais da

digestão das gordura através da membrana mucosa intestinal.

Segunda, a bile serve como meio de excreção de diversos produtos do

sangue. Esses produtos de resíduos incluem especialmente a bilirrubina,

produto final da destruição da hemoglobina e o colesterol em excesso.

 

ANATOMIA FISIOLÓGICA DA SECREÇÃO BILIAR

 

A bile é secretada pelo fígado em duas etapas:

1. A solução inicial é secretada pelas células principais do fígado, os

hepatócitos; essa secreção inicial contém grande quantidade de ácidos

biliares, colesterol e outros constituintes orgânicos. É secretada para os

canalículos biliares, que se originam por entre as células hepáticas.

2. Em seguida, a bile flui pelos canalículos em direção aos septos

interlobulares para desembocar nos ductos biliares terminais, fluindo,

então, para ductos progressivamente maiores e chegando finalmente ao

ducto hepático e ao ducto biliar comum. Desde esses ductos, a bile flui

diretamente para o duodeno ou é armazenada por minutos ou horas na

vesícula biliar, onde chega pelo ducto cístico, como mostrado na Figura

65-11.

Nesse percurso pelos ductos biliares, a segunda porção da secreção

hepática é acrescentada à bile inicial. Essa secreção adicional é solução

aquosa de íons sódio e bicarbonato, secretada pelas células epiteliais que

revestem os canalículos e ductos. Essa segunda secreção, às vezes, aumenta

a quantidade total de bile por 100% ou mais. A segunda secreção é

estimulada especialmente pela secretina, que leva à secreção de íons

bicarbonato para suplementar a secreção pancreática (para neutralizar o

ácido que chega ao duodeno, vindo do estômago).

Figura 65-11. Secreção hepática e esvaziamento da vesícula biliar.

 

 

Armazenamento e Concentração da Bile na Vesícula Biliar. A

bile é secretada continuamente pelas células hepáticas, mas sua maior parte

é, nas condições normais, armazenada na vesícula biliar, até ser secretada

para o duodeno. O volume máximo que a vesícula biliar consegue

armazenar é de apenas 30 a 60 mililitros. Contudo, até 12 horas de secreção

de bile (em geral, cerca de 450 mililitros) podem ser armazenadas na

vesícula biliar, porque água, sódio, cloreto e grande parte de outros

eletrólitos menores é con tinuamente absorvida pela mucosa da vesícula

biliar, concentrando os constituintes restantes da bile que são sais biliares,

colesterol, lecitina e bilirrubina.

Grande parte da absorção na vesícula biliar é causada pelo transporte ativo

de sódio através do epitélio da vesícula biliar, seguido pela absorção

secundária de íons cloreto, água e muitos outros constituintes difusíveis. A

bile é comumente concentrada por cerca de cinco vezes, mas pode atingir o

máximo de 20 vezes.

 

Composição da Bile. A Tabela 65-2 mostra a composição da bile

secretada pelo fígado e depois concentrada na vesícula biliar. As

substâncias mais abundantes, secretadas na bile, são os sais biliares,

responsáveis por cerca da metade dos solutos na bile. Também secretados

ou excretados em grandes concentrações são a bilirrubina, o colesterol, a

lecitina e os eletrólitos usuais do plasma.

No processo de concentração na vesícula biliar, a água e grandes frações

dos eletrólitos (exceto íons cálcio) são reab sorvidas pela mucosa da

vesícula biliar; essencialmente, todos os outros constituintes, em especial os

sais biliares e as substâncias lipídicas colesterol e lecitina, não são

reabsorvidos e, portanto, ficam concentrados na bile da vesícula biliar.

 

Tabela 65-2 Composição da Bile

Substância Bile Hepática Bile Vesicular

Água 97,5 g/dL 92 g/dL

Sais biliares 1,1 g/dL 6 g/dL

Bilirrubina 0,04 g/dL 0,3 g/dL

Colesterol 0,1 g/dL 0,3 – 0,9 g/dL

Ácidos graxos 0,12 g/dL 0,3 – 1,2 g/dL

Lecitina 0,04 g/dL 0,3 g/dL

Na+ 145 mEq/L 130 mEq/L

K+ 5 mEq/L 12 mEq/L

Ca++ 5 mEq/L 23 mEq/L

Cl− 100 mEq/L 25 mEq/L

HCO − 28 mEq/L 10 mEq/L 3

 

A Colecistocinina Estimula o Esvaziamento da Vesícula Biliar.

Quando o alimento começa a ser digerido no trato gastrointestinal superior,

a vesícula biliar começa a se esvaziar, especialmente quando alimentos

gordurosos chegam ao duodeno, cerca de 30 minutos depois da ingestão da

refeição. O esvaziamento da vesícula biliar se dá por contrações rítmicas da

parede da vesícula biliar, com o relaxamento simultâneo do esfíncter de

Oddi, que controla a entrada do ducto biliar comum no duodeno.

Sem dúvida, o estímulo mais potente para as contrações da vesícula biliar

é o hormônio CCK. É a mesma CCK discutida antes que causa o aumento

da secreção de enzimas digestivas, pelas células acinares do pâncreas. O

estímulo principal para a liberação de CCK no sangue pela mucosa

duodenal é a presença de alimentos gordurosos no duodeno.

A vesícula biliar também é estimulada, com menor intensidade por fibras

nervosas secretoras de acetilcolina, tanto no nervo vago como no sistema

nervoso entérico. São os mesmos nervos que promovem a motilidade e a

secreção em outras partes do trato gastrointestinal superior.

Em suma, a vesícula biliar esvazia sua reserva de bile concentrada no

duodeno, basicamente, em resposta ao estímulo da CCK que, por sua vez, é

liberada, em especial em resposta aos alimentos gordurosos. Quando o

alimento não contém gorduras, a vesícula biliar se esvazia lentamente, mas,

quando quantidades significativas de gordura estão presentes, a vesícula

biliar costuma se esvaziar de forma completa em cerca de 1 hora. A Figura

65-11 resume a secreção de bile, seu armazenamento, na vesícula biliar, e a

sua liberação final da vesícula para o duodeno.

FUNÇÃO DOS SAIS BILIARES NA DIGESTÃO E

ABSORÇÃO DE GORDURA

 

As células hepáticas sintetizam cerca de 6 gramas de sais biliares

diariamente. O precursor dos sais biliares é o colesterol, presente na dieta

ou sintetizado nas células hepáticas, durante o curso do metabolismo de

gorduras. O colesterol é, primeiro, convertido em ácido cólico ou ácido

quenodesoxicólico, em quantidades aproximadamente iguais. Esses ácidos,

por sua vez, se combinam em sua maior parte com glicina e, em menor

escala, com taurina, para formar ácidos biliares glico e tauroconjugados.

Os sais desses ácidos, especialmente os sais de sódio, são então secretados

para a bile.

Os sais biliares desempenham duas ações importantes no trato intestinal:

Primeiro, eles têm ação detergente, sobre as partículas de gordura dos

alimentos. Essa ação, que diminui a tensão superficial das partículas,

permite que a agitação no trato intestinal as quebre em partículas diminutas,

o que é denominado função emulsificante ou detergente dos sais biliares.

Segundo, e até mesmo mais importante do que a função emulsificante, os

sais biliares ajudam na absorção de (1) ácidos graxos; (2) monoglicerídeos;

(3) colesterol; e (4) outros lipídios pelo trato intestinal. Ajudam a sua

absorção mediante a formação de complexos físicos bem pequenos com

esses lipídios, denominados micelas e são semissolúveis no quimo, devido

às cargas elétricas dos sais biliares. Os lipídios intestinais são “carregados”

nessa forma para a mucosa intestinal, de onde são então absorvidos pelo

sangue, como descrito em detalhes noCapítulo 66. Sem a presença dos sais

biliares no trato intestinal, até 40% das gorduras ingeridas são perdidas nas

fezes, e a pessoa muitas vezes desenvolve déficit metabólico em

decorrência da perda desse nutriente.

Circulação Êntero-hepática dos Sais Biliares. Cerca de 94% dos sais biliares

são reabsorvidos para o sangue pelo intestino delgado; aproximadamente a

metade da reabsorção ocorre por difusão, através da mucosa, nas porções iniciais

do intestino delgado, e o restante por processo de transporte ativo através da mucosa intestinal no íleo distal. Eles entram no sangue porta e retornam ao

fígado. No fígado, em uma só passagem pelos sinusoides, esses sais são quase completamente absorvidos pelas células hepáticas e secretados de novo na bile.

Dessa forma, cerca de 94% de todos os sais biliares recirculam na bile, de

maneira que, em média, esses sais passam pelo circuito por cerca de 17 vezes

antes de serem eliminados nas fezes. As pequenas quantidades de sais biliares

perdidas nas fezes são repostas por síntese pelas células hepáticas. Essa recirculação dos sais biliares é denominada circulação êntero-hepática dos sais biliares.

A quantidade de bile secretada pelo fígado a cada dia depende muito da

disponibilidade dos sais biliares — quanto maior a quantidade de sais biliares na

circulação êntero-hepática (em geral, total de apenas 2,5 gramas), maior a

intensidade de secreção de bile. Na verdade, a ingestão de sais biliares

suplementares pode aumentar a secreção de bile por várias centenas de mililitros por dia.

Se a fístula biliar esvaziar os sais biliares para o exterior durante dias ou

semanas, impossibilitando sua reabsorção no íleo, o fígado aumenta sua produção de sais biliares por seis a 10 vezes, o que aumenta a secreção de bile

até valores próximos aos normais. Isso demonstra que a intensidade diária de

secreção de sais biliares é ativamente controlada pela disponibilidade (ou falta de disponibilidade) de sais biliares na circulação êntero-hepática.

Papel da Secretina no Controle da Secreção de Bile. Além do forte efeito

estimulador dos ácidos biliares na secreção de bile, o hormônio secretina, que

também estimula a secreção pancreática, aumenta a secreção de bile, às vezes mais do que a duplicando por horas depois da refeição. Esse aumento é quase

inteiramente por secreção de solução aquosa rica em bicarbonato de sódio pelas células epiteliais dos dúctulos e ductos biliares, sem aumento da secreção pelas

próprias células do parênquima hepático. O bicarbonato, por sua vez, passa ao intestino delgado e soma-se ao bicarbonato do pâncreas para neutralizar o ácido

clorídrico do estômago. Assim, o mecanismo de feedback da secretina, de modo a neutralizar o ácido duodenal, opera não só por meio de seus efeitos sobre a secreção pancreática, mas também em escala menor por seus efeitos sobre a

secreção pelos dúctulos e ductos hepáticos.

Secreção Hepática de Colesterol e Formação de Cálculos Biliares

Os sais biliares são formados nas células hepáticas a partir do colesterol no

plasma sanguíneo. No processo de secreção dos sais biliares, cerca de 1 a 2

gramas de colesterol são removidos do plasma sanguíneo e secretados na bile

todos os dias.

O colesterol é quase completamente insolúvel em água, mas os sais biliares e a

lecitina na bile se combinam fisicamente com o colesterol, formando micelas

ultramicroscópicas em solução coloidal, como explicado em mais detalhes

no Capítulo 66. Quando a bile se concentra na vesícula biliar, os sais biliares e a

lecitina se concentram de forma proporcional ao colesterol, o que mantém o

colesterol em solução.

Sob condições anormais, o colesterol pode se precipitar na vesícula biliar,

resultando na formação de cálculos biliares de colesterol, como mostrado na

Figura 65-12. A quantidade de colesterol na bile é determinada, em parte, pela

quantidade de gorduras que a pessoa ingere porque as células hepáticas

sintetizam colesterol, como um dos produtos do metabolismo das gorduras no

corpo. Por essa razão, pessoas que ingerem dieta rica em gorduras, durante

período de anos, tendem a desenvolver cálculos biliares.

A inflamação do epitélio da vesícula biliar, muitas vezes em consequência de

infecção crônica de baixo grau, pode também alterar as características absortivas

da mucosa da vesícula biliar, às vezes, permitindo a absorção excessiva de água

e de sais biliares, mas não de colesterol na vesícula biliar, e, como consequência,

a concentração de colesterol aumenta. O colesterol passa a precipitar primeiro,

formando pequenos cristais na superfície da mucosa inflamada que, então,

crescem para formar os grandes cálculos biliares.