Tratado de Fisiologia Médica
Secreção Hormonal, Transporte e Depuração de Hormônios do Sangue
macromoléculas da proteína tireoglobulina, que é armazenada em grandes
folículos na tireoide. A secreção hormonal ocorre quando as aminas são
clivadas da tireoglobulina e os hormônios livres são então liberados na
corrente sanguínea. Depois de entrar no sangue, a maior parte dos
hormônios da tireoide se combina com proteínas plasmáticas, em especial a
globulina de ligação à tiroxina, que lentamente libera os hormônios para os
tecidos-alvo.
A epinefrina e a norepinefrina são formadas na medula adrenal, que
normalmente secreta cerca de quatro vezes mais epinefrina do que
norepinefrina. As catecolaminas ocupam as vesículas pré-formadas que são
armazenadas até serem secretadas. De modo semelhante aos hormônios
proteicos, armazenados em grânulos secretores, as catecolaminas também
são liberadas das células da medula adrenal por exocitose. Uma vez que as
catecolaminas entram na circulação, elas podem existir no plasma, na forma
livre ou em conjugação com outras substâncias.
SECREÇÃO HORMONAL, TRANSPORTE E DEPURAÇÃO
DE HORMÔNIOS DO SANGUE
Secreção de Hormônios após um Estímulo e Duração de Ação
de Diferentes Hormônios. Alguns hormônios, como a norepinefrina e a
epinefrina, são secretados em segundos, após a glândula ser estimulada, e
podem desenvolver ação completa dentro de alguns segundos a minutos; as
ações de outros hormônios, como a tiroxina ou o hormônio do crescimento,
podem exigir meses para ter seu efeito completo. Desse modo, cada um dos
diferentes hormônios tem suas próprias características para início e duração
da ação — cada um é moldado para realizar sua função de controle
específica.
Concentrações de Hormônios no Sangue Circulante e Taxas de
Secreção Hormonal. As concentrações de hormônios necessárias para
controlar a maioria das funções metabólicas e endócrinas são incrivelmente
pequenas. Suas concentrações no sangue variam de não mais que 1
picograma (que é o milionésimo de um milionésimo de grama), em cada
mililitro de sangue até, no máximo, alguns microgramas (alguns
milionésimos de grama) por mililitro de sangue. De modo semelhante, as
intensidades de secreção dos vários hormônios são extremamente pequenas,
em geral, medidas em microgramas ou miligramas por dia. Veremos, ainda
neste Capítulo, que existem mecanismos muito especializados nos tecidos-
alvo, permitindo que até quantidades diminutas de hormônios exerçam
potente controle sobre os sistemas fisiológicos.
CONTROLE POR FEEDBACKDA SECREÇÃO
HORMONAL
O Feedback Negativo Impede a Hiperatividade dos Sistemas
Hormonais. Embora as concentrações plasmáticas de muitos hormônios
flutuem em resposta a vários estímulos que ocorrem durante todo o dia,
todos os hormônios estudados até aqui parecem ser estritamente
controlados. Na maioria dos casos, esse controle é exercido por mecanismos
de feedback negativo (descritos no Capítulo 1) que asseguram o nível
apropriado de atividade hormonal no tecido-alvo. Depois que o estímulo
causa liberação do hormônio, condições ou produtos decorrentes da ação do
hormônio tendem a suprimir sua liberação adicional. Em outras palavras, o
hormônio (ou um de seus produtos) exerce efeito de feedback negativo para
impedir a hipersecreção do hormônio ou a hiperatividade no tecido-alvo.
A variável controlada não costuma ser a secreção do hormônio, mas o
grau de atividade no tecido-alvo. Portanto, somente quando a atividade no
tecido-alvo se eleva até nível apropriado, os sinais de feedback para a glândula endócrina serão suficientemente potentes para lentificar a secreção
do hormônio. A regulação dos hormônios por feedback pode ocorrer em
todos os níveis, incluindo a transcrição gênica e as etapas de tradução
envolvidas na síntese de hormônios e etapas envolvidas no processamento
de hormônios ou na liberação dos hormônios armazenados.
Surtos de Secreção Hormonal Podem Ocorrer com Feed back
Positivo. Em alguns casos, ocorre feedback positivo quando a ação
biológica do hormônio causa sua secreção adicional. Exemplo desse
feedback positivo é o surto de secreção de hormônio luteinizante (LH) que
ocorre em decorrência do efeito estimulatório do estrogênio sobre a hipófise
anterior, antes da ovulação. O LH secretado atua então sobre os ovários,
estimulando a secreção adicional de estrogênio o que, por sua vez, causa
mais secreção de LH. Finalmente, o LH atinge a concentração apropriada e
é, assim, exercido controle típico por feedback negativo da secreção do‐
hormônio.
Ocorrem Variações Cíclicas na Liberação do Hormônio. Existem
variações periódicas da liberação do hormônio sobrepostas ao controle por
feedback negativo e positivo da secreção hormonal, e elas são influenciadas
por alterações sazonais, várias etapas do desenvolvimento e do
envelhecimento, ciclo circadiano (diário) e sono. Por exemplo, a secreção
do hormônio do crescimento aumenta acentuadamente durante o período
inicial do sono, mas se reduz durante os estágios posteriores. Em muitos
casos, essas variações cíclicas da secreção hormonal se devem às alterações
da atividade das vias neurais, envolvidas no controle da liberação dos
hormônios.
TRANSPORTE DE HORMÔNIOS NO SANGUE
Os hormônios hidrossolúveis (peptídeos e catecolaminas) são dissolvidos
no plasma e transportados de seus locais de síntese para tecidos-alvo, onde
se difundem dos capilares, entram no líquido intersticial e, finalmente,
chegam às células-alvo.
Hormônios esteroides e da tireoide diferentemente circulam no sangue,
em grande parte, ligados às proteínas plasmáticas. Em geral, menos de 10%
dos hormônios esteroides ou tireoidianos existem livres em solução no
plasma. Por exemplo, mais de 99% da tiroxina no sangue está ligada a
proteínas plasmáticas. No entanto, os hormônios ligados a proteínas não
conseguem se difundir facilmente pelos capilares e ganhar acesso às suas
células-alvo, sendo, portanto, biologicamente inativos até que se dissociem
das proteínas plasmáticas.
As quantidades relativamente grandes de hormônios ligados a proteínas
servem como reservatórios, reabastecendo a concentração de hormônios
livres quando eles estão ligados a receptores-alvo ou eliminados da
circulação. A ligação de hormônios a proteínas plasmáticas torna sua
remoção do plasma muito mais lenta.
“Depuração” de Hormônios do Sangue. Dois fatores podem
aumentar ou diminuir a concentração de um hormônio no sangue. Um
desses é sua intensidade de secreção no sangue. O segundo é a intensidade
da remoção do hormônio do sangue, chamada depuração metabólica e, em
geral, é expressa em termos do número de mililitros de plasma depurado do
hormônio por minuto. Para calcular essa depuração, medem-se: (1) a
intensidade/velocidade de desaparecimento do hormônio do plasma (p. ex.,
nanogramas por minuto); e (2) a concentração plasmática do hormônio (p.
ex., nanogramas por mililitro de plasma). Depois, calcula-se a depuração
metabólica pela seguinte fórmula:
Taxa de Depuração metabólica
= Velocidade do desaparecimento do hormônio do plasma/Concentração de hormônio
O procedimento usual para fazer essa medida é o seguinte: solução
purificada do hormônio a ser medido é marcada com substância radioativa.
Depois, o hormônio radioativo é infundido, com intensidade constante na
corrente sanguínea, até que a concentração radioativa no plasma fique
constante. Nesse momento, o desaparecimento do hormônio radioativo do
plasma é igual à intensidade com que é infundido, o que fornece a
intensidade do desaparecimento. Ao mesmo tempo, a concentração
plasmática do hormônio radioativo é medida, usando-se procedimento
padrão de contagem de radioatividade. Depois, usando a fórmula citada,
calcula-se a depuração metabólica.
Os hormônios são “depurados” do plasma por vários modos, incluindo:
(1) destruição metabólica pelos tecidos; (2) ligação com os tecidos; (3)
excreção na bile pelo fígado; e (4) excreção na urina pelos rins. Para certos
hormônios, a diminuição da depuração metabólica pode causar
concentração excessivamente alta do hormônio nos líquidos corporais
circulantes. Por exemplo, esse fenômeno ocorre com vários dos hormônios
esteroides, quando o fígado fica doente, porque esses hormônios são
conjugados principalmente no fígado e depois “depurados” na bile.
Os hormônios são algumas vezes degradados em suas células-alvo por
processos enzimáticos que causam endocitose do complexo hormônio-
receptor na membrana; o hormônio é então metabolizado na célula, e os
receptores em geral são reciclados de volta à membrana celular.
A maioria dos hormônios peptídicos e das catecolaminas é hidrossolúvel e
circula livremente no sangue. Em geral, são degradados por enzimas no
sangue e nos tecidos e rapidamente excretados pelos rins e fígado,
permanecendo assim no sangue por apenas curto período. Por exemplo, a
meia-vida da angiotensina II circulante no sangue é inferior a 1 minuto.