Tratado de Fisiologia Médica
Tipos Sanguíneos ABO
transfusão.
MULTIPLICIDADE DOS ANTÍGENOS NAS CÉLULAS
SANGUÍNEAS
Pelo menos 30 antígenos de ocorrências comuns e centenas de outros
antígenos raros, cada um deles podendo, ocasionalmente causar, acarretar
reações antígeno-anticorpo, foram encontrados nas células do sangue
humano, em especial nas superfícies das membranas celulares. A maioria
dos antígenos é fraca, tendo, assim, importância principalmente para a
herança dos genes e para o estabelecimento da pater nidade.
Dois tipos particulares de antígenos têm probabilidade muito maior de
causar reações nas transfusões sanguíneas. Eles são o sistema de antígenos
ABO e o sistema Rh.
TIPOS SANGUÍNEOS ABO
ANTÍGENOS A E B — AGLUTIGÊNIOS
Dois antígenos — tipo A e tipo B — ocorrem nas superfícies das hemácias
em grande proporção dos seres humanos. São esses antígenos (também
chamados aglutinogênios por causarem, com frequência, aglutinação das
células sanguíneas) que provocam a maioria das reações de transfusão.
Devido ao modo de herança desses aglutinogênios, as pessoas podem não
ter qualquer um desses antígenos em suas células, podem ter apenas um ou
podem ter ambos os antígenos simultaneamente.
Os Tipos Sanguíneos ABO. Ao transfundir sangue de pessoa para
outra, o sangue do doador e do receptor é normalmente classificado em
quatro principais tipos ABO, como mostrado na Tabela 36-1, dependendo da presença ou da ausência dos dois aglutinogênios, os aglutinogênios A e
B. Na ausência dos aglutinogênios A e B, o sangue é do tipo O. Quando
somente o aglutinogênio do tipo A está presente, o sangue é do tipo A.
Quando somente o aglutinogênio do tipo B está presente, o sangue é do tipo
B. Na presença dos aglutinogênios A e B, o sangue é do tipo AB.
Tabela 36-1 Tipos Sanguíneos com seus Genótipos e seus Aglutinogênios e
Aglutininas Constituintes
Genótipos Tipos Sanguíneos Aglutinogênios Aglutininas
OO O − Anti-A e Anti-B
OA ou AA A A Anti-B
OB ou BB B B Anti-A
AB AB A e B −
Determinação Genética dos Aglutinogênios. O locus genético do
grupo sanguíneo ABO tem três alelos, o que significa três formas diferentes
do mesmo gene. Esses três alelos, I A B O , I e I, determinam os três tipos
sanguíneos. Geralmente, chamamos a esses alelos “A”, “B” e “O”, mas os
geneticistas representam, com frequência, os alelos de um gene mediante
variantes do mesmo símbolo. Nesse caso, o símbolo comum é a letra “I”,
que significa “imunoglobulina”.
O alelo do tipo O pode ser sem função ou quase sem função, de modo que
não determina qualquer aglutinogênio do tipo O nas células. Inversamente,
os genes dos tipos A e B determinam fortes aglutinogênios nas células.
Assim, o alelo O é recessivo para os alelos A e B, que demonstram
codominância.
Dado que cada pessoa apresenta unicamente dois conjuntos de
cromossomos, apenas um desses alelos está presente em cada um dos
cromossomos de um indivíduo. Entretanto, a presença de três alelos diferentes significa que existem seis possíveis combinações dos genes,
mostradas na Tabela 36-1, são OO, OA, OB, AA, BB e AB. Essas
combinações de alelos são referidas como genótipos, e cada pessoa tem um
dos seis genótipos.
Pode-se também notar na Tabela 36-1 que a pessoa com genótipo OO não
produz aglutinogênios e, portanto, seu tipo sanguíneo é O. A pessoa com
genótipo OA ou AA produz aglutinogênios do tipo A e, portanto, tem
sangue do tipo A. Os genótipos OB e BB produzem sangue do tipo B, e o
genótipo AB produz sangue do tipo AB.
Frequências Relativas dos Diferentes Tipos Sanguíneos. A
prevalência dos diferentes tipos sanguíneos, estudada em um grupo de
pessoas, foi aproximadamente a seguinte:
O 47%
A 41%
B 9%
AB 3%
É óbvio por essas porcentagens que os genes O e A ocorrem com maior
frequência, enquanto o gene B surge com pouca frequência.
AGLUTININAS
Quando o aglutinogênio do tipo A não está presente nas hemácias da
pessoa, anticorpos designados como aglutininas anti-A se desenvolvem no
plasma. Da mesma forma, quando o aglutinogênio do tipo B não está nas
hemácias, anticorpos designados como aglutininas anti-B se desenvolvem
no plasma.
Assim, novamente, de acordo com a Tabela 36-1, note que o sangue do
tipo O apesar de não conter aglutinogênios contém aglutininas anti-A e
anti-B; o tipo A contém aglutinogênios do tipo A e aglutininas anti-B; o
sangue do tipo B contém aglutinogênio do tipo B e aglutininas anti-A. Por
fim, o sangue AB contém aglutinogênios A e B, mas não contém
aglutininas.
Concentração Titulométrica das Aglutininas em Diferentes
Idades. Logo após o nascimento, a quantidade de aglutininas no plasma é
quase zero. Após 2 a 8 meses de vida pós-natal, o lactente começa a
produzir aglutininas — aglutininas anti-A, quando os aglutinogênios do tipo
A não estão presentes nas suas células, e aglutininas anti-B, quando os
aglutinogênios do tipo B não estão nas suas células. A Figura 36-1
demonstra a variação da titulação das aglutininas anti-A e anti-B em
diferentes idades. A titulação máxima é atingida, em geral, por volta dos 8 a
10 anos de idade, e esse valor vai declinando gradualmente com o passar
dos anos.
Figura 36-1. Titulações médias das aglutininas anti-A e anti-B no plasma de pessoas com diferentes tipos sanguíneos.
Origem das Aglutininas no Plasma. As aglutininas são
gamaglobulinas, assim como quase todos os anticorpos, sendo produzidas
pelas mesmas células da medula óssea e dos órgãos linfáticos que produzem
anticorpos para qualquer outro antígeno. Em sua maior parte são moléculas
das imunoglobulinas IgM e IgG.
Contudo, por que essas aglutininas são produzidas em pessoas que não
expressam os respectivos aglutinogênios em suas hemácias? A resposta a
essa pergunta é que pequenas quantidades de antígenos anti-A e anti-B
entram no corpo por meio dos alimentos, das bactérias e de outras formas, e
essas substâncias desencadeiam o desenvolvimento das aglutininas anti-A e
anti-B.
Por exemplo, a infusão do antígeno do grupo A em pessoa receptora que
tenha tipo sanguíneo não A causa resposta imune típica, com formação de
maiores quantidades de aglutininas anti-A. Além disso, o neonato tem
pouca ou nenhuma aglutinina, demonstrando que a formação das
aglutininas ocorre quase inteiramente após o nascimento.
PROCESSO DA AGLUTINAÇÃO NAS REAÇÕES DE
TRANSFUSÃO
Quando sangues não compatíveis são misturados de modo que aglutininas
anti-A ou anti-B são misturadas com hemácias com aglutinogênios A ou B,
respectivamente, as he mácias se aglutinam como resultado da fixação das
próprias aglutininas às hemácias. Como as aglutininas têm dois locais de
ligação (tipo IgG) ou 10 locais de ligação (tipo IgM), a mesma aglutinina
pode se fixar a duas ou mais hemácias ao mesmo tempo, fazendo com que
as hemácias se prendam umas às outras por meio das aglutininas. Esse
processo forma grumos celulares que constituem o processo de
“aglutinação”. Esses grumos ocluem os vasos mais delgados em todo o
sistema circulatório. Durante período de horas ou dias, a distorção física das células e/ou o ataque pelos leucócitos fagocíticos destroem as membranas
das células aglutinadas, liberando hemoglobina no plasma, processo
referido como “hemólise” das hemácias.
Hemólise Aguda Ocorre em Algumas Reações de Transfusão.
Algumas vezes, quando o sangue do receptor e do doador não é compatível
ocorre hemólise imediata das hemácias do sangue circulante. Nesse caso, os
anticorpos causam a lise das hemácias pela ativação do sistema do
complemento, que libera enzimas proteolíticas (o complexo lítico) e rompe
as membranas celulares, como descrito noCapítulo 35. A hemólise
intravascular imediata é muito menos comum que a aglutinação seguida por
hemólise tardia, pois tem de haver não somente alto título de anticorpos
para que a lise ocorra, mas também parece ser requerido tipo diferente de
anticorpo, principalmente os anticorpos IgM; esses anticorpos são
chamados hemolisinas.
TIPAGEM SANGUÍNEA
Antes de se fazer uma transfusão, é necessário determinar os tipos
sanguíneos do receptor e do doador, para que o sangue possa ser
apropriadamente compatível. Esse processo é chamado tipagem sanguínea
ou compatibilidade sanguínea, e esses procedimentos podem ser realizados
da seguinte maneira: as hemácias são separadas do plasma e diluídas com
solução salina. Parte dessa solução é então misturada com aglutinina anti-A
e outra parte com aglutinina anti-B. Após alguns minutos, as misturas são
observadas ao microscópio. Se as hemácias formaram grumos — ou seja,
“aglutinaram” — sabe-se que ocorreu reação antígeno-anticorpo.
A + Tabela 36-2 enumera a presença () ou a ausência (−) de aglutinação
dos quatro tipos de hemácias. As hemácias do tipo O não têm
aglutinogênios e, portanto, não reagem com as aglutininas anti-A ou anti-B. O sangue do tipo A tem aglutinogênios A e, portanto, aglutina com as