Tratado de Fisiologia Médica

John E. Hall · Capítulo 177 de 351

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Tratado de Fisiologia Médica

Tipos Sanguíneos ABO

transfusão.

 

MULTIPLICIDADE DOS ANTÍGENOS NAS CÉLULAS

SANGUÍNEAS

Pelo menos 30 antígenos de ocorrências comuns e centenas de outros

antígenos raros, cada um deles podendo, ocasionalmente causar, acarretar

reações antígeno-anticorpo, foram encontrados nas células do sangue

humano, em especial nas superfícies das membranas celulares. A maioria

dos antígenos é fraca, tendo, assim, importância principalmente para a

herança dos genes e para o estabelecimento da pater nidade.

Dois tipos particulares de antígenos têm probabilidade muito maior de

causar reações nas transfusões sanguíneas. Eles são o sistema de antígenos

ABO e o sistema Rh.

 

TIPOS SANGUÍNEOS ABO

 

ANTÍGENOS A E B — AGLUTIGÊNIOS

 

Dois antígenos — tipo A e tipo B — ocorrem nas superfícies das hemácias

em grande proporção dos seres humanos. São esses antígenos (também

chamados aglutinogênios por causarem, com frequência, aglutinação das

células sanguíneas) que provocam a maioria das reações de transfusão.

Devido ao modo de herança desses aglutinogênios, as pessoas podem não

ter qualquer um desses antígenos em suas células, podem ter apenas um ou

podem ter ambos os antígenos simultaneamente.

 

Os Tipos Sanguíneos ABO. Ao transfundir sangue de pessoa para

outra, o sangue do doador e do receptor é normalmente classificado em

quatro principais tipos ABO, como mostrado na Tabela 36-1, dependendo da presença ou da ausência dos dois aglutinogênios, os aglutinogênios A e

B. Na ausência dos aglutinogênios A e B, o sangue é do tipo O. Quando

somente o aglutinogênio do tipo A está presente, o sangue é do tipo A.

Quando somente o aglutinogênio do tipo B está presente, o sangue é do tipo

B. Na presença dos aglutinogênios A e B, o sangue é do tipo AB.

 

Tabela 36-1 Tipos Sanguíneos com seus Genótipos e seus Aglutinogênios e

Aglutininas Constituintes

Genótipos Tipos Sanguíneos Aglutinogênios Aglutininas

OO O − Anti-A e Anti-B

OA ou AA A A Anti-B

OB ou BB B B Anti-A

AB AB A e B −

 

Determinação Genética dos Aglutinogênios. O locus genético do

grupo sanguíneo ABO tem três alelos, o que significa três formas diferentes

do mesmo gene. Esses três alelos, I A B O , I e I, determinam os três tipos

sanguíneos. Geralmente, chamamos a esses alelos “A”, “B” e “O”, mas os

geneticistas representam, com frequência, os alelos de um gene mediante

variantes do mesmo símbolo. Nesse caso, o símbolo comum é a letra “I”,

que significa “imunoglobulina”.

O alelo do tipo O pode ser sem função ou quase sem função, de modo que

não determina qualquer aglutinogênio do tipo O nas células. Inversamente,

os genes dos tipos A e B determinam fortes aglutinogênios nas células.

Assim, o alelo O é recessivo para os alelos A e B, que demonstram

codominância.

Dado que cada pessoa apresenta unicamente dois conjuntos de

cromossomos, apenas um desses alelos está presente em cada um dos

cromossomos de um indivíduo. Entretanto, a presença de três alelos diferentes significa que existem seis possíveis combinações dos genes,

mostradas na Tabela 36-1, são OO, OA, OB, AA, BB e AB. Essas

combinações de alelos são referidas como genótipos, e cada pessoa tem um

dos seis genótipos.

Pode-se também notar na Tabela 36-1 que a pessoa com genótipo OO não

produz aglutinogênios e, portanto, seu tipo sanguíneo é O. A pessoa com

genótipo OA ou AA produz aglutinogênios do tipo A e, portanto, tem

sangue do tipo A. Os genótipos OB e BB produzem sangue do tipo B, e o

genótipo AB produz sangue do tipo AB.

 

Frequências Relativas dos Diferentes Tipos Sanguíneos. A

prevalência dos diferentes tipos sanguíneos, estudada em um grupo de

pessoas, foi aproximadamente a seguinte:

 

O 47%

A 41%

B 9%

AB 3%

 

É óbvio por essas porcentagens que os genes O e A ocorrem com maior

frequência, enquanto o gene B surge com pouca frequência.

 

AGLUTININAS

 

Quando o aglutinogênio do tipo A não está presente nas hemácias da

pessoa, anticorpos designados como aglutininas anti-A se desenvolvem no

plasma. Da mesma forma, quando o aglutinogênio do tipo B não está nas

hemácias, anticorpos designados como aglutininas anti-B se desenvolvem

no plasma.

Assim, novamente, de acordo com a Tabela 36-1, note que o sangue do

tipo O apesar de não conter aglutinogênios contém aglutininas anti-A e

anti-B; o tipo A contém aglutinogênios do tipo A e aglutininas anti-B; o

sangue do tipo B contém aglutinogênio do tipo B e aglutininas anti-A. Por

fim, o sangue AB contém aglutinogênios A e B, mas não contém

aglutininas.

 

Concentração Titulométrica das Aglutininas em Diferentes

Idades. Logo após o nascimento, a quantidade de aglutininas no plasma é

quase zero. Após 2 a 8 meses de vida pós-natal, o lactente começa a

produzir aglutininas — aglutininas anti-A, quando os aglutinogênios do tipo

A não estão presentes nas suas células, e aglutininas anti-B, quando os

aglutinogênios do tipo B não estão nas suas células. A Figura 36-1

demonstra a variação da titulação das aglutininas anti-A e anti-B em

diferentes idades. A titulação máxima é atingida, em geral, por volta dos 8 a

10 anos de idade, e esse valor vai declinando gradualmente com o passar

dos anos.

 

Figura 36-1. Titulações médias das aglutininas anti-A e anti-B no plasma de pessoas com diferentes tipos sanguíneos.

Origem das Aglutininas no Plasma. As aglutininas são

gamaglobulinas, assim como quase todos os anticorpos, sendo produzidas

pelas mesmas células da medula óssea e dos órgãos linfáticos que produzem

anticorpos para qualquer outro antígeno. Em sua maior parte são moléculas

das imunoglobulinas IgM e IgG.

Contudo, por que essas aglutininas são produzidas em pessoas que não

expressam os respectivos aglutinogênios em suas hemácias? A resposta a

essa pergunta é que pequenas quantidades de antígenos anti-A e anti-B

entram no corpo por meio dos alimentos, das bactérias e de outras formas, e

essas substâncias desencadeiam o desenvolvimento das aglutininas anti-A e

anti-B.

Por exemplo, a infusão do antígeno do grupo A em pessoa receptora que

tenha tipo sanguíneo não A causa resposta imune típica, com formação de

maiores quantidades de aglutininas anti-A. Além disso, o neonato tem

pouca ou nenhuma aglutinina, demonstrando que a formação das

aglutininas ocorre quase inteiramente após o nascimento.

 

PROCESSO DA AGLUTINAÇÃO NAS REAÇÕES DE

TRANSFUSÃO

 

Quando sangues não compatíveis são misturados de modo que aglutininas

anti-A ou anti-B são misturadas com hemácias com aglutinogênios A ou B,

respectivamente, as he mácias se aglutinam como resultado da fixação das

próprias aglutininas às hemácias. Como as aglutininas têm dois locais de

ligação (tipo IgG) ou 10 locais de ligação (tipo IgM), a mesma aglutinina

pode se fixar a duas ou mais hemácias ao mesmo tempo, fazendo com que

as hemácias se prendam umas às outras por meio das aglutininas. Esse

processo forma grumos celulares que constituem o processo de

“aglutinação”. Esses grumos ocluem os vasos mais delgados em todo o

sistema circulatório. Durante período de horas ou dias, a distorção física das células e/ou o ataque pelos leucócitos fagocíticos destroem as membranas

das células aglutinadas, liberando hemoglobina no plasma, processo

referido como “hemólise” das hemácias.

 

Hemólise Aguda Ocorre em Algumas Reações de Transfusão.

Algumas vezes, quando o sangue do receptor e do doador não é compatível

ocorre hemólise imediata das hemácias do sangue circulante. Nesse caso, os

anticorpos causam a lise das hemácias pela ativação do sistema do

complemento, que libera enzimas proteolíticas (o complexo lítico) e rompe

as membranas celulares, como descrito noCapítulo 35. A hemólise

intravascular imediata é muito menos comum que a aglutinação seguida por

hemólise tardia, pois tem de haver não somente alto título de anticorpos

para que a lise ocorra, mas também parece ser requerido tipo diferente de

anticorpo, principalmente os anticorpos IgM; esses anticorpos são

chamados hemolisinas.

 

TIPAGEM SANGUÍNEA

 

Antes de se fazer uma transfusão, é necessário determinar os tipos

sanguíneos do receptor e do doador, para que o sangue possa ser

apropriadamente compatível. Esse processo é chamado tipagem sanguínea

ou compatibilidade sanguínea, e esses procedimentos podem ser realizados

da seguinte maneira: as hemácias são separadas do plasma e diluídas com

solução salina. Parte dessa solução é então misturada com aglutinina anti-A

e outra parte com aglutinina anti-B. Após alguns minutos, as misturas são

observadas ao microscópio. Se as hemácias formaram grumos — ou seja,

“aglutinaram” — sabe-se que ocorreu reação antígeno-anticorpo.

A + Tabela 36-2 enumera a presença () ou a ausência (−) de aglutinação

dos quatro tipos de hemácias. As hemácias do tipo O não têm

aglutinogênios e, portanto, não reagem com as aglutininas anti-A ou anti-B. O sangue do tipo A tem aglutinogênios A e, portanto, aglutina com as