Tratado de Fisiologia Médica
Difusão de Gases Através da Membrana Respiratória
O ar expirado normal, contendo tanto ar do espaço morto quanto ar alveolar, tem
concentrações gasosas e pressões parciais como ilustradas na Tabela 40-1 (isto
é, concentrações entre as do ar alveolar e as do ar atmosférico umidificado).
Figura 40-6. Pressões parciais de oxigênio e dióxido de carbono (Po2 e Pco2), nas diversas porções do ar expirado normal.
DIFUSÃO DE GASES ATRAVÉS DA MEMBRANA
RESPIRATÓRIA
Unidade Respiratória. A Figura 40-7 mostra a unidade respiratória
(também denominada “lóbulo respiratório”), composta do bronquíolo
respiratório, ductos alveolares, átrios e alvéolos. Existem cerca de 300
milhões de alvéolos nos dois pulmões, e cada alvéolo tem diâmetro médio
em torno de 0,2 milímetro. As paredes alveolares são extremamente finas e,
entre os alvéolos, existe malha quase sólida de capilares interconectados,
mostrados na Figura 40-8. Na verdade, devido à extensão do plexo capilar,
o fluxo de sangue na parede alveolar é descrito como “lâmina” de fluxo
sanguíneo. Assim, é óbvio que os gases alveolares estão bastante próximos do sangue dos capilares pulmonares. Além disso, a troca gasosa entre o ar
alveolar e o sangue pulmonar se dá através das membranas de todas as
porções terminais dos pulmões, e não apenas nos alvéolos. Todas essas
membranas são conhecidas coletivamente como membrana respiratória,
também denominada membrana pulmonar.
Figura 40-7. Unidade respiratória.
Figura 40-8. A, Visão da superfície dos capilares na parede alveolar. B, Visão de corte transversal das paredes alveolares e seu suprimento vascular. (A, De Maloney JE, Castle BL: Pressure-diameter relations of capillaries and small blood vessels in frog lung. Respir Physiol 7:150, 1969. Reproduzida com permissão de ASP Biological and Medical Press, North-Holland Division.)
Membrana Respiratória. A Figura 40-9 mostra a ultraestrutura da
membrana respiratória, desenhada em corte transversal à esquerda e
hemácia à direita. A figura mostra, ainda, a difusão de oxigênio dos alvéolos
para a hemácia e a difusão de CO na direção oposta. Observe as diferentes 2
camadas da membrana respiratória:
1. Camada de líquido contendo surfactante que reveste o alvéolo e reduz a
tensão superficial do líquido alveolar.
2. Epitélio alveolar, composto por células epiteliais finas.
3. Membrana basal epitelial.
4. Espaço intersticial delgado entre o epitélio alveolar e a membrana
capilar.
5. Membrana basal capilar que, em muitos locais, se funde com a
membrana basal do epitélio alveolar.
6. Membrana endotelial capilar.
A despeito do grande número de camadas, a espessura total da membrana
respiratória em algumas áreas é tão pequena quanto 0,2 micrômetro e, em
média, tem 0,6 micrômetro, exceto onde ocorrem núcleos celulares. A partir
de estudos histológicos, estima-se que a área superficial total da membrana
respiratória seja aproxima damente de 70 metros quadrados no adulto
saudável do sexo masculino, o que equivale à área de um cômodo de 7,6 por
9 metros. A quantidade total de sangue nos capilares dos pulmões a
qualquer momento é de 60 a 140 milímetros. Agora imagine essa pequena
quantidade de sangue espalhada sobre toda a superfície de um cômodo de
7,6 por 9 metros, e fica fácil entender a rapidez da troca respiratória do O e 2
do CO . 2
O diâmetro médio dos capilares pulmonares é de apenas 5 micrômetros, o
que significa que as hemácias precisam se espremer ao passar por eles. A
membrana das hemácias em geral, toca a parede capilar, de maneira que não
é preciso que o O e o CO atravessem quantidades significativas de plasma 2 2
enquanto se difundem entre o alvéolo e a hemácia, o que também aumenta a
rapidez da difusão.
Figura 40-9. Ultraestrutura da membrana respiratória alveolar, mostrada em corte transversal.
FATORES QUE AFETAM A INTENSIDADE DA DIFUSÃO
GASOSA ATRAVÉS DA MEMBRANA RESPIRATÓRIA
Voltando à discussão anterior da difusão de gases na água, é possível
aplicarmos os mesmos princípios à difusão dos gases, através da membrana
respiratória. Assim, os fatores que determinam a rapidez com que um gás
atravessará a membrana são (1) a espessura da membrana; (2) a área
superficial da membrana; (3) o coeficiente de difusão do gás na substância
da membrana; e (4) a diferença de pressão parcial do gás entre os dois lados
da membrana.
A espessura da membrana respiratória, ocasionalmente, aumenta — por
exemplo, em decorrência de líquido de edema no espaço intersticial da
membrana, e nos alvéolos — de maneira que os gases respiratórios
precisam, então, se difundir não só através da membrana, mas também
através desse líquido. Além disso, algumas doenças pulmonares causam
fibrose dos pulmões, o que pode aumentar a espessura de algumas porções
da membrana respiratória. Na medida em que a difusão através da
membrana é inver samente proporcional à espessura da membrana, qualquer
fator que aumente a espessura por mais de 2 a 3 vezes da normal pode
interferir, significativamente, na troca respiratória normal de gases.
A área da superfície da membrana respiratória pode ser bastante reduzida
em decorrência de diversas condições. Por exemplo, a remoção total de um
pulmão diminui a área da superfície total à metade do normal. Além disso,
no enfisema, muitos dos alvéolos coalescem, com dissolução de muitas
paredes alveolares; portanto, as novas câmaras alveolares são muito maiores
do que os alvéolos originais, mas a área da superfície total da membrana
respiratória em geral diminui por até cinco vezes devido à perda das paredes
alveolares. Quando a área da superfície total diminui até cerca de um terço a
um quarto da normal, a troca gasosa através da membrana fica
substancialmente comprometida, até mesmo sob condições de repouso, e durante esportes de competição e outros exercícios vigorosos, até mesmo
ligeira redução da área da superfície dos pulmões pode representar sério
comprometimento da troca respiratória dos gases.
O coeficiente de difusão da transferência de cada gás, através da
membrana respiratória, depende da solubilidade do gás na membrana e,
inversamente, da raiz quadrada do peso molecular do gás. A difusão pela
membrana respiratória é quase exatamente a mesma da água, por razões já
explicadas. Portanto, em determinada diferença de pressão, o CO se 2
difunde por cerca de 20 vezes mais rápido que o O . O oxigênio se difunde 2
cerca de duas vezes mais rápido que o nitrogênio.
A diferença de pressão através da membrana respiratória é a diferença
entre a pressão parcial do gás nos alvéolos e a pressão parcial do gás no
sangue dos capilares pulmonares. A pressão parcial representa medida do
número total de moléculas de determinado gás que atinge determinada área
da superfície alveolar da membrana em determinado momento, e a pressão
do gás no sangue representa o número de moléculas que tentam escapar do
sangue na direção oposta. Portanto, a diferença entre essas duas pressões é
medida da tendência efetiva das moléculas do gás em se moverem através
da membrana.
Quando a pressão parcial do gás nos alvéolos é maior do que a pressão do
gás no sangue, como é o caso do O , ocorre difusão efetiva dos alvéolos 2
para o sangue; quando a pressão do gás no sangue é maior do que a pressão
parcial nos alvéo los, como é o caso do CO , ocorre difusão efetiva do 2
sangue para os alvéolos.
CAPACIDADE DE DIFUSÃO DA MEMBRANA
RESPIRATÓRIA
A capacidade da membrana respiratória de trocar um gás entre os alvéolos e
o sangue pulmonar é expressa em termos quantitativos pela capacidade de difusão da membrana respiratória, que é definida como o volume de gás
que se difundirá através da membrana a cada minuto, para a diferença de
pressão parcial de 1 mmHg. Todos os fatores discutidos anteriormente, que
afetam a difusão através da membrana respiratória, podem afetar essa
capacidade de difusão.
Capacidade de Difusão do Oxigênio. No homem jovem mediano, a
capacidade de difusão do O sob condições de repouso é em média de 21 2
mL/min/mmHg. O que isso significa em termos funcionais? A diferença de
pressão média do O , através da membrana respiratória, durante respiração 2
tranquila e normal, é cerca de 11 mmHg. Multiplicando-se essa pressão pela
capacidade de difusão (11 × 21), temos total de cerca de 230 mililitros de
difusão do oxigênio, através da membrana respiratória, a cada minuto, que é
igual à intensidade de utilização de O do corpo em repouso. 2
Aumento na Capacidade de Difusão de Oxigênio durante o
Exercício. Durante exercício vigoroso ou em outras condições que
aumentem muito o fluxo de sangue pulmonar e a ventilação alveolar, a
capacidade de difusão do O aumenta no homem jovem até o máximo em 2
torno de 65 mL/min/mmHg, que é o triplo da capacidade de difusão sob
condições de repouso. Esse aumento é causado por diversos fatores, como
(1) abertura de muitos capilares pulmonares, até então adormecidos, ou
dilatação extra dos capilares já abertos, elevando, assim, a área da superfície
do sangue para o qual o O pode se difundir; e (2) melhor equiparação entre 2
a ventilação dos alvéolos e a perfusão dos capilares alveolares com sangue,
deno minada proporção ventilação-perfusão, que será explicada, adiante
neste Capítulo. Portanto, durante o exercício, a oxigenação do sangue
aumenta, não só pela maior ventilação alveolar como também pela maior
capacidade difusora da membrana respiratória, para transportar O para o 2
sangue.
Capacidade de Difusão do Dióxido de Carbono. A capaci dade de
difusão do CO nunca foi medida porque o CO se difunde através da 2 2
membrana respiratória tão rapidamente que a Pco média no sangue 2
pulmonar não difere muito da Pco nos alvéolos (diferença média inferior a 2
1 mmHg). Com as técnicas disponíveis atualmente essa diferença é muito
pequena para ser medida.
Contudo, medidas da difusão de outros gases mostram que a capacidade
de difusão varia diretamente com o coeficiente de difusão de determinado
gás. Na medida em que o coeficiente de difusão do CO é pouco mais do 2
que 20 vezes a do O , seria esperada capacidade de difusão do CO , sob 2 2
condições de repouso, entre 400 e 450 mL/min/mmHg, e, durante o
exercício, entre 1.200 e 1.300 mL/min/mmHg. A Figura 40-10 compara as
capacidades de difusão, medidas ou calculadas, do monóxido de carbono,
do O e do CO , em repouso e durante o exercício, mostrando a extrema 2 2
capacidade de difusão do CO e o efeito do exercício na capacidade de 2
difusão de cada um desses gases.
Figura 40-10. Capacidades de difusão do monóxido de carbono, do oxigênio e do dióxido de carbono, nos pulmões normais, sob condições de repouso e durante o exercício.
Medida da Capacidade de Difusão — O Método do Monóxido de Carbono. A
capacidade de difusão do oxigênio pode ser calculada a partir de medidas (1) da
Po alveolar; (2) da Po , no sangue capilar pulmonar; e (3) da intensidade de 2 2
captação do O pelo sangue. Entretanto, medir a Po no sangue capilar pulmonar 2 2
é tão difícil e tão impreciso que não é prático medir a capacidade de difusão do O2
por procedimento direto, exceto em bases experimentais.
Para concretizar as dificuldades encontradas no medir-se diretamente a
capacidade de difusão do oxigênio, os fisiologistas geralmente medem a
capacidade de difusão do monóxido de carbono (CO) e então calculam a
capacidade de difusão do oxigênio a partir daí. O princípio do método do CO é o
seguinte: pequena quantidade de CO é respirada pelos alvéolos e a pressão
parcial do CO é medida em amostras apropriadas de ar alveolar. A pressão do CO
no sangue é essencialmente zero porque a hemoglobina se combina com esse gás tão rapidamente que sua pressão nunca tem tempo de se estabelecer.
Portanto, a diferença de pressão do CO pela membrana respiratória é igual à sua pressão parcial na amostra de ar alveolar. Então, ao medir-se o volume de CO o absorvido durante breve período e dividindo-se esse valor pela pressão parcial do
CO alveolar, é possível determinar precisamente a capacidade de difusão do CO.
Para converter a capacidade de difusão do CO à capacidade de difusão do
oxigênio, o valor é multiplicado pelo fator de 1,23 porque o coeficiente de difusão
do oxigênio é 1,23 vez a do CO. Assim, a capacidade média de difusão do CO, no homem jovem em repouso, é de 17 mL/min/mmHg, e a capacidade de difusão do
O é 1,23 vez isto, ou seja, 21 mL/min/mmHg. 2
Efeito da Proporção Ventilação-Perfusão na Concentração de Gás Alveolar
Anteriormente neste Capítulo, aprendemos que dois fatores determinam a Po e 2
a Pco nos alvéolos: (1) a intensidade da ventilação alveolar e (2) a intensidade da 2
transferência de O e CO , através da membrana respiratória. Essas discussões 2 2
pressupunham que os alvéolos são ventilados igualmente e que o fluxo de sangue
dos capilares alveolares é o mesmo em cada alvéolo. Entretanto, mesmo nas condições normais, até certo ponto e especialmente em muitas doenças
pulmonares, algumas áreas dos pulmões são bem ventiladas, mas não recebem quase nenhum fluxo sanguíneo, enquanto outras áreas contam com excelente
fluxo sanguíneo, mas pouca ou nenhuma ventilação. Em qualquer uma dessas condições, a troca gasosa através da membrana respiratória fica seriamente comprometida, e a pessoa pode sofrer angústia respiratória grave, a despeito
tanto de ventilação total e um fluxo sanguíneo pulmonar total normais, mas com a
ventilação e o fluxo sanguíneo indo para diferentes partes dos pulmões. Portanto, conceito altamente quantitativo foi desenvolvido para nos ajudar a entender a
troca respiratória quando não existe balanceamento entre a ventilação alveolar e o
fluxo sanguíneo alveolar. Esse conceito é denominado proporção ventilação-perfusão.
Em termos quantitativos, a proporção ventilação-perfusão é expressa como V
a/Q . Quando a V a (ventilação alveolar) é Q· normal, em determinado alvéolo, e (fluxo sanguíneo) também está normal, no mesmo alvéolo, diz-se que a proporção
ventilação/perfusão (V a/Q ) está normal. Quando a ventilação (V a) é zero, porém ainda existindo perfusão (Q ) do alvéolo, a V a/Q é zero. Ou, no outro extremo,
quando existe ventilação adequada (V a), mas perfusão zero (Q ), a proporção V a/Q é infinita. Na proporção zero ou infinita, não ocorre troca gasosa através da membrana respiratória do alvéolo afetado, o que explica a importância desse
conceito. Portanto, explicaremos as consequências respiratórias desses dois
extremos.
Pressões Parciais Alveolares do Oxigênio e do Dióxido de Carbono
Quando V a/Q É Igual a Zero. Quando V a/Q é igual a zero — ou seja, sem
qualquer ventilação alveolar — o ar nos alvéolos entra em equilíbrio com o O e o 2
CO no sangue porque esses gases se difundem entre o sangue e o ar alveolar. À 2
medida que o sangue que circula nos capilares é sangue venoso que retorna aos
pulmões, proveniente da circulação sistêmica, é com os gases nesse sangue que
os gases alveolares entram em equilíbrio. No Capítulo 41, aprenderemos que o
sangue venoso normal (v−) tem Po de 40 mmHg e Pco de 45 mmHg. Portanto, 2 2
existem também pressões parciais normais desses dois gases nos alvéolos que
contam com fluxo sanguíneo, mas nenhuma ventilação.
Pressões Parciais Alveolares do Oxigênio e do Dióxido de Carbono
Quando V a/Q É Igual a Infinito. O efeito, nas pressões parciais gasosas
alveolares, quando V a/Q é igual a infinito, é totalmente diferente do efeito quando
V a/Q é igual a zero porque agora não ocorre fluxo sanguíneo capilar para
transportar O para fora e trazer CO para os alvéolos. Portanto, em vez de os 2 2
gases alveolares entrarem em equilíbrio com o sangue venoso, o ar alveolar fica
quase igual ao ar inspirado umidificado. Ou seja, o ar inspirado não perde O para 2
o sangue e não ganha CO do sangue. E, na medida em que o ar umidificado e 2
inspirado normal tem Po de 149 mmHg e Pco de 0 mmHg, essas serão as 2 2
pressões parciais desses dois gases no alvéolo.
Troca Gasosa e Pressões Parciais Alveolares Quando V a/Q É Normal.
Quando existe tanto ventilação alveolar normal quanto fluxo sanguíneo na
capilaridade alveolar normal (perfusão alveolar normal), a troca de O e CO 22
através da membrana respiratória é quase ideal, e a Po alveolar fica normalmente 2
no nível de 104 mmHg, que se situa entre o valor do ar inspirado (149 mmHg) e o
do sangue venoso (40 mmHg). Da mesma maneira, a Pco alveolar fica entre os 2
dois extremos; normalmente é de 40 mmHg, em contraste com 45 mmHg no
sangue venoso, e 0 mmHg no ar inspirado. Assim, sob condições normais, a Po2
do ar alveolar é de 104 mmHg em média, e a Pco de 40 mmHg em média. 2
Diagrama de V a/Q , Po2-Pco2
Os conceitos apresentados nas seções anteriores podem ser ilustrados,
graficamente, conforme mostrado na Figura 40-11, denominada diagrama V a/Q
Po-Pco . A curva no diagrama representa todas as combinações possíveis de 2 2
Po e Pco entre os limites de V a/Q iguais a zero e a infinito, quando as pressões 2 2
gasosas no sangue venoso estão normais e a pessoa está respirando ar à
pressão do nível do mar. Assim, o ponto v− é a plotagem de Po e Pco quando V 2 2
a/Q é igual a zero. Neste ponto, a Po é igual a 40 mmHg e a Pco é igual a 45 2 2 mmHg, que são os valores no sangue venoso normal.
Na outra ponta da curva, quando V a/Q é igual a infinito, o ponto I representa o
ar inspirado, mostrando que a Po é 149 mmHg, enquanto a Pco é zero. Também 2 2 marcado na curva, vemos o ponto que representa o ar alveolar normal quando V
a/Q está normal. Nesse ponto, a Po é 104 mmHg e a Pco é 40 mmHg. 2 2
Figura 40-11. Diagrama normal do quociente ventilação-perfusão (V a/Q ) de pressão parcial de oxigênio (Po2)-pressão parcial de dióxido de carbono (Pco2) (Po-Pco , V a/Q ). 2 2
Conceito de “Derivação Fisiológica” (Quando V a/Q Está Abaixo do Normal)
Sempre que V a/Q estiver abaixo do normal, ocorre ventilação inadequada para
prover o oxigênio necessário para oxigenar completamente o sangue que flui
pelos capilares alveolares. Portanto, determinada fração do sangue venoso que passa pelos capilares pulmonares não é oxigenada. Essa fração é denominada
sangue derivado. Além disso, alguma quantidade de sangue adicional flui pelos
vasos brônquicos, em vez de pelos capilares alveolares, normalmente cerca de 2% do débito cardíaco; esse sangue é também sangue derivado, não oxigenado.
O montante quantitativo total de sangue derivado por minuto é denominado
derivação fisiológica. Essa derivação fisiológica é medida em laboratórios clínicos
de função pulmonar analisando-se a concentração de O no sangue venoso e no 2
sangue arterial misturados, em conjunto com a medida simultânea do débito
cardíaco. A partir desses valores, a derivação fisiológica pode ser calculada pela
seguinte equação:
em que Q ps é o sangue da derivação fisiológica por minuto, Q t é o débito
cardíaco por minuto, Ci é a concentração de oxigênio no sangue arterial, se O2
existir proporção ventilação-perfusão “ideal”, Ca é a concentração de oxigênio O2
no sangue arterial, e Cv− é a concentração medida de oxigênio no sangue O2
venoso misto.
Quanto maior a derivação fisiológica, maior a quantidade de sangue que não
consegue ser oxigenada, enquanto atravessa os pulmões.
Conceito do “Espaço Morto Fisiológico” (Quando V a/Q Estiver Acima do
Normal)
Quando a ventilação de alguns alvéolos for grande, mas o fluxo de sangue
alveolar for baixo, existe muito mais oxigênio disponível nos alvéolos do que pode
ser transportado para fora dos alvéolos pelo sangue circulante. Assim, diz-se que
a ventilação desses alvéolos é desperdiçada. A ventilação das áreas de espaço
morto anatômico das vias respiratórias também é desperdiçada. A soma desses
dois tipos de ventilação desperdiçada é denominada espaço morto fisiológico.
Esse espaço é medido nos laboratórios clínicos de função pulmonar, obtendo-se
medidas apropriadas dos gases sanguíneos e respiratórios e empregando-se a
seguinte equação, denominada equação de Bohr:
em que V dfis é o espaço morto fisiológico, V t é o volume corrente, PaCO2 é a
pressão parcial do CO , no sangue arterial, e PēCO2 é a pressão parcial média do 2
CO , em todo o ar expirado. 2
Quando o espaço morto fisiológico é extenso, grande parte do trabalho da
ventilação é esforço desperdiçado porque muito do ar ventilado nunca chega ao
sangue.
Anormalidades da Proporção Ventilação-Perfusão
V a/Q Anormal nas Partes Superior e Inferior do Pulmão Normal. Na pessoa normal, em
posição ereta, tanto o fluxo sanguíneo da capilaridade pulmonar quanto a ventilação alveolar são, consideravelmente, menores na parte superior do pulmão do que na parte inferior; entretanto, a diminuição no fluxo de sangue é consideravelmente maior que a diminuição na ventilação. Portanto, na parte superior do pulmão, V a/Q é até 2,5 vezes maior do que o valor ideal, o que
causa grau moderado de espaço morto fisiológico nessa área do pulmão.
No outro extremo, na parte inferior do pulmão, existe pouco menos de ventilação
com relação ao fluxo sanguíneo, e V a/Q é 0,6 vez menor do que o valor ideal.
Nessa área, pequena fração do sangue não consegue ser normalmente oxigenada, o que representa derivação fisiológica.
Em ambos os extremos as desigualdades da ventilação e da perfusão diminuem
por pouco a efetividade dos pulmões nas trocas de O e CO . Entretanto, durante 2 2 o exercício o fluxo sanguíneo para a parte superior do pulmão aumenta de forma
acentuada, de modo que ocorre bem menos espaço morto fisiológico, e a efetividade da troca gasosa então se aproxima da ideal.
V a/Q Anormal na Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica. A maioria das
pessoas que fumam durante muitos anos desenvolve graus variados de obstrução
brônquica; em grande parte dessas pessoas, essa condição acaba ficando tão grave que desenvolvem sério aprisionamento de ar alveolar, com consequente
enfisema. O enfisema, por sua vez, faz com que muitas das paredes alveolares sejam destruídas. Assim, duas anormalidades ocorrem nos fumantes, causando V
a/Q anormal. Primeira, na medida em que muitos dos pequenos bronquíolos são
obstruídos, os alvéolos, além das obstruções, não são ventilados, causando V a/Q que se aproxima de zero. Segunda, nas áreas do pulmão onde as paredes alveolares foram destruídas, mas ainda resta ventilação alveolar, grande parte da
ventilação é desperdiçada por causa do fluxo sanguíneo inadequado para transportar os gases sanguíneos.
Assim, na doença pulmonar obstrutiva crônica, algumas áreas do pulmão
exibem derivação fisiológica séria, e outras áreas exibem espaço morto fisiológico sério. Ambas essas condições diminuem imensamente a efetividade dos pulmões como órgãos trocadores de gases, às vezes reduzindo sua efetividade para até um décimo da normal. Na verdade, trata-se da causa mais prevalente de
incapacidade pulmonar hoje.
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CAPÍTULO 41
Transporte de Oxigênio e Dióxido
de Carbono no Sangue e nos
Líquidos Teciduais
Quando o oxigênio (O ) se difunde dos alvéolos para o sangue pulmonar, 2
ele é transportado para os capilares dos tecidos, quase totalmente em
combinação com a hemoglobina. A presença de hemoglobina nas hemácias
permite que o sangue transporte 30 a 100 vezes mais O do que seria 2
transportado na forma de O dissolvido na água do sangue. 2
Nas células dos tecidos corporais, o O reage com diversos nutrientes, 2
formando grande quantidade de dióxido de carbono (CO ). Esse CO 22
penetra nos capilares dos tecidos e é transportado de volta aos pulmões. O
CO , assim como o O , também se combina com substâncias químicas no 2 2
sangue, que aumentam o transporte do CO por 15 a 20 vezes. 2