Tratado de Fisiologia Médica
Ciclo Ovariano Mensal; Função dos Hormônios Gonadotrópicos
CICLO OVARIANO MENSAL; FUNÇÃO DOS HORMÔNIOS
GONADOTRÓPICOS
Os anos reprodutivos normais da mulher se caracterizam por variações
rítmicas mensais da secreção dos hormônios femininos e correspondem a
alterações nos ovários e outros órgãos sexuais. Esse padrão rítmico é
denominado ciclo sexual mensal feminino (ou, menos precisamente, ciclo
menstrual). O ciclo dura, em média, 28 dias. Pode ser curto como 20 dias
ou longo como 45 dias em algumas mulheres, embora o ciclo de duração
anormal esteja, com frequência, associado à menor fertilidade.
Existem dois resultados significativos do ciclo sexual feminino. Primeiro,
apenas um só óvulo costuma ser liberado dos ovários a cada mês, de
maneira que geralmente apenas um só feto, por vez, começará a crescer. Em
segundo lugar, o endométrio uterino é preparado, com antecedência, para a
implantação do óvulo fertilizado, em momento determinado do mês.
HORMÔNIOS GONADOTRÓPICOS E SEUS EFEITOS
NOS OVÁRIOS
As mudanças ovarianas que ocorrem durante o ciclo sexual dependem
inteiramente dos hormônios gonadotrópicos FSH e LH, que são secretados
pela hipófise anterior. O FSH e o LH são pequenas glicoproteínas, com
pesos moleculares em torno de 30.000. Na ausência desses hormônios, os
ovários permanecem inativos, como ocorre durante toda a infância, quando
quase nenhum hormônio gonadotrópico é secretado. Entre os 9 e os 12 anos
de idade, a hipófise começa a secretar progressivamente mais FSH e LH,
levando ao início de ciclos sexuais mensais normais, que começam entre 11
e 15 anos de idade. Esse período de mudança é denominado puberdade, e o
primeiro ciclo menstrual é denominado menarca. Durante cada mês do
ciclo sexual feminino, ocorre aumento e diminuição cíclicos, tanto de FSH
quanto de LH, como mostrado na parte inferior da Figura 82-4. Essas variações cíclicas acarretam alterações ovarianas cíclicas, que explicaremos
nas seções a seguir.
O FSH e o LH estimulam suas células-alvo ovarianas ao se combinarem
aos receptores muito específicos de FSH e LH, nas membranas das células-
alvo ovarianas. Os receptores ativados, por sua vez, aumentam a secreção
das células e, em geral, também o crescimento e a proliferação das células.
Quase todos esses efeitos estimuladores resultam da ativação do sistema do
segundo mensageiro do monofosfato de adenosina cíclico, no citoplasma
celular, levando à formação da proteína cinase e múltiplas fosforilações de
enzimas-chave que estimulam a síntese dos hormônios sexuais, conforme
explicado no Capítulo 75.
CRESCIMENTO DO FOLÍCULO OVARIANO — FASE
“FOLICULAR” DO CICLO OVARIANO
A Figura 82-5 mostra os estágios progressivos do crescimento folicular nos
ovários. Quando uma criança do sexo feminino nasce, cada óvulo é
circundado por uma camada única de células da granulosa; o óvulo, com
esse revestimento de células da granulosa, é denominado folículo
primordial, como mostrado na figura. Durante toda a infância, acredita-se
que as células da granulosa ofereçam nutrição ao óvulo e secretem um fator
inibidor da maturação do oócito que mantém o óvulo parado em seu estado
primordial, no estágio de prófase da divisão meiótica. Em seguida, depois
da puberdade, quando FSH e LH da hipófise anterior começam a ser
secretados em quantidades significativas, os ovários, em conjunto com
alguns dos folículos em seu interior, começam a crescer.
O primeiro estágio de crescimento folicular é o aumento moderado do
próprio óvulo, cujo diâmetro aumenta de duas a três vezes. Em seguida,
ocorre, em alguns folículos, o desenvolvimento de outras camadas das
células da granulosa. Esses folículos são chamados folículos primários.
Figura 82-5. Estágios do crescimento folicular no ovário, mostrando também a formação do corpo lúteo.
Desenvolvimento de Folículos Antrais e Vesiculares. Durante os
primeiros dias de cada ciclo sexual mensal feminino, as concentrações de
FSH e LH, secretados pela hipófise anterior, aumentam de leve a
moderadamente, e o aumento do FSH é ligeiramente maior do que o de LH
e o precede em alguns dias. Esses hormônios, especialmente FSH, causam o
crescimento acelerado de 6 a 12 folículos primários por mês. O efeito
inicial é a rápida proliferação das células da granulosa, levando ao
aparecimento de muitas outras camadas dessas células. Além disso, as
células fusiformes, deri vadas do interstício ovariano, agrupam-se em
diversas camadas por fora das células da granulosa, levando ao
aparecimento de uma segunda massa de células, denominadas teca, que se
dividem em duas camadas. Na teca interna, as células adquirem características epitelioides semelhantes às das células da granulosa e
desenvolvem a capacidade de secretar mais hormônios sexuais esteroides
(estrogênio e progesterona). A camada externa, a teca externa, se
desenvolve, formando a cápsula de tecido conjuntivo muito vascular, que
passa a ser a cápsula do folículo em desenvolvimento.
Depois da fase proliferativa inicial do crescimento, que dura alguns dias, a
massa de células da granulosa secreta o líquido folicular que contém
concentração elevada de estrogê nio, um dos hormônios sexuais femininos
mais importantes (a ser discutido adiante). O acúmulo desse líquido
ocasiona o aparecimento de antro dentro da massa de células da granulosa,
como mostrado na Figura 82-5.
O crescimento inicial do folículo primário até o estágio antral só é
estimulado, principalmente, por FSH. Então, há crescimento muito
acelerado, levando a folículos ainda maiores, denominados folículos
vesiculares. Esse crescimento acelerado é causado pelos seguintes fatores:
1. O estrogênio é secretado no folículo e faz com que as células da
granulosa formem quantidades cada vez maiores de receptores de FSH, o
que provoca um efeito de feedback positivo, já que torna as células da
granulosa ainda mais sensíveis ao FSH.
2. O FSH hipofisário e os estrogênios se combinam para promover
receptores de LH nas células originais da granulosa, permitindo, assim,
que ocorra a estimulação pelo LH, além da estimulação do FSH, e
provocando aumento ainda mais rápido da secreção folicular.
3. A elevada quantidade de estrogênio na secreção folicular mais a grande
quantidade de LH da hipófise anterior agem em conjunto, causando a
proliferação das células tecais foliculares e aumentando também a sua
secreção.
Quando os folículos antrais começam a crescer, seu cresci mento se dá de
modo quase explosivo. O próprio diâmetro do óvulo aumenta também em mais de três a quatro vezes, representando elevação total do diâmetro do
óvulo de até 10 vezes, ou aumento de sua massa da ordem de 1.000 vezes.
Enquanto o folículo aumenta, o óvulo permanece incrustado na massa de
células da granulosa localizada em um polo do folículo.
Apenas um Folículo Amadurece Completamente por Mês e os
Restantes Sofrem Atresia. Após uma semana ou mais de crescimento
— mas antes de ocorrer a ovulação —, um dos folículos começa a crescer
mais do que os outros, e os outros 5 a 11 folículos em desenvolvimento
involuem (processo denominado atresia); então, diz-se que esses folículos
ficam atrésicos.
A causa da atresia não é conhecida, mas já foi sugerida a seguinte
hipótese: as grandes quantidades de estrogênio do folículo em crescimento
mais rápido agem no hipotálamo, deprimindo a secreção mais intensa de
FSH pela hipófise anterior, bloqueando, dessa forma, o crescimento
posterior dos folículos menos bem desenvolvidos. Sendo assim, o folículo
maior continua a crescer por causa de seus efeitos de feedback positivo
intrínsecos, enquanto todos os outros folículos param de crescer e,
efetivamente, involuem.
Esse processo de atresia é importante, pois normalmente permite que
apenas um dos folículos cresça o suficiente todos os meses para ovular, o
que, em termos gerais, evita que mais de uma criança se desenvolva em
cada gravidez. O folículo único atinge diâmetro de 1 a 1,5 centímetro na
época da ovulação, quando é denominado folículo maduro.
Ovulação
A ovulação na mulher que tem ciclo sexual de 28 dias se dá 14 dias depois
do início da menstruação. Um pouco antes de ovular, a parede externa
protuberante do folículo incha rapidamente, e a pequena área no centro da cápsula folicular, denominada estigma, projeta-se como um bico. Em 30
minutos ou mais, o líquido começa a vazar do folículo através do estigma, e
cerca de 2 minutos depois o estigma se rompe inteiramente, permitindo que
um líquido mais viscoso, que ocupava a porção central do folículo, seja
lançado para fora. O líquido viscoso carrega consigo o óvulo cercado por
massa de milhares de pequenas células da granulosa, denominada coroa
radiada.
Um Pico de Hormônio Luteinizante é Necessário para a
Ovulação. O LH é necessário para o crescimento folicular final e para a
ovulação. Sem esse hormônio, mesmo quando grandes quantidades de FSH
estão disponíveis, o folículo não progredirá ao estágio de ovulação.
Cerca de dois dias antes da ovulação (por motivos que ainda não estão
totalmente entendidos, mas que serão discutidos adiante, no Capítulo), a
secreção de LH pela hipófise anterior aumenta bastante, de 6 a 10 vezes e
com pico em torno de 16 horas antes da ovulação. O FSH também aumenta
em cerca de duas a três vezes ao mesmo tempo, e FSH e LH agem
sinergicamente causando a rápida dilatação do folículo, durante os últimos
dias antes da ovulação. O LH tem ainda efeito específico nas células da
granulosa e tecais, convertendo-as, principalmente, em células secretoras de
progesterona. Portanto, a secreção de estrogênio começa a cair cerca de um
dia antes da ovulação, enquanto quantidades cada vez maiores de
progesterona começam a ser secretadas.
É nesse ambiente de (1) crescimento rápido do folículo; (2) menor
secreção de estrogênio após fase prolongada de sua secreção excessiva; e
(3) início da secreção de progesterona que ocorre a ovulação. Sem o pico
pré-ovulatório inicial de LH, a ovulação não ocorreria.
Início da Ovulação. A Figura 82-6 mostra um esquema do início da
ovulação, apresentando o papel da grande quanti dade de LH secretado pela hipófise anterior. Esse LH ocasiona rápida secreção dos hormônios
esteroides foli culares que contêm progesterona. Dentro de algumas horas
ocorrem dois eventos, ambos necessários para a ovulação:
1. A teca externa (i. e., a cápsula do folículo) começa a liberar enzimas
proteolíticas dos lisossomos, o que causa a dissolução da parede capsular
do folículo e o consequente enfraquecimento da parede, resultando em
mais dilatação do folículo e degeneração do estigma.
2. Simultaneamente, há um rápido crescimento de novos vasos sanguíneos
na parede folicular, e, ao mesmo tempo, são secretadas prostaglandinas
(hormônios locais que causam vasodilatação) nos tecidos foliculares.
Esses dois efeitos promovem transudação de plasma para o folículo,
contribuindo para sua dilatação. Por fim, a combinação da dilatação
folicular e da degeneração simultânea do estigma faz com que o folículo se
rompa, liberando o óvulo.
Figura 82-6. Mecanismo postulado de ovulação.
CORPO LÚTEO — FASE LÚTEA DO CICLO OVARIANO
Durante as primeiras horas depois da expulsão do óvulo do folículo, as
células da granulosa e tecais internas remanescentes se transformam,
rapidamente, em células luteínicas. Elas aumentam em diâmetro, de duas a
três vezes, e ficam repletas de inclusões lipídicas que lhes dão aparência
amarelada. Esse processo é chamado luteinização, e a massa total de células
é denominada corpo lúteo, que é mostrado na Figura 82-5. Suprimento
vascular bem desenvolvido também cresce no corpo lúteo.
As células da granulosa no corpo lúteo desenvolvem vastos retículos
endoplasmáticos lisos intracelulares, que formam grandes quantidades dos hormônios sexuais femininos progesterona e estrogênio (com mais
progesterona do que estrogênio durante a fase lútea). As células tecais
formam, basicamente, os androgênios androstenediona e testosterona, em
vez dos hormônios sexuais femininos. Entretanto, a maioria desses
hormônios também é convertida pela enzima aromatase, nas células da
granulosa, em estrogênios, os hormônios femininos.
O corpo lúteo cresce normalmente até cerca de 1,5 centímetro em
diâmetro, atingindo esse estágio de desenvolvimento 7 a 8 dias após a
ovulação. Então, ele começa a involuir e, efetivamente, perde suas funções
secretoras, bem como sua característica lipídica amarelada, cerca de 12 dias
depois da ovulação, passando a ser o corpus albicans, que, durante as
semanas subsequentes, é substituído por tecido conjuntivo e absorvido ao
longo de meses.
Função Luteinizante do Hormônio Luteinizante. A alteração das
células da granulosa e tecais internas em células luteínicas depende
essencialmente do LH secretado pela hipófise anterior. Na verdade, é a
função que dá nome ao LH — “luteinizante” —, significado de
“amarelado”. A luteinização também depende da extrusão do óvulo do
folículo. Um hormônio local, ainda não caracterizado no líquido folicular,
denominado fator inibidor da luteinização, parece controlar o processo de
luteinização até depois da ovulação.
Secreção pelo Corpo Lúteo: Uma Função Adicional do
Hormônio Luteinizante. O corpo lúteo é um órgão altamente secretor,
produzindo grande quantidade de progesterona e estrogênio. Uma vez que o
LH (principalmente o secretado durante o pico ovulatório) tenha agido nas
células da granulosa e tecais, causando a luteinização, as células luteínicas
recém-formadas parecem estar programadas para seguir a sequência pré-
ordenada de (1) proliferação; (2) aumento; e (3) secreção seguida por (4) degeneração. Tudo isso ocorre em aproximadamente 12 dias. Veremos, na
discussão sobre gravidez, no Capítulo 83, que outro hormônio com quase as
mesmas propriedades do LH, a gonadotropina coriônica secretada pela
placenta, pode agir no corpo lúteo, prolongando sua vida — geralmente
durante, pelo menos, os primeiros 2 a 4 meses de gestação.
Involução do Corpo Lúteo e Início do Próximo Ciclo Ovariano. O
estrogênio, em especial, e a progesterona, em menor extensão, secretados
pelo corpo lúteo durante a fase luteínica do ciclo ovariano, têm potentes
efeitos de feedback na hipófise anterior, mantendo intensidades secretoras
reduzidas de FSH e LH.
Além disso, as células luteínicas secretam pequenas quantidades do
hormônio inibina, a mesma inibina secretada pelas células de Sertoli, nos
testículos masculinos. Esse hormônio inibe a secreção de FSH pela hipófise
anterior. O resultado são concentrações sanguíneas reduzidas de FSH e LH,
e a perda desses hormônios, por fim, faz com que o corpo lúteo se degenere
completamente, processo denominado involução do corpo lúteo.
A involução final normalmente se dá ao término de quase 12 dias exatos
de vida do corpo lúteo, em torno do 26o dia do ciclo sexual feminino
normal, dois dias antes de começar a menstruação. Nessa época, a parada
súbita de secreção de estrogênio, progesterona e inibina pelo corpo lúteo
remove a inibição por feedback da hipófise anterior, permitindo que ela
comece a secretar novamente quantidades cada vez maiores de FSH e LH.
O FSH e o LH dão início ao crescimento de novos folículos, começando
novo ciclo ovariano. A escassez de progesterona e estrogênio, nesse
momento, também leva à menstruação uterina, conforme explicaremos
adiante.
RESUMO