Tratado de Fisiologia Médica
Características da Contração do Músculo Como um Todo
discutida no Capítulo 84.
Eficiência da Contração Muscular. A eficiência de uma máquina ou de um
motor é calculada conforme o percentual de energia fornecida que é convertida
em trabalho, em vez de calor. O percentual da quantidade de energia fornecida ao
músculo (a energia química dos nutrientes), que pode ser convertida em trabalho,
mesmo sob as melhores condições, é menor que 25%, com o restante se
transformando em calor. A razão para essa baixa eficiência é que cerca da
metade da energia dos nutrientes é perdida durante a formação do ATP, e mesmo
assim somente 40% a 45% da energia do ATP podem ser posteriormente
convertidos em trabalho.
A eficiência máxima só pode ser conseguida quando a contração muscular
ocorre com velocidade moderada. Se o músculo se contrair lentamente ou sem
qualquer movimento, pequenas quantidades do calor de manutenção são
liberadas durante a contração, mesmo que pouco ou nenhum trabalho seja reali‐
zado, fazendo com que a eficiência da conversão diminua a zero. De modo
inverso, se a contração for muito rápida, grande quantidade de energia é usada
para superar a fricção viscosa no próprio músculo, o que também reduz a
eficiência da contração. Geralmente ocorre eficiência máxima quando a
velocidade da contração fica em torno de 30% da máxima.
CARACTERÍSTICAS DA CONTRAÇÃO DO MÚSCULO
COMO UM TODO
Muitas características da contração muscular podem ser demonstradas pela
produção de um abalo muscular (muscle twitch). Este pode ser produzido
por meio da excitação elétrica instantânea do nervo muscular ou por breve
estímulo elétrico, originando contração breve e abrupta que dura fração de
segundo.
Em uma Tensão Constante as Contrações Isométricas não
Encurtam o Músculo, enquanto as Contrações Isotônicas
Encurtam o Músculo. A contração muscular é dita isométrica quando o
músculo não encurta durante contração, e isotônica quando encurta, mas sua tensão permanece constante por toda a contração. Sistemas para
registrar os dois tipos de contração muscular são mostrados na Figura 6-12.
No sistema isométrico, o músculo se contrai contra um transdutor de força
sem que ocorra encurtamento do músculo, como mostrado na parte inferior
da Figura 6-12. No sistema isotônico, o músculo se encurta contra carga
fixa, que se ilustra na parte superior da figura, onde se pode observar o
músculo levantando peso. As características das contrações isotônicas
dependem da carga contra a qual o músculo se contrai, além da inércia da
carga. Entretanto, o sistema isométrico registra as variações da força da
própria contração muscular independentemente da inércia da carga. Por
isso, o sistema isométrico é comumente mais utilizado quando se comparam
as características funcionais dos diferentes tipos de músculo.
Figura 6-12. Sistemas isotônico e isométrico para registro das contrações musculares. A contração isotônica tem lugar quando a força da contração muscular é superior à carga e a tensão do músculo permanece constante durante a contração; quando o músculo é contraído, se encurta e move a carga. A contração isométrica ocorre quando a carga é maior que a força da contração muscular; o músculo gera tensão ao se contrair, mas o comprimento total do músculo não varia.
Características dos Abalos Isométricos Registrados em
Diferentes Músculos. O corpo humano contém músculos esqueléticos
com dimensões muito diferentes — desde o músculo estapédio, muito
pequeno no ouvido médio, medindo somente uns poucos milímetros de
comprimento e um milímetro ou mais de diâmetro, até o grande músculo
quadríceps, meio milhão de vezes maior que o estapédio. Além disso, as
fibras podem ser tão delgadas quanto 10 micrômetros de diâmetro, ou tão
grossas quanto 80 micrômetros. Por fim, a energética da contração muscular
varia, consideravelmente, entre os diferentes músculos. Por isso, não é
surpreendente que as características mecânicas da contração muscular
sejam diferentes entre os diversos músculos.
A Figura 6-13 mostra o registro das contrações isométricas de três tipos de
músculo esquelético: um músculo ocular, com contração isométrica de
menos que 1/50 segundo; o músculo gastrocnêmio, com duração da
contração de cerca de 1/15 segundo; e o músculo sóleo, com duração da
contração de cerca de 1/5 segundo. É interessante que essas durações da
contração sejam adaptadas para as funções dos respectivos músculos. Os
movimentos oculares devem ser extremamente rápidos para que possa ser
mantida a fixação dos olhos nos objetos específicos, para garantir a
acuidade visual. O músculo gastrocnêmio deve se contrair com velocidade
moderadamente alta, para permitir o movimento dos membros com
velocidade suficiente para a corrida e para o salto, e o músculo sóleo tem
como função principal a contração lenta para o suporte contínuo e por longo
período do corpo contra a gravidade.
Figura 6-13. Duração das contrações isométricas para diferentes tipos de músculo esquelético de mamíferos, mostrando o período latente entre o potencial de ação (despolarização) e a contração muscular.
Fibras Musculares Rápidas versus Fibras Lentas. Como discutido
mais detalhadamente no Capítulo 85, sobre a fisiologia dos esportes, cada
músculo do corpo é composto por mistura das chamadas fibras musculares
rápidas e lentas, além das fibras com diferentes gradações entre esses dois
extremos. Os músculos que reagem rapidamente, como o tibial anterior, são
compostos, em sua maior parte, por fibras “rápidas” com apenas pequeno
número da variedade lenta. Inversamente, músculos que respondem
lentamente, mas com contração prolongada, como o sóleo, são compostos,
na maior parte, por fibras “lentas”. As diferenças entre esses dois tipos de
fibras são descritas nas seções seguintes.
Fibras Lentas (Tipo 1, Músculo Vermelho). As características das
fibras lentas são as seguintes:
1. As fibras são menores que as fibras rápidas.
2. As fibras lentas são também inervadas por fibras nervosas menores.
3. Comparadas às fibras rápidas, as fibras lentas têm um sistema de
vascularização mais extenso e mais capilares, para suprir quantidades
extras de oxigênio.
4. As fibras lentas têm números muito elevados de mitocôndrias, também
para dar suporte aos altos níveis de metabolismo oxidativo.
5. As fibras lentas contêm grande quantidade de mioglobina, proteína que
contém ferro, semelhante à hemoglobina nas hemácias. A mioglobina se
combina com o oxigênio e o armazena até que ele seja necessário, o qual
acelera também, notavelmente, o transporte de oxigênio para as
mitocôndrias. A mioglobina dá ao músculo lento sua aparência
avermelhada e o nome de músculo vermelho.
Fibras Rápidas (Tipo 2, Músculo Branco). As características das
fibras rápidas são:
1. As fibras rápidas são grandes para obter uma grande força de contração.
2. Existe um retículo sarcoplasmático muito extenso, para a rápida
liberação dos íons cálcio com o objetivo de desencadear a contração.
3. Estão presentes grandes quantidades de enzimas glico líticas, para a
rápida liberação de energia pelo processo glicolítico.
4. As fibras rápidas têm um suprimento de sangue menos extenso que as
fibras lentas, porque o metabolismo oxidativo tem importância
secundária.
5. As fibras rápidas têm menor número de mitocôndrias que as fibras
lentas, também porque o metabolismo oxidativo é secundário. Ao déficit
de mioglobina vermelha no músculo rápido damos o nome de músculo
branco.
Mecânica da Contração do Músculo Esquelético
Unidade Motora — Todas as Fibras Musculares são Inervadas
por uma Só Fibra Nervosa. Cada motoneurônio que sai da medula
espinal inerva múltiplas fibras musculares, sendo o número de fibras inervadas dependente do tipo de músculo. Todas as fibras musculares
inervadas por uma só fibra nervosa formam uma unidade motora (Fig. 6-
14). Em geral, pequenos músculos, que devem reagir rapidamente e nos
quais o controle deve ser preciso, têm mais fibras nervosas e menos fibras
musculares (p. ex., apenas duas ou três fibras musculares por unidade
motora, em alguns dos músculos da laringe). Inversamente, grandes
músculos que não necessitam de controle fino, como o músculo sóleo,
podem ter muitas fibras musculares em uma unidade motora. O número
médio para todos os músculos do corpo é questionável, mas boa suposição
seria em torno de 80 a 100 fibras musculares por unidade motora.
As fibras musculares de cada unidade motora não estão agrupadas no
músculo, mas se misturam com outras unidades motoras como microgrupos
de 3 a 15 fibras. Essa interpe netração permite que unidades motores
distintas se contraiam em suporte às outras, e não como segmentos
individuais.
Figura 6-14. Uma unidade motora consiste em um neurônio motor e o grupo de fibras de músculo esquelético que inerva. Um axônio motor individual pode se dividir para inervar várias fibras musculares que atuam em conjunto como um grupo. Embora cada fibra muscular seja inervada por um único neurônio motor, um músculo completo pode receber inervação de várias centenas de neurônios motores diferentes.
Contrações Musculares com Forças Diferentes — Somação das
Forças. Somação significa a soma de abalos individuais, para aumentar a
intensidade da contração total. A somação ocorre por dois meios: (1) pelo
aumento do número de unidades motoras que se contraem ao mesmo
tempo, referido como somação por fibras múltiplas; e (2) pelo aumento da frequência de contração, que é referido como somação por frequência e
pode levar à tetanização.
Somação por Fibras Múltiplas. Quando o sistema nervoso central
envia um sinal fraco para que o músculo se contraia, as menores unidades
motoras do músculo podem ser estimuladas em preferência às unidades
motoras maiores. Então, à medida que a força do sinal aumenta, unidades
motoras cada vez maiores começam a ser também excitadas, com as
maiores unidades motoras apresentando 50 vezes mais força contrátil que as
unidades menores. Esse fenômeno é conhecido como o princípio do
tamanho, e é importante, pois permite a gradação da força muscular durante
uma contração fraca que ocorre em pequenas etapas, uma vez que essas
etapas ficam progressivamente maiores quando grande quantidade de força
é necessária. Esse princípio do tamanho tem lugar porque as pequenas
unidades motoras são inervadas por pequenas fibras nervosas motoras, e os
pequenos motoneurônios na medula espinal são mais excitáveis que os
maiores, sendo naturalmente excitados primeiro.
Outra importante característica da somação por múltiplas fibras é que as
diferentes unidades motoras são ativadas de forma assincrônica pela medula
espinal; como resultado, a contração ocorre, alternadamente, entre as
diferentes unidades motoras, uma após a outra, e, desse modo, produz
contração suave e regular até mesmo sob baixas frequências dos sinais
nervosos.
Somação por Frequência e Tetanização. A Figura 6-15 mostra os
princípios da somação por frequência e da tetanização. O lado esquerdo
mostra contrações musculares individuais sucedendo-se uma após a outra,
com baixa frequência de estimulação. Em seguida, à medida que essa
frequência vai aumentando, alcança-se um ponto onde cada nova contração
ocorre antes que a anterior termine. Como resultado, a segunda contração é parcialmente somada à anterior, de modo que a força total da contração
aumenta progressivamente com o aumento da frequência. Quando a
frequência atinge um nível crítico, as contrações sucessivas, eventualmente,
ficam tão rápidas que se fundem, e a contração total do músculo aparenta
ser completamente uniforme e contínua, como mostra a figura. Esse
processo é referido como tetanização. Com frequência pouco maior, a força
da contração atinge sua capacidade máxima, de modo que qualquer
aumento adicional da frequência além desse ponto não exerce novos efeitos
para aumentar a força contrátil. A tetania ocorre porque quantidades
suficientes de íons cálcio são mantidas no sarcoplasma muscular, mesmo
entre os potenciais de ação, de modo que o estado contrátil total é mantido,
sem que seja permitido nenhum grau de relaxamento entre os potenciais de
ação.
Figura 6-15. Frequência da somação e tetanização.
Força Máxima da Contração. A força máxima da contração tetânica de
músculo em atividade em seu comprimento muscular normal é em torno do
valor médio de 3 a 4 kg por centímetro quadrado (cm2) de músculo. Dado que o músculo quadríceps pode ter até 40 cm2 em seu ventre, até cerca de
363 kg de tensão podem ser aplicados ao tendão patelar. Assim, pode-se
facilmente entender como é possível para o músculo arrancar seus tendões
de suas inserções ósseas.
Alterações da Força dos Músculos no Início da Contração — O
Efeito da Escada (Treppe). Quando um músculo começa a se contrair,
após longo período de repouso, sua força inicial de contração pode ser tão
pequena quanto a metade de sua força após 10 a 50 contrações musculares
seguintes. Isso quer dizer que a força da contração aumenta até atingir um
platô, fenômeno conhecido por efeito da escada ou treppe.
Ainda que todas as possibilidades da causa do efeito da escada não sejam
conhecidas, acredita-se que ele seja causado, primariamente, pelo aumento
dos íons cálcio no citosol, devido à liberação contínua de mais e mais íons
cálcio pelo retículo sarcoplasmático a cada potencial de ação do músculo e
à falha do sarcoplasma de recaptar imediatamente esses íons.
Tônus do Músculo Esquelético. Mesmo quando os músculos estão em
repouso, em geral eles ainda apresentam certa tensão. Essa tensão é
conhecida como tônus muscular. Como normalmente a fibra muscular
esquelética não se contrai sem que ocorra um potencial de ação para
estimulá-la, o tônus do músculo esquelético resulta inteiramente de baixa
frequência de impulsos nervosos vindos da medula espinal. Esses impulsos
nervosos, por sua vez, são controlados, em parte, por sinais transmitidos
pelo cérebro para o motoneurônio anterior da medula espinal, e, em parte,
por sinais originados nos fusos musculares, localizados no próprio músculo.
Ambos os sinais são discutidos em relação ao funcionamento dos fusos
musculares e da medula espinal no Capítulo 55.
Fadiga Muscular. Contrações musculares fortes, perdurando por período
prolongado, levam ao bem conhecido estado de fadiga muscular. Estudos
em atletas mostraram que a fadiga muscular aumenta em proporção quase
direta com a intensidade da depleção do glicogênio muscular. Assim, os
efeitos da fadiga surgem, em grande parte, da incapacidade contrátil e do
processo metabólico das fibras musculares de continuar a manter a mesma
quantidade de trabalho. Entretanto, experimentos mostraram que também a
transmissão dos sinais nervosos pela junção neuromuscular, discutida
no Capítulo 7, pode diminuir pelo menos por pequena quantidade, após
intensa e prolongada atividade muscular e, desse modo, diminuir a
contração muscular. A interrupção do fluxo sanguíneo, durante a contração
do músculo, leva à fadiga muscular quase total em 1 a 2 minutos, devido à
perda do suprimento de nutrientes, especialmente de oxigênio.
Sistemas de Alavancas do Corpo. Os músculos atuam pela aplicação de
tensão em seus pontos de inserção nos ossos, e os ossos, por sua vez, formam
vários tipos de sistemas de alavancas. A Figura 6-16 mostra o sistema de alavanca, que é ativado pelo músculo bíceps para levantar o antebraço. Se
assumirmos que um músculo bíceps grande tenha área de secção transversa de 15 cm 2, a força máxima de sua contração seria cerca de 136 kg. Quando o
antebraço está em ângulo reto com o braço, o tendão do bíceps está inserido cerca de 5 cm à frente do fulcro no cotovelo, e o comprimento total da alavanca do antebraço é aproximadamente 35 cm. Nesse caso, a quantidade de potência de
levantamento pelo bíceps na mão seria somente um sétimo da força muscular de
136 kg ou, mais precisamente, em torno 19,5 kg. Quando o braço é totalmente estendido, o tendão do bíceps fica a muito menos que os 5 cm à frente do fulcro, e a força para o movimento da mão para diante é muito menor que 19,5 kg.
Em resumo, a análise dos sistemas de alavancas do corpo depende do
conhecimento (1) do ponto da inserção muscular; (2) da distância do fulcro da alavanca; (3) do comprimento do braço da alavanca; e (4) da posição da
alavanca. Muitos tipos de movimento são requeridos no corpo, alguns deles exigindo grande força, e outros exigindo grandes extensões de movimento. Por
essa razão, existem muitos tipos diferentes de músculo; alguns longos e que se contraem por longa distância; alguns curtos, mas com grandes áreas de secção
transversa, e capazes de fornecer força extrema de contração por curtas
distâncias. O estudo dos diferentes tipos de músculos dos sistemas de alavanca e
de seus movimentos é conhecido por cinesiologia, sendo um importante
componente científico da fisioanatomia humana.
Figura 6-16. Sistema de alavanca ativado pelo músculo bíceps.
“Posicionamento” das Partes do Corpo para a Contração dos Músculos
Agonistas e Antagonistas em Lados Opostos de uma Articulação —
“Coativação” dos Músculos Antagonistas. Praticamente, todos os movimentos
do corpo são causados por contrações simultâneas dos músculos agonistas e
antagonistas nos lados opostos da articulação. Esse processo é referido como
coativação dos músculos agonistas e antagonistas, sendo regulado pelos centros
de controle motor do cérebro e da medula espinal.
A posição de cada parte separada do corpo, como um braço ou uma perna, é
determinada pelos graus relativos de contração dos grupos musculares agonistas
e antagonistas. Por exemplo, vamos assumir que um braço ou perna deve ser
colocado em posição média de seu alcance. Para conseguir essa posição, os
músculos agonistas e antagonistas recebem praticamente a mesma intensidade
de excitação. Lembre-se de que o músculo estirado se contrai com mais força que
um músculo não estirado, como exibido na Figura 6-10, mostrando força máxima
para a contração no comprimento funcional total do músculo e quase nenhuma força de contração na metade do comprimento normal. Desse modo, o músculo
estirado, em um dos lados da articulação, pode se contrair com muito mais força que o músculo não estirado do lado oposto. À medida que o braço ou a perna se
move para a posição média, a força dos músculos mais longos diminui, enquanto nos músculos mais curtos aumenta até que as duas forças fiquem iguais. Nesse momento, o movimento do braço ou da perna cessa. Assim, pela variação da
relação entre os diferentes graus de ativação dos músculos agonistas e
antagonistas, o sistema nervoso determina o posicionamento do braço ou da perna.
Vamos aprender, no Capítulo 55, que o sistema nervoso motor tem mecanismos
adicionais importantes para compensar as diferentes cargas musculares, quando
dirige esse processo de posicionamento.
REMODELAÇÃO DO MÚSCULO PARA SE AJUSTAR À
SUA FUNÇÃO
Todos os músculos do corpo são continuamente remodelados, para se
ajustar às funções que são requeridas deles. Seus diâmetros podem ser
alterados, seus comprimentos podem ser alterados, suas forças podem ser
alteradas, seus suprimentos vasculares podem ser alterados e até mesmo
suas fibras musculares, mesmo que discretamente, podem ser alteradas.
Esse processo de remodelação é em geral bastante rápido, durando, no
máximo, poucas semanas. Na verdade, experimentos em animais mostraram
que as proteínas contráteis, em alguns dos menores e mais ativos músculos,
podem ser substituídas no curto período de duas semanas.
Hipertofria e Atrofia Musculares. O aumento da massa total de um
músculo é referido como hipertrofia muscular. Quando a massa muscular
total diminui, o processo recebe o nome de atrofia muscular.
Praticamente, toda hipertrofia muscular resulta do aumento do número dos
filamentos de actina e de miosina em cada fibra muscular, produzindo aumento dessa fibra; essa condição é designada simplesmente por fibra
hipertrofia da. Hipertrofia em grau muito maior ocorre quando o músculo
trabalha contra a carga durante o processo contrátil. Apenas poucas e fortes
contrações a cada dia são necessárias para causar hipertrofia significativa,
em 6 a 10 semanas.
A maneira pela qual as contrações vigorosas levam à hipertrofia não é
conhecida. O que é sabido, entretanto, é que a intensidade da síntese das
proteínas contráteis no músculo é bem maior quando a hipertrofia está se
desenvolvendo, gerando também aumento progressivo dos filamentos de
actina e de miosina nas miofibrilas com frequência aumentando por até
50%. Por sua vez, observou-se que algumas miofibrilas de forma
independente se dividem nos músculos hipertrofiados para formar novas
miofibrilas, mas o quanto isso é importante desse processo na hipertrofia
muscular usual ainda não é conhecido.
Junto com o aumento crescente do tamanho das miofibrilas, o sistema
enzimático que fornece energia também eleva. Esse aumento é
especialmente válido para as enzimas para a glicólise, possibilitando o
rápido suprimento de energia durante as curtas e vigorosas contrações
musculares.
Quando um músculo fica sem uso por muitas semanas, a intensidade de
degradação das proteínas contráteis é muito mais rápida do que a
intensidade de sua reposição. Disso resulta a atrofia muscular. A via parece
ser responsável pela parte da degradação, ocorrendo em músculo em
atrofia, é a via ubiquitina-proteassomo, dependente de ATP. Proteassomos
são grandes complexos de proteínas que degradam outras proteínas,
danificadas ou desnecessárias por proteólise, a reação química que desfaz as
ligações peptídicas. A ubiquitina é proteína respiratória que basicamente
marca as células que serão destinadas à destruição pelos proteassomos. Ajuste do Comprimento dos Músculos. Outro tipo de hipertrofia
ocorre em geral quando os músculos estão mais estirados além do
comprimento normal. Esse estiramento faz com que novos sarcômeros
sejam adicionados às extremidades das fibras musculares por onde são
ligadas aos tendões. De fato, novos sarcômeros podem ser adicionados tão
rapidamente quanto vários a cada minuto nos músculos novos em
desenvolvimento, ilustrando, assim, a rapidez desse tipo de hipertrofia.
Inversamente, quando o músculo permanece continuamente mais curto do
que seu tamanho normal, os sarcômeros das extremidades das fibras
musculares podem desaparecer. É por esse processo que os músculos são
continuamente remodelados para que possam ter o tamanho apropriado para
a contração muscular adequada.
Hiperplasia das Fibras Musculares. Sob raras circunstâncias de
geração de força muscular extrema, observou-se que o número real de
fibras musculares aumentou (mas apenas em uma pequena porcentagem),
independentemente do processo de hipertrofia. Esse aumento do número de
fibras musculares é referido como hiperplasia da fibra. Quando ocorre, o
mecanismo é a divisão linear das fibras previamente aumentadas.
A Desnervação Muscular Provoca uma Rápida Atrofia. Quando
um músculo é privado de seu suprimento nervoso, deixa de receber os
sinais contráteis necessários para manter as dimensões normais do músculo.
Como resultado, o processo de atrofia se inicia imediatamente. Após 2
meses, mudanças degenerativas começam também a aparecer nas fibras
musculares. Caso o suprimento nervoso para o músculo seja restabelecido
rapidamente, a recuperação total do músculo pode ocorrer em 3 meses, mas
depois desse tempo a capacidade de restabelecimento funcional do músculo
até o normal começa a diminuir com o passar do tempo, desaparecendo
definitivamente após decorridos 1 a 2 anos.
No estágio final da atrofia de desnervação, a maioria das fibras musculares
é destruída e substituída por tecido fibroso e gorduroso. As fibras que ainda
persistem são compostas por longas membranas celulares com alinhamento
de pequenos núcleos, mas com pouca ou nenhuma propriedade contrátil ou
capacidade regenerativa das miofibrilas caso o nervo cresça novamente.
O tecido fibroso que substitui as fibras musculares durante a atrofia
causada pela desnervacão tem também a tendência de continuar a se
encurtar por vários meses, o que é conhecido por contratura. Assim, um
dos problemas mais importantes da fisioterapia consiste em evitar que os
músculos em atrofia venham a desenvolver contraturas debilitantes ou
deformantes. Esse objetivo é conseguido por meio de exercícios diários de
alongamento dos músculos ou pelo uso de aparelhos que mantenham os
músculos estirados durante o processo de atrofia.
Recuperação da Contração Muscular na Poliomielite: Desenvolvimento de
Unidades Macromotoras. Quando algumas, porém não todas, as fibras nervosas
do músculo são destruídas, como ocorre usualmente nos casos de poliomielite, as
fibras nervosas remanescentes se ramificam para formar novos axônios, que
então vão inervar muitas das fibras musculares paralisadas. Esse processo dá
lugar a unidades motoras de grande tamanho, referidas como unidades
macromotoras, podendo ter até cinco vezes o número normal de fibras
musculares para cada motoneurônio da medula espinal. A formação de grandes
unidades motoras reduz a eficiência e a finura do controle que a pessoa tem sobre
seus músculos, mas permite que os músculos voltem a ter a possibilidade de
variar sua força.
Rigidez Cadavérica (Rigor Mortis). Algumas horas após a morte, todos os
músculos do corpo entram no estado de contratura, conhecido como “rigidez
cadavérica” (ou rigor mortis); ou seja, os músculos se contraem e ficam rígidos
mesmo sem potenciais de ação. Essa rigidez resulta da perda de todo ATP, que é
necessário para a separação das pontes cruzadas dos filamentos de actina
durante o processo de relaxamento. Os músculos permanecem rígidos até que as
proteínas musculares degenerem em torno de 15 a 25 horas, o que,
provavelmente, resulta da autólise causada pelas enzimas liberadas pelos
lisossomos. Todos esses eventos ocorrem mais rapidamente nas temperaturas
mais altas.
Distrofia Muscular. As distrofias musculares incluem várias doenças
hereditárias, que causam fraqueza e degeneração progressiva das fibras
musculares, que são substituídas por tecido graxo e colágeno.
Uma das formas mais comuns de distrofia muscular é a distrofia muscular de
Duchenne (DMD). Essa doença afeta apenas indivíduos do sexo masculino, uma vez que é transmitida como um traço recessivo ligado ao cromossomo X, sendo
provocada pela mutação de um gene que codifica uma proteína denominada
distrofina; essa proteína une as actinas às proteínas da membrana das células musculares. A distrofina e as proteínas associadas formam uma interface entre o aparelho contrátil intracelular e a matriz conjuntiva extracelular.
Embora a função precisa da distrofina não seja conhecida na sua totalidade, a
falta de distrofina ou formas mutadas da proteína provoca destabilização da
membrana das células musculares, ativação de vários processos fisiopatológicos,
incluindo uma manipulação alterada do cálcio intracelular e reparação alterada
das membranas após um dano. Um efeito importante da distrofina anômala é o aumento da permeabilidade ao cálcio da membrana, o que permite que os íons
cálcio extracelulares entrem na fibra muscular e iniciem alterações nos enzimas
intracelulares que, no final, conduz a proteólise e ruptura das fibras musculares.
Entre os sintomas da DMD é destacada a fraqueza muscular que começa na
primeira infância e avança rapidamente, de modo que os pacientes muitas vezes
têm de se deslocar em cadeira de rodas desde os 12 anos de idade e, muitas vezes, morrem em consequência de insuficiência respiratória antes dos 30 anos. Uma forma mais leve dessa doença, chamada distrofia muscular de Becker
(DMB), ocorre também por uma mutação do gene que codifica a distrofina, mas
apresenta um início mais tardio e índices de sobrevivência mais elevados. É estimado que a DMD e a DMB afetam 1 em cada 5.600 a 7.700 indivíduos do
sexo masculino entre os 5 e 24 anos de idade. Na atualidade, não existe qualquer
tratamento eficaz contra a DMD ou a DMB, pelo que a caracterização da base
genética destas patologias abre possibilidade de utilizar a terapia genética no futuro.
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