Tratado de Fisiologia Médica
Secreção de H+ e Reabsorção Hco3 – pelos Túbulos Renais
SECREÇÃO DE H+ E REABSORÇÃO HCO3− PELOS
TÚBULOS RENAIS
A secreção de íons hidrogênio e a reabsorção de HCO − ocorrem 3
praticamente em todas as partes dos túbulos, exceto nas porções finas
descendentes e ascendentes da alça de Henle. A Figura 31-4 resume a
reabsorção de HCO − − pelo túbulo. Lembre-se que para cada HCO 3 3
reabsorvido, um H + precisa ser secretado.
Cerca de 80% a 90% da reabsorção de HCO − + (e excreção de H) ocorrem 3
no túbulo proximal, e apenas pequena quantidade de HCO − flui para os 3
túbulos distais e ductos coletores. No ramo ascendente espesso da alça de
Henle, outros 10% do HCO − filtrado são reabsorvidos, e o restante da 3
reabsorção tem lugar nos túbulos distais e nos ductos coletores. Conforme
discutido, o mecanismo pelo qual o HCO − é reabsorvido envolve a 3
secreção tubular de H +, mas diferentes segmentos tubulares realizam essa
atividade de modos diferentes.
Figura 31-4. Reabsorção de bicarbonato em diferentes segmentos do túbulo renal. São
mostradas as porcentagens da carga filtrada de HCO − absorvidas pelos diversos 3 segmentos tubulares, bem como o número de miliequivalentes reabsorvidos por dia sob condições normais.
O H+ é SECRETADO POR TRANSPORTE ATIVO
SECUNDÁRIO NOS SEGMENTOS TUBULARES INICIAIS
As células epiteliais do túbulo proximal, do segmento espesso ascendente
da alça Henle e do início do túbulo distal secretam H + para o líquido tubular
pelo contratransporte de sódio-hidrogênio, como mostrado na Figura 31-5.
Essa secreção secundária ativa de H + + é acoplada ao transporte de Na para a
célula, pela proteína trocadora sódio-hidrogênio, e a energia para a
secreção do H + contra seu gradiente de concentração é derivada do gradiente de sódio dissipado durante o movimento de Na + para a célula, a
favor do gradiente de concentração. Esse gradiente é estabelecido pela
bomba de sódio-potássio trifosfato de adenosina (ATPase) na membrana
basolateral. Cerca de 95% do bicarbonato são reabsorvidos dessa maneira,
sendo necessária a secreção, pelos túbulos, de cerca de 4.000 mEq de H+ a
cada dia. Esse mecanismo, entretanto, não estabelece concentração muito
elevada de H + no líquido tubular; o líquido tubular só fica muito ácido a
partir dos túbulos coletores e ductos coletores.
A + Figura 31-5 mostra como o processo de secreção de H realiza a
reabsorção de HCO −. O processo secretório começa quando o CO se 3 2
difunde para as células tubulares ou é formado pelo metabolismo das
células epiteliais tubulares. Sob a ação da enzima anidrase carbônica, o
CO − combina-se com H O para formar H CO , que se dissocia em HCO 2 2 2 3 3
e H + + . O H é secretado das células para o lúmen tubular pelo
contratransporte de sódio-hidrogênio. Ou seja, quando um Na + se move do
lúmen do túbulo para o interior da célula ele se combina, primeiramente,
com a proteína carreadora na borda luminal da membrana celular; ao
mesmo tempo, um H +, no interior das células, combina-se com a proteína
carreadora. O Na+ move-se na célula a favor do gradiente de concentração
estabelecido pela bomba sódio-potássio ATPase na membrana basolateral.
A energia liberada pela dissipação de parte desse gradiente move o H + na
direção oposta, do interior da célula para o lúmen tubular. Portanto, o
gradiente de Na+, através da membrana, provê energia para o transporte do
H + contragradiente.
O HCO − + gerado na célula (quando H CO é dissociado em H e HCO ), 3 2 3 3
então se move a favor do gradiente através da membrana basolateral para o
líquido intersticial renal e para o sangue capilar peritubular. O resultado
efetivo é a reabsorção de um íon HCO − + para cada H secretado. 3
Figura 31-5. Mecanismos celulares da (1) secreção ativa de íons hidrogê nio pelos túbulos
renais; (2) reabsorção tubular de íons e o HCO −, por combinação com íons hidrogênio 3 para formar ácido carbônico, que se dissocia formando dióxido de carbono e água; e (3) reabsorção do íon sódio em troca dos íons hidrogênio secretados. Esse padrão de secreção de H + ocorre no túbulo proximal, no segmento ascendente espesso da alça de Henle, e no início do túbulo distal.
O HCO3– FILTRADO É REABSORVIDO PELA
INTERAÇÃO COM ÍONS HIDROGÊNIO NOS TÚBULOS
Os íons bicarbonato não permeiam prontamente as membranas luminais das
células tubulares renais; assim, o HCO − filtrado pelos glomérulos não pode 3
ser reabsorvido diretamente. Em vez disso, o HCO − é reabsorvido por 3
processo especial, no qual se combina primeiro com H + para formar
H CO . Este acaba se convertendo em CO e H O, como mostrado 2 3 2 2
na Figura 31-5.
Essa reabsorção do HCO − é iniciada nos túbulos pela reação entre o 3
HCO − + filtrado nos glomérulos e o H secretado pelas células tubulares. O 3
H CO formado, então, se dissocia em CO e H O. O CO consegue se 2 3 2 2 2 difundir facilmente pela membrana tubular; portanto, difunde-se
instantaneamente para a célula tubular, onde se recombina com H O, por 2
ação da enzima anidrase carbônica, gerando nova molécula de H CO 23
dentro das células. Esse H − CO , por sua vez, se dissocia formando HCO e 2 3 3
H + − ; o HCO se difunde através da membrana basolateral para o líquido 3
intersticial, sendo captado pelo sangue dos capilares peritubulares. O
transporte de HCO através da membrana basolateral é facilitado por dois 3
mecanismos: (1) cotransporte Na+ −-HCO, no túbulo proximal; e (2) troca 3
Cl − −-HCO nos últimos segmentos do túbulo proximal, no segmento 3
ascendente espesso da alça de Henle e nos túbulos e ductos coletores.
Assim, cada vez que um H+ é formado nas células epiteliais tubulares, um
HCO − também é formado e liberado de volta ao sangue. O efeito real 3
dessas reações é a “reabsorção” de HCO − − nos túbulos, embora o HCO 3 3
que de fato chega ao líquido intersticial não seja o mesmo filtrado nos
túbulos. A reabsorção de HCO − + filtrado não resulta na secreção real de H, 3
porque o H+ − secretado se combina com o HCO filtrado e, assim, não é 3
excretado.
HCO3– é “Titulado” Contra o H+ nos Túbulos. Sob condições
normais, a secreção tubular de H+ é de cerca de 4.400 mEq/L/dia e a
filtração de HCO − é de cerca de 4.320 mEq/L/dia. Assim, as quantidades 3
desses dois íons que entram nos túbulos são quase iguais e se combinam
para formar CO − + e H O. Portanto, diz-se que HCO e H normalmente, “se 2 2 3
titulam” nos túbulos.
O processo de titulação não é bem exato, pois geralmente existe pequeno
excesso de H + + nos túbulos a ser excretado na urina. Esse excesso de H
eliminado pela urina (cerca de 80 mEq/L/dia) retira do corpo os ácidos não
voláteis produzidos pelo metabolismo. Como discutiremos adiante, grande parte do H+ + não é excretada como H livre, mas, sim, em combinação a
outros tampões urinários, especialmente fosfato e amônia.
Quando ocorre excesso de HCO − + em relação ao H na urina, como 3
acontece na alcalose metabólica, o excesso de HCO − que não pôde ser 3
reabsorvido permanece, portanto, nos túbulos. Posteriormente, o excesso de
HCO − é excretado na urina, o que ajuda a corrigir a alcalose metabólica. 3
Na acidose, ocorre excesso de H+ − em relação a HCO, causando 3
reabsorção completa de HCO − + ; o H em excesso passa para a urina, em 3
combinação aos tampões urinários, particularmente o fosfato e a amônia,
sendo posteriormente excretado como sal. Assim, o mecanismo básico pelo
qual os rins corrigem a acidose ou a alcalose é a titulação incompleta de H +
em relação ao HCO −, levando um ou outro a passar pela urina e ser 3
removido do líquido extracelular.
SECREÇÃO ATIVA PRIMÁRIA DE H+ NAS CÉLULAS
INTERCALADAS DOS TÚBULOS DISTAIS E COLETORES
Iniciando-se no final dos túbulos distais e prosseguindo pelo restante do
sistema tubular, o epitélio tubular secreta H + por transporte ativo primário.
As características desse transporte são diferentes das discutidas para os
túbulos proximais, para a alça de Henle e para o início dos túbulos distais.
O mecanismo de secreção ativa primária de H+ foi discutido no Capítulo
28 e é representado na Figura 31-6. Ele ocorre na membrana luminal da
célula tubular, em que o H+ é transportado diretamente por proteínas
específicas, a ATPase transportadora de hidrogênio e um transportador
hidrogênio-potássio-ATPase + . A energia necessária para bombear o H
deriva da degradação do ATP em difosfato de adenosina.
A secreção ativa primária de H+ ocorre em tipo especial de células,
denominadas células intercaladas tipo A, no final do túbulo distal e nos túbulos coletores. A secreção de íons hidrogênio por essas células é feita em
duas etapas: (1) o CO dissolvido na célula se combina com H O para 2 2
formar H − CO , e (2) o H CO então se dissocia em HCO que é 2 3 2 3 3
reabsorvido para o sangue mais H+, que é secretado para o lúmen tubular
por meio dos transportadores ATPase transportadora de hidrogênio e da
hidrogênio-potássio-ATPase. Para cada H+ − secretado, um HCO é 3
reabsorvido, semelhante ao processo nos túbulos proximais. A principal
diferença é que aqui o H+ se move pela membrana luminal por bomba ativa
de H +, em vez de por contratransporte, como ocorre nas partes proximais do
néfron.
Muito embora a secreção de H+ no túbulo distal posterior e nos túbulos
coletores represente apenas 5% do total de H+ secretado, esse mecanismo é
importante na formação de urina muito ácida. Nos túbulos proximais, a
concentração de H + pode ser aumentada por apenas cerca de 3 a 4 vezes, e o
pH do líquido tubular só pode ser reduzido até 6,7, embora grandes
quantidades + de H sejam secretadas por esse segmento do néfron.
Entretanto, a concentração de H+ pode ser aumentada por até 900 vezes
pelos túbulos coletores. Esse mecanismo diminui o pH do líquido tubular
para cerca de 4,5, que é o limite mínimo do pH que pode ser atingido nos
rins normais.