Tratado de Fisiologia Médica
Eixo Elétrico Médio do QRS Ventricular — e seu Significado
Figura 12-10. Vetorcardiogramas de QRS e T.
EIXO ELÉTRICO MÉDIO DO QRS VENTRICULAR — E
SEU SIGNIFICADO
O vetorcardiograma, durante a despolarização ventricular (o
vetorcardiograma do QRS) mostrado na Figura 12-10, é de um coração
normal. Note nesse vetorcardiograma que a direção predominante dos
vetores dos ventrículos durante a despolarização ocorre em direção ao ápice
do coração. Isto é, durante a maior parte do ciclo de despolarização
ventricular, a direção do potencial elétrico (negativo para positivo) é da
base dos ventrículos para o ápice. Essa direção predominante do potencial
durante a despolarização é referida como eixo elétrico médio dos
ventrículos. O eixo elétrico médio dos ventrículos normais é de 59º. Em
muitas condições patológicas cardíacas, essa direção se altera de modo
pronunciado, às vezes, até para polos opostos do coração.
Determinação do Eixo Elétrico pelas Derivações
Eletrocardiográficas Padronizadas
Na prática clínica, usualmente se estima o eixo elétrico do coração por meio
das derivações eletrocardiográficas bipolares padronizadas dos membros,
em vez de pelo vetorcardiograma. A Figura 12-11 apresenta o método para
realizar essa estimativa. Depois de registrar as derivações padronizadas,
determinam-se o potencial e a polaridade resultantes nos registros das
derivações I e III. Na derivação I da Figura 12-11, o registro é positivo; na
derivação III, o registro é preponderantemente positivo, mas negativo
durante parte do ciclo. Se alguma parte do registro for negativa, esse
potencial negativo será subtraído da parte positiva do potencial para
determinar o potencial resultante (ou efetivo) para essa derivação, como
mostrado pela seta à direita do complexo QRS na derivação III. Em seguida, cada potencial resultante para as derivações I e III é marcado nos
eixos das respectivas derivações, com a base do potencial no ponto de
interseção dos eixos, como mostrado na Figura 12-11.
Se o potencial resultante da derivação I for positivo, ele será marcado com
direção positiva ao longo da linha que representa a derivação I.
Inversamente, se esse potencial for negativo, ele será marcado na direção
negativa. Também para a derivação III, o potencial resultante é representado
com sua base no ponto de interseção e, se positivo, é marcado na direção
positiva, ao longo da linha representando a derivação III. Se for negativo,
será marcado na direção negativa.
Para determinar o vetor do potencial elétrico ventricular médio total do
QRS, traçam-se linhas perpendiculares (as linhas tracejadas na figura),
pelas pontas das derivações I e III, respectivamente. O ponto de interseção
dessas duas linhas perpendiculares representa, por análise vetorial, a ponta
do vetor QRS médio nos ventrículos, e o ponto de interseção dos eixos das
derivações I e III representa a extremidade negativa do vetor médio. Assim,
o vetor QRS médio é traçado entre esses dois pontos. O potencial médio
aproximado gerado pelos ventrículos durante a despolarização é
representado pelo comprimento desse vetor QRS médio, e o eixo elétrico
médio é representado pela direção do vetor médio. Dessa forma, a
orientação do eixo elétrico médio dos ventrículos normais, como
determinada na + Figura 12-11 , é de 59º positivos (59º).
Figura 12-11. Determinação do eixo elétrico médio dos ventrículos por meio de duas derivações eletrocardiográficas (derivações I e III).
Condições Ventriculares Anormais que Causam Desvio
de Eixo
Apesar de o eixo elétrico médio dos ventrículos ser, em geral, por volta de
59º, esse eixo pode se desviar mesmo em um coração normal de cerca de
20º até aproximadamente 100º. As causas das variações normais são, em
sua maior parte, diferenças anatômicas do sistema de distribuição de
Purkinje ou da própria musculatura dos diferentes corações. Entretanto,
várias condições cardíacas anormais podem causar desvio do eixo, além dos
limites normais, como se segue.
Mudança da Posição do Coração no Tórax. Se o coração está
angulado para a esquerda, o eixo elétrico médio do coração também é
desviado para a esquerda. Esse desvio ocorre (1) ao final de expiração
profunda; (2) quando a pessoa se deita, porque o conteúdo abdominal faz
pressão para cima, contra o diafragma; e (3) de forma relativamente
frequente em pessoas obesas, cujos diafragmas, via de regra, exercem pressão para cima contra o coração por todo o tempo, em consequência do
aumento da adiposidade visceral.
Analogamente, a angulação do coração para a direita causa o desvio do
eixo elétrico médio dos ventrículos para a direita. Esse descolamento
ocorre (1) ao final de inspiração profunda; (2) quando a pessoa se levanta; e
(3) usualmente nas pessoas altas e longilíneas, cujos corações pendem.
Hipertrofia de um Ventrículo. Quando um ventrículo apresenta
hipertrofia acentuada, o eixo do coração é desviado na direção do
ventrículo hipertrofiado por duas razões. Primeira, existe uma quantidade
maior de músculo no lado hipertrofiado do coração, em relação ao outro
lado, e isso faz com que ocorra geração maior de potencial elétrico nesse
lado. Segunda, é necessário mais tempo para que a onda de despolarização
passe pelo ventrículo hipertrofiado que pelo ventrículo normal.
Consequentemente, o ventrículo normal é despolarizado muito antes que o
ventrículo hipertrofiado, e essa situação causa grande vetor do lado normal
do coração para o lado hipertrofiado, que permanece com forte carga
positiva. Assim, o eixo se desvia em direção ao ventrículo hipertrofiado.
Análise Vetorial do Desvio de Eixo para a Esquerda em
Decorrência da Hipertrofia do Ventrículo Esquerdo. AFigura 12-
12 mostra as três derivações eletrocadiográficas bipolares padronizadas dos
membros. A análise vetorial demonstra desvio à esquerda do eixo,
apontando na direção de −15º. Esse é um ECG típico, ocasionada pelo
aumento de massa muscular do ventrículo esquerdo. Nesse caso, o desvio
do eixo foi causado por hipertensão (alta pressão sanguínea arterial), que
fez o ventrículo esquerdo se hipertrofiar para poder bombear sangue contra
a pressão arterial sistêmica elevada. Ocorre quadro semelhante de desvio do
eixo para a esquerda quando o ventrículo esquerdo se hipertrofia, como
resultado de estenose valvar aórtica, regurgitação valvar aórtica ou várias condições cardíacas congênitas, nas quais o ventrículo esquerdo aumenta,
enquanto o ventrículo direito permanece com tamanho relativamente
normal.
Figura 12-12. Desvio do eixo para a esquerda em um coração hipertenso (ventrículo esquerdo hipertrófico). Note também o complexo QRS discretamente alargado.
Análise Vetorial do Desvio de Eixo para a Direita em
Decorrência da Hipertrofia do Ventrículo Direito. O ECG daFigura
12-13 mostra desvio acentuado do eixo para a direita, para eixo elétrico de
170º, que é 111º à direita do eixo ventricular médio do QRS de 59º. O
desvio do eixo para a direita, mostrado nessa figura, foi causado por
hipertrofia do ventrículo direito, resultante de estenose valvar pulmonar
congênita. O desvio do eixo para a direita também pode ocorrer em outras condições cardíacas congênitas, causadoras de hipertrofia do ventrículo
direito, como a tetralogia de Fallot e o defeito do septo interventricular.
Figura 12-13. Eletrocardiograma de alta voltagem de um indivíduo com estenose de valva pulmonar congênita com hipertrofia ventricular direita. Também podem ser vistos o intenso desvio do eixo para a direita e o complexo QRS discretamente prolongado.
Bloqueio de Ramo Causa Desvio de Eixo. Normalmente, as paredes
laterais dos dois ventrículos se despolarizam quase ao mesmo instante,
porque os ramos esquerdo e direito do sistema de Purkinje transmitem o
impulso cardíaco, de forma quase simultânea, para as duas paredes ventriculares. Como resultado, os potenciais gerados pelos dois ventrículos
(nos dois lados opostos do coração) quase se neutralizam mutuamente.
Entretanto, se um dos maiores ramos dos feixes estiver bloqueado, o
impulso cardíaco se espalhará pelo ventrículo normal muito antes do que
pelo outro. Assim, a despolarização dos dois ventrículos fica muito longe de
ser simultânea, e os potenciais de despolarização não se neutralizam
mutuamente. Como consequên cia, ocorre desvio do eixo como se segue.
Análise Vetorial do Desvio do Eixo para a Esquerda no Bloqueio
de Ramo Esquerdo. Quando o ramo esquerdo é bloqueado, a
despolarização cardíaca se espalha pelo ventrículo direito com rapidez duas
ou três vezes maior que pelo ventrículo esquerdo. Por conseguinte, grande
porção do ventrículo esquerdo permanece polarizada por até 0,1 segundo
após o ventrículo direito ter sido totalmente despolarizado. O ventrículo
direito passa a ser eletronegativo, ao passo que o ventrículo esquerdo
permanece eletropositivo durante a maior parte do processo de
despolarização, e um grande vetor se projeta do ventrículo direito na
direção do ventrículo esquerdo. Em outras palavras, há um desvio
acentuado do eixo para a esquerda de cerca de −50º, porque a extremidade
positiva do vetor aponta na direção do ventrículo esquerdo. Essa situação é
mostrada na Figura 12-14, que apresenta um típico desvio do eixo para a
esquerda, resultante de bloqueio do ramo esquerdo.
Além do desvio do eixo, devido à lentidão da condução do impulso
quando o sistema de Purkinje está bloqueado, a duração do complexo QRS
é muito prolongada, em decorrência da extrema lentidão da despolarização
no lado afetado do coração. Pode-se ver esse efeito ao notar a largura
excessiva das ondas QRS na Figura 12-14. Esse tópico é discutido com
mais detalhes adiante, neste Capítulo. Esse complexo QRS extremamente
prolongado diferencia o bloqueio de ramo do desvio causado por
hipertrofia.
Figura 12-14. Desvio do eixo para a esquerda causado por bloqueio do ramo esquerdo. Note também o complexo QRS muito prolongado.
Análise Vetorial do Desvio do Eixo para a Direita no Bloqueio de
Ramo Direito. Quando o ramo direito é bloqueado, o ventrículo esquerdo
é despolarizado muito mais rápido que o ventrículo direito; então, o lado
esquerdo dos ventrículos fica eletronegativo até 0,1 segundo antes do
direito. Assim, desenvolve-se grande vetor com sua extremidade negativa
na direção do ventrículo esquerdo, e sua extremidade positiva na direção do
ventrículo direito. Em outras palavras, ocorre intenso desvio do eixo para a
direita. Na Figura 12-15, é mostrado um desvio de eixo para a direita
causado por bloqueio do ramo direito; essa análise mostra um eixo de cerca de 105º, no lugar dos 59º normais, e complexo QRS alargado, decorrente da