Tratado de Fisiologia Médica
Pulsações da Pressão Arterial
de minutos a horas de diminuição do volume sanguíneo, como o que ocorre
depois de hemorragias graves.
Figura 15-2. Efeito sobre a pressão intravascular da injeção de volume de sangue em segmento venoso e depois da remoção do sangue em excesso, demonstrando o princípio da complacência tardia.
PULSAÇÕES DA PRESSÃO ARTERIAL
Cada batimento cardíaco faz com que nova onda de sangue chegue às
artérias. Se não fosse pela distensibilidade do sistema arterial, todo esse
novo volume de sangue teria de fluir pelos vasos sanguíneos periféricos,
quase instantanea mente, apenas durante a sístole cardíaca, e não ocorreria
fluxo durante a diástole. Entretanto, em geral, a complacência da árvore
arterial reduz os pulsos de pressão, de modo que quase não ocorram pulsos
quando o sangue atinge os capilares; assim, o fluxo sanguíneo tecidual é
essencialmente contínuo, com pulsações muito pequenas.
Os pulsos de pressão na raiz da aorta são mostrados na Figura 15-3. No
adulto jovem saudável, a pressão no pico de cada pulso chamada de pressão sistólica, é cerca de 120 mmHg; no ponto mais baixo de cada pulso,
chamado pressão diastólica, cai para cerca de 80 mmHg. A diferença entre
essas duas pressões de aproximadamente 40 mmHg é chamada pressão de
pulso.
Dois fatores principais afetam a pressão de pulso: (1) o débito sistólico
cardíaco; e (2) a complacência (distensibilidade total) da árvore arterial.
Um terceiro fator, menos importante, é o caráter da ejeção do coração
durante a sístole.
Em geral, quanto maior o débito sistólico, maior será a quantidade de
sangue que deve ser acomodada na árvore arterial a cada batimento;
portanto, maiores serão o aumento e a queda de pressão durante a sístole e a
diástole, resultando em maior pressão de pulso. Por sua vez, quanto menor
for a complacência do sistema arterial, maior será o aumento da pressão,
provocado por um dado volume de sangue bombeado em cada batimento
para as artérias. Por exemplo, como mostrado nas curvas centrais da linha
de cima da Figura 15-4, a pressão de pulso na velhice aumenta até duas
vezes o normal porque as artérias ficaram endurecidas pela arteriosclerose
e assim são relativamente não complacentes.
Efetivamente, a pressão de pulso é determinada, em termos aproximados,
pela razão entre o débito sistólico e a complacência da árvore arterial.
Qualquer condição da circulação que afete um desses dois fatores também
afetará a pressão de pulso.
Figura 15-3. Curva do pulso de pressão na aorta ascendente.
Pressão de pulso = débito sistólico/complacência arterial
Traçados Anormais de Pressão de Pulso
Algumas condições fisiopatológicas da circulação, além de alterarem a
pressão de pulso, provocam traçados anormais de suas ondas. A estenose
aórtica, a persistência do canal arterial e a insuficiência aórtica são algumas
das condições especialmente notáveis e são mostradas na Figura 15-4.
Em pessoas com estenose valvar aórtica, o diâmetro da abertura da valva
aórtica é significativamente reduzido, e a pressão de pulso aórtica fica
bastante diminuída, em virtude da redução do fluxo sanguíneo, que é
ejetado pela valva estenótica.
Em pessoas com persistência do canal arterial, a metade ou mais do
sangue bombeado para a aorta pelo ventrículo esquerdo flui imediatamente de volta, pelo canal (ou ducto) arterial que permanece aberto, para a artéria
pulmonar e vasos sanguíneos pulmonares, fazendo com que a pressão
diastólica caia para valores muito baixos antes do batimento cardíaco
seguinte.
Em pessoas com insuficiência aórtica, a valva aórtica está ausente ou não
se fecha de modo completo. Assim, após cada batimento, o sangue
bombeado para a aorta flui imediatamente de volta para o ventrículo
esquerdo. Isso resulta em queda da pressão aórtica entre os batimentos
cardíacos até atingir o valor zero. Além disso, não aparece a incisura no
traçado do pulso aórtico, porque não ocorre o fechamento da valva aórtica.
Figura 15-4. Curvas de pressão de pulso aórtica na arteriosclerose, na estenose aórtica, na persistência do canal arterial e na insuficiência aórtica.
Transmissão dos Pulsos de Pressão para as Artérias
Periféricas
Quando o coração ejeta sangue para a aorta durante a sístole, apenas a
porção proximal da aorta é inicialmente distendida, porque a inércia do sangue impede seu movimento súbito por todo o trajeto até a periferia.
Entretanto, o aumento da pressão na aorta proximal supera com muita
rapidez essa inércia, e a onda de distensão é transmitida distalmente ao
longo da aorta, como demonstrado na Figura 15-5. Esse fenômeno é
chamado transmissão do pulso de pressão para as artérias.
A velocidade da transmissão do pulso de pressão na aorta normal é de 3 a
5 m/s; nos grandes ramos arteriais, de 7 a 10 m/s; e nas pequenas artérias,
de 15 a 35 m/s. Em geral, quanto maior a complacência de cada segmento
vascular, menor será a velocidade, o que explica a lenta transmissão na
aorta e a transmissão muito mais rápida nas artérias distais que são muito
menos complacentes. Na aorta, a velocidade de transmissão do pulso de
pressão é 15 ou mais vezes maior que a velocidade do fluxo sanguíneo,
porque o pulso de pressão é simplesmente uma onda de pressão em
movimento, que envolve pouco movimento total de sangue no sentido
distal.
Figura 15-5. Estágios progressivos na transmissão do pulso de pressão ao longo da aorta.
Os Pulsos de Pressão são Amortecidos nas Pequenas Artérias,
nas Arteríolas e nos Capilares. A Figura 15-6 mostra alterações
típicas dos traçados dos pulsos de pressão, à medida que se deslocam para
os vasos periféricos. Note-se, de modo especial, que nas três curvas
inferiores a intensidade do pulso fica menor nas pequenas artérias, nas
arteríolas e particularmente nos capilares. De fato, apenas quando os pulsos aórticos são muito grandes ou quando as arteríolas estão muito dilatadas, é
possível observar pulsos nos capilares.
Essa diminuição progressiva dos pulsos na periferia é chamada
amortecimento dos pulsos de pressão. A causa desse amortecimento é
dupla: (1) a resistência ao movimento do sangue pelos vasos; e (2) a
complacência dos vasos. A resistência amortece os pulsos porque pequena
quantidade de sangue deve-se mover para adiante, na onda de pulso, de
modo a distender o segmento seguinte do vaso; quanto maior a resistência,
maior será a dificuldade para que isso ocorra. A complacência amortece os
pulsos porque quanto mais complacente for o vaso, maior será a quantidade
de sangue necessária na onda de pulso para provocar aumento na pressão.
Assim, o grau de amortecimento é quase diretamente proporcional ao
produto da resistência pela complacência.
Figura 15-6. Alterações nas curvas dos pulsos de pressão, à medida que a onda passa em direção aos vasos menores.
Métodos Clínicos para as Medidas das Pressões
Sistólica e Diastólica
Não é prático usar aparelhos que utilizem a inserção de agulhas nas artérias,
para a medida rotineira da pressão arterial em pacientes humanos, embora
esses tipos de registradores sejam, ocasionalmente, utilizados quando são
necessários estudos especiais. Em vez disso, o clínico determina as pressões
sistólica e diastólica por métodos indiretos, geralmente pelo método
auscultatório.
Método Auscultatório. A Figura 15-7 demonstra o método auscultatório
para determinar as pressões arteriais sistólica e diastólica. Um estetoscópio
é posicionado sobre a artéria braquial, e um manguito é inflado sobre a
parte superior do braço. Enquanto o manguito comprimir o braço com
pressão demasiado baixa, sendo incapaz de fechar a artéria, não serão
ouvidos sons pelo estetoscópio sobre ela. Entretanto, quando a pressão do
manguito for suficiente para fechar a artéria durante parte do ciclo da
pressão arterial, poderá ser ouvido som a cada pulsação. Esses sons são
conhecidos como sons de Korotkoff, em homenagem a Nikolai Korotkoff,
físico russo que os descreveu em 1905.
Acredita-se que os sons de Korotkoff sejam provocados, principalmente,
pela ejeção de sangue pelo vaso parcialmente ocluído e por vibrações da
parede do vaso. O jato de sangue provoca turbulência no vaso após o
manguito, o que desencadeia vibrações ouvidas por meio do estetoscópio.
Ao determinar a pressão arterial pelo método auscultatório, a pressão no
manguito é inicialmente elevada acima da pressão arterial sistólica.
Enquanto a pressão do manguito for maior que a pressão sistólica, a artéria
braquial permanecerá colapsada, de modo que não ocorrerá ejeção de
sangue para a parte inferior da artéria, em nenhuma parte do ciclo de
pressão. Portanto, não serão ouvidos sons de Korotkoff na artéria distal
inferior. Em seguida, contudo, a pressão do manguito é gradualmente
reduzida. Imediatamente antes que a pressão no manguito caia abaixo da
pressão sistólica (ponto B, Fig. 15-7), o sangue começa a fluir pela artéria,
abaixo do manguito, durante o pico de pressão sistólica, e é possível ouvir
sons secos como se fossem pancadas na artéria braquial em sincronia com
os batimentos cardíacos. Assim que esses sons começam a ser ouvidos, o
nível de pressão, indicado pelo manômetro conectado ao manguito,
equivale à pressão sistólica.
À medida que a pressão no manguito é ainda mais reduzida, a qualidade
dos sons de Korotkoff se altera, passando a ser menos secos e adquirindo
característica mais rítmica e áspera. Então, por fim, quando a pressão no
manguito cai próxima à pressão diastólica e os sons repentinamente mudam
para uma qualidade abafada (ponto C, Fig. 15-7). A pressão manométrica,
quando os sons de Korotkoff são alterados para a qualidade abafada e essa
pressão, é aproximadamente igual à pressão diastólica, embora superestime
a pressão diastólica determinada por cateter intra-arterial direto. À medida
que a pressão de manguito cai alguns mmHg, a artéria não é mais fechada
durante a diástole, o que significa que o fator essencial causador dos sons (o
jato de sangue pela artéria comprimida) não está mais presente. Portanto, os
sons desaparecem completamente. Muitos médicos acreditam que a pressão
na qual os sons de Korot koff desaparecem por completo deve ser usada
como a pressão diastólica, exceto em situações em que o desaparecimento
dos sons não pode ser determinado com segurança, pois os sons ainda são
audíveis mesmo depois do esvaziamento completo do manguito. Por
exemplo, em pacientes com fístulas intravenosas para hemodiálise ou com
insuficiência da aorta, os sons de Korotkoff podem ser ouvidos após
esvaziamento completo do manguito.
O método auscultatório para a determinação das pressões sistólica e
diastólica não é inteiramente preciso, mas, em geral, fornece valores com
erros menores que 10% em relação à medida direta, com cateteres inseridos
em artérias.
Figura 15-7. Método auscultatório para a medida das pressões arteriais sistólica e diastólica.
Pressões Arteriais Normais Medidas pelo Método Auscultatório.
A Figura 15-8 demonstra as pressões arteriais sistólicas e diastólicas aproximadamente normais em diferentes idades. O aumento progressivo da
pressão com a idade resulta dos efeitos do envelhecimento sobre os
mecanismos de controle da pressão sanguínea. Veremos, no Capítulo 19,
que os rins são os principais responsáveis por essa regulação a longo prazo
da pressão arterial, e se sabe que os rins apresentam alterações definitivas
com a idade, especialmente após os 50 anos.
Ligeiro aumento adicional da pressão sistólica geralmente ocorre após os
60 anos de idade. Isso resulta da distensibilidade reduzida ou
“endurecimento” das artérias, que é, com frequência, um resultado da
arteriosclerose. O efeito final é pico sistólico de pressão com aumento
considerável da pressão de pulso, conforme já explicado.
Pressão Arterial Média. A pressão arterial média é a média das pressões
arteriais medidas a cada milissegundo durante certo intervalo de tempo. Ela
não é igual à média entre as pressões sistólica e diastólica, porque, nas
frequên cias normais, maior fração do ciclo cardíaco é usada na diástole do
que é na sístole; assim, a pressão arterial permanece mais próxima à
diastólica que à sistólica durante a maior parte do ciclo cardíaco. Portanto, a
pressão diastólica determina cerca de 60% da pressão arterial média, e a
pressão sistólica, 40%. Note, na Figura 15-8, que a pressão arterial média (a
linha verde contínua) em todas as idades está mais próxima da pressão
diastólica que da sistólica. Porém, nas frequências cardíacas muito altas, a
diástole abrange fração menor do ciclo cardíaco, e a pressão arterial média
se aproxima mais da média das pressões sistólica e diastólica.