Tratado de Fisiologia Médica
Transdução dos Estímulos Sensoriais em Impulsos Nervosos
cerebrais; as fibras que se originam na cóclea terminam nas áreas cerebrais
auditivas, e as fibras térmicas terminam nas áreas associadas à detecção de
temperatura.
Essa especificidade das fibras nervosas para transmitir apenas uma
modalidade sensorial é chamada princípio das vias rotuladas.
TRANSDUÇÃO DOS ESTÍMULOS SENSORIAIS EM
IMPULSOS NERVOSOS
CORRENTES ELÉTRICAS LOCAIS NAS TERMINAÇÕES
NERVOSAS — POTENCIAIS RECEPTORES
Todos os receptores sensoriais têm característica comum. Qualquer que seja
o tipo de estímulo que excite o receptor, seu efeito imediato é o de alterar o
potencial elétrico da membrana do receptor. Essa alteração do potencial é
chamada potencial receptor.
Mecanismos dos Potenciais Receptores. Os diferentes receptores
podem ser excitados de várias maneiras para causar um potencial receptor:
(1) por deformação mecânica do receptor que distende a membrana do
receptor e abre os canais iônicos; (2) pela aplicação de substância química
na membrana que também abre os canais iônicos; (3) pela alteração da
temperatura da membrana que altera a permeabilidade da membrana; ou (4)
pelos efeitos da radiação eletromagnética, tais como a luz no receptor visual
da retina que, direta ou indiretamente, alteram as características da
membrana do receptor e permitem que os íons fluam pelos canais da
membrana.
Esses quatro meios de excitar os receptores correspondem, em geral, aos
diferentes tipos de receptores sensoriais conhecidos. Em todos os casos, a causa básica da alteração no potencial de membrana é a alteração da
permeabilidade da membrana do receptor que permite que os íons se
difundam mais ou menos prontamente através da membrana, alterando,
desse modo, o potencial transmembrana.
Amplitude Máxima do Potencial Receptor. A amplitude máxima da
maioria dos potenciais receptores sensoriais é cerca de 100 milivolts, porém
esse nível ocorre apenas com estímulo sensorial de intensidade
extremamente elevada. Essa é aproximadamente a mesma voltagem
máxima registrada nos potenciais de ação e é também a alteração da
voltagem verificada quando a membrana fica permeável, o máximo
possível, aos íons sódio.
Relação do Potencial Receptor com os Potenciais de Ação.
Quando o potencial receptor se eleva acima do limiar, para desencadear
potenciais de ação na fibra nervosa conectada ao receptor, ocorrem então os
potenciais de ação, como mostrado na Figura 47-2. Observe também que
quanto mais o potencial receptor se eleva acima do limiar, maior fica a
frequência dos potenciais de ação na fibra aferente.
Figura 47-2. Relação típica entre o potencial receptor e os potenciais de ação, quando o potencial receptor se eleva acima do nível limiar.
POTENCIAL RECEPTOR DO CORPÚSCULO DE PACINI
— EXEMPLO DA FUNÇÃO DO RECEPTOR
Na Figura 47-1 pode observar-se que o corpúsculo de Pacini contém uma
fibra nervosa que se estende por toda a sua região central. Circundando essa
fibra nervosa central existem múltiplas camadas capsulares concêntricas, de
modo que qualquer pressão exercida, em qualquer região externa do
corpúsculo vai alongar, comprimir ou deformar de alguma maneira a fibra
central.
A Figura 47-3 mostra apenas a fibra central do corpúsculo de Pacini e
uma só das camadas formadoras da cápsula depois da remoção das outras
camadas. A terminação da fibra central na cápsula é amielínica, porém a
fibra fica mielinizada (a bainha azul mostrada na figura) um pouco antes de
deixar o corpúsculo e entrar em nervo sensorial periférico.
A Figura 47-3 mostra também o mecanismo pelo qual um potencial
receptor é produzido no corpúsculo de Pacini. Observe a pequena área da fibra terminal que foi deformada pela compressão do corpúsculo, e note que
os canais iônicos se abriram na membrana, permitindo que íons sódio com
carga positiva se difundam para o interior da fibra. Esse efeito cria aumento
da positividade no interior da fibra, que é o “potencial receptor”. Esse
potencial receptor, por sua vez, gera fluxo de corrente, o chamado circuito
local, mostrado pelas setas, que se distribui ao longo da fibra nervosa. Ao
atingir o primeiro nodo de Ranvier, situado no interior da cápsula do
corpúsculo de Pacini, o fluxo de corrente local despolariza a membrana da
fibra desse nodo, o que, então, desencadeia potenciais de ação típicos
transmitidos ao longo da fibra nervosa para o sistema nervoso central.
Figura 47-3. Excitação de fibra nervosa sensorial por potencial receptor produzido em corpúsculo de Pacini. (Modificada de Loëwenstein WR: Excitation and inactivation in a receptor membrane. Ann N Y Acad Sci 94:510, 1961.)
Relação entre Intensidade do Estímulo e Potencial Receptor. A
Figura 47-4 mostra a variação da amplitude do potencial receptor, causada
por compressão mecânica progressivamente mais forte (aumento da “força
do estímulo”), aplicada experimentalmente na região central de corpúsculo
de Pacini. Observe que, com intensidades de estimulação muito altas, a amplitude do potencial gerador aumenta rapidamente no início e, a seguir,
mais lentamente.
Por sua vez, a frequência dos potenciais de ação repetitivos, transmitidos
pelos receptores sensoriais, eleva quase, proporcionalmente, ao aumento do
potencial receptor. Colocando-se esse princípio com os dados na Figura 47-
4, pode-se ver que a estimulação muito intensa do receptor provoca
progressivamente menos e menos aumentos adicionais do número de
potenciais de ação. É um princípio extremamente importante aplicável a
quase todos os receptores sensoriais. Ele permite que o receptor seja
sensível à experiência sensorial muito fraca e ainda assim seja capaz de não
atingir a frequência máxima de disparo até que a experiência sensorial seja
extrema. Essa característica possibilita que o receptor tenha ampla
variedade de respostas de muito fracas até muito intensas.
Figura 47-4. Relação entre a amplitude do potencial receptor e a força de estímulo mecânico, aplicado a corpúsculo de Pacini. (Dados de Loëwenstein WR: Excitation and inactivation in a receptor membrane. Ann N Y Acad Sci 94:510, 1961.)
ADAPTAÇÃO DOS RECEPTORES
Outra característica de todos os receptores sensoriais é que eles se adaptam,
parcial ou completamente, a qualquer estímulo constante depois de certo
período. Ou seja, quando estímulo sensorial contínuo é aplicado, o receptor
responde inicialmente com alta frequência de impulsos, seguida por
frequência progressivamente menor e, por fim, por frequên cia de potenciais
de ação muito baixa ou, em geral, cessam os impulsos.
A Figura 47-5 mostra a adaptação típica de certos tipos de receptores.
Observe que o corpúsculo de Pacini se adapta muito rapidamente, os
receptores da base dos pelos se adaptam em mais ou menos 1 segundo, e
alguns receptores da cápsula articular e do fuso muscular se adaptam
lentamente.
Além do mais, alguns receptores sensoriais se adaptam de modo maior
que outros. Por exemplo, os corpúsculos de Pacini se adaptam até a
“extinção” em alguns centésimos de segundo, e os receptores nas bases dos
pelos se adaptam até a extinção em um segundo ou mais. É provável que
todos os outros mecanorreceptores acabem, por fim, se adaptando quase
que completamente, porém, alguns necessitam de horas ou dias para fazê-
lo, razão pela qual eles são chamados receptores que “não se adaptam”. O
tempo mais longo medido para a adaptação quase completa de
mecanorreceptor é cerca de 2 dias, que é o tempo de adaptação para muitos‐
barorreceptores dos corpos carotídeos e aórticos; entretanto, alguns
fisiologistas acreditam que esses barorreceptores especializados nunca se
adaptam por completo. Alguns dos outros receptores que não os
mecanorreceptores — os quimiorreceptores e os receptores para dor, por
exemplo — provavelmente nunca se adaptam por completo.
Figura 47-5. Adaptação dos diferentes tipos de receptores mostrando a adaptação rápida de alguns receptores e a adaptação lenta de outros.
Mecanismos pelos quais os Receptores se Adaptam. Os
mecanismos de adaptação do receptor são diferentes para cada tipo de
receptor, da mesma maneira que o desenvolvimento do potencial receptor é
propriedade individual. Por exemplo, no olho, os bastonetes e cones se
adaptam modificando as concentrações de substâncias químicas sensíveis à
luz (o que é discutido no Capítulo 51).
No caso dos mecanorreceptores, o receptor estudado em mais detalhes é o
corpúsculo de Pacini. A adaptação ocorre nesse receptor por duas maneiras.
No primeiro caso, devido ao corpúsculo de Pacini apresentar uma estrutura
viscoelástica, quando força de compressão é aplicada rapidamente de um
lado do corpúsculo, essa força é, de modo instantâneo, transmitida pelo
componente viscoso do corpúsculo, diretamente para o mesmo lado da fibra
nervosa central, desencadeando, assim, um potencial receptor. Todavia, em
alguns centésimos de segundo, o líquido no interior do corpúsculo se
redistribui, e o potencial receptor não é mais provocado. Dessa forma, o potencial receptor aparece no início da compressão, porém desaparece em
pequena fração de segundo, mesmo que a compressão continue.
O segundo mecanismo de adaptação do corpúsculo de Pacini muito mais
lento resulta do processo chamado acomodação, que ocorre na própria fibra
nervosa, isto é, mesmo quando a fibra nervosa central continua a ser
deformada, a terminação da fibra nervosa gradualmente passa a ser
“acomodada” ao estímulo. Isso resulta provavelmente da “inativação”
progressiva dos canais de sódio, na membrana da fibra nervosa,
significando que o fluxo da corrente de sódio pelos canais faz com que eles
de forma gradual se fechem, efeito que parece ocorrer em todos ou na
maioria dos canais de sódio da membrana celular, como explicado
no Capítulo 5.
Presumivelmente, esses mesmos dois mecanismos gerais de adaptação se
aplicam a outros tipos de mecanorreceptores, isto é, parte da adaptação
resulta de reajustes da estrutura do receptor, e parte é resultado do tipo
elétrico de acomodação, na terminação nervosa.
Os Receptores de Adaptação Lenta Detectam Estímulos de
Intensidade Contínua — Receptores “Tônicos”. Os receptores de
adaptação lenta continuam a transmitir impulsos para o sistema nervoso
central durante todo o tempo em que o estímulo estiver presente (ou pelo
menos por muitos minutos ou horas). Assim, eles mantêm o sistema
nervoso central informado constantemente sobre o estado do corpo e sua
relação com o meio ambiente. Por exemplo, os impulsos dos fusos
musculares e dos aparelhos tendinosos de Golgi possibilitam que o sistema
nervoso seja informado sobre o estado da contração muscular e da carga
sobre o tendão a cada instante.
Outros receptores de adaptação lenta incluem (1) receptores da mácula no
aparelho vestibular; (2) receptores da dor; (3) barorreceptores do leito
arterial; e (4) quimiorreceptores dos corpos carotídeo e aórtico.
Como os receptores de adaptação lenta podem continuar a transmitir
informações por muitas horas, até mesmo dias, eles são chamados
receptores tônicos.
Os Receptores de Adaptação Rápida Detectam Alterações da
Intensidade do Estímulo — Os “Receptores de Taxa de
Variação”, “Receptores de Movimento” ou “Receptores
Fásicos”. Os receptores que se adaptam rapidamente, não podem ser
usados para transmitir sinal contí nuo, porque esses receptores são
estimulados apenas quando a força do estímulo se altera. Ainda, eles
reagem fortemente enquanto está acontecendo alteração de fato. Por isso,
esses receptores são chamados receptores de transição do estímulo,
receptores de movimento ou receptores fásicos. Dessa forma, no caso do
corpúsculo de Pacini, pressão súbita aplicada aos tecidos excita esse
receptor por alguns milissegundos e, em seguida, essa excitação termina
mesmo que a pressão continue. Entretanto, mais tarde, ele transmite
novamente um sinal quando a pressão é liberada. Em outras palavras, o
corpúsculo de Pacini é extremamente importante para informar ao sistema
nervoso sobre as deformações teciduais rápidas, porém é inútil para a
transmissão de informações sobre as condições constantes do corpo.
Função Preditiva dos Receptores de Taxa de Variação. Se a
velocidade com que ocorre alguma alteração nas condições do organismo
for conhecida, pode-se predizer quais serão essas condições em alguns
segundos, ou, até mesmo, alguns minutos mais tarde. Por exemplo, os
receptores dos canais semicirculares no aparelho vestibular do ouvido
interno detectam a velocidade com que a cabeça começa a mudar de direção
quando alguém está correndo em uma curva. Usando essa informação, a
pessoa pode predizer quanto ela terá de virar nos próximos 2 segundos e
pode, assim, ajustar o movimento das pernas, antecipadamente, para evitar a perda do equilíbrio. Da mesma forma, os receptores localizados nas
articulações ou próximos delas ajudam a detectar as velocidades dos
movimentos de diferentes partes do corpo. Por exemplo, quando alguém
está correndo, as informações dos receptores de adaptação rápida das
articulações permitem ao sistema nervoso prever onde os pés estarão
durante frações precisas do próximo segundo. Dessa forma, os sinais
motores apropriados poderão ser transmitidos para os músculos das pernas
para fazer as correções antecipatórias necessárias na sua posição para que a
pessoa não caia. A perda dessa função preditiva impossibilita a pessoa de
correr.
Fibras Nervosas que Transmitem Diferentes Tipos de Sinais e sua
Classificação Fisiológica
Alguns sinais precisam ser transmitidos rapidamente para ou do sistema
nervoso central; pois, de outra forma, a informação seria inútil. Como exemplo
temos os sinais sensoriais que informam o sistema nervoso central sobre as
posições momentâneas das pernas, a cada fração de segundo, durante a corrida.
No outro extremo, alguns tipos de informações sensoriais, como a informação
sobre dor prolongada, não precisam ser transmitidos rapidamente, assim as fibras
de condução lenta são suficientes. Como mostrado na Figura 47-6, as fibras
nervosas apresentam diâmetros variando de 0,5 a 20 micrômetros — quanto
maior o diâmetro, maior a velocidade de condução. A faixa das velocidades de
condução fica entre 0,5 e 120 m/s.
Figura 47-6. Classificações fisiológicas e funções das fibras nervosas.
Classificação Geral das Fibras Nervosas. É apresentada na Figura 47-6 a
“classificação geral” e a “classificação dos nervos sensoriais” dos diferentes tipos TRANSMISSÃO DE SINAIS DE DIFERENTES
de fibras nervosas. Na classificação geral, as fibras são divididas nos tipos A e C,
e as fibras tipo A são ainda subdivididas em fibras a, b, g e d.
As fibras tipo A são as típicas fibras mielinizadas de calibres grande e médio dos
nervos espinais. As fibras tipo C são fibras nervosas finas e amielínicas, que
conduzem impulsos com baixa velocidade. As fibras C constituem mais da metade
das fibras sensoriais na maioria dos nervos periféricos, bem como em todas as
fibras autônomas pós-ganglionares.
Os calibres, velocidades de condução e funções dos diferentes tipos de fibras
nervosas são também apresentados na Figura 47-6. Observe que poucas fibras
mielinizadas grossas podem transmitir impulsos com velocidades tão altas quanto
120 m/s, distância que é maior que um campo de futebol que é percorrida em 1
segundo. Ao contrário, as fibras mais delgadas transmitem impulsos tão
lentamente quanto 0,5 m/s, sendo necessários cerca de 2 segundos para ir do
grande artelho (hálux) do pé até a medula espinal.
Classificação Alternativa Usada pelos Fisiologistas Sensoriais. Certas
técnicas de registro possibilitaram separar as fibras tipo Aa em dois subgrupos,
embora essas mesmas técnicas de registro não consigam distinguir, facilmente,
entre as fibras Ab e Ag. Assim, a classificação seguinte é frequentemente usada
pelos fisiologistas que estudam a sensibilidade:
Grupo Ia. Fibras das terminações anuloespirais dos fusos musculares (diâmetro
médio de cerca de 17 micrômetros; estas são fibras tipo Aa na classificação
geral).
Grupo Ib. Fibras dos órgãos tendinosos de Golgi (diâmetro médio de cerca de
16 micrômetros; estas também são fibras tipo Aa).
Grupo II. Fibras dos receptores táteis cutâneos mais discretos e das
terminações secundárias dos fusos musculares (diâmetro médio de cerca de 8
micrômetros; estas são fibras tipos Ab e Ag na classificação geral).
Grupo III. Fibras que conduzem a sensibilidade térmica, do tato não
discriminativo e a sensibilidade dolorosa em picada (diâmetro médio de cerca de 3
micrômetros; estas são fibras tipo Ad na classificação geral).
Grupo IV. Fibras amielínicas de condução das sensações de dor, coceira,
temperatura e tátil não discriminativa (diâmetros de 0,5 a 2 micrômetros; elas são
fibras tipo C na classificação geral).