Tratado de Fisiologia Médica
Imunidade Adquirida (Adaptativa)
2. Destruição de micro-organismos deglutidos pelas secreções ácidas do
estômago e pelas enzimas digestivas.
3. Resistência da pele à invasão por micro-organismos.
4. Presença de certos compostos químicos e células, no sangue, que se
prendem a micro-organismos ou toxinas estranhos, destruindo-os.
Alguns desses compostos são (1) lisozima, polissacarídeo mucolítico que
atrai bactérias e causa sua dissolução; (2) polipeptídeos básicos, que
reagem e inativam certos tipos de bactérias gram-positivas; (3) o
complexo do complemento, descrito adiante, um sistema de cerca de 20
proteínas que pode ser ativado por vários modos, para destruir as
bactérias; e (4) linfócitos natural killer, que podem reconhecer e destruir
células estranhas e mesmo algumas células infectadas.
Essa imunidade inata torna o corpo humano resistente a doenças, como
algumas infecções virais paralíticas em animais, cólera suína, praga do gado
e cinomose — doença virótica que mata grande porcentagem dos cães
infectados. Inversamente, muitos animais são resistentes ou até mesmo
imunes a muitas doenças humanas, como a poliomielite, caxumba, cólera
humana, sarampo e sífilis, que são debilitantes ou até letais para os seres
humanos.
IMUNIDADE ADQUIRIDA (ADAPTATIVA)
Além da imunidade inata generalizada, o corpo humano tem a capacidade
de desenvolver imunidade específica extremamente potente contra agentes
invasores individuais como bactérias, vírus e toxinas letais e até mesmo
tecidos estranhos de outros animais. Essa capacidade é chamada imunidade
adquirida ou adaptativa. A imunidade adquirida é causada por sistema
imune especial formador de anticorpos e/ou linfócitos ativados que atacam
e destroem organismos invasores específicos ou toxinas. Este Capítulo discute esse mecanismo de imunidade adquirida e algumas de suas reações
associadas — especialmente as alergias.
A imunidade adquirida confere, em geral, um grau de proteção extrema.
Por exemplo, certas toxinas, como a toxina botulínica paralítica ou a toxina
tetanizante do tétano, podem ser inativadas em doses superiores a 100.000
vezes a quantidade que seria letal sem imunidade. Por esse motivo, o
processo de tratamento, conhecido como imunização, é tão importante na
proteção de seres humanos contra doenças e contra toxinas como será
explicado mais adiante no curso deste Capítulo.
TIPOS BÁSICOS DE IMUNIDADE ADQUIRIDA —
HUMORAL E MEDIADA POR CÉLULAS
No corpo, ocorrem dois tipos básicos e aliados de imunidade adquirida. Em
um deles, o corpo desenvolve anticorpos circulantes, que são moléculas de
globulina no plasma sanguíneo, capazes de atacar o agente invasor. Esse
tipo de imunidade é chamado imunidade humoral ou imunidade das células
B (porque os linfócitos B produzem os anticorpos). O segundo tipo de
imunidade adquirida é dependente da formação de grande número de
linfócitos T ativados, especialmente produzidos nos linfonodos para destruir
o agente estranho. Esse tipo de imunidade é chamado imunidade mediada
por células ou imunidade das células T (porque os linfócitos ativados são
linfócitos T). Veremos em breve que os anticorpos e os linfócitos ativados
são formados nos tecidos linfoides do corpo. Vamos discutir o início do
processo imune pelos antígenos.
AMBOS OS TIPOS DE IMUNIDADE ADQUIRIDA SÃO
INICIADOS POR ANTÍGENOS
Como a imunidade adquirida não se desenvolve antes da invasão por micro-
organismo ou toxina estranha, está claro que o organismo deve ter algum
mecanismo de reconhe cimento dessa invasão. Cada toxina ou cada tipo de
micro-organismo quase sempre contém um ou mais compostos químicos
específicos que são diferentes de todos os outros compostos. Em geral,
esses compostos são proteínas ou grandes polissacarídeos e são eles que
desencadeiam a imunidade adquirida. Essas substâncias são chamadas antí‐
genos (do inglês, antibody generations, geradores de anticorpos).
Para que a substância seja antigênica, ela deve ter alto peso molecular, de
8.000 ou mais. Além disso, o processo de antigenicidade depende
usualmente de grupos moleculares que recorrem de forma regular,
chamados epítopos, na superfície das grandes moléculas. Esse fator explica,
também, porque proteínas e grandes polissacarídeos são quase sempre
antigênicos, já que essas substâncias apresentam tais características
estereoquímicas.
OS LINFÓCITOS SÃO RESPONSÁVEIS PELA
IMUNIDADE ADQUIRIDA
A imunidade adquirida é produto dos linfócitos do corpo. Em pessoas com
ausência genética de linfócitos ou cujos linfócitos tenham sido destruídos
por radiação ou produtos químicos, nenhuma imunidade adquirida pode
desenvolver-se. Poucos dias após nascer tal pessoa morre por infecção
bacteriana fulminante, a menos que seja tratada com medidas heroicas.
Assim, fica claro que os linfócitos são essenciais para a sobrevida do ser
humano.
Os linfócitos ficam situados, em maior número, nos linfonodos, mas
também se encontram em tecidos linfoides especiais como no baço, nas
áreas submucosas do trato gastrointestinal, no timo e na medula óssea. O tecido linfoide se distribui vantajosamente pelo corpo para interceptar
micro-organismos invasores ou toxinas, antes que possam se disseminar.
Na maioria dos casos, o agente invasor primeiramente penetra nos
líquidos teciduais e depois é transportado para linfonodos ou outros tecidos
linfoides pelos vasos linfáticos. Por exemplo, o tecido linfoide das paredes
gastrointestinais é exposto imediatamente aos antígenos que invadem o
intestino. O tecido linfoide da garganta e da faringe (as tonsilas e as
adenoides) está bem localizado para interceptar antígenos que entram pelo
trato respiratório superior. O tecido linfoide nos linfonodos é exposto aos
antígenos que invadem os tecidos periféricos do corpo, e o tecido linfoide
do baço, do timo e da medula óssea tem participação específica na
interceptação dos agentes antigênicos que tenham conseguido chegar ao
sangue circulante.
Os Linfócitos T e B Promovem a Imunidade “Mediada por
Células” ou a Imunidade “Humoral”. Apesar de a maioria do tecido
linfoide normal se assemelhar, quando estudado sob o microscópio, essas
células se dividem distintivamente em duas grandes populações. Uma das
populações, os linfócitos T, é a responsável pela formação de linfócitos
ativados que proporcionam a imunidade “mediada por células”, e a outra
população, os linfócitos B, é a responsável pela formação de anticorpos que
promovem a imunidade “humoral”.
Os dois tipos de linfócitos são derivados, originalmente no embrião, de
células-tronco hematopoéticas pluripotentes que formam células
progenitoras como um dos mais importantes descendentes, à medida que se
diferenciam. Quase todos os linfócitos formados terminam, com o passar do
tempo, no tecido linfoide, mas antes disso eles se diferenciam ainda mais ou
são “pré-processados” dos seguintes modos.
As células progenitoras linfoides que se destinam a eventualmente formar
linfócitos T ativados migram primei ramente para o timo, onde são pré-processadas, e por isso são chamadas linfócitos “T”, para designar o papel
do timo. Elas são responsáveis pela imunidade mediada por células.
A outra população de linfócitos — os linfócitos B, destinados a formar
anticorpos — é pré-processada no fígado, durante a parte média da
gestação, e na medula óssea, no final da vida fetal e logo após o
nascimento. Essa população celular foi inicialmente identificada em aves
que têm um órgão de pré-processamento especial, chamado bursa de
Fabricius. Por esse motivo, esses linfócitos são chamados linfócitos “B”,
para indicar o papel da bursa, sendo responsáveis pela imunidade humoral.
A Figura 35-1 mostra os dois sistemas de linfócitos para a formação,
respectivamente, dos linfócitos T ativados (1); e dos anticorpos (2).
Figura 35-1. Formação de anticorpos e linfócitos sensibilizados por um linfonodo em resposta aos antígenos. Esta figura também mostra a origem dos linfócitos tímicos (T) e bursais (B) que, respectivamente, são responsáveis pelos processos imunes mediados por células e humorais.
PRÉ-PROCESSAMENTO DOS LINFÓCITOS T E B
Apesar de os linfócitos do corpo se originarem de células-tronco
comprometidas com linfócitos do embrião, essas células-tronco propriamente ditas são incapazes de formar, de modo direto, linfócitos T
ativados ou anticorpos. Antes disso, elas devem se diferenciar ainda mais
nas áreas de processamento apropriadas como descrito a seguir.
A Glândula do Timo Processa os Linfócitos T. Os linfócitos T, após
sua origem na medula óssea, migram primeiramente para o timo. Aí eles se
dividem rapidamente e ao mesmo tempo desenvolvem diversidade extrema
para reagir contra diferentes antígenos específicos. Ou seja, um linfócito
tímico desenvolve reatividade específica contra um antígeno e depois o
linfócito seguinte desenvolve especifici dade contra outro antígeno. Esse
processo continua até que existam milhares de tipos diferentes de linfócitos
tímicos com reatividades específicas contra muitos milhares de antígenos
diferentes. Esses tipos diferentes de linfócitos T pré-processados em
seguida deixam o timo e se disseminam, por meio do sangue, alojando-se
nos tecidos linfoides localizados em todo o corpo.
O timo assegura também que qualquer linfócito T que deixe o timo não
vai reagir contra as proteínas ou com outros antígenos presentes nos tecidos
do próprio corpo da pessoa; caso contrário, os linfócitos T seriam letais para
seu próprio organismo em questão de dias. O timo seleciona quais linfócitos
T serão liberados, misturando-os inicialmente com quase todos os
“autoantígenos” específicos dos tecidos corporais do indivíduo. Se um
linfócito T reagir, ele é destruído e fagocitado, em vez de ser liberado, o que
acontece com até 90% das células. Assim, as células que são, por fim,
liberadas são as que não reagem contra os próprios antígenos do corpo —
elas só reagem contra antígenos externos, como os de bactéria, de toxina ou
mesmo com tecido transplantado de outra pessoa.
A maior parte do pré-processamento dos linfócitos T no timo ocorre
pouco antes do nascimento da criança e durante alguns meses após seu
nascimento. Depois desse período, a remoção do timo diminui (mas não
elimina) o sistema imune linfocítico T. Entretanto, a remoção do timo meses antes do nascimento pode impedir o desenvolvimento de toda a
imunidade celular. Como esse tipo celular de imunidade é o principal
responsável pela rejeição de órgãos transplantados, como o coração e o rim,
pode ser feito transplante de órgão com muito menor probabilidade de
rejeição se o timo for removido em período razoável de tempo, antes de seu
nascimento.
O Fígado e a Medula Óssea Pré-processam os Linfócitos B. No
ser humano, os linfócitos B são pré-processados no fígado, durante a
metade da vida fetal, e na medula óssea, ao final da vida fetal e após o
nascimento. Os linfócitos B são diferentes dos linfócitos T por dois
motivos: primeiro, em vez de todas as células desenvolverem reatividade
contra o antígeno, como ocorre nos linfócitos T, os linfócitos B secretam
ativamente anticorpos que são os agentes reativos. Esses agentes são
grandes moléculas proteicas, capazes de se combinar e destruir a substância
antigênica, como discutido adiante em mais detalhes e no Capítulo 34.
Segundo, os linfócitos B apresentam diversidade ainda maior do que a dos
linfócitos T, consequentemente, formando muitos milhões de tipos de
anticorpos dos linfócitos B, com diferentes reatividades específicas. Depois
do processamento, os linfócitos B, como os linfócitos T, migram para o
tecido linfoide de todo o corpo, onde se alojam próximo, mas com certo
distanciamento, das áreas de linfócitos T.
LINFÓCITOS T E ANTICORPOS DOS LINFÓCITOS B
REAGEM DE MODO ALTAMENTE ESPECÍFICO CONTRA
ANTÍGENOS ESPECÍFICOS — O PAPEL DOS CLONES
DE LINFÓCITOS
Quando antígenos específicos entram em contato com linfócitos T e B no
tecido linfoide, certos linfócitos T são ativados para formar células T ativadas, e certos linfócitos B são ativados para formar anticorpos. As
células T ativadas e os anticorpos, por sua vez, reagem de forma muito
específica contra os tipos particulares de antígenos que desencadearam seu
desenvolvimento. O mecanismo dessa especificidade é o seguinte.
Milhões de Tipos Específicos de Linfócitos São Armazenados
no Tecido Linfoide. Milhões de tipos diferentes de linfócitos B pré-
formados e de linfócitos T formados, capazes de formar tipos de anticorpos
ou células T muito específicos, foram armazenados no tecido linfático,
como explicado anteriormente. Cada um desses linfócitos pré-formados é
capaz de formar somente um tipo de anticorpo ou um tipo de célula T, com
tipo único de especificidade, e apenas o tipo específico de antígeno pode
ativá-lo. Assim que o linfócito específico é ativado por seu antígeno ele se
reproduz de forma muito ampla, formando números imensos de linfócitos
duplicadores (Figura 35-2). Se esse for linfócito B, sua progênie,
eventualmente, secretará o tipo específico de anticorpo que, a seguir, vai
circular pelo corpo. Se for linfócito T, sua progênie será formada por células
T especificamente sensibilizadas que serão liberadas na linfa e depois
levadas para o sangue, circulando por todos os líquidos teciduais,
retornando à linfa, algumas vezes percorrendo esse circuito durante meses
ou anos.
Todos os diferentes linfócitos que são capazes de formar anticorpo ou
célula T específicos são referidos como um clone de linfócitos. Ou seja, os
linfócitos em cada clone são idênticos e derivados originariamente de um
ou de alguns dos linfócitos iniciais de seu tipo específico.
Figura 35-2. O antígeno só ativa os linfócitos que tenham receptores na superfície das células que sejam complementares e reconheçam o antígeno específico. Há milhões de clones distintos de linfócitos (mostrados como B1, B2 e B3). Quando o clone de linfócitos (neste exemplo, B2) é ativado por seu antígeno, ele se reproduz, formando grande número de linfócitos duplicados que em seguida secretam anticorpos.
ORIGEM DOS DIVERSOS CLONES DE LINFÓCITOS
Somente centenas a alguns milhares de genes codificam os milhões de tipos
diferentes de anticorpos e de linfócitos T. De início, era um mistério como
seria possível que tão poucos genes codificassem os milhões de
especificidades diferentes de anticorpos ou das células T que poderiam ser
produzidas pelo tecido linfoide. Esse mistério já foi desvendado.
Para a formação de cada tipo de célula T ou B, o gene completo nunca
está nas células-tronco originais, de onde as células imunes funcionais se
diferenciam. Ao contrário, só são identificados e “segmentos do gene” —
na verdade, centenas de tais segmentos — mas não o gene completo.
Durante o pré-processamento das respectivas células de linfócitos T e B,
esses segmentos do gene se misturam em combinações aleatórias,
formando, assim, por fim, os genes completos.
Como existem várias centenas de segmentos de genes, bem como milhões
de diferentes combinações, nas quais, esses segmentos podem ser dispostos
nas células, podem-se compreender os milhões de células com tipos
celulares diversos que podem ocorrer. Para cada linfócito T ou B funcional
que, finalmente, é formado, a estrutura gênica só codifica a especificidade
antigênica. Essas células, quando maduras, se tornam células T e B
extremamente específicas, que se disseminam e povoam o tecido linfoide.
Mecanismo para Ativar um Clone de Linfócitos
Cada clone de linfócitos é responsável por somente tipo único de antígeno
(ou por vários antígenos semelhantes, com quase as mesmas características
estereoquímicas). O motivo para que isso ocorra é o seguinte: no caso dos
linfócitos B, cada um deles tem, na membrana de superfície celular, cerca
de 100.000 moléculas de anticorpos que devem reagir, de forma específica,
com apenas um tipo específico de antígeno. Portanto, quando o antígeno apropriado aparece, ele se liga imediatamente ao anticorpo na membrana
celular; isso causa o processo de ativação que descreveremos em mais
detalhes adiante. No caso dos linfócitos T, moléculas similares aos
anticorpos, chamadas proteínas receptoras de superfície (ou marcadores de
células T), estão localizadas na superfície da membrana da célula T, e elas
também são muito específicas para um antígeno ativador especificado.
Assim, um antígeno só estimula as células que têm receptores
complementares para o antígeno e já estão comprometidas a responder a
ele.
Papel dos Macrófagos no Processo de Ativação. Além dos
linfócitos nos tecidos linfoides, literalmente milhões de macrófagos também
estão nos mesmos tecidos. Esses macrófagos revestem os sinusoides dos
linfonodos, do baço e dos outros tecidos linfoides, ficando em aposição a
muitos linfócitos dos linfonodos. A maioria dos micro-organismos
invasores é fagocitada primeiro, e parcialmente digerida pelos macrófagos,
e os produtos antigênicos são liberados no citosol do macrófago. Os
macrófagos, a seguir, passam esses antígenos pelo contato direto célula a
célula para os linfócitos, causando ativação dos clones linfocíticos
especificados. Os macrófagos, além disso, secretam substância ativadora
especial que promove crescimento ainda maior e a reprodução de leucócitos
específicos. Essa substância é chamada interleucina 1.
Participação das Células T na Ativação dos Linfócitos B. A
maioria dos antígenos ativa, ao mesmo tempo, os linfócitos T e os linfócitos
B. Algumas das células T que são formadas, chamadas células T auxiliares,
secretam substâncias específicas (coletivamente, chamadas linfocinas) que
ativam os linfócitos B específicos. Na verdade, sem o auxílio dessas células
T auxiliares, a quantidade de anticorpos formada pelos linfócitos B seria
usualmente pequena. Voltaremos a discutir essa relação cooperativa entre as células T auxiliares e as células B quando tivermos a oportunidade de
descrever o sistema de imunidade das células T.
ATRIBUTOS ESPECÍFICOS DO SISTEMA DOS
LINFÓCITOS B — A IMUNIDADE HUMORAL E OS
ANTICORPOS
Formação dos Anticorpos pelos Plasmócitos. Antes da exposição
ao antígeno específico, os clones dos linfócitos B permanecem inativos no
tecido linfoide. Com a chegada de antígeno estranho, os macrófagos no
tecido linfoide fagocitam o antígeno e o apresentam para os linfócitos B
adjacentes. Além disso, o antígeno é apresentado às células T ao mesmo
tempo, sendo formadas células T auxiliares ativadas. Essas células
auxiliares contribuem também para a extrema ativação dos linfócitos B,
como discutido mais adiante.
Os linfócitos B específicos para o antígeno imedia tamente se dilatam,
tomando a aparência de linfoblastos. Alguns dos linfoblastos se diferenciam
ainda mais para formar plasmablastos, que são precursores dos plasmócitos.
Nos plasmablastos, o citoplasma se expande e o retículo endoplasmático
rugoso prolifera. A seguir, os plasmablastos começam a se duplicar a cada
10 horas por cerca de nove divisões, gerando, em 4 dias, a população total
de aproximadamente 500 células para cada plasmablasto original. A seguir,
o plasmócito maduro passa a produzir anticorpos de gamaglobulina, em
velocidade extremamente rápida — cerca de 2.000 moléculas por segundo,
para cada plasmócito. Por sua vez, esses anticorpos são secretados para a
linfa e levados para o sangue circulante. Esse processo continua durante
dias ou semanas, até que ocorram exaustão e morte do plasmócito.
A Formação das Células de “Memória” Exarceba as Respostas
dos Anticorpos a uma Exposição Subsequente aos Antígenos. Alguns dos linfócitos formados pela ativação de clone de linfócitos B não
se diferenciam em plasmócitos, mas formam, na verdade, número
moderado de novos linfócitos B semelhantes aos do clone original. Em
outras palavras, a população de células B que especificamente ativou o
clone aumenta e os novos linfócitos B se juntam aos linfócitos originais do
mesmo clone. Eles circulam por todo o corpo, para ocupar todo o tecido
linfoide; entretanto, em termos imunológicos, eles permanecem inativados
até que sejam novamente acionados por nova exposição ao mesmo
antígeno. Esses linfócitos são referidos como células de memória. A
exposição subsequente ao mesmo antígeno vai provocar resposta mais
rápida e mais intensa de anticorpos, já que existem muito mais células de
memória do que os linfócitos B originais do clone específico.
A Figura 35-3 mostra as diferenças entre a resposta primária para a
formação de anticorpos, que ocorre na primeira exposição ao antígeno
específico, e a resposta secundária que acontece após a segunda exposição
ao mesmo antígeno. Observe o retardo de uma semana para o apa recimento
da primeira resposta, sua baixa potência e sua curta duração. A resposta
secundária, por sua vez, começa rapidamente após a exposição ao antígeno
(geralmente, em horas), é muito mais potente e forma anticorpos por muitos
meses, em vez de por somente algumas semanas. A potência elevada e a
duração da resposta secundária explicam porque a imunização é produzida
usualmente pela injeção do antígeno em várias doses, a intervalos de
semanas ou meses entre as injeções.
Figura 35-3. Decurso temporal da resposta dos anticorpos no sangue circulante à injeção primária de antígeno e à injeção secundária alguns meses mais tarde.
Natureza dos Anticorpos
Os anticorpos são gamaglobulinas, chamadas imunoglobulinas (abreviadas
como Ig), apresentando pesos moleculares entre 160.000 e 970.000. Eles,
em geral, constituem cerca de 20% das proteínas do plasma.
Todas as imunoglobulinas são formadas por combinações de cadeias de
peptídeos leves e pesadas. A maioria é a combinação de duas cadeias leves
e duas pesadas, como mostrado na Figura 35-4. Entretanto, algumas das
imunoglobulinas são combinações de até 10 cadeias pesadas e 10 cadeias
leves, dando origem às imunoglobulinas de alto peso molecular. Além
disso, em todas as imunoglobulinas, cada cadeia pesada está em paralelo
com uma cadeia leve em uma de suas extremidades, formando um par
pesado-leve, e sempre existe, pelo menos, de 2 a 10 desses pares em cada
molécula de imunoglobulina.
A Figura 35-4 mostra a área ovalada marcada como a extremidade
designada de cada cadeia leve e pesada, a chamada porção variável; o restante de cada cadeia é designado como porção constante. A porção
variável é diferente para cada especificidade do anticorpo, e é essa porção
que se liga, especificamente, ao tipo particular de antígeno. A porção
constante do anticorpo determina outras propriedades do anticorpo,
estabelecendo fatores como a mobilidade do anticorpo pelos tecidos, a
aderência às estruturas específicas nos tecidos, a fixação ao complexo do
complemento, a facilidade com a qual os anticorpos passam através das
membranas e outras propriedades biológicas do anticorpo. A combinação
de ligações não covalentes e covalentes (pontes de dissulfeto) mantém
unidas as cadeias leves e pesadas.
Figura 35-4. Estrutura do anticorpo IgG típico, mostrando que é composto por duas cadeias de polipeptídeos pesados e duas cadeias de polipeptídeos leves. O antígeno se liga em dois locais diferentes nas porções variáveis das cadeias.
Especificidade dos Anticorpos. Cada anticorpo é específico para
antígeno determinado; essa especificidade é causada por sua organização estrutural única dos amino ácidos nas porções variáveis das cadeias leve e
pesada. A organização dos aminoácidos tem forma estérica diferente para
cada especificidade antigênica, de modo que quando o antígeno entra em
contato com ele vários grupos prostéticos do antígeno se ajustam à imagem
especular dos anticorpos, permitindo ligação rápida e firme entre o
anticorpo e o antígeno. Quando o anticorpo é muito específico, existem
tantos locais de ligação que a conjugação antígeno-anticorpo é
extremamente forte, sendo mantida por (1) ligação hidrofóbica; (2) ligação
por hidrogê nio; (3) atrações iônicas; e (4) forças de van der Waals. Essa
conjugação também obedece à lei termodinâmica da ação das massas.
K é designada como constante de afinidade, sendo medida da força da a
ligação entre o anticorpo e o antígeno.
Note, especialmente na Figura 35-4, que existem dois locais variáveis no
anticorpo ilustrado para a fixação dos antígenos, tornando esse tipo de
anticorpo bivalente. Pequena proporção dos anticorpos, consistindo em
combinações de até 10 cadeias leves e 10 cadeias pesadas, tem cerca de 10
locais de ligação.
Cinco Classes Gerais de Anticorpos. Existem cinco classes gerais de
anticorpos respectivamente designadas IgM, IgG, IgA, IgD e IgE. “Ig” é a
abreviação de imunoglobulina e as cinco letras designam as classes
respectivas.
Na limitada discussão deste Capítulo, duas dessas classes de anticorpos
têm importância particular: a IgG, anticorpo bivalente, formando
aproximadamente 75% dos anticorpos da pessoa normal, e IgE, que é
apenas pequena porcentagem dos anticorpos mas que está especificamente envolvida nas alergias. A classe IgM também é interessante, pois grande
parte dos anticorpos formados durante a resposta primária é desse tipo.
Esses anticorpos têm 10 locais de ligação, o que os tornam extremamente
efetivos na proteção do corpo contra invasores, mesmo que não existam
muitos anticorpos IgM.
Mecanismos de Ação dos Anticorpos
Os anticorpos atuam na proteção do corpo contra agentes invasores de duas
formas: (1) pelo ataque direto ao invasor; e (2) pela ativação do “sistema do
complemento”, dotado de diversos meios para destruir o invasor.
Ação Direta dos Anticorpos sobre os Agentes Invasores. A
Figura 35-5 mostra anticorpos (ilustrados como as barras vermelhas em
formato de Y) reagindo com os antígenos (ilustrados como os objetos
coloridos). Devido à natureza bivalente dos anticorpos e aos múltiplos
locais antigênicos presentes na maioria dos agentes invasores, os anticorpos
podem ativar o agente invasor de várias formas:
1. Aglutinação, na qual múltiplas partículas grandes, com antígenos em
suas superfícies, como as bactérias ou hemácias, são unidas formando‐
grumos.
2. Precipitação, na qual o complexo molecular do antígeno solúvel (como
a toxina do tétano) e os anticorpos ficam tão grandes que se tornam
insolúveis e precipitam.
3. Neutralização, na qual os anticorpos cobrem os locais tóxicos do agente
antigênico.
4. Lise, na qual anticorpos potentes, ocasionalmente, são capazes de
atacar, de modo direto, as membranas dos agentes celulares, causando
sua ruptura.
Essas ações diretas dos anticorpos, não são suficien temente fortes para ter
papel primordial na proteção do corpo contra o invasor. A maior parte dessa
proteção decorre dos efeitos amplificadores do sistema do complemento,
descrito a seguir.
Figura 35-5. Ligação das moléculas de antígenos entre si feita por anticorpos bivalentes.
SISTEMA DE COMPLEMENTO PARA A AÇÃO DE
ANTICORPOS
“Complemento” é o nome coletivo que descreve o sistema de cerca de 20
proteínas, muitas das quais precursoras de enzimas. Os principais atores
desse sistema são 11 proteínas designadas de C1 a C9, B e D, como
mostrado na Figura 35-6. Todas essas proteínas estão normalmente nas
pro teínas plasmáticas, além de entre as proteínas que vazam dos capilares
para os espaços teciduais. As precursoras de enzimas nas condições normais
estão inativas, mas podem ser ativadas pela chamada via clássica.
Figura 35-6. Cascata de reações durante a ativação da via clássica do complemento.
Via Clássica. A via clássica é desencadeada por uma reação antígeno-
anticorpo. Ou seja, quando o anticorpo se liga a seu antígeno, um local
reativo específico na porção “constante” do anticorpo fica descoberto ou
“ativado”, e essa porção, por sua vez, se liga diretamente à molécula C1 do
sistema do complemento, iniciando uma “cascata” de reações sequenciais,
como mostrado na Figura 35-6, começando pela ativação da própria
proenzima C1. As enzimas C1 formadas ativam quantidades,
sucessivamente, maiores de enzimas nos estágios finais do sistema, de
modo que, a partir do pequeno início, ocorre a reação extremamente grande
e “amplificada”. Vários produtos finais são formados, como mostrado no
lado direito da figura, e muitos desses produtos causam efeitos importantes
que ajudam a impedir lesões dos tecidos corporais causadas por micro-
organismo ou toxina invasora. Entre esses efeitos importantes destacam-se:
1. Opsonização e fagocitose. Um dos produtos da cascata do
complemento, C3b, ativa com forte intensidade a fagocitose, tanto pelos
neutrófilos quanto pelos macrófagos, fazendo com que essas células
engolfem as bactérias presas a complexos antígeno-anticorpos. Esse
processo é chamado opsonização. Ele com frequência aumenta, por
centenas de vezes, o número de bactérias que pode ser destruído.
2. Lise. Um dos produtos mais importantes da cascata do complemento é o
complexo lítico, que é a combinação de múltiplos fatores do
complemento, sendo rotulado como C5b6789. Esse complexo exerce
efeito direto de ruptura das membranas celula res das bactérias ou de
outros micro-organismos invasores.
3. Aglutinação. Os produtos do complemento também alteram as
superfícies dos micro-organismos invasores, fazendo com que fiquem
aderidos uns aos outros, promovendo assim sua aglutinação.
4. Neutralização dos vírus. As enzimas do complemento e outros produtos
do complemento podem atacar as estruturas de alguns vírus, consequen‐
temente, tornando-os não virulentos.
5. Quimiotaxia. O fragmento C5a inicia a quimiotaxia dos neutrófilos e
macrófagos, fazendo com que grande número desses fagócitos migre
para a área tecidual adjacente ao agente antigênico.
6. Ativação dos mastócitos e basófilos. Os fragmentos C3a, C4a e C5a
ativam os mastócitos e os basófilos, fazendo com que liberem histamina,
heparina e várias outras substâncias nos líquidos locais. Essas
substâncias, por sua vez, provocam aumento do fluxo sanguíneo local,
vazamento elevado de líquido e proteínas plasmáticas para o tecido e
outras reações teciduais locais que ajudam a inativar ou a imobilizar o
agente antigênico. Os mesmos fatores têm participação importante na
inflamação (discutida no Capítulo 34), e na alergia, que discutiremos
adiante.
7. Efeitos inflamatórios. Além dos efeitos inflamatórios causados pela
ativação dos mastócitos e dos basófilos, outros produtos do
complemento contribuem para a inflamação local. Esses produtos fazem
com que (1) o fluxo sanguíneo já elevado aumente ainda mais; (2) o
vazamento capilar de proteínas elevem ainda mais; e (3) as proteínas do
líquido intersticial coagulem nos espaços teciduais, impedindo, assim, o
deslocamento do micro-organismo invasor pelos tecidos.
ATRIBUTOS ESPECIAIS DO SISTEMA DOS LINFÓCITOS
T — CÉLULAS T ATIVADAS E IMUNIDADE MEDIADA
POR CÉLULAS
Liberação de Células T Ativadas pelo Tecido Linfoide e
Formação de Células de Memória. Com a exposição ao antígeno
apropriado feita pelos macrófagos adjacentes, os linfócitos T do clone de
linfócitos específicos proliferam e liberam grande número de células T
ativadas de reação específica, de modo semelhante à liberação de anticorpos
feita pelas células B ativadas. A principal diferença é que, em vez de liberar
anticorpos, células T totalmente ativadas são formadas e liberadas na linfa.
Essas células T, então, passam para a circulação e são distribuídas por todo
o corpo, passando através das paredes dos capilares para os tecidos,
voltando para a linfa e para o sangue, circulando várias vezes pelo corpo,
algumas vezes durante meses ou mesmo anos.
Além disso, células de memória de linfócitos T são formadas da mesma
forma que as células de memória B são formadas no sistema de anticorpos.
Ou seja, quando um clone de linfócitos T é ativado por antígeno, muitos dos
linfócitos recém-formados são preservados no tecido linfoide para se
transformarem em linfócitos T adicionais desse clone específico; de fato,
essas células de memória se espalham pelo tecido linfoide de todo o corpo.
Portanto, na exposição subsequente ao mesmo antígeno em qualquer local do corpo, a liberação de células T ativadas ocorre de modo muito mais
rápido e potente do que durante a primeira exposição.
Células Apresentadoras de Antígeno, Proteínas MHC e
Receptores de Antígenos nos Linfócitos T. As respostas das células
T são extremamente específicas para antígenos, como as respostas dos
anticorpos das células B, e são pelo menos tão importantes quanto os
anticorpos na defesa contra infecções. De fato, as respostas imunes
adquiridas, em geral, necessitam da assistência das células T para iniciar o
processo, e as células T têm papel importante na eliminação dos patógenos
invasores.
Apesar de os linfócitos B reconhecerem antígenos intactos, os linfócitos T
só respondem aos antígenos quando eles se ligam às moléculas específicas,
chamadas proteínas MHC, na superfície das células apresentadoras de
antígenos, nos tecidos linfoides (Figura 35-7). Os três principais tipos de
células que apresentam antígenos são os macrófagos, os linfócitos B e as
células dendríticas. As células dendríticas, as células apresentadoras de
antígenos mais potentes, se localizam em todo o corpo e sua única função
conhecida é a de apresentar os antígenos às células T. A interação das
proteínas de aderência celular é crítica para permitir a ligação das células T
às células apresentadoras de antígenos durante tempo suficiente para que
elas se tornem ativadas.
As proteínas MHC são codificadas pelo grande grupo de genes chamado
complexo principal da histocompatibilidade (MHC). As proteínas MHC
ligam fragmentos de peptídeos das proteínas dos antígenos, que são
degradados dentro das células apresentadoras de antígenos e depois
transportados para a superfície celular. Existem dois tipos de proteínas
MHC: (1) proteínas MHC I, que apresentam antígenos para células T
citotóxicas; e (2) proteínas MHC II, que apresentam antígenos para células T auxiliares. As funções específicas das células citotóxicas e das células T
auxiliares são discutidas adiante.
Os antígenos na superfície das células apresentadoras de antígenos se
ligam às moléculas receptoras na superfície das células T, da mesma forma
que se ligam aos anticorpos das proteínas plasmáticas. Essas moléculas
receptoras são compostas por uma unidade variável semelhante à porção
variável do anticorpo humoral, mas sua parte no tronco está firmemente
ligada à membrana celular de linfócito T. Existem cerca de 100.000 locais
receptores na mesma célula T.
Figura 35-7. A ativação das células T requer a interação dos receptores de células T com o antígeno (proteína estranha) que é transportado para a superfície da célula apresentadora de antígeno por proteína do complexo principal da histocompatibilidade (MHC). As proteínas de aderência célula a célula permitem que a célula T se ligue à célula apresentadora de antígeno por tempo suficiente para ser ativada.
VÁRIOS TIPOS DE CÉLULAS T E SUAS DIFERENTES
FUNÇÕES
Já está claro que existem vários tipos de células T. Elas são classificadas em
três grandes grupos: (1) células T auxiliares; (2) células T citotóxicas; e (3)
células T supressoras. As funções de cada uma dessas células são distintas.
Células T Auxiliares São as Células T mais Numerosas
As células T auxiliares são, de longe, as células T mais numerosas,
constituindo, em geral, mais de três quartos do total. Como seu nome
implica, elas auxiliam as funções do sistema imune e o fazem de várias
formas. De fato, elas atuam como as principais reguladoras de todas as
funções imunes, como mostrado na Figura 35-8. Elas executam essa
regulação por meio da formação de série de mediadores proteicos,
chamados linfocinas, que atuam sobre outras células do sistema imune, bem
como sobre as células da medula óssea. Entre as linfocinas mais
importantes secretadas pelas células T auxiliares, têm-se:
Interleucina 2
Interleucina 3
Interleucina 4
Interleucina 5
Interleucina 6
Fator estimulante de colônias de monócitos-granulócitos
Interferon-g
Figura 35-8. Regulação do sistema imune enfatizando o papel central das células T auxiliares. MHC, complexo principal da histocompatibilidade.
Funções Reguladoras Específicas das Linfocinas. Na ausência de
linfocinas produzidas pelas células T auxiliares, o restante do sistema imune
fica quase paralisado. De fato, são as células T auxiliares que são inativadas
ou destruídas pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV), que deixa o corpo quase totalmente desprotegido contra doenças infecciosas, e assim
leva aos efeitos debilitantes e letais da síndrome da imunodeficiência
adquirida (AIDS). Algumas das funções reguladoras específicas são
descritas nas seções seguintes.
Estimulação do Crescimento e Proliferação das Células T
Citotóxicas e Supressoras. Na ausência de células T auxiliares, os
clones para a produção de células T citotóxicas e supressoras são pouco
ativados pela maioria dos antígenos. A linfocina interleucina 2 tem efeito
estimulador, especialmente intenso, para o crescimento e a proliferação das
células T citotóxicas e supressoras. Além disso, várias outras linfocinas têm
efeitos menos potentes.
Estimulação do Crescimento das Células B e Diferenciação
para Formar Plasmócitos e Anticorpos. As ações diretas do antígeno
para causar o crescimento de células B, a proliferação, a formação de
plasmócitos e a secreção de anticorpos também são pouco intensas sem o
“auxílio” das células T auxiliares. Quase todas as interleucinas participam
da resposta das células B, mas especialmente as interleucinas 4, 5 e 6. De
fato, essas três interleucinas exercem efeitos tão potentes sobre as células B
que são chamadas fatores estimulantes das células B ou fatores de
crescimento das células B.
Ativação do Sistema de Macrófagos. Os linfócitos também afetam os
macrófagos. Primeiro, eles retardam ou interrompem a migração dos
macrófagos depois de serem atraídos por quimiotaxia para a área de tecido
inflamada, causando grande acúmulo de macrófagos. Segundo, eles ativam
os macrófagos para produzir fagocitose mais eficiente, permitindo que eles
ataquem e destruam número cada vez maior de bactérias invasoras ou de
outros agentes destruidores de tecidos.
Efeito de Feedback Estimulante sobre as Células T Auxiliares.
Algumas linfocinas, especialmente a interleucina 2, exercem efeito de
feedback positivo direto de estimular a ativação das células T auxiliares.
Esse feed back atua como amplificador, aumentando ainda mais a resposta
das células auxiliares, bem como toda a resposta imune contra o antígeno
invasor.
As Células T Citotóxicas São Células Killer
A célula T citotóxica é célula de ataque direto, capaz de matar micro-
organismos e algumas vezes até mesmo as células do próprio corpo. Por
esse motivo, elas são chamadas células killer. As proteínas receptoras na
superfície das células citotóxicas fazem com que elas se liguem fortemente
aos organismos ou às células que contenham o antígeno de ligação
específico apropriado. A seguir, elas destroem a célula atacada pelo modo
mostrado na Figura 35-9. Depois da ligação, a célula T citotóxica secreta
proteínas produtoras de orifícios, chamadas perforinas, que literalmente
perfuram orifícios redondos na membrana da célula atacada. A seguir, o
líquido flui do espaço intersticial com muita rapidez para a célula. Além
disso, as células T citotóxicas liberam substâncias citotóxicas diretamente
nas células atacadas. Quase de imediato essa célula atacada fica muito
inchada, dissolvendo-se em pouco tempo.
Especialmente importante, as células killer citotóxicas podem se soltar das
células vitimadas depois de perfurarem os orifícios e liberarem as
substâncias citotóxicas, e seguir em frente, para destruir mais células. Na
verdade, algumas dessas células persistem durante meses nos tecidos.
Algumas das células T citotóxicas são especialmente letais para as células
dos tecidos que foram invadidas por vírus, porque várias partículas virais
ficam retidas nas membranas das células teciduais, atraindo as células T em
resposta à antigenicidade virótica. As células citotóxicas também participam, de modo importante, da destruição de células cancerígenas,
células cardíacas transplantadas e de outros tipos de células estranhas ao
corpo da própria pessoa.
Figura 35-9. Destruição direta de célula invasora pelos linfócitos sensibilizados (células T citotóxicas).
Células T Supressoras
Pouco se sabe sobre as células T supressoras, mas elas são capazes de
suprimir as funções tanto das células T citotóxicas quanto das células T
auxiliares. Acredita-se que essas funções supressoras sirvam ao propósito
de evitar que as células citotóxicas causem reações imunológicas excessivas
que possam ser prejudiciais aos tecidos do corpo. Por esse motivo as células
supressoras são classificadas, juntamente com as células T auxiliares, como
células T reguladoras. É provável que o sistema das células T supressoras tenha papel importante na limitação da capacidade do sistema imune de
atacar os tecidos da própria pessoa, a chamada tolerância imune, discutida
na próxima seção.
TOLERÂNCIA DO SISTEMA DE IMUNIDADE ADQUIRIDA
AOS TECIDOS DA PRÓPRIA PESSOA — O PAPEL DO
PRÉ-PROCESSAMENTO NO TIMO E NA MEDULA
ÓSSEA
O processo da imunidade adquirida poderia destruir suas células se a pessoa
ficasse imune aos seus próprios tecidos. O mecanismo imune normalmente
“reconhece” os tecidos da própria pessoa como sendo diferentes de
bactérias e vírus, e o sistema imune dessa pessoa forma poucos anticorpos
ou células T ativadas contra seus próprios antígenos.
Grande Parte da Tolerância Resulta da Seleção de Clones
durante o Pré-processamento. Acredita-se que grande parte da
tolerância se desenvolva durante o pré-processamento dos linfócitos T no
timo, e dos linfócitos B na medula óssea. O motivo para essa crença se
baseia no fato de que a injeção de antígeno potente em feto, enquanto os
linfócitos estão sendo pré-processados nessas duas áreas, impede o
desenvolvimento de clones de linfócitos no tecido linfoide que sejam
específicos para o antígeno injetado. Experimentos mostraram que
linfócitos imaturos específicos no timo, quando expostos ao antígeno
potente, tornam-se linfoblásticos, proliferam de forma considerável, e,
depois, combinam-se com o antígeno estimulante — acredita-se que esse
efeito possa fazer com que essas células sejam destruídas pelas células
epiteliais do timo, antes que possam migrar e colonizar o tecido linfoide em
todo o corpo.
Também se acredita que durante o pré-processamento dos linfócitos no
timo e na medula óssea todos ou a maioria dos clones de linfócitos
específicos para atacar as células da própria pessoa se autodestruam, devido
à sua exposição continuada aos antígenos do corpo.
Falha do Mecanismo de Tolerância Causa Doenças
Autoimunes. Algumas pessoas perdem a tolerância imune a seus próprios
tecidos. Isso ocorre, em grande parte, quando a pessoa envelhece. Esse
processo, em geral, acontece após a destruição de parte dos tecidos do
organismo, o que libera quantidades consideráveis de “autoantígenos” que
circulam pelo corpo, presumivelmente ocasionando imunidade adquirida na
forma de células T ativadas ou de anticorpos.
Várias doenças específicas resultantes de autoimunidade incluem (1) febre
reumática, na qual o corpo fica imunizado contra os tecidos nas articulações
e no coração, especialmente as válvulas cardíacas, após a exposição a tipo
específico de toxina estreptocócica com epítopo em sua estrutura molecular,
semelhante à estrutura de alguns dos autoantígenos do próprio corpo da
pessoa; (2) um tipo de glomerulonefrite, no qual a pessoa fica imunizada
contra as membranas basais dos glomérulos; (3) miastenia grave, na qual se
desenvolve imunidade contra as proteínas receptoras de acetilcolina da
junção neuromuscular, provocando paralisia; e (4) lúpus eritematoso
sistêmico (LES), no qual a pessoa fica imunizada contra vários tecidos
corporais diferen tes ao mesmo tempo, doença que causa dano extenso e
inclusive morte se o LES for grave.
IMUNIZAÇÃO PELA INJEÇÃO DE ANTÍGENOS
A imunização foi utilizada durante muitos anos para produzir imunidade
adquirida contra doenças específicas. A pessoa pode ser imunizada pela
injeção de micro-organismos mortos que não sejam mais capazes de causar doença, mas que podem apresentar parte de seus antígenos químicos. Esse
tipo de imunização é utilizado para a proteção contra a febre tifoide,
coqueluche, difteria e muitos outros tipos de doenças bacterianas.
A imunidade pode ser obtida contra toxinas que tenham sido tratadas com
substâncias químicas, de modo que sua natureza tóxica tenha sido destruída,
muito embora seus antígenos permaneçam intactos. Esse procedimento é
utilizado na imunização contra tétano, botulismo e outras doenças tóxicas
semelhantes.
Finalmente, a pessoa pode ser imunizada depois de ter sido infectada com
micro-organismos vivos que tenham sido “atenuados”. Ou seja, esses
micro-organismos cresceram em meios de culturas especiais ou passaram
por diversos animais até que tenham mudado, o suficiente, para não causar
doença, mas ainda contêm os antígenos específicos necessários para a
imunização. Esse procedimento é utilizado para a proteção contra
poliomielite, febre amarela, sarampo, catapora e muitas outras doenças
virais.
IMUNIDADE PASSIVA
Até este ponto, toda a imunidade adquirida que se discutiu foi do tipo
imunidade ativa. Ou seja, o próprio corpo da pessoa desenvolve anticorpos
ou células T ativadas em resposta à invasão de seu corpo por um antígeno
estranho. Entretanto, pode ser produzida imunidade temporária em uma
pessoa sem a injeção de qualquer antígeno. Essa imunidade temporária é
feita pela infusão de anticorpos, células T ativadas ou ambos, obtidos do
sangue de outra pessoa ou de outro animal que tenha sido ativamente
imunizado contra o antígeno.
Os anticorpos perduram no corpo do receptor por 2 a 3 semanas e durante
esse tempo a pessoa fica protegida contra a doença invasora. As células T
ativadas duram por algumas semanas se forem transfundidas de outra pessoa, mas durante apenas algumas horas ou dias se forem transfundidas