Tratado de Fisiologia Médica
Controle do Débito Cardíaco pelo Retorno Venoso —Mecanismo de Frank‑Starling do Coração
Figura 20-1. Índice cardíaco para o ser humano (débito cardíaco por metro quadrado de área de superfície) em diferentes idades. (Modificado de Guyton AC, Jones CE, Coleman TB: Circulatory Physiology: Cardiac Output and Its Regulation, 2nd ed. Philadelphia: WB Saunders, 1973.)
CONTROLE DO DÉBITO CARDÍACO PELO RETORNO
VENOSO —MECANISMO DE FRANK-STARLING DO
CORAÇÃO
Quando se diz que o débito cardíaco é controlado pelo retorno venoso, isso
significa que não é o próprio coração normalmente o controlador principal
do débito cardíaco. Em vez disso, os diversos fatores da circulação
periférica que afetam o fluxo sanguíneo de retorno pelas veias para o
coração, referido como retorno venoso, é que são os principais
controladores.
A primordial razão, pela qual os fatores periféricos são, em geral, tão
importantes no controle do débito cardíaco, é que o coração apresenta um mecanismo intrínseco que, nas condições normais, permite que ele bombeie
automaticamen te toda e qualquer quantidade de sangue que flua das veias
para o átrio direito. Esse mecanismo, designado como lei de Frank-Starling
do coração, foi discutido no Capítulo 9. Basicamente, essa lei diz que
quando quantidades elevadas de sangue fluem para o coração, essa maior
quantidade de sangue distende as paredes das câmaras cardíacas. Como
resultado da distensão, o músculo cardíaco se contrai com mais força,
fazendo com que seja ejetado todo o sangue adicional que entrou da
circulação sistêmica. Desse modo, o sangue, que flui para o coração, é
automaticamente bombeado sem demora para a aorta para fluir de novo
pela circulação.
Outro fator importante, discutido no Capítulo 10, é que a distensão do
coração faz com que seu bombeamento seja mais rápido, resultando em
uma frequência cardíaca maior, isto é, a distensão do nodo sinusal na
parede do átrio direito tem efeito direto sobre a ritmicidade do próprio
nodo, aumentando por até 10% a 15% a frequência cardíaca. Além disso, o
átrio direito distendido desencadeia reflexo nervoso, designado como
reflexo de Bainbridge, que passa primeiro pelo centro vasomotor do
encéfalo e, a seguir, de volta ao coração, pela via nervosa simpática e vagal,
acelerando também a frequência cardíaca.
Na maioria das condições não estressantes usuais, o débito cardíaco é
controlado principalmente pelos fatores periféricos que determinam o
retorno venoso. Todavia, como discutire mos adiante neste Capítulo, quando
o retorno sanguíneo é maior do que o coração pode bombear, então o
coração passa a ser o fator limitante para a determinação do débito‐
cardíaco.
O Débito Cardíaco É a Soma dos Fluxos Sanguíneos em
Todos os Tecidos: o Metabolismo Tecidual Regula a Maior Parte do Fluxo Sanguíneo Local
O retorno venoso ao coração é a soma de todos os fluxos sanguíneos locais,
por todos os segmentos teciduais individuais da circulação periférica (Fig.
20-2). Assim, conclui-se que a regulação do débito cardíaco é a soma de
todas as regulações do fluxo sanguíneo local.
Os mecanismos de regulação do fluxo sanguíneo local foram discutidos
no Capítulo 17. Na maioria dos tecidos, o fluxo sanguíneo aumenta, em
grande parte, em proporção ao metabolismo de cada tecido. Por exemplo, o
fluxo sanguíneo local quase sempre aumenta quando se eleva o consumo de
oxigênio tecidual; esse efeito é demonstrado na Figura 20-3 pelos níveis
diferentes de exercício. Observe que, em cada nível crescente de trabalho
produzido durante o exercício, o consumo de oxigênio e o débito cardíaco
aumentam, em paralelo, um com outro.
Resumindo, o débito cardíaco é determinado, usualmente, pela soma de
todos os vários fatores orgânicos que controlam o fluxo sanguíneo local.
Todo o sangue local flui para formar o retorno venoso, e o coração
automaticamente bombeia esse sangue de volta para as artérias, para fluir
de novo pelo sistema.
Figura 20-2. O débito cardíaco é igual ao retorno venoso e é a soma dos fluxos sanguíneos nos tecidos e nos órgãos. Exceto quando o coração está seriamente debilitado e é incapaz de bombear adequadamente o retorno venoso, o débito cardíaco (fluxo sanguíneo tecidual total) é determinado, principalmente, a partir das necessidades metabólicas dos tecidos e dos órgãos no corpo.
O Débito Cardíaco a Longo Prazo Varia Inversamente com a
Resistência Periférica Total quando a Pressão Arterial não
Varia. A Figura 20-3 é a mesma que a Figura 19-6. Ela é repetida aqui para
ilustrar um princípio extremamente importante do controle do débito
cardíaco: em muitas condições normais, o nível do débito cardíaco a longo
prazo varia, reciprocamente, com as variações da resistência vascular
periférica total, enquanto a pressão arterial permanece a mesma. Observe,
na Figura 20-4, que quando a resistência periférica total é exatamente
normal (na marca de 100% na figura), o débito cardíaco também é normal.
Então, quando a resistência periférica total aumenta acima da normal, o
débito cardíaco diminui; ao contrário, quando a resistência periférica total
diminui, o débito cardíaco aumenta. Pode-se facilmente compreender isso
pela reconsideração por uma das formas da lei de Ohm, como expressa
no Capítulo 14:
Assim, em qualquer ocasião em que ocorra variação do nível da
resistência periférica a longo prazo (porém, sem outras alterações da função
circulatória), o débito cardíaco varia, de modo quantitativo, precisamente
em direção oposta.
Figura 20-3. Efeito dos níveis elevados de exercício para aumentar o débito cardíaco (linha vermelha contínua) e o consumo de oxigênio (linha azul tracejada). (Modificado de Guyton AC, Jones CE, Coleman TB: Circulatory Physiology: Cardiac Output and Its Regulation, 2nd ed. Philadelphia: WB Saunders, 1973.)
Figura 20-4. Efeito crônico dos diferentes níveis de resistência peri férica total sobre o débito cardíaco, mostrando a relação recíproca entre a resistência periférica total e o débito cardíaco. AV, atrioventricular. (Modificado de Guyton AC: Arterial Pressure and Hypertension. Philadelphia: WB Saunders, 1980.)
O Coração Tem Limites para o Débito Cardíaco que Pode
Produzir
Existem limites definidos para a quantidade de sangue que o coração é
capaz de bombear; esses limites podem ser expressos, em termos
quantitativos, na forma de curvas do débito cardíaco.
A Figura 20-5 demonstra a curva normal do débito cardía co, exibindo o
débito cardíaco por minuto para cada nível da pressão atrial direita. Esta é
um tipo de curva de função cardíaca, discutido no Capítulo 9. Observe que
o nível do platô dessa curva normal do débito cardíaco é aproximada mente
13 L/min, 2,5 vezes o débito cardíaco normal de cerca 5 L/min. Isso significa que o coração humano normal, funcio nando sem qualquer
estímulo especial, pode bombear um retorno venoso de até 2,5 vezes o
retorno venoso normal antes de passar a ser fator limitante no controle do
débito cardíaco.
Na Figura 20-5, são mostradas várias outras curvas de débito cardíaco
para corações que não estão bombeando normalmente. As curvas mais
superiores são para corações hipereficazes, que bombeiam melhor que o
normal. As curvas mais inferiores são para os corações hipoeficazes, que
bombeiam em níveis abaixo do normal.
Figura 20-5. Curvas do débito cardíaco para o coração normal e para corações hipoeficazes e hipereficazes. (Modificado de Guyton AC, Jones CE, Coleman TB: Circulatory Physiology: Cardiac Output and Its Regulation. 2nd ed. Philadelphia: WB Saunders, 1973.)
Fatores que Podem Causar um Coração Hipereficaz
Dois tipos de fatores podem fazer com que o coração atue como bomba
melhor que a normal: (1) a estimulação nervosa; e (2) a hipertrofia do
músculo cardíaco.
A Estimulação Nervosa pode Aumentar o Bombeamento
Cardíaco. No Capítulo 9, vimos que a combinação de (1) estimulação
simpática; e (2) inibição parassimpática fazem duas coisas para aumentar a
eficácia do bombeamento cardíaco: (1) aumento acentuado da frequência
cardíaca — algumas vezes nos jovens do nível normal de 72
batimentos/min para até 180 a 200 batimentos/min — e (2) aumento da
força da contração cardíaca (que é referido como “contratilidade”
aumentada), por até duas vezes sua força normal. Combinando-se esses dois
efeitos, a excitação máxima nervosa do coração pode aumentar o nível do
platô da curva do débito cardíaco para quase duas vezes o platô da curva
normal, como mostrado pelo nível de 25 L/min da curva mais superior,
na Figura 20-5.
A Hipertrofia Cardíaca pode Aumentar a Eficácia do
Bombeamento. O aumento da carga a longo prazo, mas não
excessivamente a ponto de lesar o coração, faz com que o músculo cardíaco
aumente suas massa e força contrátil, do mesmo modo como o exercício
intenso faz com que ocorra hipertrofia do músculo esquelético. Por
exemplo, é comum que os corações de corredores de maratona aumentem
suas massas por até 50% a 75%. Esse fator eleva o nível do platô da curva
do débito cardíaco, muitas vezes por até 60% a 100%, permitindo que o
coração bombeie quantidades muito maiores que a normal do débito
cardíaco.
Quando se combina a excitação nervosa com a hipertrofia cardíaca, como
acontece em corredores de maratona, o efeito total pode permitir que o coração bombeie até 30 a 40 L/min, aproximadamente 2,5 vezes o nível que
pode ser atingido por pessoa média; esse nível elevado de bombeamento é
um dos fatores mais importantes na determinação do tempo de corrida do
corredor.
Fatores que Podem Causar um Coração Hipoeficaz
Qualquer fator que diminua a capacidade do coração de bombear sangue
causa hipoeficácia cardíaca. Alguns dos fatores que podem reduzir a
capacidade do coração para o bombeamento do sangue são os seguintes:
•Aumento da pressão arterial contra a qual o coração deve bombear, como
na hipertensão grave.
•Inibição da estimulação nervosa do coração.
•Fatores patológicos que causem ritmo cardíaco anormal ou frequência
anormal dos batimentos cardíacos.
•Obstrução da artéria coronária, causando “ataque cardíaco”.
•Valvulopatia.
•Cardiopatia congênita.
•Miocardite, inflamação do músculo cardíaco.
•Hipoxia cardíaca.
O Papel do Sistema Nervoso no Controle do Débito
Cardíaco
A Importância do Sistema Nervoso na Manutenção da Pressão
Arterial quando os Vasos Sanguíneos Periféricos Estão
Dilatados e o Retorno Venoso e o Débito Cardíaco Aumentam.
A Figura 20-6 mostra diferença importante no controle do débito cardíaco,
com e sem sistema nervoso autonômico atuante. Os registros contínuos
demonstram o efeito no cão normal da dilatação intensa dos vasos sanguíneos periféricos, ocasionada pela administração do fármaco
dinitrofenol, que aumentou o metabolismo de quase todos os tecidos do
corpo por aproximadamente quatro vezes. Com os mecanismos de controle
nervoso intactos, a dilatação de todos os vasos sanguíneos periféricos não
produziu quase alterações da pressão arterial, mas aumentou o débito
cardíaco em quase quatro vezes. Todavia, depois do controle autonômico do
sistema nervoso ter sido bloqueado, a vasodilatação dos vasos por
dinitrofenol (curvas tracejadas) causou, então, queda acentuada da pressão
arterial para aproximadamente metade da normal, e o débito cardíaco só se
elevou por 1,6 vez, em vez de quatro vezes.
Assim, a manutenção da pressão arterial normal por reflexos nervosos
pelos mecanismos explicados no Capítulo 18 é essencial para se atingirem
altos débitos cardíacos, quando os tecidos periféricos dilatam seus vasos
para aumentar o retorno venoso.
Figura 20-6. Experimento em cão para demonstrar a importância da manutenção nervosa da pressão arterial, como pré-requisito do controle do débito cardíaco. Observe que, com o controle da pressão, o estimulante metabólico dinitrofenol aumenta de forma acentuada o débito cardíaco; sem o controle da pressão, a pressão arterial cai e o débito cardíaco aumenta muito pouco. (Desenhado de experimentos pelo Dr. M. Banet.)
Efeito do Sistema Nervoso para Aumentar a Pressão Arterial
durante o Exercício. Durante o exercício, o intenso aumento do
metabolismo, nos músculos esqueléticos ativos, atua diretamente sobre as
arteríolas musculares para relaxá-las e para permitir o acesso do oxigênio
adequado e dos outros nutrientes necessários para manter a contração
muscular. Obviamente, isso diminui de forma acentuada a resistência
periférica total, o que normalmente diminui também a pressão arterial.
Todavia, o sistema nervoso compensa-a de imediato. A mesma atividade
encefálica, que envia sinais motores para os músculos, envia sinais ao
mesmo tempo para os centros nervosos autonômicos do encéfalo, para
estimular a ativi dade circulatória, provocando a constrição das veias
maiores, aumentando tanto a frequência cardíaca quanto a contratilidade do
coração. Todas essas variações atuam em conjunto, fazendo com que a
pressão arterial fique acima do normal e, portanto, que mais sangue flua
pelos músculos ativos.
Resumindo, quando os vasos sanguíneos teciduais locais se dilatam e o
retorno venoso e o débito cardíaco aumentam acima do valor normal, o
sistema nervoso desempenha um papel chave na prevenção da queda da
pressão arterial para níveis desastrosamente baixos. Na verdade, durante o
exercício, o sistema nervoso vai mais além, fornecendo sinais adicionais
para elevar a pressão arterial até mesmo acima do normal, o que serve para
aumentar o débito cardíaco por adicional de 30% a 100%.
Débitos Cardíacos Patologicamente Altos ou Baixos
Nos humanos saudáveis, o débito cardíaco médio é surpreen dentemente
constante de uma pessoa a outra. Todavia, múltiplas anormalidades clínicas podem causar débitos cardíacos muito altos ou muito baixos. Alguns dos mais
importantes desses débitos cardíacos anômalos são mostrados na Figura 20-7.
Débito Cardíaco Aumentado Causado pela Redução da Resistência
Periférica Total
O lado esquerdo da Figura 20-7 identifica as condições que comumente causam
débitos cardíacos maiores que o normal. Um dos aspectos que distinguem essas
condições é que todas elas resultam da resistência periférica total cronicamente
reduzida. Nenhum deles resulta da excitação excessiva do próprio coração que
explicaremos adiante. Vejamos algumas das condições que podem diminuir a
resistência periférica e ao mesmo tempo aumentar o débito cardíaco acima do
normal.
1. Beribéri. Essa doença é causada por quantidade insuficiente da vitamina
tiamina (vitamina B ) na dieta. A falta dessa vitamina causa diminuição da 1
capacidade dos tecidos de utilizar alguns nutrientes celulares, e os mecanismos do fluxo sanguíneo tecidual local causam, por sua vez, acentuada vasodilatação
periférica compensatória. Algumas vezes, a resistência periférica total diminui a
tão pequena quanto 1,5 vez o normal. Consequentemente, os níveis de longo
prazo do retorno venoso e do débito cardíaco também aumentam frequentemente a 2 vezes o normal.
2. Fístula arteriovenosa (derivação AV). Anteriormente, assinalamos que toda vez
que uma fístula (também denominada derivação AV) ocorre entre artéria e veia
principais, uma grande quantidade de sangue flui diretamente da artéria para a veia. Isso também diminui muito a resistência periférica total e da mesma forma
aumenta o retorno venoso e o débito cardíaco.
3. Hipertireoidismo. No hipertireoidismo, o metabolismo da maioria dos tecidos do
corpo fica muito aumentado. A utilização de oxigênio eleva, e produtos de vasodilatação são liberados pelos tecidos. Como resultado, a resistência
periférica total diminui de forma acentuada, em virtude das reações de controle
do fluxo sanguíneo tecidual local pelo corpo; consequentemente, o retorno venoso e o débito cardíaco aumentam, muitas vezes, por 40% a 80% acima do normal.
4. Anemia. Na anemia, dois efeitos periféricos diminuem muito a resistência
periférica total. Um desses efeitos é a viscosidade reduzida do sangue,
resultante da concentração diminuída dos eritrócitos. O outro é a distribuição diminuída de oxigênio aos tecidos, que causa vasodilatação local. Como
consequência, o débito cardíaco aumenta muito.
Qualquer outro fator que diminua de forma crônica a resistência periférica total
também aumenta o débito cardíaco, se a pressão arterial não diminui demais.
Débito Cardíaco Baixo
A Figura 20-7 mostra bem à direita várias condições que causam débito
cardíaco anormalmente baixo. Essas condições caem em duas categorias: (1) as
anormalidades que causam redução acentuada da eficácia do bombeamento do coração e (2) as que causam redução também acentuada do retorno venoso.
Débito Cardíaco Diminuído Causado por Fatores Cardíacos. Toda vez que o
coração é gravemente lesado, independentemente da causa, seu nível limitado de
bombeamento pode cair abaixo do que é necessário para o fluxo adequado de sangue para os tecidos. Alguns exemplos incluem (1) bloqueio grave de vaso sanguíneo coronário e infarto consequente do miocárdio, (2) cardiopatia valvular
grave, (3) miocardite, (4) tamponamento cardíaco e (5) distúrbios metabólicos
cardíacos. Os efeitos de várias dessas condições são mostrados à direita
da Figura 20-7, demonstrando os baixos débitos cardíacos resultantes.
Quando o débito cardíaco diminui muito, o que faz com que os tecidos do corpo
comecem a ter deficiência nutricional, a condição é denominada choque
cardiogênico. Essa situação é discutida em mais detalhes no Capítulo 22, em relação à insuficiência cardíaca.
Figura 20-7. Débito cardíaco em diferentes condições patológicas. Os números entre parênteses indicam o número de pacientes estudados em cada condição. AV, atrioventricular. (Modificado de Guyton AC, Jones CE, Coleman TB: Circulatory Physiology: Cardiac Output and Its Regulation, 2nd ed. Philadelphia: WB Saunders, 1973.)
Diminuição do Débito Cardíaco Causado por Fatores Periféricos não
Cardíacos — Retorno Venoso Diminuído. Qualquer fator que interfira no retorno
venoso também pode causar diminuição do débito cardíaco. Alguns desses
fatores são os seguintes:
1. Volume sanguíneo diminuído. Sem dúvida, o fator periférico não cardíaco mais
comum causador de débito cardíaco diminuído é a redução do volume sanguíneo, resultante muitas vezes de hemorragia. A perda de sangue diminui
o enchimento do sistema vascular em nível tão baixo que não existe sangue
suficiente nos vasos periféricos para gerar pressões vasculares periféricas suficientemente altas a fim de impulsionar o sangue de volta ao coração.
2. Dilatação venosa aguda. A dilatação venosa aguda ocorre mais frequentemente
quando o sistema nervoso simpático fica de forma súbita inativo. Por exemplo,
um desmaio é consequência frequentemente da perda súbita da atividade do sistema nervoso simpático que faz com que os vasos periféricos de
capacitância, especialmente as veias, dilatem-se acentuadamente. Essa
dilatação diminui a pressão de enchimento do sistema vascular, pois o volume
do sangue não pode mais gerar pressão adequada nos vasos sanguíneos periféricos flácidos. Como resultado, o sangue “se acumula” nos vasos e não
retorna ao coração com a rapidez normal.
3. Obstrução das veias maiores. Em raras ocasiões, as veias maiores que vão
para o coração são obstruídas, e o sangue nos vasos periféricos não pode fluir de volta para o coração. Consequentemente, o débito cardíaco cai de forma
acentuada.
4. Massa tecidual diminuída, especialmente a massa de músculo esquelético.
Com o avanço normal da idade, ou com períodos prolongados de inatividade física, ocorre em geral uma redução das dimensões dos músculos esqueléticos.
Essa redução, por sua vez, diminui o consumo de oxigênio total e as necessidades de fluxo sanguíneo para os músculos, resultando em diminuição
do fluxo sanguíneo muscular esquelético e do débito cardíaco.
5. Diminuição da atividade metabólica dos tecidos. Se a intensidade metabólica é
reduzida, como ocorre no músculo esquelético durante repouso no leito, o consumo de oxigênio e necessidades nutritivas dos tecidos também serão
menores. Isso diminui o fluxo sanguíneo para os tecidos resultando em débito cardíaco diminuído. Outras condições, tais como hipotireoidismo, também podem reduzir a intensidade metabólica e assim o fluxo sanguíneo tecidual e o
débito cardíaco.
Independente da causa do baixo débito cardíaco, ou por fator periférico ou fator
cardíaco, se o débito cardíaco diminuir abaixo do nível necessário à nutrição
adequada dos tecidos, diz-se que a pessoa tem choque circulatório. Essa condição pode ser letal em poucos minutos a poucas horas. O choque circulatório
é problema clínico tão importante que é discutido em detalhes no Capítulo 24.
Análise Mais Quantitativa da Regulação do Débito
Cardíaco
Até aqui, nossa discussão sobre a regulação do débito cardíaco foi adequada
para a compreensão dos fatores que controlam o débito cardíaco nas
condições mais simples. Todavia, para compreender a regulação do débito
cardíaco em situações especialmente estressantes, como os extremos do
exercício, a insuficiência cardíaca e o choque circulatório, é apresentada
análise quantitativa mais complexa nas seções seguintes.
Para realizar análise mais quantitativa, é necessário distinguir
separadamente os dois fatores principais relacionados à regulação do débito
cardíaco: (1) a capacidade de bombeamento do coração, como representada
pelas curvas de débito cardíaco; e (2) os fatores periféricos que afetam o
fluxo de sangue das veias para o coração, como representados pelas curvas
de retorno venoso. Então, podem-se traçar essas curvas, de maneira
quantitativa no mesmo gráfico, para mostrar como interagem entre si para
determinar o débito cardíaco, o retorno venoso e a pressão atrial direita ao
mesmo tempo.
Curvas de Débito Cardíaco Utilizadas na Análise
Quantitativa
Algumas das curvas do débito cardíaco, utilizadas para descrever a
efetividade quantitativa do bombeamento cardíaco, já foram mostradas
na Figura 20-5. Todavia, é necessário conjunto adicional de curvas para mostrar o efeito sobre o débito cardíaco, causado pela variação das pressões
externas no lado de fora do coração, como explicado na próxima seção.
Efeito da Pressão Externa fora do Coração sobre as Curvas do
Débito Cardíaco. A Figura 20-8 mostra o efeito das variações da pressão
externa cardíaca sobre a curva do débito cardíaco. A pressão externa normal
é igual à pressão intrapleural normal (a pressão na cavidade torácica), que é
de −4 mmHg. Observe que, na figura, a elevação da pressão intrapleural
para −2 mmHg desloca toda a curva do débito cardíaco para a direita pela
mesma quantidade. Esse deslocamento ocorre porque, para encher as
câmaras cardíacas com sangue, é necessária pressão atrial direita adicional
de 2 mmHg para superar a pressão aumentada no lado de fora do coração.
Da mesma forma, a elevação da pressão intrapleural para +2 mmHg requer
aumento da pressão atrial direita de 6 mmHg acima da normal, −4 mmHg, o
que desloca toda a curva do débito cardíaco por 6 mmHg para a direita.
Alguns dos fatores que podem alterar a pressão externa no coração e com
isso desviar a curva do débito cardíaco são os seguintes:
1. Alterações cíclicas da pressão intrapleural durante a respiração, em
torno de ±2 mmHg durante a respira ção normal, mas podendo ser de até
±50 mmHg durante a respiração com esforço.
2. Respiração contra pressão negativa, deslocando a curva da pressão
atrial direita para valores mais negativos (à esquerda).
3. Respiração com pressão positiva, deslocando a curva para a direita.
4. Abertura da caixa torácica, aumentando a pressão intrapleural para 0
mmHg e deslocando a curva do débito cardíaco para a direita por 4
mmHg.
5. Tamponamento cardíaco, que significa acúmulo de grande quantidade
de líquido na cavidade pericárdica em torno do coração, com o resultante
aumento da pressão cardíaca externa e deslocamento da curva para a
direita. Observe, na Figura 20-8, que o tamponamento cardíaco desloca
as partes superiores das curvas mais para a direita do que as partes
inferiores, pois a pressão de “tamponamento” externo se eleva para
valores maiores, enquanto as câmaras do coração se enchem com
volumes aumentados de sangue durante o alto débito cardíaco.
Figura 20-8. Curvas do débito cardíaco em diferentes níveis de pressão intrapleural e em diferentes graus do tamponamento cardíaco. (Modificado de Guyton AC, Jones CE, Coleman TB: Circulatory Physiology: Cardiac Output and Its Regulation, 2nd ed. Philadelphia: WB Saunders, 1973.)
Combinações dos Padrões Diferentes das Curvas de Débito
Cardíaco. A Figura 20-9 mostra que a curva do débito cardíaco final pode
se alterar como resultado das variações simultâneas da (a) pressão cardíaca
externa; e da (b) eficácia do coração como bomba. Por exemplo, a
combinação de coração hipereficaz e pressão intrapleural aumentada pode
levar ao aumento do débito cardíaco para seu nível máximo, devido ao
aumento da capacidade de bombeamento do coração, mas a curva de débito
cardíaco poderia ser deslocada para a direita (para pressões atriais mais
altas), devido ao aumento da pressão intrapleural. Desse modo, sabendo-se
o que está acontecendo com a pressão externa, bem como com a capacidade do coração como bomba, pode-se expressar a capacidade momentânea do
coração para bombear sangue por uma só curva do débito cardíaco.
Figura 20-9. Combinações dos dois padrões principais de curvas do débito cardíaco mostrando o efeito das alterações da pressão extracardíaca sobre a eficácia do coração como bomba. (Modificado de Guyton AC, Jones CE, Coleman TB: Circulatory Physiology: Cardiac Output and Its Regulation, 2nd ed. Philadelphia: WB Saunders, 1973.)
Curvas do Retorno Venoso
Ainda resta toda a circulação sistêmica a ser considerada antes que possa
ser feita a análise total da regulação cardíaca. Para analisar a função da
circulação sistêmica, deve-se remover, de início, o coração e os pulmões da
circulação do animal e substituí-los por bomba e sistema oxigenador
artificial. Então, os diferentes fatores, como volume sanguíneo, resistências
vasculares e pressão venosa central no átrio direito, são alterados para
determinar como a circulação sistêmica opera em diferentes estados
circulatórios. Nesses estudos, identificaram-se os três fatores principais
seguintes, que afetam o retorno venoso da circulação sistêmica para o
coração:
1. Pressão atrial direita, que exerce força retrógrada sobre as veias para
impedir o fluxo de sangue das veias para o átrio direito.
2. O grau de enchimento da circulação sistêmica (medido pela pressão
média de enchimento sistêmico), que força o sangue sistêmico em
direção ao coração (essa é a pressão medida em qualquer ponto da
circulação sistêmica quando todo o fluxo de sangue é interrompido, que
discutiremos adiante, em detalhes).
3. Resistência ao fluxo sanguíneo entre os vasos periféricos e o átrio
direito.
Todos esses fatores podem ser expressos quantitativamente pela curva do
retorno venoso, como explicaremos nas próximas seções.
Curva do Retorno Venoso Normal
Do mesmo modo que a curva do débito cardíaco relaciona o bombeamento
de sangue pelo coração à pressão atrial direita, a curva do retorno venoso
relaciona também o retorno venoso à pressão atrial direita — isto é, o
fluxo venoso do sangue para o coração, vindo da circulação sistêmica, em
níveis diferentes de pressão atrial direita.
A curva na Figura 20-10 é a curva do retorno venoso normal. Essa curva
mostra que, quando a capacidade de bombeamento do coração é diminuída,
fazendo com que se eleve a pressão atrial direita, a força retrógrada da
pressão atrial crescente sobre as veias da circulação sistêmica diminui o
retorno venoso do sangue para o coração. Se todos os reflexos circulatórios
nervosos forem impedidos de atuar, o retorno venoso cai a zero quando a
pressão atrial direita se elevar para cerca de +7 mmHg. Esse ligeiro aumento
da pressão atrial direita causa redução drástica do retorno venoso, pois
qualquer elevação da pressão retrógrada faz com que o sangue se acumule
na circulação sistêmica, em vez de retornar ao coração.
Ao mesmo tempo em que a pressão atrial direita está aumentando e
causando estase venosa, o bombeamento pelo coração também se aproxima
do zero, em virtude da diminuição do retorno venoso. As pressões arterial e
venosa se equilibram quando todo o fluxo pela circulação sistêmica cessa
na pressão de 7 mmHg, que por definição é a pressão média de enchimento
sistêmico (P ). es
Figura 20-10. Curva do retorno venoso normal. O platô é causado pelo colapso das grandes veias que entram no tórax quando a pressão atrial direita cai abaixo da pressão atmosférica. Observe também que o retorno venoso fica nulo quando a pressão atrial direita se eleva até se igualar à pressão média de enchimento sistêmico.
Platô na Curva do Retorno Venoso com Pressões Atriais
Negativas Causadas pelo Colapso das Grandes Veias. Quando a
pressão atrial direita cai abaixo de zero — isto é, abaixo da pressão
atmosférica — quase não ocorre qualquer aumento do retorno venoso. No
momento em que a pressão atrial direita cair para cerca de −2 mmHg, o
retorno venoso atingirá um platô. Ele permanecerá neste nível do platô até
mesmo se a pressão atrial direita cair para −20 mmHg, −50 mmHg, ou até
mais. Esse platô é causado pelo colapso das veias que entram no tórax. A
pressão negativa no átrio direito suga as paredes das veias, fazendo com que
elas se juntem no ponto em que penetram no tórax, o que impede qualquer
fluxo adicional de sangue das veias periféricas. Consequentemente, mesmo com pressões muito negativas no átrio direito, o retorno venoso não pode
aumentar, significativamente, acima do que ocorre na pressão atrial normal
de 0 mmHg.
Pressão Média de Enchimento Circulatório e Pressão
Média de Enchimento Sistêmico e Seus Efeitos no
Retorno Venoso
Quando o bombeamento cardíaco é interrompido pelo choque elétrico do
coração, ocasionando fibrilação ventricular, ou é interrompido por qualquer
outro modo, o fluxo de sangue em qualquer parte da circulação cessa por
poucos segundos. Sem o fluxo sanguíneo, as pressões em qualquer parte da
circulação passam a ser iguais. Esse nível equilibrado de pressão é referido
como pressão média de enchimento circulatório.
Efeito do Volume Sanguíneo sobre a Pressão Média de
Enchimento Circulatório. Quanto maior o volume de sangue na
circulação, maior é a pressão média de enchimento circulatório, pois o
volume de sangue adicional distende as paredes da vasculatura. A curva
vermelha na Figura 20-11 mostra o efeito normal aproximado dos diferentes
níveis de volume de sangue sobre a pressão média de enchimento
circulatório. Observe que, com volume de sangue em torno de 4.000
mililitros, a pressão média de enchimento circulatório está próxima do zero,
pois esse é o “volume sem sobrecarga” da circulação, mas com volume de
5.000 mililitros a pressão de enchimento tem o valor normal de 7 mmHg.
De forma semelhante, com volumes ainda maiores, a pressão média de
enchimento circulatório aumenta de modo quase linear.
A Estimulação Nervosa Simpática Aumenta a Pressão Média de
Enchimento Circulatório. As curvas verde e azul naFigura 20-
11 mostram os efeitos, respectivamente, dos níveis alto e baixo da atividade nervosa simpática sobre a pressão média de enchimento circulatório. A
forte estimulação simpática contrai todos os vasos sanguíneos sistêmicos,
como também os grandes vasos sanguíneos pulmonares e até mesmo as
câmaras cardíacas. Portanto, a capacidade do sistema diminui, de modo que
para cada nível de volume sanguíneo a pressão média de enchimento
circulatório aumenta. No volume sanguíneo normal, a estimulação
simpática máxima eleva a pressão média de enchimento circulatório de 7
mmHg por, aproximadamente, 2,5 vezes esse valor, ou cerca de 17 mmHg.
De modo contrário, a inibição completa do sistema nervoso simpático
relaxa os vasos sanguíneos e o coração, diminuindo a pressão média de
enchimento circulatório, do valor normal de 7 mmHg para cerca de 4
mmHg. Note na Figura 20-11 como as curvas são íngremes, o que significa
que mesmo leves variações do volume sanguíneo ou da capacidade do
sistema, provocadas pelos vários níveis da atividade simpática, podem ter
grandes efeitos sobre a pressão média de enchimento circulatório.
Figura 20-11. Efeito das alterações do volume sanguíneo total sobre a pressão média de enchimento circulatório (i. e., “curvas volume-pressão”, por todo o sistema circulatório). Essas curvas mostram também os efeitos da intensa estimulação simpática e da inibição simpática total.
Pressão Média de Enchimento Sistêmico e sua Relação com a
Pressão Média de Enchimento Circulatório. A pressão média de
enchimento sistêmico, P , é algo diferente da pressão média de enchimento es
circulatório. Consiste na pressão medida, em qualquer parte da circulação
sistêmica, após o fluxo sanguíneo ter sido interrompido pelo pinçamento
dos grandes vasos sanguíneos no coração, assim as pressões na circulação
sistêmica podem ser medidas independentemente daquelas da circulação
pulmonar. A pressão média de enchimento sistêmico, ainda que quase
impossível de ser medida no animal vivo, costuma ser praticamente igual à
pressão média de enchimento circulatório, pois a circulação pulmonar tem menos de um oitavo da capacitância da circulação sistêmica e contém
apenas um décimo do volume sanguíneo.
Efeito sobre a Curva de Retorno Venoso das Alterações na
Pressão Média de Enchimento Sistêmico. A Figura 20-12 mostra os
efeitos na curva do retorno venoso causados pelo aumento ou diminuição da
P . Observe que a P normal é 7 mmHg. Então, para a curva mais superior es es
na figura, a P foi aumentada para 14 mmHg, e, para a curva mais inferior, es
foi diminuída para 3,5 mmHg. Essas curvas demonstram que quanto maior
a P (o que também significa maior “justeza” com que o sistema es
circulatório se enche com sangue), mais a curva de retorno venoso é
deslocada para cima e para a direita. Ao contrário, quanto menor a P , es
mais a curva é deslocada para baixo e para a esquerda.
Para expressar isso de outra maneira, quanto maior o enchimento do
sistema, mais fácil é o fluxo de sangue para o coração. Quanto menor o
enchimento, mais difícil é para o fluxo de sangue chegar ao coração.
Quando o “Gradiente de Pressão para o Retorno Venoso” É
Nulo, não Há Retorno Venoso. Quando a pressão arterial direita
aumenta até se igualar à P , não mais existe qualquer diferença de pressão es
entre os vasos periféricos e o átrio direito. Consequentemente, não pode
ocorrer fluxo sanguíneo de quaisquer vasos periféricos de volta para o átrio
direito. Todavia, quando a pressão atrial direita cai progressivamente, para
valores inferiores à P , o fluxo para o coração aumenta de forma es
proporcional, como se pode ver pela análise de qualquer curva do retorno
venoso na Figura 20-12; isto é, quanto maior a diferença entre a P e a es
pressão atrial direita, maior será o retorno venoso. Portanto, a diferença
entre essas duas pressões é referida como gradiente de pressão para o
retorno venoso.
Figura 20-12. Curvas do retorno venoso mostrando a curva normal, quando a pressão
média de enchimento sistêmico (P ) é de 7 mmHg, e o efeito da alteração da P para 3,5 es es ou para 14 mmHg. (Modificado de Guyton AC, Jones CE, Coleman TB: Circulatory Physiology: Cardiac Output and Its Regulation, 2nd ed. Philadelphia: WB Saunders, 1973.)
Resistência ao Retorno Venoso
Do mesmo modo que a P representa a pressão que impulsiona o sangue es
venoso da periferia em direção ao coração, ocorre também resistência a esse
fluxo venoso de sangue. É designada como a resistência ao retorno venoso.
Boa parte da resistência ao retorno venoso ocorre nas veias, embora parte
ocorra também nas arteríolas e nas pequenas artérias.
Por que a resistência venosa é tão importante para determinar a resistência
ao retorno venoso? A resposta é que, quando a resistência nas veias
aumenta, o sangue começa a se acumular principalmente nas próprias veias.
Entretanto, a pressão venosa aumenta muito pouco, pois as veias são muito
distensíveis. Assim, esse aumento da pressão venosa não é muito eficaz na
superação da resistência, e o fluxo de sangue no átrio direito diminui
drasticamente. Ao contrário, quando a resistência nas arteríolas e nas
pequenas artérias aumenta, o sangue se acumula nas artérias, que têm
capacitância de apenas 1/30 das veias. Desse modo, o mesmo discreto
acúmulo de sangue nas artérias aumenta muito a pressão — 30 vezes mais
que nas veias — e essa pressão elevada sobrepuja grande parte da resistência aumentada. Matematicamente, constata-se que aproximadamente
dois terços da chamada “resistência ao retorno venoso” são determinados
pela resistência venosa, e cerca de um terço, pela resistência arteriolar e das
pequenas artérias.
O retorno venoso pode ser calculado pela seguinte fórmula:
em que RV é o retorno venoso, P é a pressão média de enchimento es
sistêmico, PAD é a pressão atrial direita, e RRV é a resistência ao retorno
venoso. No humano adulto saudável, os valores para essas variáveis são os
seguintes: retorno venoso igual a 5 L/min, P igual a 7 mmHg, pressão es
atrial direita igual a 0 mmHg, e resistência ao retorno venoso igual a 1,4
mmHg por L/min de fluxo sanguíneo.
Efeito da Resistência ao Retorno Venoso sobre a Curva de
Retorno Venoso. A Figura 20-13 demonstra o efeito de diferentes níveis
de resistência ao retorno venoso sobre a curva do retorno venoso,
mostrando que a diminuição, para a metade da normal dessa resistência,
permite duas vezes mais fluxo de sangue e, assim, gira a curva para cima,
com inclinação duas vezes maior. Ao contrário, o aumento da resistência
para o dobro da normal gira a curva para baixo com inclinação de metade
da normal.
Note também que, quando a pressão atrial direita se eleva até se igualar à
P , o retorno venoso é nulo em todos os níveis de resistência ao retorno es
venoso, pois não existe qualquer gradiente de pressão. Portanto, por maior
que possa ser o nível atingível pela pressão atrial direita, in dependente de
por quanto o coração possa falhar, ele será igual à P . es
Figura 20-13. Curvas do retorno venoso representando o efeito da alteração da
“resistência ao retorno venoso”. P , pressão média de enchimento sistêmico. (Modificado es
de Guyton AC, Jones CE, Coleman TB: Circulatory Physiology: Cardiac Output and Its Regulation, 2nd ed. Philadelphia: WB Saunders, 1973.)
Combinações dos Padrões da Curva de Retorno Venoso.
A Figura 20-14 mostra os efeitos sobre a curva do retorno venoso causados
pelas alterações simultâneas da P e da resistência ao retorno venoso, es
demonstrando que esses fatores podem atuar simultaneamente.
Figura 20-14. Combinações dos principais padrões das curvas do retorno venoso mostrando os efeitos das alterações simultâneas da pressão média de enchimento
sistêmico (P ) e da “resistência ao retorno venoso”. (Modificado de Guyton AC, Jones CE, es
Coleman TB: Circulatory Physiology: Cardiac Output and Its Regulation, 2nd ed. Philadelphia: WB Saunders, 1973.)
Análise do Débito Cardíaco e da Pressão Atrial Direita
Utilizando, Simultaneamente, as Curvas do Débito
Cardíaco e do Retorno Venoso
Na circulação completa, o coração e a circulação sistêmi ca devem atuar em
conjunto. Esse requisito significa que (1) o retorno venoso da circulação
sistêmica deve ser igual ao débito cardíaco do coração e (2) a pressão atrial
direita é a mesma para o coração e para a circulação sistêmica.
Portanto, pode-se prever o débito cardíaco e a pressão atrial direita da
seguinte maneira: (1) determine a capacidade momentânea de
bombeamento do coração e represente essa capacidade na forma de curva
do débito cardíaco; (2) determine o estado momentâneo do fluxo da
circulação sistêmica para o coração e represente-o na forma de curva do retorno venoso; (3) “equipare” essas curvas uma em relação à outra, como
mostrado na Figura 20-15.
As duas curvas nessa figura representam a curva do débito cardíaco
normal (linha vermelha) e a curva do retorno venoso normal (linha azul).
Nesse gráfico, só existe um ponto, o ponto A, em que o retorno venoso é
igual ao débito cardíaco e onde a pressão atrial é a mesma para o coração e
para a circulação sistêmica. Assim, na circulação normal, a pressão atrial
direita, o débito cardíaco e o retorno venoso são todos descritos pelo ponto
A, referido como ponto de equilíbrio, com o valor normal do débito
cardíaco de 5 L/min e a pressão atrial direita de 0 mmHg.
Efeito do Volume Sanguíneo Aumentado sobre o Débito
Cardíaco. O aumento súbito do volume sanguíneo, por aproximadamente
20%, aumenta o débito cardíaco por cerca de 2,5 a três vezes o normal. A
análise desse efeito é mostrada naFigura 20-15. Imediatamente após a
infusão de grande quantidade de sangue adicional, o enchimento aumentado
do sistema faz com que a P aumente para 16 mmHg, o que desloca a curva es
do retorno venoso para a direita. Ao mesmo tempo, o volume de sangue
aumentado distende os vasos sanguíneos, reduzindo assim sua resistência e
a resistência ao retorno venoso, o que gira a curva para cima. Como
resultado desses dois efeitos, a curva do retorno venoso da Figura 20-15 é
deslocada para a direita. Essa nova curva cruza a curva do débito cardíaco
no ponto B, mostrando que o débito cardíaco e o retorno venoso aumentam
por 2,5 a 3 vezes, e que a pressão atrial direita eleva para,
aproximadamente, +8 mmHg.
Figura 20-15. As duas curvas contínuas mostram a análise do débito cardíaco e da pressão atrial quando as curvas do débito cardíaco (linha vermelha) e do retorno venoso (linha azul) estão normais. A transfusão de 20% do volume de sangue faz com que a curva do retorno venoso passe a ser a curva tracejada; como resultado, o débito cardíaco e a
pressão atrial direita se deslocam do ponto A para o ponto B. P , pressão média de es
enchimento sistêmico.
Efeitos Compensatórios Produzidos em Resposta ao Volume
Sanguíneo Aumentado. O débito cardíaco muito elevado, pelo aumento
do volume sanguíneo, dura por apenas poucos minutos, pois começam a
ocorrer vários efeitos compensatórios imediatos:
1. O débito cardíaco elevado aumenta a pressão capilar, de modo que o
líquido começa a transudar para fora dos capilares, para os tecidos; com
isso, o volume sanguíneo retorna ao normal.
2. A pressão aumentada, nas veias, faz com que elas continuem a se
distender, gradativamente, pelo mecanismo denominado relaxamento
por estresse, fazendo com que os reservatórios de sangue venoso, como
o fígado e o baço, distendam-se, reduzindo, desse modo, a P . es
3. O excesso de fluxo sanguíneo pelos tecidos periféricos causa aumento
autorregulatório da resistência periférica vascular, elevando, assim, a
resistência ao retorno venoso.
Esses fatores produzem a normalização da P e a constrição de resistência es
da circulação sistêmica. Desse modo, gradualmente, por período de 10 a 40
minutos, o débito cardíaco retorna quase ao normal.
Efeito da Estimulação Simpática sobre o Débito Car díaco. A
estimulação simpática afeta o coração e a circula ção sistêmica: (1) faz o
coração ser bomba mais potente; (2) na circulação sistêmica, aumenta a
P , em virtude da contração dos vasos periféricos, especialmente as veias, e es
eleva a resistência ao retorno venoso.
Na Figura 20-16, são representadas as curvas normais do débito cardíaco
e do retorno venoso; elas se cruzam no ponto A, que representa retorno
venoso normal, débito cardíaco de 5 L/min e pressão atrial direita de 0
mmHg. Observe, nessa figura, que a estimulação simpática máxima (curvas
verdes) aumenta a pressão média de enchimento sistêmico para 17 mmHg
(definida pelo ponto em que a curva de retorno venoso atinge o nível zero
do retorno venoso). A estimulação simpática também aumenta a eficácia do
bombeamento do coração por quase 100%. Como resultado, o débito
cardíaco eleva, do valor normal no ponto de equilíbrio A para
aproximadamente o dobro do normal, no ponto de equilíbrio D — e, apesar
disso, a pressão atrial direita quase não se altera. Assim, os diferentes
graus de estimulação simpática podem aumentar, progressivamente, o
débito cardíaco para cerca de duas vezes o normal, por períodos curtos, até
que outros efeitos compensatórios ocorram, dentro de segundos ou minutos
para restaurar o débito cardíaco quase ao normal.
Efeito da Inibição Simpática sobre o Débito Cardíaco. O sistema
nervoso simpático pode ser bloqueado pela indução de anestesia espinal total ou pela utilização de algum fármaco, como o hexametônio, que
bloqueia a transmissão dos sinais nervosos pelos gânglios autonômicos. As
curvas mais inferiores na Figura 20-16 mostram o efeito da inibição
simpática, causado pela anestesia espinal total, demonstrando que (1) a Pes
cai para cerca de 4 mmHg e (2) a eficácia do coração como bomba diminui
para cerca de 80% do normal. O débito cardíaco diminui do ponto A para o
ponto B, representando redução para cerca de 60% do normal.
Figura 20-16. Análise do efeito sobre o débito cardíaco da (1) estimulação simpática moderada (do ponto A para o ponto C), (2) estimulação simpática máxima (ponto D) e (3) inibição simpática, causada por anestesia espinal total (ponto B). (Modificado de Guyton AC, Jones CE, Coleman TB: Circulatory Physiology: Cardiac Output and Its Regulation, 2nd ed. Philadelphia: WB Saunders, 1973.)
Efeito da Abertura de Grande Fístula Arteriovenosa. A Figura 20-
17 mostra os vários estágios das alterações circulatórias que ocorrem após abertura de grande fístula AV, isto é, após ocorrer abertura direta entre
artéria e veia de grandes calibres.
1. As duas curvas vermelhas que se cruzam no ponto A mostram a
condição normal.
2. As curvas que se cruzam no ponto B mostram a condição circulatória
imediatamente após a abertura de grande fístula. Os principais efeitos
são (1) rotação súbita e muito íngreme da curva do retorno venoso para
cima, causada pela grande diminuição da resistência ao retorno venoso
quando o sangue pode fluir, quase sem qualquer impedimento
diretamente das grandes artérias para o sistema venoso, evitando muitos
dos elementos de resistência da circulação periférica; e (2) aumento
discreto do nível da curva do débito cardíaco, pois a abertura da fístula
diminui a resistência periférica e permite a redução aguda da pressão
arterial, contra a qual o coração pode bombear com maior facilidade. O
resultado final, descrito pelo ponto B, é o aumento do débito cardíaco de
5 L/min até 13 L/min e o aumento da pressão atrial direita para cerca de
+3 mmHg.
3. O ponto C representa os efeitos aproximadamente 1 minuto depois,
após os reflexos nervosos simpáticos terem restabelecido a pressão
arterial quase ao normal e causado dois outros efeitos: (1) aumento na
P (devido à constrição de todas as veias e artérias) de 7 para 9 mmHg, es
deslocando assim a curva do retorno venoso por 2 mmHg, à direita; e (2)
elevação posterior da curva do débito cardíaco, devido à excitação
nervosa simpática do coração. O débito cardíaco agora se eleva para
quase 16 L/min, e a pressão atrial direita para cerca de 4 mmHg.
4. O ponto D mostra o efeito após várias semanas. A essa altura, o volume
de sangue aumentou em virtude da ligeira redução da pressão arterial e a
estimulação simpática terem reduzido ambos, transientemente, o débito
renal de urina, provocando uma retenção de sal e água. A P elevou-se es
para +12 mmHg, deslocando a curva do retorno venoso por 3 mmHg à
direita. Inclusive, o aumento prolongado da carga de trabalho no coração
fez com que o músculo cardíaco se hipertrofiasse moderadamente,
elevando ainda mais o nível da curva do débito cardíaco. Desse modo, o
ponto D mostra agora débito cardíaco de quase 20 L/min e pressão atrial
direita de cerca de 6 mmHg.
Figura 20-17. Análise das alterações sucessivas do débito cardíaco e da pressão atrial direita no humano, após ser aberta subitamente grande fístula arteriovenosa (AV). Os estágios da análise, como mostrados pelos pontos de equilíbrio, são: A, condições normais; B, imediatamente após a abertura da fístula AV; C, 1 minuto ou logo após os reflexos simpáticos serem ativados; e D, várias semanas após o volume de sangue ter aumentado e o coração começar a se hipertrofiar. (Modificado de Guyton AC, Jones CE, Coleman TB: Circulatory Physiology: Cardiac Output and Its Regulation, 2nd ed. Philadelphia: WB Saunders, 1973.)