Tratado de Fisiologia Médica
Absorção no Intestino Grosso: Formação de Fezes
monoglicerídeos e os ácidos graxos se difundem das micelas para as
membranas das células epiteliais, o que é possível porque os lipídios são
também solúveis na membrana da célula epitelial. Esse processo deixa as
micelas dos sais biliares no quimo, onde são reutilizadas para a
incorporação dos produtos da digestão de gorduras.
As micelas, portanto, realizam função “carreadora” importante para a
absorção de gordura. Na presença de abundância de micelas de sais biliares,
aproximadamente 97% da gordura é absorvida; em sua ausência, a absorção
é de apenas 40% a 50%.
Depois de entrar na célula epitelial, os ácidos graxos e os monoglicerídeos
são captados pelo retículo endoplasmático liso da célula; aí, são usados para
formar novos triglicerídeos que serão, sob a forma de quilomícrons,
transferidos para os lactíferos das vilosidades. Pelo ducto linfático torácico,
os quilomícrons são transferidos para o sangue circulante.
Absorção Direta de Ácidos Graxos para o Sangue Portal.
Pequenas quantidades de ácidos graxos de cadeias curta e média, como os
da gordura do leite, são absorvidasdiretamente pelo sangue porta, em vez de
serem convertidas em triglicerídeos e transferidas para a linfa. A causa
dessa diferença entre a absorção de ácidos graxos de cadeias curta e longa é
que os de cadeia curta são mais hidrossolúveis e, em grande parte, não são
convertidos a triglicerídeos pelo retículo endoplasmático. Essas
características levam à difusão desses ácidos graxos de cadeia curta das
células do epitélio intestinal diretamente para o sangue no capilar das
vilosidades intestinais.
ABSORÇÃO NO INTESTINO GROSSO: FORMAÇÃO DE
FEZES
Cerca de 1.500 mililitros de quimo passam normalmente pela válvula
ileocecal para o intestino grosso a cada dia. Grande parte da água e dos
eletrólitos nesse quimo é absorvida no cólon, sobrando menos de 100
mililitros de líquido para serem excretados nas fezes. Além disso,
praticamente todos os íons são absorvidos e apenas de 1 a 5 mEq de íons
sódio e de cloreto são eliminados nas fezes.
Grande parte da absorção no intestino grosso se dá na metade proximal do
cólon, o que confere a essa porção o nome de cólon absortivo, enquanto o
cólon distal funciona principalmente no armazenamento das fezes até o
momento propício para a sua excreção e, assim, é denominado cólon de
armazenamento.
Absorção e Secreção de Eletrólitos e Água. A mucosa do intestino
grosso, como a do intestino delgado, tem alta capacidade de absorver
ativamente o sódio, e a diferença de potencial elétrico gerada pela absorção
do sódio promove absorção de cloreto. Os complexos juncionais entre as
células epiteliais do epitélio do intestino grosso são muito menos
permeáveis que os do intestino delgado. Essa característica evita a
retrodifusão significativa de íons através dessas junções, permitindo assim
que a mucosa do intestino grosso absorva íons sódio — isto é, contra
gradiente de concentração bem maior — diferentemente do que ocorre no
intestino delgado. Isto é especialmente verdadeiro na presença da
aldosterona, porque o hormônio intensifica bastante a capacidade de
transporte de sódio.
Além disso, como ocorre na porção distal do intestino delgado, a mucosa
do intestino grosso secreta íons bicarbonato enquanto absorve
simultaneamente número igual de íons cloreto, em processo de transporte
por troca já descrito antes. O bicarbonato ajuda a neutralizar os produtos
finais ácidos da ação bacteriana no intestino grosso.
A absorção de íons sódio e cloreto cria um gradiente osmótico, através da
mucosa do intestino grosso, o que por sua vez leva à absorção de água.
Capacidade de Absorção Máxima do Intestino Grosso. O
intestino grosso consegue absorver o máximo de 5 a 8 litros de líquido e
eletrólitos por dia. Quando a quantidade total que entra no intestino grosso
através da válvula ileocecal ou pela secreção pelo próprio intestino grosso
ultrapassa essa quantidade, o excesso aparece nas fezes como diarreia.
Conforme observado anteriormente, toxinas do cólera ou de outras
infecções bacterianas, muitas vezes, fazem com que as criptas no íleo
terminal e no intestino grosso secretem 10 litros ou mais de líquido por dia,
levando à diarreia grave e, por vezes, fatal.
Ação Bacteriana no Cólon. Numerosas bactérias, especialmente bacilos
colônicos, costumam estar no cólon absortivo. Esses bacilos são capazes de
digerir pequenas quantidades de celulose, proporcionando, assim, algumas
calorias de nutrição extra para o corpo. Nos animais herbívoros, essa fonte de
energia é significativa, embora seja de importância negligível nos seres humanos.
Outras substâncias formadas como resultado da atividade bacteriana são: a
vitamina K, vitamina B , tiamina, riboflavina e diversos gases que contribuem 12
para a flatulência, especialmente dióxido de carbono, gás hidrogênio e metano. A
vitamina K formada pela atividade bacteriana é sobretudo importante, porque a
quantidade dessa vitamina nos alimentos ingeridos diariamente, em geral, é
insuficiente para manter a coagulação sanguínea adequada.
Composição das Fezes. As fezes são compostas normalmente por três
quartos de água e um quarto de matéria sólida que, por sua vez, é composta
por 30% de bactérias mortas, 10% a 20% de gordura, 10% a 20% de
matéria inorgânica, 2% a 3% de proteínas e 30% de restos indigeridos dos
alimentos e constituintes secos dos sucos digestivos, tais como pigmento da
bile e células epiteliais degradadas. A cor marrom das fezes é causada pelas
estercobilina e urobilina, derivadas da bilirrubina. O odor é ocasionado
principalmente por produtos da ação bacteriana; esses produtos variam de uma pessoa para outra, dependendo da flora bacteriana colônica de cada
pessoa e do tipo de alimento ingerido. Os verdadeiros produtos odoríferos
incluem indol, escatol, mercaptanas e sulfeto de hidrogênio.
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CAPÍTULO 67
Fisiologia dos Distúrbios
Gastrointestinais
A terapia eficaz para a maioria dos distúrbios gastrointestinais depende do
conhecimento básico da fisiologia gastrointestinal. A finalidade deste
Capítulo, portanto, é discutir alguns tipos representativos de disfunção
gastrointestinal que tenham bases fisiológicas ou consequências especiais.
Distúrbios da Deglutição e do Esôfago
Paralisia do Mecanismo de Deglutição. A lesão do quinto, nono ou décimo
nervo craniano pode causar paralisia de partes significativas do mecanismo da
deglutição. Igualmente, algumas doenças, como a poliomielite ou a encefalite, podem impedir a deglutição normal por lesão do centro da deglutição no tronco
cerebral. A paralisia dos músculos da deglutição, como ocorre nas pessoas com
distrofia muscular ou em consequência de insuficiência de transmissão
neuromuscular que se produz na miastenia grave ou no botulismo, também pode impedir a deglutição normal.
Quando o mecanismo da deglutição está parcial ou totalmente paralisado, as
anormalidades que podem ocorrer incluem (1) abolição completa do ato da
deglutição; (2) falha da glote em se fechar, de modo que o alimento entra nos
pulmões em vez de passar ao esôfago; e (3) falha do palato mole e da úvula em
fecharem as narinas posteriores, de modo que o alimento reflui para o nariz
durante a deglutição.
Uma das circunstâncias mais graves de paralisia do mecanismo da deglutição
ocorre quando os pacientes estão em um estado de anestesia profunda. Por
vezes, na mesa de cirurgia, vomitam grande quantidade de material do estômago
na faringe; depois, em lugar de deglutir o material de novo, simplesmente o
aspiram para a traqueia porque o anestésico bloqueou o mecanismo reflexo da
deglutição. Em decorrência, tais pacientes ocasionalmente se asfixiam até a morte
com seu próprio vômito.
Acalasia e Megaesôfago. A acalasia é a patologia na qual o esfíncter esofágico
inferior não se relaxa durante a deglutição. Em decorrência, o alimento deglutido
não passa do esôfago para o estômago. Estudos patológicos têm mostrado lesão
da rede neural do plexo mioentérico nos dois terços inferiores do esôfago. Como
resultado, a musculatura do esôfago inferior permanece espasticamente
contraída, e o plexo mioentérico perde sua capacidade de transmitir sinal que
cause “relaxamento receptivo” do esfíncter gastroesofágico, quando o alimento se
aproxima desse esfíncter durante a deglutição.
Quando a acalasia se torna grave, o esôfago não consegue esvaziar o alimento
deglutido no estômago por muitas horas, apesar de o tempo normal para essa
digestão ser de alguns segundos. Durante meses e anos, o esôfago se dilata
muito, até que chegue a reter 1 litro de alimento, que se putrefaz por micro-
organismos, durante os longos períodos de estase esofágica. A infecção também
pode causar ulceração da mucosa do esôfago, algumas vezes levando à dor
subesternal intensa ou até à ruptura e morte. Pode-se obter considerável
benefício pelo estiramento da extremidade inferior do esôfago por meio de balão
inflado na extremidade de sonda esofágica deglutida. Antiespasmódicos (i. e.,
fármacos que relaxam a musculatura lisa) também podem ser úteis.
Distúrbios do Estômago
Gastrite — Inflamação da Mucosa Gástrica
Gastrite crônica, leve a moderada, é frequente na população como um todo, em
especial nos anos da meia-idade à terceira idade.
A inflamação da gastrite pode ser apenas superficial e, portanto, não muito
perigosa, ou pode penetrar profundamente na mucosa gástrica e, em casos de
longa duração, causar atrofia quase completa da mucosa gástrica. Em alguns casos, a gastrite pode ser aguda e intensa, com escoriação ulcerativa da mucosa
gástrica pelas próprias secreções do estômago.
Pesquisas sugerem que frequentemente a gastrite é causada por infecção
bacteriana crônica da mucosa gástrica. Isso costuma ser tratado, com sucesso,
por esquema intensivo de terapia antibacteriana.
Ademais, certas substâncias irritativas ingeridas podem ser, de modo especial,
prejudiciais para a barreira protetora da mucosa gástrica — isto é, para as
glândulas mucosas e para as junções epiteliais de baixa permeabilidade entre as células de revestimento gástrico — muitas vezes, levando à gastrite aguda ou
crônica grave. Duas das substâncias mais comuns são o álcool e a aspirina.
Barreira Gástrica e Sua Penetração na Gastrite. A absorção de alimento do
estômago, diretamente para o sangue, normalmente é pequena. Esse baixo nível de absorção se deve, principalmente, a duas características específicas da
mucosa gástrica: (1) ela é revestida por células mucosas muito resistentes que secretam muco viscoso e aderente; e (2) as junções entre as células epiteliais adjacentes são de baixa permeabilidade. Elas constituem a chamada “barreira
gástrica”.
A barreira gástrica normalmente reduz a difusão, de modo que até os íons
hidrogênio, em concentração no suco gástrico, em média, 100.000 vezes maior que no plasma, quase nunca alcançam a membrana epitelial em quantidade que ameace a sua integridade. Na gastrite, a permeabilidade da barreira aumenta
muito. Os íons hidrogênio então se difundem até o epitélio gástrico, provocando lesão e levando a ciclo vicioso de destruição progressiva e atrofia da mucosa
gástrica. Isso também torna a mucosa suscetível à digestão pelas enzimas digestivas pépticas, com desenvolvimento de úlcera gástrica.
A Gastrite Crônica Pode Levar à Atrofia Gástrica e à Perda de Secreções
Gástricas
Em muitas pessoas que têm gastrite crônica, a mucosa gradualmente se atrofia
com redução até a supressão completa da secreção digestiva das glândulas gástricas. Existem evidências de que algumas pessoas desenvolvam autoimunidade contra a mucosa gástrica, o que leva também à atrofia gástrica. A
perda das secreções gástricas na atrofia leva à acloridria e, ocasionalmente, à anemia perniciosa.
Acloridria (e Hipocloridria). Acloridria significa simplesmente que o estômago
deixa de secretar ácido clorídrico; é diagnosticada quando o pH mínimo das
secreções gástricas é de 6,5, sob estimulação máxima. Hipocloridria significa
diminuição da secreção ácida. Quando o ácido não é secretado, a pepsina, em
geral, não é secretada. Mesmo quando o é, a falta de ácido impede sua atividade,
porque a pepsina exige meio ácido.
A Atrofia Gástrica Pode Causar Anemia Perniciosa. A anemia perniciosa
acompanha com frequência a acloridria e a atrofia gástrica. As secreções
gástricas normais contêm glicoproteína, chamada fator intrínseco, secretada pelas
mesmas células parietais secretoras do ácido clorídrico. O fator intrínseco é
necessário para a absorção adequada de vitamina B no íleo. O fator intrínseco 12
se combina com a vitamina B , no estômago, e a protege da degradação química 12
ao passar pelo intestino delgado. Quando o complexo fator intrínseco–vitamina
B chega ao íleo terminal, o fator intrínseco se liga a receptores, na superfície 12
epitelial do íleo, o que promove a absorção da vitamina B . 12
Na ausência de fator intrínseco, somente cerca de 1/50 da vitamina B é 12
absorvido. Sem o fator intrínseco, a quantidade adequada de vitamina B nos 12
alimentos não fica disponível para fazer com que eritrócitos jovens e recém-
formados amadureçam na medula óssea. O resultado é a anemia perniciosa,
discutida em mais detalhes no Capítulo 33.
Úlcera Péptica
Uma úlcera péptica é a área escoriada na mucosa gástrica ou intestinal,
causada principalmente pela ação digestiva do suco gástrico ou das secreções no
intestino delgado superior. A Figura 67-1 mostra os pontos no trato
gastrointestinal, em que as úlceras pépticas ocorrem com mais frequência; a área
de lesões mais frequentes é em torno do piloro. As úlceras pépticas também
ocorrem, com frequência, ao longo da pequena curvatura na extremidade antral
do estômago ou, mais raramente, na extremidade inferior do esôfago, para onde o
suco gástrico frequentemente reflui. Um tipo de úlcera péptica, chamada de úlcera
marginal, também ocorre, com muita frequência, nas incisões cirúrgicas, por
exemplo, na gastrojejunostomia entre o estômago e o jejuno.
Figura 67-1. Úlcera péptica.
Causa Básica da Ulceração Péptica. A causa comum da úlcera péptica é a
perda do equilíbrio entre a intensidade da secreção de suco gástrico e o grau de proteção dado (1) pela barreira da mucosa gastroduodenal; e (2) pela neutralização do ácido gástrico pelos sucos duodenais. Todas as áreas
normalmente expostas ao suco gástrico são bem supridas por glândulas mucosas,
como as glândulas mucosas compostas no esôfago inferior, o revestimento por células mucosas da mucosa gástrica, as células cervicais mucosas das glândulas gástricas, as glândulas pilóricas profundas que secretam principalmente muco, e
finalmente as glândulas de Brunner, da parte superior do duodeno, que secretam
muco muito alcalino.
Além da proteção da mucosa pelo muco, o duodeno é protegido pela
alcalinidade das secreções do intestino delgado. Especialmente importante é a secreção pancreática, que contém grandes quantidades de bicarbonato de sódio
que neutralizam o ácido clorídrico do suco gástrico e inativa a pepsina, impedindo a digestão da mucosa. Ademais, grande quantidade de íons bicarbonato é
encontrada: (1) nas secreções das grandes glândulas de Brunner na parede duodenal; e (2) na bile que vem do fígado.
Por fim, dois mecanismos de controle por feedback normalmente asseguram
que essa neutralização do suco gástrico seja completa:
1. Quando excesso de ácido entra no duodeno, isso, reflexamente, inibe a
secreção gástrica e o peristaltis mo no estômago, seja por reflexos nervosos ou
por feedback hormonal, diminuindo, assim, o esvaziamento gástrico.
2. A presença de ácido no intestino delgado libera secretina pela mucosa intestinal
para o sangue, e essa estimula o pâncreas a secretar suco pancreático com concentração alta de bicarbonato de sódio; o bicarbonato de sódio neutraliza o
ácido.
Assim, a úlcera péptica pode ser causada por dois modos: (1) excesso de
secreção de ácido e de pepsina pela mucosa gástrica; ou (2) diminuição da
capacidade de proteção da barreira mucosa duodenal contra a digestão pela
secreção ácido–pepsina do estômago.
Causas Específicas de Úlcera Péptica
A Infecção Bacteriana por Helicobacter pylori Rompe a Barreira Mucosa
Gastroduodenal e Estimula a Secreção de Ácido Gástrico. Pelo menos 75%
das pessoas com úlcera péptica demonstram ter infecção crônica da mucosa nas
partes terminais do estômago e iniciais do duodeno; a infecção mais frequente é
causada pela bactéria Helicobacter pylori. Uma vez instalada a infecção, ela pode
durar a vida toda, a menos que seja erradicada por terapia antibacteriana. A
bactéria é capaz de penetrar a barreira mucosa por sua capacidade física de
passar pela barreira e pela liberação de amônio, que liquefaz a barreira e estimula
a secreção de ácido hidroclorídrico. Em decorrência, os sucos digestivos ácidos
das secreções gástricas podem então atingir o epitélio subjacente e, literalmente,
digerir a parede gastrointestinal, levando à ulceração péptica.
Outras Causas de Ulceração. Em muitas pessoas com úlceras pépticas na
parte inicial do duodeno, a secreção gástrica ácida é maior do que a normal,
algumas vezes por até duas vezes o normal. Embora parte desse aumento da
secreção possa ser estimulada por infecção bacteriana, estudos em animais e em
seres humanos mostraram que o excesso da secreção de sucos gástricos, por
qualquer razão (p. ex., mesmo em distúrbios psíquicos) pode por si causar
ulceração péptica.
Outros fatores que predispõem à úlcera são: (1) tabagismo, presumivelmente
devido ao aumento da estimulação nervosa das glândulas secretoras do
estômago; (2) o consumo de álcool, porque tende a romper barreira mucosa; (3) o
consumo de aspirina e outros anti-inflamatórios não esteroides que também
afetam a integridade da barreira.
Tratamento de Úlceras Pépticas. Desde a descoberta de que boa parte das
úlceras pépticas apresenta uma base infecciosa bacteriana, a terapia mudou
imensamente. Quase todos os pacientes com úlcera péptica podem ser tratados
eficazmente por duas medidas: (1) uso de antibióticos, com outros agentes para
matar as bactérias infecciosas; e (2) administração de supressor de ácido, especialmente a ranitidina, que é um agente anti-histamínico que bloqueia o efeito
estimulador da histamina sobre os receptores H das glândulas gástricas e, desse 2 modo, reduzindo a secreção gástrica de ácido por 70% a 80%.
No passado, antes dessas abordagens para a terapia das úlceras pépticas
serem desenvolvidas, era necessário remover até quatro quintos do estômago,
reduzindo, assim, os sucos acidopépticos do estômago para curar a maioria dos
pacientes. Outra terapia era seccionar os ramos dos nervos vagos para o estômago, que fazem a estimulação parassimpática do plexo mioentérico. Com esse procedimento conseguia-se bloquear grande parte da secreção de ácido e
de pepsina e, frequentemente, curava a úlcera dentro de 1 semana após a
operação. Todavia, grande parte da secreção basal do estômago era recuperada, depois de alguns meses, e, em muitos pacientes, a úlcera também reincidia.
As abordagens terapêuticas mais recentes demonstraram ser muito mais
eficazes. Em alguns casos, porém, a condição do paciente é tão grave, incluindo
sangramento maciço da úlcera, que procedimentos cirúrgicos heroicos têm de ser usados.
Distúrbios do Intestino Delgado
Digestão Anormal do Alimento no Intestino Delgado — Insuficiência Pancreática
Uma causa de digestão anormal é a insuficiência do pâncreas de secretar suco
pancreático para o intestino delgado. A falta de secreção pancreática ocorre
frequentemente (1) em pessoas com pancreatite (discutida adiante); (2) quando o
ducto pancreático é bloqueado por cálculo na papila de Vater; ou (3) depois de
remoção da cabeça do pâncreas, devido à doença maligna.
A perda de suco pancreático significa perda de tripsina, quimotripsina,
carboxipolipeptidase, amilase pancreática, lipase pancreática e ainda de algumas outras enzimas digestivas. Sem essas enzimas, até 60% da gordura que entra no intestino delgado pode não ser absorvida, juntamente com um terço ou a metade
das proteínas e carboidratos. Como resultado, grande parte dos alimentos
ingeridos não pode ser usada para a nutrição e são excretadas fezes gordurosas e abundantes.
Pancreatite — Inflamação do Pâncreas. A pancreatite pode ocorrer sob a
forma de pancreatite aguda ou pancreatite crônica.
A causa mais comum de pancreatite é o excesso de bebidas alcoólicas; a
segunda causa mais comum é o bloqueio da papila de Vater por cálculo; as duas
causas são responsáveis por mais de 90% de todos os casos. Quando o cálculo
biliar bloqueia a papila de Vater, são bloqueados o ducto secretor principal do
pâncreas e o colédoco. As enzimas pancreáticas são, então, represadas nos
ductos e ácinos do pâncreas. Eventualmente, o acúmulo de tripsinogênio e a sua
ativação à tripsina superam a capacidade do inibidor da tripsina nas secreções, e
pequena quantidade de tripsinogênio é ativada para formar tripsina. A tripsina
ativa ainda mais tripsinogênio, bem como quimotripsinogênio e
carboxipolipeptidase, nos ductos e ácinos pancreáticos. Essas enzimas digerem
rapidamente grandes porções do próprio pâncreas, algumas vezes eliminando
completa e permanentemente a capacidade do pâncreas de secretar enzimas
digestivas.
Má Absorção pela Mucosa do Intestino Delgado — Espru
Ocasionalmente, os nutrientes não são absorvidos de maneira adequada no
intestino delgado, embora o alimento tenha sido bem digerido. Várias doenças
podem causar diminuição da absorção pela mucosa; elas costumam ser
classificadas sob o termo geral “espru”. A má-absorção também pode ocorrer
quando grande parte do intestino delgado é removida.
Espru Não Tropical. Um tipo de espru, chamado espru idiopático ou doença
celíaca (em crianças), ou enteropatia pelo glúten, decorre de efeitos tóxicos do
glúten presente em certos tipos de grãos, especialmente no trigo e no centeio.
Somente algumas pessoas são suscetíveis a esse efeito; naqueles que o são, o
glúten tem efeito destrutivo direto sobre os enterócitos intestinais. Nas formas
mais leves da doença, somente as microvilosidades dos enterócitos são
destruídas com diminuição da superfície de absorção por até duas vezes. Nas
formas mais graves, as vilosidades ficam reduzidas ou desaparecem totalmente,
reduzindo ainda mais a área de absorção do intestino. A remoção do trigo e do
centeio da dieta frequentemente resulta na cura em semanas, em especial nas
crianças com essa doença.
Espru Tropical. Um tipo diferente de espru, chamado espru tropical, ocorre
frequentemente nos trópicos e pode ser tratado com agentes antibacterianos.
Embora nenhuma bactéria específica esteja implicada como causa, acredita-se
que essa variedade de espru seja produzida por inflamação da mucosa intestinal
por agentes infecciosos não identificados.
Má Absorção no Espru. Nos primeiros estágios do espru, a absorção intestinal
de gorduras é mais comprometida que a absorção de outros nutrientes. A gordura
que aparece nas fezes é quase inteiramente de sais de ácidos graxos, em vez de gordura não digerida, demonstrando que o problema é de absorção, e não de
digestão. A patologia é frequentemente chamada esteatorreia, que significa simplesmente excesso de gorduras nas fezes.
Nos casos muito graves de espru, além da disabsorção de gorduras, também
ocorre comprometimento da absorção de proteínas, carboidratos, cálcio, vitamina
K, ácido fólico e vitamina B . Como resultado, a pessoa apresenta: (1) deficiência 12
nutricional grave, que frequentemente provoca caquexia; (2) osteomalácia (i. e., desmineralização dos ossos, devido à falta de cálcio); (3) coagulação sanguínea inadequada, causada pela falta de vitamina K; (4) anemia macrocítica, do tipo
anemia perniciosa, devido à diminuição da absorção de vitamina B e de ácido 12 fólico.
Distúrbios do Intestino Grosso
Constipação
Constipação significa movimento lento das fezes pelo intestino grosso.
Frequentemente, está associada à grande quantidade de fezes ressecadas e
endurecidas no cólon descendente, que se acumulam devido à absorção
excessiva ou insuficiente ingestão de líquido. Qualquer patologia dos intestinos
que obstrua o movimento do conteúdo intestinal, como tumores, aderências que causem constrição ou úlceras, pode causar constipação.
Lactentes raramente são constipados, porém parte de seu treinamento, nos
primeiros anos de vida, exige que eles aprendam a controlar a defecação; esse controle é efetuado por inibição dos reflexos naturais da defecação. A experiência
clínica mostra que se não houver defecação, quando os reflexos são excitados ou
caso haja o uso excessivo de laxativos, no lugar da função natural do intestino, os reflexos ficam progressivamente menos fortes com o passar de meses ou anos, e o cólon se torna atônico. Por essa razão, se a pessoa estabelecer hábitos
intestinais regulares cedo na vida, geralmente defecando pela manhã, depois do
café da manhã, quando os reflexos gastrocólico e duodenocólico causam movimentos de massa no intestino grosso, o desenvolvimento de constipação,
mais tarde na vida, será muito menos provável.
A constipação pode também resultar de espasmo de pequeno segmento do
cólon sigmoide. A motilidade normalmente é fraca no intestino grosso, de modo que mesmo um espasmo discreto pode provocar constipação séria. Se a
constipação perdura por vários dias e fezes se acumulam acima do cólon sigmoide espástico, secreções colônicas excessivas frequentemente levam a um
dia ou mais de diarreia. Depois disso, o ciclo começa novamente com alternância
entre constipação e diarreia.
Megacólon (Doença de Hirschsprung). Ocasionalmente, a constipação é tão
intensa que os movimentos do intestino ocorrem só uma vez, em vários dias, ou
apenas uma vez por semana. Isso faz com que grande quantidade de matéria
fecal se acumule no cólon, distendendo-o a diâmetros de 7 a 10 centímetros. A
patologia é chamada megacólon ou doença de Hirschsprung.
Causa de megacólon é a falta ou deficiência de células ganglionares, no plexo
mioentérico, em um segmento do cólon sigmoide. Como consequência, nem
reflexos de defecação, nem motilidade peristáltica forte ocorrem nessa área do
intestino grosso. O próprio sigmoide fica pequeno e quase espástico, enquanto as
fezes se acumulam proximalmente a essa região, causando megacólon nos
segmentos ascendente, transverso e descendente.
Diarreia
A diarreia resulta do movimento rápido de material fecal pelo intestino grosso.
Várias causas de diarreia com importantes sequelas fisiológicas são as seguintes.
Enterite — Inflamação do Trato Intestinal. Enterite significa inflamação, em
geral, ocasionada por vírus ou por bactérias do trato intestinal. Na diarreia
infecciosa comum, a infecção é mais extensa, no intestino grosso e na parte distal
do íleo. Em todos os lugares em que a infecção esteja presente, ocorre irritação
da mucosa, cuja secreção aumenta muito. Ademais, a motilidade da parede
intestinal costuma ficar muito aumentada. Como resultado, existe no lúmen
grande quantidade de líquido para a remoção do agente infeccioso e, ao mesmo
tempo, fortes movimentos propulsores impelem esse líquido na direção do ânus.
Esse mecanismo é importante para livrar o trato intestinal de infecção debilitante.
De especial interesse é a diarreia causada pelo cólera (e menos frequentemente
por outras bactérias, como os bacilos patogênicos do cólon). Como explicado
no Capítulo 66, a toxina do cólera estimula diretamente a secreção excessiva de
eletrólitos e líquido pelas criptas de Lieberkühn no íleo distal e no cólon. A
quantidade pode ser de 10 a 12 litros por dia, e o cólon em geral reabsorve o
máximo de 6 a 8 litros por dia. Portanto, a perda de líquido e de eletrólitos por
muitos dias pode ser fatal.
A base fisiológica mais importante da terapia no cólera é repor com rapidez o
líquido e os eletrólitos, à medida que são perdidos principalmente por via
intravenosa. Com reposição apropriada de líquido e com o uso de antibióticos,
quase nenhuma pessoa morre do cólera; mas sem terapia, a mortalidade é de até 50% dos pacientes.
Diarreia Psicogênica. Quase todos estão familiarizados com a diarreia que
acompanha períodos de tensão nervosa, como durante provas ou quando um
soldado está para entrar na batalha. Esse tipo de diarreia, chamada diarreia emocional psicogênica, é causado por estimulação excessiva do sistema nervoso
parassimpático, que excita intensamente (1) a motilidade; e (2) o excesso de
secreção de muco no cólon distal. Esses dois efeitos somados podem causar diarreia acentuada.
Colite Ulcerativa. A colite ulcerativa é uma doença caracterizada por áreas
extensas das paredes do intestino grosso inflamadas e ulceradas. A motilidade do cólon ulcerado costuma ser tão grande que ocorrem movimentos em massa em
grande parte do dia, enquanto no cólon normal os movimentos duram de 10 a 30
minutos por dia. As secreções do cólon aumentam muito. Como resultado, o
paciente tem movimentos repetidos intestinais, com diarreia.
A causa da colite ulcerativa é desconhecida. Alguns clínicos acreditam que
resulte de efeito destrutivo alérgico ou imune, mas também poderia resultar de infecção bacteriana crônica, ainda não compreendida. Qualquer que seja a causa, existe forte tendência hereditária para a suscetibilidade à colite ulcerativa. Se a
condição progride muito, as úlceras raramente cicatrizam; a ileostomia para
permitir que o conteúdo do intestino delgado drene para o exterior, em lugar de atravessar o cólon, pode ser necessária. Mesmo assim, as úlceras algumas vezes não cicatrizam, e a única solução pode ser a remoção cirúrgica de todo o cólon.
Paralisia da Defecação nas Pessoas com Injúrias da Medula Espinal
Como se viu no Capítulo 64, a defecação normalmente é iniciada pelo acúmulo
de fezes no reto, o que causa o reflexo de defecação, mediado pela medula
espinal, que passa do reto para o conus medullaris da medula espinal e, então, de volta para o cólon descendente, sigmoide, reto e ânus.
Quando a medula espinal é lesada em algum ponto entre o conus medullaris e o
cérebro, a parte voluntária do ato da defecação é bloqueada, enquanto o reflexo
medular básico para a defecação permanece intacto. Todavia, a perda do
componente voluntário da defecação — isto é, a perda da capacidade de aumentar a pressão abdominal e de relaxar o esfíncter anal voluntário — frequentemente torna a defecação um processo difícil na pessoa com esse tipo de
lesão alta da medula espinal. Porém, como o reflexo medular da defecação ainda pode ocorrer, pequeno enema para excitar a ação desse reflexo medular, em geral
aplicado pela manhã logo após a refeição, costuma causar defecação adequada.
Desse modo, as pessoas com traumatismo da medula espinal, que não destrua o
conus medullaris, usualmente podem controlar seus movimentos intestinais
diários.
Distúrbios Gerais do Trato Gastrointestinal
Vômitos
O vômito é o meio pelo qual o trato gastrointestinal superior se livra do seu
conteúdo, quando qualquer parte do trato superior é excessivamente irritada,
hiperdistendida ou hiperexcitada. A distensão excessiva ou a irritação do duodeno
é estímulo especialmente forte para o vômito.
Os sinais sensoriais que iniciam o vômito se originam principalmente da faringe,
do esôfago, do estômago e das partes superiores do intestino delgado. Os
impulsos nervosos são transmitidos, como se vê na Figura 67-2, por fibras
nervosas aferentes vagais e simpáticas para múltiplos núcleos distribuídos no
tronco cerebral, especialmente a área postrema na área chamada “centro do
vômito”. Desse centro, os impulsos motores que causam vômitos são transmitidos
pelos quinto, sétimo, nono, décimo e décimo segundo nervos cranianos para o
trato gastrointestinal superior, pelos nervos vagais e simpáticos para regiões mais
distais do trato, e pelos nervos espinais para o diafragma e músculos abdominais.
Figura 67-2. Conexões neutras do “centro do vômito”. O centro do vômito inclui múltiplos núcleos sensoriais, motores e de controle, principalmente na formação reticular bulbar e pontina, e estende-se à medula espinal.
Antiperistaltismo, o Prelúdio do Vômito. Nos primeiros estágios da irritação
gastrointestinal excessiva ou da hiperdistensão, o antiperistaltismo começa a
ocorrer minutos antes de aparecerem os vômitos. Antiperistaltismo significa
peristaltismo para cima, no trato digestório, e não para baixo. Ele pode se iniciar
no íleo, e a onda antiperistáltica viaja em direção oral, velocidade de 2 a 3 cm/s;
esse processo pode empurrar grande parte do conteúdo do intestino delgado
inferior de volta ao duodeno e ao estômago em 3 a 5 minutos. Depois, à medida
que essas partes superiores do trato gastrointestinal, especialmente o duodeno,
são hiperdistendidas, a distensão é o fator excitatório que inicia o ato do vômito.
No início do vômito, ocorrem fortes contrações no duodeno e no estômago e
relaxamento parcial do esfíncter esofagogástrico, o que permite o movimento do
vômito do estômago para o esôfago. Então, o ato específico de vomitar,
envolvendo os músculos abdominais, ocorre e expele o vômito para o exterior,
conforme explicado no parágrafo a seguir.
Ato do Vômito. Uma vez que o centro do vômito tenha sido suficientemente
estimulado e instituído o ato do vômito, os primeiros efeitos são: (1) respiração
profunda; (2) elevação do osso hioide e da laringe para a abertura do esfíncter
esofágico superior; (3) fechamento da glote para impedir o fluxo de vômito para os
pulmões; e (4) elevação do palato mole para fechar as narinas posteriores. Em
seguida, ocorre forte contração do diafragma e contração simultânea dos
músculos da parede abdominal. Isso comprime o estômago entre o diafragma e
os músculos abdominais, elevando a pressão intragástrica a alto nível.
Finalmente, o esfíncter esofágico inferior se relaxa completamente, permitindo a
expulsão do conteúdo gástrico para o esôfago.
Portanto, o ato de vomitar decorre de ação de compressão dos músculos do
abdome, associada à contração simultânea da parede gástrica e abertura dos
esfíncteres esofágicos, com expulsão do conteúdo gástrico.
“Zona de Disparo dos Quimiorreceptores” no Bulbo para Início dos
Vômitos por Fármacos ou por Cinetose. Além dos vômitos iniciados por
estímulos irritativos do próprio trato gastrointestinal, os vômitos também podem
ser causados por sinais nervosos que se originam em áreas do cérebro. Isso é, de
modo particular, verdade, para pequena área chamada zona de disparo de
quimiorreceptores, que se localiza na área postrema das paredes laterais do
quarto ventrículo. A estimulação elétrica dessa área pode iniciar os vômitos;
porém, mais importante, a administração de certos fármacos, incluindo a
apomorfina, a morfina e alguns derivados de digitálicos, pode estimular
diretamente essa zona de disparo de quimiorreceptores e iniciar o vômito. A
destruição dessa área bloqueia esse tipo de vômitos, mas não bloqueia os
decorrentes de estímulos irritativos, no próprio trato gastrointestinal.
Sabe-se também que mudanças rápidas na direção ou no ritmo dos movimentos
corporais podem fazer com que certas pessoas vomitem. O mecanismo desse
fenômeno é o seguinte: o movimento estimula receptores, no labirinto vestibular do ouvido interno, e daí os impulsos são transmitidos, principalmente por via dos
núcleos vestibulares do tronco cerebral para o cerebelo e desse para a zona de disparo dos quimiorreceptores e, por fim, para o centro do vômito, causando o
vômito.
Náusea
A sensação de náusea costuma ser um pródromo do vômito. A náusea é o
reconhecimento consciente da excitação subconsciente na área do bulbo
estreitamente associada ao centro do vômito ou que faz parte dele e pode ser causada por (1) impulsos que venham do trato gastrointestinal, causados por
irritação; (2) impulsos que se originem no mesencéfalo, associados à cinetose; ou (3) impulsos do córtex cerebral, para iniciar os vômitos. Os vômitos,
ocasionalmente, ocorrem sem a sensação de náusea, indicando que apenas certas partes do centro do vômito se associam à sensação de náusea.
Obstrução Gastrointestinal
O trato gastrointestinal pode ser obstruído em quase todos os pontos de sua
extensão, como é mostrado na Figura 67-3. Algumas causas comuns de obstrução são (1) câncer; (2) constrição fibrótica decorrente de ulceração ou por
aderências peritoneais; (3) espasmo de segmento do intestino; e (4) paralisia de segmento do intestino.
As consequências anormais da obstrução dependem do ponto no trato
gastrointestinal, que é obstruído. Se a obstrução ocorrer no piloro, o que resulta
da constrição fibrótica depois de ulceração péptica, ocorrerão vômitos persistentes do conteúdo gástrico. Esse vômito reduz a nutrição corporal; também causa perda
de íons hidrogênio do estômago e pode resultar em alcalose metabólica dos
líquidos corporais.
Se a obstrução for além do estômago, o refluxo antiperistáltico do intestino
delgado faz com que os sucos intestinais voltem para o estômago e eles são
vomitados, junto com as secreções gástricas. Nesse caso, a pessoa perde grande quantidade de água e eletrólitos e se desidrata, mas as perdas de ácido do
estômago e de base do intestino delgado podem ser equivalentes, de modo que
ocorra pouca mudança no equilíbrio acidobásico.
Se a obstrução ocorrer na extremidade distal do intestino grosso, as fezes
poderão se acumular no cólon por 1 semana ou mais. O paciente desenvolve
sensação intensa de constipação, mas, a princípio, os vômitos não são intensos.
Se o intestino grosso ficar completamente cheio, de modo que não mais ocorra
transferência de quimo do intestino delgado para o intestino grosso, ocorrerão
vômitos intensos. Obstrução prolongada do intestino grosso finalmente causa
ruptura do próprio intestino ou, no caso de vômitos intensos, desidratação e
choque circulatório podem ocorrer.
Figura 67-3. Obstrução em diferentes partes do trato gastroin testinal.
Gases no Trato Gastrointestinal; “Flatos”
Os gases, chamados flatos, podem entrar no trato gastrointestinal por três
fontes: (1) ar deglutido; (2) gases formados no intestino pela ação bacteriana; ou
(3) gases que se difundem do sangue para o trato gastrointestinal. A maior parte
do ar do estômago é composta por misturas de nitrogênio e oxigênio derivados do
ar deglutido. Esses gases são expelidos por eructações. Somente pequenas
quantidades de gases ocorrem normalmente no intestino delgado, e grande parte
desse gás é ar que passa do estômago para o intestino.
No intestino grosso, a ação bacteriana produz a maior parte dos gases, incluindo
especialmente dióxido de carbono, metano e hidrogênio. Quando metano e
hidrogênio são misturados ao oxigênio, é formada algumas vezes mistura
explosiva. O uso de eletrocautério durante a sigmoidoscopia pode causar pequena explosão.
Sabe-se que certos alimentos causam maior flatulência que outros — feijão,
repolho, cebola, couve-flor, milho e certos alimentos irritativos, como vinagre.
Alguns desses alimentos servem como meio adequado para bactérias formadoras de gases, especialmente tipos fermentáveis e não absorvidos de carboidratos. Por
exemplo, o feijão contém carboidrato indigerível que entra no cólon e é substrato
para as bactérias colônicas. Em outros casos, porém, o excesso de eliminação de gases decorre da irritação do intestino grosso, o que promove rápida eliminação peristáltica dos gases pelo ânus, antes que eles possam ser absorvidos.
A quantidade de gases que entram ou se formam no intestino grosso, a cada dia
é em média de 7 a 10 litros, enquanto a quantidade média eliminada pelo ânus,
em geral, é cerca de 0,6 litro. O restante é normalmente absorvido pelo sangue
por meio da mucosa intestinal e eliminado pelos pulmões.
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UNIDADE XIII
Metabolismo e Termorregulação
RESUMO DA UNIDADE
CAPÍTULO 68 - Metabolismo dos Carboidratos e
Formação do Trifosfato de Adenosina
CAPÍTULO 69 - Metabolismo dos Lipídios
Estrutura Química Básica dos Triglicerídeos (Gordura
Neutra)
Transporte de Lipídios nos Líquidos Corporais
CAPÍTULO 70 - Metabolismo das Proteínas
CAPÍTULO 71 - O Fígado como Órgão
CAPÍTULO 72 - Equilíbrios Dietéticos; Regulação da
Alimentação; Obesidade e Inanição; Vitaminas e
Minerais
Em Condições Estáveis a Ingestão e o Gasto Energético
Estão Equilibrados
Regulação da Ingestão Alimentar e do Armazenamento de
Energia
CAPÍTULO 73 - Energética Celular e a Taxa Metabólica
CAPÍTULO 74 - Regulação da Temperatura Corporal e
Febre
Temperaturas Corporais Normais
A Temperatura Corporal é Controlada pelo Equilíbrios Entre
a Produção e a Perda de Calor
Regulação da Temperatura Corporal — o Papel do
Hipotálamo
Anormalidades da Regulação da Temperatura Corporal
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CAPÍTULO 68
Metabolismo dos Carboidratos e
Formação do Trifosfato de
Adenosina
Os Capítulos seguintes tratam do metabolismo do organismo, isto é, os
processos químicos que tornam possível a continuação da vida celular. Não
é intenção deste livro apresentar os detalhes químicos de todas as diversas
reações celulares, que pertencem ao universo da bioquímica. Em vez disso,
a intenção desses Capítulos é (1) rever os principais processos químicos
celulares; e (2) analisar suas implicações fisiológicas, especialmente da
maneira como se enquadram no conceito global da homeostasia corporal.
Liberação de Energia dos Alimentos e “Energia Livre”
Muitas reações químicas das células é voltada para a obtenção de energia a
partir dos alimentos disponíveis para os diversos sistemas fisiológicos da célula. Por exemplo, há necessidade de energia para atividade muscular, secreção
glandular, manutenção dos potenciais de membrana pelas fibras nervosas e
musculares, síntese de substâncias nas células, absorção de alimentos do trato
gastrointestinal e muitas outras funções.
Reações Acopladas. Todos os alimentos energéticos — carboidratos, gorduras
e proteínas — podem ser oxidados nas células e, durante esse processo, grande
quantidade de energia é liberada. Esses mesmos alimentos também podem ser
queimados com oxigênio puro fora do organismo em fogo verdadeiro, liberando
grande quantidade de energia; nesse caso, contudo, a energia é liberada
subitamente sob forma de calor. A energia que os processos fisiológicos celulares
necessitam não consiste em calor e, sim, em energia para os movimentos
mecânicos, no caso da função muscular, para concentrar solutos no caso da
secreção glandular e para efetuar outras funções celulares. Para fornecer essa
energia, as reações químicas devem estar “acopladas” aos sistemas responsáveis
por essas funções fisiológicas. Esse acoplamento é obtido por meio de sistemas
de enzimas celulares especiais e de transferência de energia, alguns dos quais
serão explicados neste e nos Capítulos subsequentes.
“Energia Livre”. A quantidade de energia liberada pela oxidação completa de
um alimento é chamada energia livre de oxidação dos alimentos e é, em geral,
representada pelo símbolo DG. A energia livre é usualmente expressa em termos
de calorias por mol de substância. Por exemplo, a quantidade de energia livre
liberada pela oxidação completa de 1 mol (180 gramas) de glicose é 686.000
calorias.
O Trifosfato de Adenosina É a “Moeda de Energia” do Corpo
O trifosfato de adenosina (ATP) é o elo essencial entre as funções, que utilizam
energia, e as funções que produzem energia no organismo (Figura 68-1). Por
esse motivo, o ATP foi chamado moeda de energia do organismo e pode ser
obtida e consumida repetidamente.
A energia derivada da oxidação dos carboidratos, proteínas e das gorduras é
usada para converter o difosfato de adenosina (ADP) em ATP, que é então
consumido pelas diversas reações do corpo, necessárias para (1) transporte ativo
das moléculas através das membranas; (2) contração dos músculos e
desempenho do trabalho mecânico; (3) diversas reações sintéticas que criam
hormônios, membranas celulares e muitas outras moléculas essenciais do
organismo; (4) condução de impulsos nervosos; (5) divisão celular e crescimento;
e (6) muitas outras funções fisiológicas que são necessárias para manter e
propagar a vida.
O ATP é composto químico lábil presente em todas as células. O ATP é uma
combinação de adenina, ribose e três radicais fosfato, como mostrado na Figura
68-2. Os últimos dois radicais fosfato estão conectados com o restante da molécula por meio de ligações de alta energia, indicadas pelo símbolo ~.
A quantidade de energia livre em cada um desses elos de alta energia por mol
de ATP é cerca de 7.300 calorias sob as condições-padrão e aproximadamente
12.000 calorias sob as condições usuais de temperatura e concentrações dos
reagentes no corpo. Consequentemente, no organismo, a remoção de cada um dos dois últimos radicais fosfato libera em torno de 12.000 calorias de energia. Após a perda de um radical fosfato do ATP, o composto se torna ADP e, após
perder o segundo radical fosfato, torna-se monofosfato de adenosina (AMP). As
interconversões entre ATP, ADP e AMP são as seguintes:
Figura 68-1. O trifosfato de adenosina é o elo principal entre os sistemas que produzem e utilizam energia no organismo. ADP, difosfato de adenosina; P , fosfato inorgânico. i
Figura 68-2. Estrutura química do trifosfato de adenosina.
O ATP está presente em toda parte no citoplasma e no nucleoplasma de todas
as células e, essencialmente, todos os mecanismos fisiológicos que requerem
energia para o seu funcionamento a obtêm diretamente do ATP (ou de um outro
composto de alta energia similar — trifosfato de guanosina). Por sua vez, o
alimento nas células é gradativamente oxidado e a energia liberada é usada para
formar novo ATP, mantendo, assim, reserva dessa substância sempre. Todas
essas transferências de energia ocorrem por meio de reações acopladas.
A principal finalidade deste Capítulo é explicar como a energia dos carboidratos
pode ser utilizada para formar ATP nas células. Normalmente, 90% ou mais de
todos os carboidratos utilizados pelo organismo são empregados com esse
objetivo.
Papel Central da Glicose no Metabolismo dos Carboidratos
Como explicado no Capítulo 66, os produtos finais da digestão dos carboidratos,
no aparelho digestivo são quase só glicose, frutose e galactose — com a glicose
representando, em média, cerca de 80% desses processos. Após absorção a
partir do trato intestinal, grande parte da frutose e quase toda galactose são
rapidamente convertidas em glicose no fígado. Consequentemente, existe pouca frutose ou galactose no sangue circulante. A glicose, assim, passa a ser a via final
comum para o transporte de quase todos os carboidratos para as células.
Nas células hepáticas, enzimas apropriadas estão disponíveis para promover as
interconversões entre os monossacarídeos — glicose, frutose e galactose, como
vemos na Figura 68-3. Além do mais, a dinâmica das reações é tal que quando o
fígado libera os monossacarídeos de volta para o sangue, o produto final é quase
inteiramente glicose. A razão para tanto é que as células hepáticas contêm grandes quantidades de glicose fosfatase. Logo, a glicose-6-fosfato pode ser degradada em glicose e fosfato, e a glicose pode então ser transportada de volta
para o sangue, através das membranas das células hepáticas.
Devemos novamente enfatizar que, de modo geral, acima de 95% de todos os
monossacarídeos circulantes no sangue são o produto de conversão final, a
glicose.
Figura 68-3. Interconversões dos três principais monossacarídeos — glicose, frutose e galactose — nas células hepáticas.
Transporte da Glicose através da Membrana Celular
Antes que a glicose possa ser utilizada pelas células dos tecidos do corpo, ela
deve ser transportada através da membrana para o citoplasma celular. No
entanto, a glicose não pode se difundir facilmente pelos poros da membrana
celular, porque o peso molecular máximo das partículas com difusão imediata se
situa em torno de 100, e a glicose apresenta peso molecular de 180. Ainda assim,
a glicose chega ao interior das células com certo grau de facilidade, devido ao
mecanismo de difusão facilitada. Os princípios desse mecanismo de transporte
são discutidos no Capítulo 4. Basicamente, são os expostos a seguir. Permeando
a matriz lipídica da membrana celular existe grande quantidade de moléculas de
proteínas carreadoras, que podem se ligar à glicose. A glicose nessa forma ligada pode ser transportada pelo carreador, de um lado para o outro da membrana,
quando é então liberada. Consequentemente, se a concentração de glicose for maior de um lado da membrana do que do outro lado, mais glicose vai ser
transportada a partir da área de alta concentração para a área de baixa concentração do que na direção oposta.
O transporte de glicose através das membranas da maioria das células é bem
diferente do que ocorre através da membrana gastrointestinal ou através do epitélio dos túbulos renais. Nesses dois casos, a glicose é transportada pelo mecanismo de cotransporte ativo de sódio e glicose, em que o transporte ativo do
sódio fornece energia para absorver a glicose contra diferença de concentração.
Esse mecanismo de cotransporte de sódio-glicose só funciona em algumas células epiteliais especiais que são especificamente adaptadas para a absorção ativa de glicose. Em outras membranas celulares, a glicose só é transportada da
concentração mais elevada para concentração inferior por meio de difusão facilitada, tornada possível pelas propriedades especiais de ligação da membrana
da proteína carreadora de glicose. Os detalhes da difusão facilitada para o
transporte da membrana celular são apresentados no Capítulo 4.
A Insulina Aumenta a Difusão Facilitada de Glicose
A intensidade do transporte da glicose, assim como o transporte de outros
monossacarídeos, aumenta muito devido à insulina. Quando o pâncreas secreta
grandes quantidades de insulina, o transporte de glicose na maioria das células aumenta por 10 ou mais vezes, relativamente ao valor medido na ausência de secreção da insulina. Por outro lado, a quantidade de glicose que pode se difundir
para o interior da maioria das células do organismo na ausência de insulina, com exceção das células hepáticas e cerebrais, é muito pequena para fornecer a
quantidade de glicose normalmente necessária para o metabolismo energético.
De fato, a utilização de carboidratos pela maioria das células é controlada pela
secreção de insulina pelo pâncreas e a sensibilidade dos diferentes tecidos aos efeitos da insulina no transporte de glicose. As funções da insulina e seu controle
do metabolismo dos carboidratos são discutidos com detalhes, no Capítulo 79.
Fosforilação da Glicose
Logo após sua entrada nas células, a glicose se liga a um radical fosfato
segundo a reação seguinte:
Essa fosforilação é promovida principalmente pela enzima glicocinase no fígado
e pela hexocinase, na maioria das outras células. A fosforilação da glicose é
quase inteiramente irreversível, exceto nas células hepáticas, nas células do
epitélio tubular renal e do epitélio intestinal; nessas células existe outra enzima, a
glicose fosfatase, que, quando é ativada, é capaz de reverter a reação. Na maioria
dos tecidos do corpo, a fosforilação tem como finalidade manter a glicose no
interior das células. Isso ocorre devido à ligação quase instantânea da glicose
com fosfato, que impede sua difusão de volta para fora, exceto nas células
especiais, principalmente, nas células hepáticas que contêm a fosfatase.
O Glicogênio É Armazenado no Fígado e no Músculo
Depois de sua captação para o interior da célula, a glicose pode ser usada
imediatamente para liberar energia ou pode ser armazenada sob a forma de
glicogênio, que é um grande polímero da glicose.
Todas as células do corpo são capazes de armazenar pelo menos algum
glicogênio, mas algumas células são capazes de armazená-lo em grande
quantidade, especialmente as células hepáticas, que podem acumular até 5% a
8% de seu peso sob a forma de glicogênio, e as células musculares, que podem
armazenar entre 1% e 3% de glicogênio. As moléculas de glicogênio podem ser
polimerizadas a qualquer peso molecular e o peso molecular médio é de 5
milhões ou mais; a maior parte do glicogênio se precipita sob a forma de grânulos.
Essa conversão dos monossacarídeos em composto precipitado de elevado
peso molecular (glicogênio) possibilita armazenar grandes quantidades de
carboidratos, sem alterar significativamente a pressão osmótica dos líquidos
intracelulares. Concentrações elevadas de monossacarídeos solúveis de baixo
peso molecular alterariam as relações osmóticas entre os líquidos intra e
extracelulares.
Glicogênese — Formação de Glicogênio
As reações químicas para a glicogênese são mostradas na Figura 68-4. Nessa
figura, podemos ver que a glicose-6-fosfato pode se tornar glicose-1-fosfato; essa
substância é convertida em uridinadifosfatoglicose que, finalmente, é convertida
em glicogênio. São necessárias diversas enzimas específicas para promover
essas conversões e qualquer monossacarídeo capaz de ser convertido em glicose
pode entrar nessas reações. Alguns compostos menores, inclusive o ácido lático,
glicerol, ácido pirúvico e alguns aminoácidos desaminados, também podem ser
convertidos em glicose ou em compostos muito próximos e, em seguida, em
glicogênio.
Figura 68-4. Reações químicas de glicogênese e glicogenólise mostrando também interconversões entre a glicose sérica e o glicogênio hepático. (A fosfatase necessária para a liberação da glicose da célula está presente nas células hepáticas, mas não se encontra na maioria das outras células.)
Glicogenólise — Quebra do Glicogênio Armazenado
Glicogenólise significa a ruptura do glicogênio celular armazenado para formar
novamente glicose nas células. A glicose pode então ser utilizada de modo a
fornecer energia. A glicoge nólise não ocorre pela reversão das mesmas reações químicas que formam o glicogênio; ao contrário, cada molécula de glicose
sucessiva em cada ramo do polímero de glicogênio se divide por meio de
fosforilação catalisada pela enzima fosforilase.
Em condições de repouso, a fosforilase está na forma inativa, de modo que o
glicogênio permanece armazenado. Quando ocorre necessidade de formar
novamente glicose a partir do glicogênio, a fosforilase deve primeiro ser ativada. Essa ativação pode ocorrer de diversas formas, que incluem a ativação pela
adrenalina e pelo glucagon, como se descreve na seguinte seção.
Ativação da Fosforilase pela Epinefrina ou pelo Glucagon. Dois hormônios,
a epinefrina e o glucagon, são capazes de ativar a fosforilase e, assim, causar glicogenólise rápida. O efeito inicial de cada um desses hormônios é o de
promover a formação do AMP cíclico nas células, que então dão início à cascata
de reações químicas que ativa a fosforilase. Esse processo é discutido, em
detalhes, no Capítulo 79.
A epinefrina é liberada pela medula da glândula adrenal, quando o sistema
nervoso simpático é estimulado. Consequentemente, uma das funções do sistema
nervoso simpático é a de aumentar a disponibilidade da glicose para o
metabolismo energético rápido. Essa função da epinefrina ocorre de forma
acentuada nas células hepáticas musculares, contribuindo com outros efeitos do
estímulo simpático para o preparo do corpo para ação, como é discutido
no Capítulo 61.
O glucagon é o hormônio secretado pelas células alfa do pâncreas, quando a
concentração sérica da glicose está excessivamente baixa. Ele estimula a
formação do AMP cíclico, principalmente pelas células hepáticas que, por sua vez,
promove a conversão do glicogênio hepático em glicose e sua liberação para o
sangue, elevando, desse modo, a concentração sanguínea de glicose. A função
do glucagon na regulação da glicose sanguínea é discutida no Capítulo 79.
Liberação de Energia a Partir da Glicose pela Via Glicolítica
Como a oxidação completa de uma molécula-grama de glicose libera 686.000
calorias de energia e apenas 12.000 calorias de energia são necessárias para
formar uma molécula-grama de ATP, haveria desperdício de energia se a glicose
fosse decomposta de uma só vez em água e dióxido de carbono, enquanto
formasse uma só molécula de ATP. Felizmente, todas as células do corpo contêm
enzimas especiais que efetuam o metabolismo da molécula de glicose em várias
etapas sucessivas, de modo que a energia seja liberada em pequenas
quantidades para formar uma só molécula-grama de ATP a cada vez, formando o
total de 38 moles de ATP para cada mol de glicose metabolizado pelas células.
As próximas seções descrevem os princípios básicos dos processos por meio
dos quais a molécula de glicose é progressivamente dissecada e sua energia
liberada para formar o ATP.
Glicólise — Clivagem da Glicose para Formar Ácido Pirúvico
O modo mais importante de liberar energia da molécula de glicose é iniciado
pela glicólise. Os produtos finais da glicólise são então oxidados para fornecer
energia. Glicólise significa a divisão da molécula de glicose de modo a formar
duas moléculas de ácido pirúvico.
A glicólise ocorre mediante 10 reações químicas sucessivas, mostradas na
Figura 68-5. Cada etapa é catalisada, pelo menos, por enzima proteica
específica. Observe que a glicose é primeiro convertida em frutose-1,6-difosfato e
depois é fracionada em duas moléculas com três átomos de carbonos, o gliceraldeído-3-fosfato, e cada uma delas é então convertida por mais cinco
etapas adicionais em ácido pirúvico.
Figura 68-5. Sequência de reações químicas responsáveis pela glicólise.
Formação de ATP Durante a Glicólise. Apesar das diversas reações químicas
nas séries glicolíticas, apenas uma pequena porção da energia livre na molécula de glicose é liberada na maioria das etapas. Entretanto, entre os estágios do ácido 1,3-difosfoglicérico e o ácido 3-fosfoglicérico e, de novo, nos estágios do ácido
fosfoenolpirúvico e do ácido pirúvico, a quantidade de energia liberada é superior
a 12.000 por mol, a quantidade necessária para formar o ATP e as reações são
acopladas de tal maneira que é formado ATP. Assim, o total de 4 moles de ATP é
formado para cada mol de frutose-1,6-difosfato, que se divide em ácido pirúvico.
Mesmo assim, 2 moles de ATP são necessários para fosforilar a glicose original,
de modo a formar a frutose-1,6-difosfato antes de ser possível iniciar a glicólise.
Portanto, o ganho líquido em moléculas de ATP em todo o processo glicolítico é
apenas 2 moles para cada mol de glicose utilizada. Isso corresponde a 24.000
calorias de energia transferida para o ATP, mas durante a glicólise o total de
56.000 calorias de energia foi perdido da glicose original, dando a eficiência global
para a formação de ATP de apenas de 43%. Os restantes 57% de energia se
perdem sob a forma de calor.
Conversão do Ácido Pirúvico em Acetilcoenzima A
O próximo estágio na degradação da glicose é a conversão em duas etapas das
duas moléculas de ácido pirúvico, na Figura 68-5, em duas moléculas de
acetilcoenzima A (acetil-CoA), segundo a seguinte reação:
A partir dessa reação, pode-se ver que duas moléculas de dióxido de carbono e
quatro átomos de hidrogênio são liberados dessa reação, enquanto as porções
restantes das duas moléculas de ácido pirúvico se associam à coenzima A, um
derivado da vitamina ácido pantotênico para formar duas moléculas de acetil-CoA.
Nessa conversão, não se forma ATP, mas até seis moléculas de ATP são
formadas quando os quatro átomos de hidrogênio liberados são posteriormente
oxidados, como vamos discutir adiante.
Ciclo do Ácido Cítrico (Ciclo de Krebs)
O próximo estágio na degradação da molécula de glicose é chamado ciclo do
ácido cítrico (também chamado ciclo dos ácidos tricarboxílicos ou ciclo de Krebs,
em homenagem a Hans Krebs, responsável pela descoberta de este ciclo). Essa é a sequência de reações químicas em que a porção acetil da acetil-CoA é
degradada a dióxido de carbono e átomos de hidrogênio. Todas essas reações ocorrem na matriz das mitocôndrias. Os átomos de hidrogênio liberados se
somam ao número desses átomos que vão subsequentemente ser oxidados (como vamos discutir adiante), liberando imensa quantidade de energia para
formar o ATP.
A Figura 68-6 mostra os diferentes estágios das reações químicas no ciclo do
ácido cítrico. As substâncias à esquerda são acrescentadas durante as reações químicas e os produtos das reações químicas encontram-se à direita. Observe no
topo da coluna que o ciclo começa com o ácido oxaloacético, e abaixo da cadeia
das reações o ácido oxaloacético é formado de novo. Assim, o ciclo pode continuar indefinidamente.
No estágio inicial do ciclo do ácido cítrico, a acetil-CoA se associa ao ácido
oxaloacético para formar o ácido cítrico. Parte da acetil-CoA é liberada e pode ser reutilizada, repetidamente, para formar quantidades ainda maiores de acetil-CoA,
a partir do ácido pirúvico; no entanto, a porção acetil passa a ser parte integral da
molécula do ácido cítrico. Durante os estágios sucessivos do ciclo do ácido cítrico,
são acrescentadas diversas moléculas de água, como vemos à esquerda na
Figura 68-6, e o dióxido de carbono e os átomos de hidrogênio são liberados em
outros estágios no ciclo, como vemos à direita na figura.
Os resultados efetivos de todo o ciclo do ácido cítrico são encontrados na
explicação, no final da Figura 68-6, demonstrando que, para cada molécula de
glicose originalmente metabolizada, duas moléculas de acetil-CoA entram no ciclo
do ácido cítrico, junto com seis moléculas de água. Essas são então degradadas em quatro moléculas de dióxido de carbono, 16 átomos de hidrogênio e duas
moléculas de coenzima A. Duas moléculas de ATP são formadas, como veremos
a seguir.
Figura 68-6. Reações químicas do ciclo do ácido cítrico mostrando a liberação de dióxido de carbono e grande número de átomos de hidrogênio durante o ciclo.
Formação de ATP no Ciclo do Ácido Cítrico. O ciclo do ácido cítrico, por si só,
não causa a liberação de grande quantidade de energia; em apenas uma das
reações químicas — durante a transformação do ácido a-cetoglutárico em ácido succínico — forma-se uma molécula de ATP. Assim, para cada molécula de
glicose metabolizada, duas moléculas de acetil-CoA passam pelo ciclo do ácido cítrico, cada uma formando uma molécula de ATP, ou total de duas moléculas de
ATP formadas.
Função das Desidrogenases e da Nicotinamida Adenina Dinucleotídeo na
Indução da Liberação de Átomos de Hidrogênio no Ciclo do Ácido Cítrico.
Como já vimos em diversos pontos deste Capítulo, os átomos de hidrogênio são liberados no decorrer de diferentes reações químicas do ciclo do ácido cítrico — quatro átomos de hidrogênio durante a glicólise, quatro durante a formação da
acetil-CoA a partir do ácido pirúvico e 16 no ciclo do ácido cítrico; isto perfaz total
de 24 átomos de hidrogênio, liberados para cada molécula de glicose original. No entanto, esses átomos de hidrogênio não são deixados livres no líquido intracelular. Em vez disso, são liberados de dois em dois e, em todos os casos, a
liberação é catalisada pela enzima proteica específica chamada desidrogenase. Vinte dos 24 átomos de hidrogênio se combinam imediatamente com a
nicotinamida adenina dinucleotídeo (NAD+), derivado da vitamina niacina, segundo a seguinte reação:
Essa reação não vai ocorrer sem a intermediação da desidrogenase específica
ou sem a capacidade da NAD +, para atuar como carreador de hidrogênio. Tanto o
íon hidrogênio livre, como o hidrogênio ligado à NAD+ entram em diversas reações químicas oxidativas que formam grandes quantidades de ATP, como
discutido adiante.
Os quatro átomos de hidrogênio restantes, liberados durante a quebra da
molécula de glicose — os quatro liberados ao longo do ciclo do ácido cítrico, entre
os estágios de ácido succínico e fumárico —, combinam-se à desidrogenase
específica, mas não são subsequentemente liberados para a NAD+. Eles, em vez disso, passam diretamente da desidrogenase para o processo oxidativo.
Função das Descarboxilases como Causa da Liberação de Dióxido de
Carbono. Mencionando de novo as reações químicas do ciclo do ácido cítrico,
assim como as reações para formação da acetil-CoA a partir do ácido pirúvico,
observa-se que existem três estágios em que o dióxido de carbono é liberado.
Para causar a liberação do dióxido de carbono, outras enzimas específicas,
chamadas descarboxilases, separam o dióxido de carbono de seu substrato. O
dióxido de carbono é então dissolvido nos líquidos orgânicos e transportado para
os pulmões, onde é eliminado do organismo pela expiração ( Capítulo 41).
Formação de Grandes Quantidades de ATP por meio da Oxidação do
Hidrogênio — o Processo de Fosforilação Oxidativa
Apesar de todas as complexidades da (1) glicólise; (2) do ciclo do ácido cítrico;
(3) da desidrogenação; e (4) da descarboxilação, quantidades muito pequenas de
ATP são formadas durante todos esses processos — apenas duas moléculas de
ATP no esquema da glicólise e outras duas moléculas no ciclo do ácido cítrico
para cada molécula de glicose metabolizada. Entretanto, quase 90% do ATP total,
criado pelo metabolismo da glicose, são formados durante a oxidação
subsequente dos átomos de hidrogênio que foram liberados nos estágios iniciais
da degradação da glicose. De fato, a principal função de todos esses estágios
iniciais é a de disponibilizar o hidrogênio da molécula da glicose sob formas
capazes de serem oxidadas.
A oxidação do hidrogênio é realizada, como ilustrado na Figura 68-7, por uma
série de reações catalisadas por reações enzimáticas nas mitocôndrias. Essas
reações (1) separam cada átomo de hidrogênio em íon hidrogênio e um elétron; e
(2) usam, eventualmente, os elétrons para combinar o oxigênio dissolvido dos
líquidos com moléculas de água para formar íons hidroxila. Então, o hidrogênio e
os íons hidroxila se associam entre si para formar água. Durante essa sequência
de reações oxidativas, quantidades enormes de energia são liberadas para formar
ATP. Essa maneira de formação do ATP é chamada fosforilação oxidativa. Ocorre
inteiramente nas mitocôndrias por meio de processo muito especializado chamado
mecanismo quimiosmótico.
Figura 68-7. Mecanismo quimiosmótico mitocondrial da fosforilação oxidativa para formar grandes quantidades de ATP. Essa figura mostra a relação entre as etapas oxidativa e de fosforilação nas membranas externa e interna da mitocôndria. FeS, proteína de sulfeto de ferro; FMN, flavina mononucleotideo; Q, ubiquinona.
Mecanismo Quimiosmótico da Mitocôndria para Formação do ATP
Ionização do Hidrogênio, a Cadeia de Transporte de Elétrons e a Formação
da Água. A primeira etapa da fosforilação oxidativa nas mitocôndrias é a
ionização dos átomos de hidrogênio que foram removidos dos substratos alimentares. Como descrito acima, esses átomos de hidrogênio são removidos
aos pares: um se torna imediatamente um íon hidrogênio, H+; o outro se acopla
com a NAD+ para formar nicotinamida adenina dinucleotideo (NADH) reduzida. Na
parte superior da + Figura 68-7 , vemos o destino subsequente da NADH e do H. O efeito inicial é liberar o outro átomo de NADH para formar outro íon hidrogênio, H+;
esse processo também reconstitui a NAD + que vai ser reutilizada repetidamente.
Os elétrons retirados dos átomos de hidrogênio para causar a ionização do
hidrogênio entram imediatamente em cadeia de aceptores de elétrons para o
transporte de elétrons, que é parte integral da camada interna da membrana (a
membrana pregueada) das mitocôndrias. Os aceptores de elétrons podem ser
reduzidos ou oxidados de modo reversível, por meio da aceitação ou rejeição de
elétrons. Os membros importantes dessa cadeia de transporte de elétrons incluem
a flavoproteína (flavina mononucleotideo), diversas proteínas de sulfeto de ferro,
ubiquinona e citocromos B, C1, C, A e A3. Cada elétron é transferido de um
desses aceptores para o próximo, até que finalmente atinge o citocromo A3, o
qual é chamado citocromo oxidase por ser capaz de ceder dois elétrons,
reduzindo, assim, o oxigênio elementar para formar o oxigênio iônico, que então
se acopla aos íons de hidrogênio para formar água.
Dessa maneira, a Figura 68-7 mostra o transporte dos elétrons pela cadeia de
elétrons e, então, seu emprego definitivo pela citocromo oxidase para levar à
formação de moléculas de água. Durante o transporte desses elétrons pela cadeia
de transporte de elétrons, a energia liberada é utilizada na síntese do ATP, como
veremos a seguir.
Bombeamento de Íons Hidrogênio para a Câmara Externa da Mitocôndria,
Levados pela Cadeia Transportadora de Elétrons. À medida que os elétrons
passam pela cadeia de transporte de elétrons, são liberadas grandes quantidades
de energia. Essa energia é usada para bombear os íons hidrogênio da matriz
interna da mitocôndria (à direita na Figura 68-7) para a câmara externa, entre as
membranas interna e externa da mitocôndria (à esquerda). Isso cria elevada
concentração de íons hidrogênio com carga positiva nessa câmara; cria também
forte potencial elétrico negativo na matriz interna.
Formação de ATP. A próxima etapa na fosforilação oxidativa é converter o ADP
em ATP. Essa conversão ocorre em conjunto com a grande molécula proteica, que
protrai por toda a membrana mitocondrial interna e projeta-se na forma de nó na
matriz interna da mitocôndria. Essa molécula é uma ATPase, cuja natureza física
é mostrada na Figura 68-7. É chamada ATP sintetase.
A elevada concentração de íons hidrogênio com carga elétrica positiva na
câmara externa e a grande diferença de potencial, através de membrana interna,
fazem com que os íons hidrogênio fluam para a matriz mitocondrial interna através
da própria substância da molécula da ATPase. Assim, a energia derivada desse
fluxo de íons hidrogênio é usada pela ATPase para converter o ADP em ATP
acoplando o ADP a radical fosfato iônico livre (Pi), acrescentando assim outra
ligação fosfato de alta energia à molécula.
A etapa final no processo é a transferência do ATP do interior da mitocôndria de
volta para o citoplasma celular. Essa etapa ocorre por meio de difusão externa
facilitada pela membrana interna e, então, por meio de difusão simples, pela membrana mitocondrial externa. Por sua vez, o ADP é continuamente transferido
em outra direção, para prosseguir sua conversão em ATP. Para cada dois elétrons que passam por toda a cadeia de transporte de elétrons (representando a
ionização de dois átomos de hidrogênio) são sintetizadas até três moléculas de ATP.
Resumo da Formação de ATP Durante a Quebra da Glicose
É possível agora determinar o número total de moléculas de ATP que, sob
condições ideais, podem ser formadas pela energia de uma molécula de glicose. 1. Durante a glicólise, quatro moléculas de ATP são formadas e duas são gastas
para causar a fosforilação inicial da glicose, de modo que o processo possa continuar, o que fornece um ganho líquido de duas moléculas de ATP.
2. Durante cada revolução do ciclo do ácido cítrico, uma molécula de ATP é
formada. No entanto, como cada molécula de glicose se divide em duas
moléculas de ácido pirúvico, existem duas revoluções do ciclo para cada molécula de glicose metabolizada, havendo produção líquida de mais duas moléculas de ATP.
3. Durante todo o esquema representativo da quebra da molécula de glicose, o
total de 24 átomos de hidrogênio é liberado durante a glicólise e durante o ciclo do ácido cítrico. Vinte destes átomos são oxidados, em conjunto com o
mecanismo quimiosmótico oxidativo mostrado na Figura 68-7, com liberação de
três moléculas de ATP para cada dois átomos de hidrogênio oxidados,
perfazendo, desse modo, um total de 30 moléculas de ATP.
4. Os quatro átomos de hidrogênio restantes são liberados por sua
desidrogenase, no esquema oxidativo quimiosmótico na mitocôndria, além do
primeiro estágio da Figura 68-7. Duas moléculas de ATP são geralmente
liberadas para cada dois átomos de hidrogênio, havendo, assim, o total de mais quatro moléculas de ATP.
Agora, somando todas as moléculas de ATP formadas, encontramos o máximo
de 38 moléculas de ATP formadas para cada molécula de glicose degradada em dióxido de carbono e água. Dessa maneira, 456.000 calorias de energia podem
ser armazenadas sob a forma de ATP, enquanto 686.000 calorias são liberadas
durante a oxidação completa de cada molécula-grama de glicose. Esse resultado representa eficiência global máxima de transferência de energia de 66%. Os 34% restantes de energia são calor e, consequentemente, não podem ser utilizados
pelas células para a realização de funções específicas.
Efeito das Concentrações Celulares do ATP e ADP sobre o Controle da
Glicólise e da Oxidação de Glicose
A liberação contínua de energia da glicose, quando não existe necessidade de
energia pelas células, seria um processo de desperdício extremo. Em vez disso, a
glicólise e a subsequente oxidação dos átomos de hidrogênio são
continuadamente controladas segundo as necessidades celulares de ATP. Esse
controle é realizado por meio de diversos mecanismos de controle por feedback,
dentro do esquema químico. Entre os mais importantes desses mecanismos
encontram-se os efeitos das concentrações celulares tanto de ADP como de ATP
no controle das velocidades das reações químicas, na sequência do metabolismo
da energia.
Modo importante pelo qual o ATP ajuda a controlar o metabolismo energético é
inibindo a enzima fosfofrutocinase. Como essa enzima promove a formação de
frutose-1,6-difosfato, uma das etapas iniciais na série de reações glicolíticas, o
resultado efetivo de excesso de ATP celular é o de tornar muito lenta ou, até
mesmo, interromper a glicólise que, por sua vez, interrompe a maior parte do
metabolismo dos carboidratos. Pelo contrário, o ADP (e também o AMP) provoca
alteração oposta nessa enzima, aumentando muito sua atividade. Sempre que o
ATP é usado pelos tecidos como fonte de energia de fração importante de quase
todas as reações químicas intracelulares, isto reduz a inibição pelo ATP da
enzima fosfofrutocinase e, ao mesmo tempo, aumenta sua atividade como
resultado do excesso de ADP formado. Assim, o processo glicolítico é iniciado e
as reservas celulares totais de ATP se refazem.
Outro elo de controle é o íon citrato formado no ciclo do ácido cítrico. Excesso
desse íon também inibe fortemente a fosfofrutocinase, impedindo assim que o
processo glicolítico ultrapasse a capacidade do ciclo do ácido cítrico usar o ácido
pirúvico, formado durante a glicólise.
Um terceiro modo pelo qual o sistema do ATP-ADP-AMP controla o metabolismo
dos carboidratos, assim como controla a liberação de energia dos lipídios e
proteínas, é o seguinte: voltando às diversas reações químicas para liberação de
energia, verificamos que se todo o ADP na célula tiver sido transformado em ATP,
simplesmente não é possível formar ATP adicional. Consequentemente, toda a
sequência envolvida na utilização dos alimentos — glicose, lipídios e proteínas —
para a formação de ATP é suspensa. Então, quando o ATP é utilizado pela célula
para fornecer energia para as diferentes funções da fisiologia celular, o ADP
recém-formado e o AMP acionam novamente os processos fisiológicos, e o ADP e
o AMP são quase imediatamente devolvidos para o estado de ATP. Dessa
maneira, essencialmente é mantida, de forma automática, a reserva completa de ATP, exceto durante atividade celular excessiva, como exercício muito exaustivo.
Liberação Anaeróbica de Energia — “Glicólise Anaeróbica”
Ocasionalmente, o oxigênio fica indisponível ou insuficiente, de modo que a
fosforilação oxidativa não possa ocorrer. Ainda assim, mesmo sob essas condições, pequena quantidade de energia ainda pode ser liberada para as
células pelo estágio da glicólise da degradação de carboidratos, porque as
reações químicas para a ruptura da glicose em ácido pirúvico não requerem oxigênio.
Esse processo consome grande quantidade de glicose, porque apenas 24.000
calorias são empregadas para formar ATP em cada molécula de glicose metabolizada, o que representa apenas pouco mais do que 3% da energia total da
molécula de glicose. Entretanto, essa liberação de energia glicolítica para as
células, que é chamada energia anaeróbica, pode ser medida salvadora durante
alguns poucos minutos em que o oxigênio se torna indisponível.
A Formação de Ácido Lático Durante a Glicólise Anaeróbi ca Permite a
Liberação de Energia Anaeróbica Extra. A lei de ação das massas afirma que, à medida que os produtos finais da reação química se acumulam em meio reativo, a intensidade da reação diminui, aproximando-se de zero. Os dois produtos finais
das reações glicolíticas (Figura 68-5) são (1) ácido pirúvi co; e (2) átomos de
hidrogênio acoplados à NAD+ + para formar NADH e H. O acúmulo de uma ou de ambas as substâncias seria capaz de suspender o processo glicolítico e impedir a
formação adicional de ATP. Quando suas quantidades se tornam excessivas,
esses dois produtos finais reagem entre si para formar o ácido lático, conforme a
seguinte equação:
Assim, sob condições anaeróbicas, a maior parte do ácido pirúvico é convertida
em ácido lático, que se difunde rapidamente das células para os líquidos
extracelulares e, até mesmo, para os líquidos intracelulares de outras células com
menor atividade. Consequentemente, o ácido lático representa um tipo de
“sumidouro” em que os produtos finais da glicólise podem desaparecer, permitindo
assim que a glicólise prossiga além do que seria possível de outra maneira. De
fato, a glicólise poderia prosseguir apenas por alguns segundos, sem essa
conversão. Em vez disso, é possível continuar por diversos minutos, fornecendo
quantidades extras consideráveis de ATP para o corpo, mesmo na ausência de
oxigênio respiratório.
A Reconversão do Ácido Lático em Ácido Pirúvico Quando o Oxigênio se
Torna Novamente Disponível. Quando a pessoa começa a respirar oxigênio de
novo, depois de período de metabolismo anaeróbico, o ácido lático é rapidamente
reconvertido em ácido pirúvico e NADH e H+. Grandes porções dessas
substâncias são imediatamente oxidadas para formar grandes quantidades de
ATP. Essa quantidade excessiva de ATP, então, devolve até três quartos do
excesso restante de ácido pirúvico para serem convertidos de volta em glicose.
Assim, a grande quantidade de ácido lático que se forma, durante a glicólise
anaeróbica, não se perde no organismo porque, quando o oxigênio estiver
novamente disponível, o ácido lático poderá ser reconvertido em glicose ou
utilizado diretamente como fonte de energia. A maior parte dessa reconversão
ocorre principalmente no fígado, mas pequena quantidade também pode ocorrer
em outros tecidos.
Emprego do Ácido Lático pelo Coração como Fonte de Energia. O músculo
cardíaco é especialmente capaz de converter o ácido lático em ácido pirúvico e
então empregar o ácido pirúvico como fonte de energia. Esse processo ocorre principalmente durante a realização de exercícios pesados, quando grandes
quantidades de ácido lático são liberadas para o sangue pelos músculos esqueléticos e consumidas como forma extra de energia pelo coração.
Liberação de Energia da Glicose pela Via da Pentose Fosfato
Em quase todos os músculos do organismo, essencialmente todos os
carboidratos utilizados como fonte de energia são degradados em ácido pirúvico,
por meio da glicogenólise e então oxidados. No entanto, esse esquema glicolítico não é o único meio pelo qual a glicose pode ser degradada e utilizada para fornecer energia. O segundo mecanismo importante para a quebra e oxidação da
glicose é chamado via da pentose fosfato (ou via do fosfogliconato), que é responsável por até 30% da quebra da glicose no fígado e até mesmo mais do
que isso, nas células adiposas.
Essa via é especialmente importante, porque pode fornecer energia
independente de todas as enzimas do ciclo do ácido cítrico e, consequentemente, é via alternativa para o metabolismo energético, quando algumas anormalidades
enzimáticas ocorrem nas células. Ela apresenta capacidade especial para
fornecer energia para diversos processos de síntese celular.
Liberação de Dióxido de Carbono e Hidrogênio pela Via da Pentose
Fosfato. A Figura 68-8 mostra a maioria das reações químicas básicas da via da
pentose fosfato. Ela demonstra que a glicose, durante diversos estágios da conversão, pode liberar uma molécula de dióxido de carbono e quatro átomos de
hidrogênio, com a resultante formação de açúcar com cinco carbonos, d-ribulose.
Essa substância pode mudar, progressivamente, em diversos outros açúcares
com cinco, quatro, sete e três carbonos. Finalmente, diversas combinações desses açúcares são capazes de ressintetizar a glicose. Entretanto, apenas cinco
moléculas de glicose são ressintetizadas para cada seis moléculas de glicose que
entram inicialmente nas reações. Ou seja, a via da pentose fosfato é um processo
cíclico em que a molécula de glicose é metabolizada para cada revolução do ciclo. Assim, com a repetição contínua do ciclo, toda a glicose pode eventualmente ser
convertida em dióxido de carbono e hidrogênio, e o hidrogênio pode entrar na via
da fosforilação oxidativa para formar ATP; na maioria das vezes, no entanto, é utilizada para a síntese de lipídios ou de outras substâncias, como veremos a seguir.
Figura 68-8. Via da pentose fosfato para o metabolismo da glicose.
Emprego do Hidrogênio para Sintetizar Gordura; a Função da Nicotinamida
Adenina Dinucleotídeo Fosfato. O hidrogênio liberado durante o ciclo da
pentose fosfato, não se acopla com a NAD+ como na via glicolítica, mas se acopla
com a nicotinamida adenina dinucleotídeo fosfato (NADP+), que é quase idêntico
à NAD+, exceto por radical fosfato extra, P. Essa diferença é extremamente
significativa, porque só o hidrogênio ligado à NADP+ na forma de NADPH pode
ser utilizado para a síntese lipídica, a partir dos carboidratos (como discutido
no Capítulo 69) e para a síntese de algumas outras substâncias.
Quando a via glicolítica, para utilização de glicose, é lentificada devido à
inatividade celular, a via da pentose fosfato continua em funcionamento
(principalmente no fígado) para fazer a degradação de qualquer excesso de glicose que continue a ser transportado para dentro das células e a NADPH fica
abundante, de modo a ajudar na conversão da acetil-CoA, também derivada da glicose, em ácidos graxos de cadeia longa. Essa é uma outra maneira pela qual a
energia na molécula da glicose é usada, além da formação de ATP — nessa circunstância, para a formação e armazenamento de lipídios no corpo.
Conversão da Glicose em Glicogênio ou Gordura
Quando a glicose não é imediatamente requerida como fonte de energia, a
glicose extra, que penetra continuamente nas células, é armazenada sob a forma de glicogênio ou convertida em lipídios. A glicose é preferencialmente
armazenada como glicogênio, até que as células tenham armazenado quantidades suficientes para fornecer energia para as necessidades do
organismo, por período de apenas 12 a 24 horas.
Quando as células que armazenam o glicogênio (primariamente, células
hepáticas e musculares) chegam perto da saturação com glicogênio, a glicose
adicional é convertida em lipídios, no fígado e nas células adiposas, e armazenada sob a forma de gordura nas células adiposas. Outras etapas da
química dessa conversão são discutidas no Capítulo 69.
Formação de Carboidratos a partir de Proteínas e Gorduras — “Gliconeogênese”
Quando as reservas de carboidratos do organismo caem abaixo da normal,
quantidades moderadas de glicose podem ser formadas a partir de aminoácidos e
da porção glicerol dos lipídios. Esse processo é chamado gliconeogênese.
A gliconeogênese é especialmente importante na prevenção de redução
excessiva da concentração de glicose no sangue durante o jejum. A glicose é o substrato primário de energia, em tecidos como o cérebro e as hemácias, e quantidades adequadas de glicose devem estar presentes no sangue por diversas
horas, entre as refeições. O fígado desempenha papel fundamental na
manutenção dos níveis de glicose sanguínea durante o jejum ao converter seu glicogênio armazenado em glicose (glicogenólise) e ao sintetizar a glicose, princi‐
palmente a partir do lactato e de aminoácidos (gliconeogênese).
Aproximadamente 25% da produção de glicose hepática derivam da
gliconeogênese, ajudando a manter o fornecimento estável de glicose para o
cérebro. Durante jejum prolongado, os rins também sintetizam quantidades
consideráveis de glicose, a partir de aminoácidos e de outros precursores.
Cerca de 60% dos aminoácidos nas proteínas do corpo podem ser facilmente
convertidos em carboidratos; os restantes 40% apresentam configurações
químicas que dificultam ou impossibilitam essa conversão. Cada aminoácido é
convertido em glicose por meio de processo químico ligeiramente diferente. Por
exemplo, a alanina pode ser convertida direto em ácido pirúvico, simplesmente
pela desaminação; o ácido pirúvico é então convertido em glicose ou glicogênio
armazenado. Diversos dos aminoácidos mais complicados podem ser convertidos
em açúcares diferentes, contendo três, quatro, cinco ou sete átomos de carbono;
eles podem então entrar na via do fosfogluconato e, eventualmente, formar
glicose. Assim, por meio da desaminação com diversas interconversões simples,
muitos dos aminoácidos podem tornar-se glicose. Interconversões similares
podem transformar o glicerol, em glicose ou em glicogênio.
Regulação da Gliconeogênese
A diminuição do nível celular dos carboidratos e da glicose sanguínea são os
estímulos básicos que aumentam a intensidade da gliconeogênese. A diminuição
dos carboidratos pode reverter diretamente muitas das reações glicolíticas e de
fosfogluconato, permitindo assim a conversão de aminoácidos desaminados e
glicerol em carboidratos. Além disso, o hormônio cortisol é especialmente
importante nessa regulação, como descrito nas seções seguintes.
Efeito da Corticotropina e dos Glicocorticoides sobre a Gliconeogênese.
Quando quantidades normais de carboidratos não estão disponíveis para as
células, a adeno-hipófise, por motivos que ainda não foram completamente
esclarecidos, começa a secretar quantidades aumentadas do hormônio
corticotropina. Essa secreção leva o córtex adrenal a produzir grandes
quantidades de hormônios glicocorticoides, em especial o cortisol. Por sua vez, o
cortisol mobiliza proteínas essencialmente de todas as células do organismo,
disponibilizando-as sob a forma de aminoácidos nos líquidos corporais. Elevada
proporção desses aminoácidos é de imediato desaminada no fígado e fornece
substratos ideais para a conversão em glicose. Assim, um dos métodos mais
importantes para promoção da gliconeogênese é a liberação de glicocorticoides
do córtex adrenal.
Glicose Sanguínea
A concentração sanguínea normal de glicose de pessoa em jejum nas últimas 3
ou 4 horas, é cerca de 90 mg/dL. Depois de refeição rica em carboidratos, esse
nível raramente se eleva acima de 140 mg/dL, a menos que essa pessoa seja
portadora de diabetes melito, condição que será discutida no Capítulo 79.
A regulação da concentração da glicose sanguínea está intimamente
relacionada aos hormônios pancreáticos, insulina e glucagon; esse assunto é
discutido detalhadamente no Capítulo 79, em relação às funções desses hormônios.
Bibliografia
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CAPÍTULO 69
Metabolismo dos Lipídios
Diversos compostos químicos nos alimentos e no organismo são
classificados como lipídios. Entre eles se encontram (1) gordura neutra,
também conhecida como triglicerídeos; (2) fosfolipídios; (3) colesterol;
além de (4) alguns outros de menor importância. Quimicamente, a parte
lipídica básica dos triglicerídeos e dos fosfolipídios é formada por ácidos
graxos, que são simplesmente cadeias longas de hidrocarbonetos ácidos.
Um ácido graxo típico, o ácido palmítico, é o seguinte: CH (CH ) COOH. 3 2 14
Apesar de o colesterol não apresentar ácidos graxos na sua fórmula, seu
núcleo esterol é sintetizado a partir de partes de moléculas de ácidos graxos,
o que lhe dá, assim, muitas das propriedades físicas e químicas de outros‐
lipídios.
Os triglicerídeos são usados no organismo, principalmente para fornecer
energia para os diferentes processos metabólicos, função que compartilham
quase igualmente com os carboidratos. No entanto, alguns lipídios, especialmente o colesterol, os fosfolipídios e pequenas quantidades de