Tratado de Fisiologia Médica
Características Especiais da Transmissão dos Sinais nos Troncos Nervosos
Esse é o estado referido como hiperpolarização, mostrado também
na Figura 5-14. Enquanto persistir esse estado, a autorreexcitação não vai
ocorrer. Entretanto, a condutância excessiva de potássio (e o estado de
hiperpolarização) desaparece gradualmente, como mostrado na figura,
depois que cada potencial de ação termina, permitindo de novo que o
potencial de membrana aumente de novo até seu limiar de excitação. Então,
de repente ocorre novo potencial de ação e o processo acontece outra vez e
assim por diante.
Figura 5-14. Potenciais de ação rítmicos (em milivolts) semelhantes aos registrados no centro de controle rítmico do coração. Note suas relações com a condutância do potássio e com o estado de hiperpolarização.
CARACTERÍSTICAS ESPECIAIS DA TRANSMISSÃO DOS
SINAIS NOS TRONCOS NERVOSOS
Fibras Nervosas Mielinizadas e Amielinizadas. A Figura 5-
15 mostra um corte transversal de típico nervo pequeno, revelando muitas
fibras nervosas calibrosas que constituem a maior parte da área desse corte transversal. No entanto, olhar mais cuidadoso revela grande número de
fibras muito delgadas localizadas entre as fibras mais grossas. As fibras
calibrosas são mielinizadas, e as mais delgadas são amielinizadas. A
maioria dos troncos nervosos contém cerca de duas vezes mais fibras
amielinizadas do que fibras mielinizadas.
A Figura 5-16 mostra uma fibra mielinizada típica. A parte central da fibra
é o axônio, e a membrana do axônio é a membrana que, de fato, conduz o
potencial de ação. O axônio é cheio em sua parte central por axoplasma,
que é um líquido intracelular víscido. Em volta do axônio existe a bainha
de mielina, que é frequentemente mais espessa que o próprio axônio. A
cada 1 a 3 milímetros da extensão da bainha de mielina existe um nodo de
Ranvier.
A bainha de mielina é depositada em torno do axônio pelas células de
Schwann da seguinte maneira: a membrana das células de Schwann
primeiro envolve o axônio. Em seguida, as células de Schwann giram
muitas vezes em torno do axônio, formando camadas múltiplas de
membrana celular de Schwann, contendo a substância lipídica
esfingomielina. Essa substância é excelente isolante elétrico, reduzindo o
fluxo iônico através da membrana por cerca de 5.000 vezes. Na junção
entre duas células de Schwann sucessivas, ao longo do axônio, existe área
não isolada, com comprimento de 2 a 3 micrômetros, por onde os íons ainda
podem passar facilmente através da membrana do axônio, do líquido
extracelular para o intracelular, dentro do axônio. Essa área forma o nodo
de Ranvier.
Figura 5-15. Corte transversal de pequeno tronco nervoso contendo fibras mielinizadas e amielinizadas.
Figura 5-16. Função da célula de Schwann no isolamento das fibras nervosas. A, Revestimento da membrana da célula de Schwann, em torno de um axônio calibroso para formar a bainha de mielina da fibra nervosa mielinizada. B, Revestimento parcial da membrana e do citoplasma da célula de Schwann em torno de várias fibras nervosas amielinizadas (mostrado em corte transversal). (A, Modificada de Leeson TS, Leeson R: Histology. Philadelphia: WB Saunders,1979.)
Condução “Saltatória” de Nodo a Nodo nas Fibras Mielinizadas.
Mesmo que quase nenhum íon possa fluir através das grossas bainhas de
mielina dos nervos mielinizados, eles podem passar com facilidade através dos nodos de Ranvier. Assim, potenciais de ação só ocorrem nos nodos de
Ranvier. Os potenciais de ação são, então, conduzidos de nodo para nodo,
como mostra a Figura 5-17; esse tipo de condução é chamado condução
saltatória. Ou seja, a corrente elétrica flui pelo líquido extracelular que
circunda a parte externa da bainha de mielina, assim como pelo axoplasma
dentro do axônio, de nodo a nodo, excitando os nodos sucessivos, um após
o outro. Desse modo, os impulsos nervosos saltam ao longo da fibra
nervosa, o que dá origem ao termo “saltatória”.
A condução saltatória é de grande valor por duas razões. Primeira, ao
fazer com que o processo de despolarização pule longos trechos ao longo
do eixo da fibra nervosa, esse mecanismo aumenta a velocidade da
transmissão nervosa nas fibras mielinizadas por 5 a 50 vezes. Segunda, a
condução saltatória conserva energia para o axônio porque somente os
nodos se despolarizam, permitindo talvez perda apenas de íons até 100
vezes menor da que seria necessária e, por conseguinte, requerendo menos
gasto de energia para restabelecer as diferenças de concentração de sódio e
potássio através da membrana, após série de impulsos nervosos.
O excelente isolamento produzido pela membrana de mielina e a redução
de 50 vezes da capacitância dessa membrana também permitem que a
repolarização ocorra com transferência muito pequena de íons.
Figura 5-17. Condução saltatória pelo axônio mielinizado. O fluxo de corrente elétrica de nodo a nodo é indicado pelas setas.
Velocidade de Condução nas Fibras Nervosas. A velocidade de
condução dos potenciais de ação nas fibras nervosas varia do mínimo de
0,25 m/s nas fibras amielínicas mais delgadas, até o máximo de 100 m/s
(um valor superior ao comprimento de um campo de futebol em um
segundo) nas fibras mielinizadas mais calibrosas.
EXCITAÇÃO — O PROCESSO DE GERAÇÃO DO
POTENCIAL DE AÇÃO
Basicamente, qualquer fator que promova a difusão de grande número de
íons sódio para o interior da célula pode desencadear a abertura
regenerativa automática dos canais de sódio. Essa abertura regenerativa
automática pode resultar de distúrbio mecânico da membrana, de efeitos
químicos na membrana, ou da passagem de eletricidade através da
membrana. Todas essas abordagens são utilizadas, em pontos distintos do
corpo, para fazer surgir o potencial de ação muscular ou nervoso: a pressão
mecânica para excitar as terminações sensoriais nervosas na pele, os
neurotransmissores químicos para transmitir sinais de um neurônio para o próximo no cérebro, e a corrente elétrica para transmitir sinais entre as
sucessivas células musculares no coração e no intestino. Para o propósito de
compreender o processo da excitação, começaremos discutindo os
princípios da estimulação elétrica.
Excitação da Fibra Nervosa por um Eletródio Metálico com Carga Negativa.
O meio usual para excitar um nervo ou músculo nos laboratórios experimentais é
aplicar eletricidade à superfície do nervo ou do músculo, por meio de dois pequenos eletródios, um dos quais tem carga negativa e o outro carga positiva.
Quando se aplica eletricidade dessa maneira, a membrana excitável é estimulada
no eletródio negativo.
Esse efeito ocorre pelo seguinte motivo: lembre-se de que o potencial de ação é
iniciado pela abertura dos canais de sódio regulados pela voltagem.
Posteriormente, um maior número desses canais é aberto pela redução da voltagem elétrica normal de repouso através da membrana. Isto é, a corrente
negativa do eletródio diminui a voltagem do lado de fora da membrana até valor
negativo próximo à voltagem do potencial negativo dentro da fibra. Esse efeito
reduz a voltagem elétrica através da membrana, permitindo que os canais de sódio se abram, resultando no potencial de ação. De modo contrário, no eletródio
positivo, a injeção de cargas positivas no lado externo da membrana nervosa
aumenta a diferença de voltagem através da membrana em vez de reduzi-la. Esse
efeito causa o estado de hiperpolarização que na verdade diminui a excitabilidade da fibra, em vez de causar o potencial de ação.
O Limiar para a Excitação e o “Potencial Local Agudo”. Estímulo
negativo fraco pode não ser suficiente para excitar a fibra. Todavia, quando
a voltagem do estímulo é aumentada, atinge-se valor no qual ocorre
excitação. A Figura 5-18 mostra o efeito de estímulos aplicados
sucessivamente, de intensidade progressivamente crescente. Um estímulo
muito fraco no ponto A faz com que o potencial de membrana varie de –90
para –85 milivolts, mas essa não é a alteração suficiente para que o
processo regenerativo automático do potencial de ação se desenvolva. No
ponto B, o estímulo é maior, mas de novo a intensidade ainda não é
suficiente. Contudo, esse estímulo modifica o potencial de membrana local, por período de 1 milissegundo ou mais após esses dois estímulos fracos.
Essas alterações dos potenciais locais são referidas como potenciais locais
agudos, e quando deixam de desencadear o potencial de ação, elas são
designadas como potenciais subliminares agudos.
No ponto C da Figura 5-18, o estímulo é ainda mais intenso. Agora o
potencial local atingiu nitidamente o nível necessário para a produção do
potencial de ação, conhecido por nível limiar, mas o potencial de ação só
ocorre após pequeno “período latente”. No ponto D, o estímulo é ainda
mais forte, o potencial agudo local é também mais intenso, e o potencial de
ação acontece em menos tempo do que o período latente.
Assim, essa figura mostra que até mesmo estímulos muito fracos causam
alteração local do potencial da membrana, mas a amplitude do potencial
local deve aumentar até o nível limiar para que seja produzido o potencial
de ação.
Figura 5-18. Efeito de voltagens crescentes do estímulo para produzir um potencial de ação. Note o desenvolvimento de “potenciais sublimiares agudos”, quando os estímulos estão abaixo do valor limiar necessário para produzir um potencial de ação.
“PERÍODO REFRATÁRIO” APÓS O POTENCIAL DE
AÇÃO, DURANTE O QUAL UM NOVO ESTÍMULO NÃO
PODE SER EVOCADO
Novo potencial de ação não pode ocorrer na fibra excitável enquanto a
membrana ainda estiver despolarizada pelo potencial de ação precedente. A
razão para essa restrição é que logo após o potencial de ação ser
desencadeado, os canais de sódio (ou canais de cálcio, ou ambos) ficam
inativos, e qualquer quantidade de sinal excitatório aplicado a esses canais,
nesse momento, não vai abrir as comportas de inativação. A única condição
que permitirá sua reabertura é o retorno do potencial de membrana ao valor
original, ou próximo disso, do potencial de repouso da membrana. Então,
em pequena fração de segundo, as comportas de inativação dos canais se
abrem, e novo potencial de ação pode ser iniciado.
O período durante o qual o segundo potencial de ação não pode ser
produzido mesmo com estímulo muito intenso é designado como período
refratário absoluto. Esse período para as fibras nervosas mielinizadas mais
calibrosas é cerca de 1/2.500 segundo. Portanto, pode-se prontamente
calcular que esse tipo de fibra pode transmitir cerca de no máximo 2.500
impulsos por segundo.
Inibição da Excitabilidade — “Estabilizadores” e Anestésicos Locais
Em contraste com os fatores que aumentam a excitabilidade nervosa, ainda
outros, conhecidos como fatores estabilizadores da membrana, podem diminuir a excitabilidade. Por exemplo, uma alta concentração de íons cálcio no líquido
extracelular diminui a permeabilidade para os íons sódio, ao mesmo tempo
reduzindo a excitabilidade. Por essa razão, os íons cálcio são ditos serem “estabilizadores”.
Anestésicos Locais. Entre os estabilizadores mais importantes estão as
muitassubstâncias usadas clinicamente como anestésicos locais, incluindo a
procaína e a tetracaína. A maioria dessas substâncias atua diretamente sobre as comportas de ativação dos canais de sódio, dificultando, de forma muito
acentuada, a abertura dessas comportas, e, desse modo, reduzindo a
excitabilidade da membrana. Quando a excitabilidade tiver diminuído, de modo
que a proporção entre a intensidade do potencial de ação e o limiar da Schafer DP, Rasband MN: Glial regulation of the axonal membrane at nodes of Ranvier.
excitabilidade (conhecida como o “fator de segurança”) fique reduzida para menos
de 1,0, os impulsos nervosos deixam de passar pelos nervos anestesiados.
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