Tratado de Fisiologia Médica

John E. Hall · Capítulo 233 de 351

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Tratado de Fisiologia Médica

Tipos de Dor e suas Qualidades — Dor Rápida e Dor Lenta

Essa situação resultará em perda e descamação total da pele nas áreas de

pressão.

 

TIPOS DE DOR E SUAS QUALIDADES — DOR RÁPIDA E

DOR LENTA

 

A dor é classificada em dois tipos principais: dor rápida e dor lenta. A dor

rápida é sentida, dentro de 0,1 segundo, após a aplicação de estímulo

doloroso, enquanto a dor lenta começa somente após 1 segundo ou mais,

aumentando lentamente durante vários segundos e, algumas vezes, durante

minutos. Ao longo deste Capítulo, veremos que as vias de condução para

esses dois tipos de dor são diferentes e que cada uma delas tem qualidades

específicas.

A dor rápida também é descrita por meio de vários nomes alternativos,

como dor pontual, dor em agulhada, dor aguda e dor elétrica. Esse tipo de

dor é sentido quando a agulha é introduzida na pele, quando a pele é cortada

por faca, ou quando a pele é agudamente queimada. Ela também é sentida

quando a pele é submetida a choque elétrico. A dor pontual rápida não é

sentida nos tecidos mais profundos do corpo.

A dor lenta também tem vários nomes, como dor em queimação, dor

persistente, dor pulsátil, dor nauseante e dor crônica. Esse tipo de dor

geralmente está associado à destruição tecidual. A dor lenta pode levar ao

sofrimento prolongado e quase insuportável e pode ocorrer na pele e em

quase todos os órgãos ou tecidos profundos.

 

RECEPTORES PARA A DOR E SUA ESTIMULAÇÃO

 

Os Receptores para Dor São Terminações Nervosas Livres. Os

receptores para dor na pele e em outros tecidos são terminações nervosas livres. Eles existem dispersos nas camadas superficiais da pele, bem como

em certos tecidos internos, como o periósteo, as paredes das artérias, as

superfícies articulares e a foice e o tentório da abóbada craniana. A maioria

dos outros tecidos profundos está esparsamente suprida com terminações

nervosas para a dor; porém, lesões teciduais extensas podem se somar e

causar dor lenta e crônica na maioria dessas áreas.

 

Três Tipos de Estímulos Excitam os Receptores para Dor —

Mecânicos, Térmicos e Químicos. A dor pode ser desencadeada por

diversos tipos de estímulos que são classificados como estímulos dolorosos

mecânicos, térmicos e químicos. Em geral, a dor rápida é desencadeada por

tipos de estímulos mecânicos e térmicos, enquanto a dor crônica pode ser

desencadeada pelos três tipos de estímulo.

Algumas das substâncias que excitam o tipo químico de dor são:

bradicinina, serotonina, histamina, íons potássio, ácidos, acetilcolina e

enzimas proteolíticas. Além disso, as prostaglandinas e a substância P

aumentam a sensibilidade das terminações nervosas, mas não excitam

diretamente essas terminações. As substâncias químicas são, de modo

especial, importantes para a estimulação do tipo de dor lenta e persistente

que ocorre após lesão tecidual.

 

Natureza não Adaptativa dos Receptores para Dor. Ao contrário

da maioria dos outros receptores do corpo, os receptores para dor se

adaptam muito pouco e algumas vezes não se adaptam. De fato, em certas

circunstâncias, a excitação das fibras dolorosas fica progressivamente

maior, à medida que o estímulo persiste, em especial para a dor lenta

persistente nauseante. Esse aumento da sensibilidade dos receptores para

dor é chamado hiperalgesia. Pode-se compreender prontamente a

importância dessa ausência de adaptação dos receptores para dor, pois isso possibilita que a pessoa fique ciente da presença de estímulo lesivo,

enquanto a dor persistir.

 

INTENSIDADE DO DANO TECIDUAL COMO ESTÍMULO

PARA A DOR

A pessoa comum começa a sentir dor quando a pele é aquecida acima de

45°C, como demonstrado na Figura 49-1. Essa é também a temperatura na

qual os tecidos começam a ser lesados pelo calor; na verdade, os tecidos são

enfim destruídos se a temperatura permanecer acima desse nível

indefinidamente. Portanto, é evidente que a dor secundária ao calor está

intimamente relacionada à intensidade em que ocorre o dano aos tecidos e

não ao dano total que já ocorreu.

A intensidade da dor também está intimamente relacionada à intensidade

do dano tecidual, por causas diferentes do calor, como infecção bacteriana,

isquemia dos tecidos, contusão dos tecidos e outras.

Figura 49-1. Curva de distribuição obtida de grande número de pessoas demonstrando a temperatura cutânea mínima que desencadeia dor. (Modificada de Hardy JD: Nature of pain. J Clin Epidemiol 4:22, 1956.)

 

Importância Especial dos Estímulos Dolorosos Químicos

Durante o Dano Tecidual. Extratos dos tecidos lesionados podem

causar dor intensa, quando são injetados sob a pele normal. A maior parte

das substâncias químicas, descritas anteriormente, que excitam os

receptores químicos para dor, pode ser encontrada nesses extratos. A

bradicinina é uma substância que parece induzir a dor de modo mais

acentuado do que as outras substâncias. Os pesquisadores sugeriram que a

bradicinina poderia ser a principal responsável pela indução da dor após

dano tecidual. Além disso, a intensidade da dor se relaciona ao aumento

local da concentração do íon potássio ou à elevação da concentração de

enzimas proteolíticas, que atacam diretamente as terminações nervosas e estimulam a dor por fazer as membranas nervosas mais permeáveis aos

íons.

 

Isquemia Tecidual como Causa da Dor. Quando o fluxo sanguíneo

para um tecido é bloqueado, o tecido em geral fica muito dolorido em

poucos minutos. Quanto maior for a intensidade do metabolismo desse

tecido, mais rapidamente a dor aparece. Por exemplo, se o manguito de um

esfigmomanômetro for colocado ao redor do braço e for inflado até a

interrupção do fluxo sanguíneo, o exercício dos músculos do antebraço

algumas vezes pode causar dor em 15 a 20 segundos. Na ausência de

exercício muscular, a dor pode não aparecer antes de 3 a 4 minutos, mesmo

que o fluxo sanguíneo para o músculo permaneça zero.

Uma das causas sugeridas para a dor, durante a isquemia, é o acúmulo de

grande quantidade de ácido lático nos tecidos, formada em consequência do

metabolismo anaeróbico (isto é, metabolismo sem oxigênio). Também é

provável que outros agentes químicos, como a bradicinina e as enzimas

proteolíticas, sejam formados nos tecidos por causa do dano celular, e que a

presença desses agentes, com o ácido lático, estimule as terminações

nervosas para a dor.

 

Espasmo Muscular como Causa da Dor. O espasmo muscular

também é causa comum de dor, sendo a base de muitas síndromes clínicas

dolorosas. Essa dor provavelmente resulta, em parte, do efeito direto do

espasmo muscular na estimulação de receptores para dor meca nossensíveis,

mas também pode resultar de efeito indireto do espasmo muscular

comprimindo vasos sanguíneos e levando à isquemia. Além disso, o

espasmo aumenta a intensidade do metabolismo do tecido muscular,

tornando a isquemia relativa ainda maior e criando condições ideais para a

liberação de substâncias químicas indutoras da dor.