Tratado de Fisiologia Médica
Sistema Rim‑Líquidos Corporais para o Controle da Pressão Arterial
eliminação de líquido. Para a sobrevida a longo prazo, a ingestão e a
eliminação de líquido devem ser precisamente balanceadas; essa tarefa é
realizada por múltiplos controles nervosos e hormonais e por sistemas de
controle local nos rins, que regulam sua excreção de sal e água. Neste
Capítulo discutiremos esses sistemas renais — de controle do líquido
corporal, que têm papel crucial na regulação a longo prazo da pressão
sanguínea.
SISTEMA RIM-LÍQUIDOS CORPORAIS PARA O
CONTROLE DA PRESSÃO ARTERIAL
O sistema rim-líquidos corporais para o controle da pressão arterial atua
lenta, mas poderosamente, como se segue: se o volume sanguíneo aumenta
e a capacitância vascular não é alterada, a pressão arterial se elevará
também. Essa elevação faz com que os rins excretem o volume excessivo,
normalizando, assim, a pressão.
Na história filogenética do desenvolvimento animal, esse sistema rim-
líquidos corporais de controle da pressão é muito antigo. Ele está totalmente
operante em um dos vertebrados mais inferiores, a lampreia. Esse animal
tem baixa pressão arterial, de apenas 8 a 14 mmHg, que aumenta quase em
proporção direta ao seu volume sanguíneo. A lampreia ingere
continuamente água salgada que é incorporada a seu sangue, aumentando o
volume sanguíneo e a pressão arterial. Contudo, quando a pressão aumenta
em demasia, o rim simplesmente excreta o volume excessivo pela urina,
reduzindo a pressão. Sob baixas pressões, o rim excreta menos líquido do
que é ingerido. Assim, como a lampreia continua a ingerir água, o volume
de líquido extracelular, volume sanguíneo e pressão são de novo‐
aumentados.
Esse mecanismo primitivo de controle da pressão sobreviveu através das
épocas quase como funciona na lampreia. No ser humano, o débito urinário
de água e de sal é tão sensível, se não mais, às alterações da pressão quanto
na lampreia. De fato, a elevação da pressão arterial no ser humano por
apenas alguns mmHg pode duplicar o débito renal de água, um fenômeno
chamado diurese de pressão, bem como duplicar a eliminação de sal, o que
é chamado natriurese de pressão.
No ser humano, o sistema rim-líquidos corporais, como na lampreia, é
mecanismo fundamental para o controle a longo prazo da pressão arterial.
Entretanto, no decurso dos estágios da evolução, esse sistema recebeu
muitos refinamentos, e o controle se tornou muito mais preciso. Um
refinamento especialmente importante, como discutiremos adiante, foi a
adição do mecanismo da renina-angiotensina.
Quantificação da Diurese de Pressão como Base para o
Controle da Pressão Arterial
A Figura 19-1 mostra o efeito médio aproximado de diferentes níveis de
pressão arterial sobre o volume do débito urinário no rim isolado,
demonstrando seu aumento acentuado quando a pressão se eleva. Esse
aumento é o fenômeno da diurese de pressão. A curva nessa figura é
referida como curva do débito urinário renal ou curva da função renal. No
ser humano, sob pressão arterial de 50 mmHg, o débito urinário é
praticamente nulo. Sob 100 mmHg, seu valor é normal, e sob 200 mmHg é
cerca de seis a oito vezes maior que o normal. Além disso, o aumento da
pressão arterial não eleva apenas o débito urinário, mas provoca também
elevação aproximadamente igual da eliminação de sódio, que é o fenômeno
da natriurese de pressão.
Figura 19-1. Curva típica do débito urinário renal, medido em rim isolado perfundido, mostrando a diurese de pressão quando a pressão arterial se eleva acima do normal.
Experimento Demonstrando o Sistema Rim-Líquidos Corporais
para a Regulação da Pressão Arterial. A Figura 19-2 mostra os
resultados de experimento em cães que tiveram todos os mecanismos
reflexos de controle da pressão bloqueados. Então, a pressão arterial foi
subitamente elevada pela infusão intravenosa de 400 mL de sangue. Note a
elevação rápida do débito cardíaco para cerca de duas vezes o normal e o
aumento da pressão arterial média para 205 mmHg, 115 mmHg acima do
nível de repouso. Na curva central, é mostrado o efeito dessa elevação da
pressão sobre o débito urinário, que aumentou por 12 vezes. Junto com essa
enorme perda de líquido na urina, o débito cardíaco e a pressão arterial
retornaram ao normal na hora seguinte. Assim, é possível notar a extrema
capacidade dos rins de eliminar o excesso de líquido corporal em resposta à
alta pressão arterial, e por esse modo normalizá-la.
Figura 19-2. Aumentos do débito cardíaco, do débito urinário e da pressão arterial, causados pelo aumento no volume sanguíneo em cães cujos mecanismos nervosos de controle da pressão foram bloqueados. Esta figura mostra o retorno da pressão arterial ao normal após cerca de 1 hora de perda de líquido pela urina. (Cortesia do Dr. William Dobbs.)
O Mecanismo Rim-Líquido Corporal Proporciona um Ganho de
Feedback Quase Infinito para o Controle da Pressão Arterial a
Longo Prazo. A Figura 19-3 mostra o método gráfico que pode ser usado
para analisar o controle da pressão arterial pelo sistema rim-líquidos
corporais. Essa análise se baseia em duas curvas distintas que se cruzam:
(1) a curva do débito renal de água e sal, em resposta à elevação da pressão
arterial, que é a mesma curva de débito renal mostrada na Figura 19-1; e (2)
a linha que representa a ingestão total de água e de sal.
Durante período prolongado, o débito de água e de sal deve se igualar à
ingestão. Além disso, o único ponto no gráfico da Figura 19-3, no qual o
débito se iguala à ingestão, é onde as duas curvas se cruzam, referido como
ponto de equilíbrio. Agora, vejamos o que acontece se a pressão arterial
fica acima ou abaixo do ponto de equilíbrio.
Inicialmente, admita-se que a pressão arterial se eleve para 150 mmHg.
Nesse nível, o débito renal de água e sal é cerca de três vezes maior que a
ingestão. Portanto, o corpo perde líquido, e o volume sanguíneo e a pressão
arterial diminuem. Além disso, esse “equilíbrio negativo” de líquido não
cessará até que a pressão caia até atingir precisamente o ponto de
equilíbrio. De fato, mesmo quando a pressão arterial é apenas 1 mmHg
maior que a do ponto de equilíbrio, ainda ocorre perda de água e de sal
pouco maior que a ingestão, de modo que a pressão continua a cair por mais
1 mmHg, até que, por fim, retorne ao valor preciso do ponto de equilíbrio.
Se a pressão arterial cair abaixo do ponto de equilíbrio, a ingestão de água
e de sal passa a ser maior que o débito. Portanto, o volume do líquido
corporal aumenta junto com o volume sanguíneo, e a pressão arterial se
eleva de novo até atingir o ponto de equilíbrio. Esse retorno da pressão
arterial sempre ao ponto de equilíbrio é o princípio da resposta por
feedback quase infinito, para a regulação da pressão arterial pelo
mecanismo rim-líquidos cor porais.
Dois Determinantes-Chave da Pressão Arterial a Longo Prazo.
Na Figura 19-3 é possível ver que dois fatores básicos determinam o nível
da pressão arterial a longo prazo.
Desde que as duas curvas representando (1) o débito renal de sal e de
água; e (2) a ingestão de sal e de água permaneçam de modo preciso como
estão na Figura 19-3, a pressão arterial média, por fim, se ajustará em 100 mmHg, que é o nível da pressão arterial representado pelo ponto de
equilíbrio nessa figura. Além disso, existem apenas dois modos pelos quais
a pressão desse ponto de equilíbrio pode variar do nível de 100 mmHg. Um
deles é pelo deslocamento do nível de pressão da curva do débito renal de
sal e água, e o outro é a modificação do nível da curva de ingestão de sal e
de água. Assim, simplificadamente, os dois determinantes principais do
nível da pressão arterial a longo prazo são:
1. O grau de desvio da pressão na curva do débito renal de água e de sal.
2. O nível de ingestão de água e de sal.
O funcionamento desses dois determinantes de controle da pressão arterial
é mostrado na Figura 19-4. Na Figura 19-4A, alguma anormalidade renal
causou o deslocamento de 50 mmHg da curva de débito renal na direção
das altas pressões (para a direita). Note que o ponto de equilíbrio também se
deslocou para 50 mmHg acima do normal. Consequentemente, pode-se
afirmar que, se a curva de débito renal se deslocar para novo nível de
pressão, a pressão arterial também seguirá para esse novo nível em poucos
dias.
A Figura 19-4B mostra como a alteração do nível de ingestão de sal e de
água também pode influenciar a pressão arterial. Nesse caso, o nível de
ingestão aumentou quatro vezes, e o ponto de equilíbrio foi deslocado para
o nível de pressão de 160 mmHg, 60 mmHg acima do valor normal. Ao
contrário do caso anterior, a diminuição do nível de ingestão reduziria a
pressão arterial.
Assim, é impossível alterar a pressão arterial média a longo prazo sem
alterar um ou os dois determinantes básicos da pressão arterial a longo
prazo — (1) o nível de ingestão de sal e de água; ou (2) o grau do
deslocamento da curva de função renal ao longo do eixo de pressão.
Entretanto, se qualquer um desses determinantes for alterado, percebe-se que a pressão arterial é regulada em novo nível, onde as duas novas curvas
se cruzam.
No entanto, na maioria das pessoas, a curva da função renal é muito mais
pronunciada que o ilustrado na Figura 19-4 e as alterações na ingestão de
sal apresentam um efeito moderado na pressão arterial, tal como será
discutido na seção seguinte.
Figura 19-3. Análise da regulação da pressão arterial pela equalização da “curva de débito renal” com a “curva de ingestão de sal e de água”. O ponto de equilíbrio representa o nível no qual a pressão arterial será regulada. (A pequena quantidade de sal e água perdida por vias não renais será ignorada nesta e em outras figuras semelhantes neste Capítulo.)
Figura 19-4. Duas maneiras pelas quais a pressão arterial pode ser elevada. A, Pelo deslocamento da curva de débito renal para a direita, em direção a novo nível de pressão ou B, pelo aumento da ingestão de sal e água.
A Curva de Débito Renal Crônico É Muito Mais Íngreme do que
a Curva Aguda. Característica importante da natriurese da pressão (e
diurese da pressão) é que variações crônicas da pressão arterial, com
duração de dias ou meses, exercem efeito muito maior no débito renal de
sal e água do que o observado durante variações agudas da pressão (Fig. 19-
5). Assim, quando os rins estão funcionando normalmente, a curva do
débito renal crônico é bem mais íngreme do que a curva aguda.
Os efeitos potentes do aumento crônico da pressão arterial no débito
urinário ocorrem porque a pressão aumentada tem efeitos, não apenas
hemodinâmicos diretos na excreção renal como também efeitos indiretos,
mediados por alterações nervosas e hormonais que acontecem quando a
pressão sanguínea é aumentada. Por exemplo, a pressão arterial aumentada
diminui a atividade do sistema nervoso simpático e de vários hormônios,
tais como angiotensina II e aldosterona, que tendem a reduzir a excreção
renal de sal e de água. A atividade reduzida desses sistemas
antinatriuréticos, portanto, amplifica a eficácia da natriurese e da diurese de
pressão no aumento da excreção de sal e água, durante aumentos crônicos
na pressão arterial (veja Capítulos 28 e 30 para discussão mais
aprofundada).
Inversamente, quando a pressão arterial é reduzida, o sistema nervoso
simpático é ativado, e a formação de hormônios antinatriuréticos é
aumentada, somando-se ao efeito direto na redução da pressão de diminuir
o débito renal de água e sal. Essa combinação de efeitos diretos da pressão
nos rins e efeitos indiretos da pressão no sistema nervoso simpático, bem
como em vários sistemas hormonais, tornam a natriurese e a diurese da
pressão extremamente potentes no controle de longa duração da pressão
arterial e do volume dos líquidos corporais.
A importância da influência nervosa e hormonal na natriurese da pressão é
especialmente evidente durante alterações crônicas da ingestão de sódio. Se
os rins e os mecanismos nervosos e hormonais estão funcionando
normalmente, aumentos crônicos da ingestão de sal e de água, para valores
até seis vezes maiores do que o normal, costumam estar associados apenas
com pequenos aumentos da pressão arterial. Note que o equilíbrio da
pressão sanguínea no ponto B da curva é aproximadamente o mesmo do
ponto A, o ponto de equilíbrio da ingestão normal de sal. Inversamente, a
diminuição da ingestão de sódio e água para valores abaixo de um sexto do normal na maioria das vezes tem efeito muito baixo na pressão arterial.
Assim, dizem que muitas pessoas são insensíveis ao sal, porque grandes
variações na ingestão de sal não alteram a pressão sanguínea por mais do
que alguns mmHg.
Indivíduos com danos renais ou com secreção excessiva de hormônios
antinatriuréticos, tais como angiotensina II ou aldosterona, no entanto,
podem ser sensíveis ao sal com curva de débito renal atenuada similar à
curva aguda mostrada na Figura 19-5. Nesses casos, mesmo aumentos
moderados na ingestão de sal podem causar elevação significativa da
pressão arterial.
Alguns dos fatores que podem fazer com que a pressão arterial seja
sensível ao sal incluem perda de néfrons funcionais devido à lesão renal ou
formação excessiva de hormônios antinatriuréticos, tais como angiotensina
II ou aldosterona. Por exemplo, a redução cirúrgica da massa renal ou lesão
do rim, devido à hipertensão, ao diabetes e às diversas doenças renais, causa
maior sensibilidade às alterações da ingestão de sal. Nesses casos, aumentos
maiores do que o normal na pressão arterial são necessários para elevar o
débito renal, o suficiente, para manter o balanço entre ingestão e eliminação
de sal e água.
Existem evidências de que a alta ingestão de sal a longo prazo, durando
por muitos anos, pode de fato lesar os rins e, eventualmente, tornar a
pressão sanguínea mais sensível ao sal. Iremos discutir a sensibilidade da
pressão sanguínea ao sal em pacientes com hipertensão mais adiante, neste
Capítulo.
Figura 19-5. Curvas de débito renal agudo e crônico. Sob condições estáveis (steady-state conditions), a eliminação de sal e água é igual à ingestão de sal e água. A e B, Representam os pontos de equilíbrio para regulação de longo prazo da pressão arterial, quando a ingestão de sal é normal ou seis vezes maior do que a normal, respectivamente. Por causa da inclinação da curva de débito renal crônico, o aumento da ingestão de sal ocasiona somente pequenas mudanças na pressão arterial. Em pessoas com a função renal comprometida, a inclinação da curva de débito renal pode diminuir similarmente à curva aguda, resultando em aumento da sensibilidade da pressão arterial a mudanças na ingestão de sal.
Incapacidade da Resistência Periférica Total Aumentada
de Elevar a Pressão Arterial a Longo Prazo se a Ingestão
de Líquido e a Função Renal não se Alterarem
Este é o momento para que o leitor perceba se realmente entendeu o
mecanismo rim-líquidos corporais para o controle da pressão arterial.
Relembrando a equação básica que afirma que — a pressão arterial é igual
ao débito cardíaco multiplicado pela resistência periférica total —, fica
evidente que o aumento na resistência periférica total deveria elevar a
pressão arterial. De fato, quando a resistência periférica total se eleva de
forma aguda, a pressão arterial aumenta de imediato. Entretanto, se os rins
continuarem a funcionar normalmente, a elevação aguda da pressão arterial, em geral, não é mantida. Ao contrário, retorna ao normal em cerca de um
dia. Por quê?
A razão para esse fenômeno é que o aumento da resistência vascular nos
vasos sanguíneos, em qualquer parte do corpo exceto nos rins, não altera o
ponto de equilíbrio do controle da pressão sanguínea, que é ditado pelos
rins (Figs. 19-3 e 19-4). Ao contrário, os rins começam de imediato a
responder à alta pressão arterial, provocando diurese e natriurese de
pressão. Após algumas horas, grande quantidade de sal e de água é
eliminada pelo corpo, e esse processo se mantém até que a pressão arterial
retorne ao nível da pressão em equilíbrio. Nesse ponto, a pressão arterial é
normalizada e o volume de líquido extracelular e de sangue diminui para
níveis abaixo do normal.
Como prova do princípio de que alterações da resistência periférica total
não afetam o nível da pressão arterial a longo prazo, se a função renal não
for alterada, estude cuidadosamente a Figura 19-6. Essa figura mostra os
valores aproximados do débito cardíaco e da pressão arterial em diferentes
condições clínicas, nas quais a resistência periférica total a longo prazo
está muito menor ou muito maior que a normal, mas a excreção renal de sal
e de água está normal. Note que em todas essas diferentes condições
clínicas a pressão arterial está normal.
É necessária atenção neste momento em nossa discussão. Muitas vezes,
quando a resistência periférica total aumenta, ela também aumenta a
resistência vascular intrarrenal ao mesmo tempo, o que altera a função dos
rins, podendo causar hipertensão por deslocar a curva de função renal para
nível mais alto de pressão, do modo mostrado na Figura 19-4A. Veremos
um exemplo desse mecanismo mais adiante, neste Capítulo, quando
discutirmos a hipertensão ocasionada por mecanismos vasoconstritores.
Entretanto, o aumento da resistência renal é o fator causal, e não a
resistência periférica total elevada — distinção muito importante.
Figura 19-6. Relações da resistência periférica total com os níveis da pressão arterial a longo prazo e do débito cardíaco em diferentes anormalidades clínicas. Nessas condições, os rins estavam funcionando normalmente. Note que a alteração da resistência periférica total em todo o corpo provocou diferentes mudanças iguais e opostas no débito cardíaco, mas em todas as situações não afetou a pressão arterial. AV, arteriovenoso. (Modificada de Guyton AC: Arterial Pressure and Hypertension. Philadelphia: WB Saunders, 1980.)
O Aumento do Volume de Líquido Pode Elevar a Pressão
Arterial por Aumentar o Débito Cardíaco ou a
Resistência Periférica Total
O mecanismo geral pelo qual o aumento do volume do líquido extracelular
pode elevar a pressão arterial, se a capacidade vascular não for aumentada
ao mesmo tempo, é mostrado na Figura 19-7. Os eventos sequenciais são:
(1) elevação do volume do líquido extracelular; (2) elevação do volume
sanguíneo; (3) aumento da pressão média de enchimento da circulação; que
(4) eleva o retorno venoso para o coração; (5) aumentando o débito cardíaco; e que (6) aumenta a pressão arterial. A elevação da pressão
arterial, por sua vez, aumenta a excreção real de sal e água e pode fazer
voltar para quase normal o volume do líquido extracelular, se a função renal
estiver normal.
Note, em especial nesse esquema, os dois modos pelos quais o aumento
no débito cardíaco pode elevar a pressão arterial. Um deles é o efeito direto
do débito cardíaco sobre a pressão, e o outro é efeito indireto que eleva a
resistência vascular periférica total, por meio da autorregulação do fluxo
sanguíneo. O segundo efeito será explicado a seguir.
Relembrando o Capítulo 17, notamos que, quando sangue em excesso flui
pelo tecido, a vasculatura tecidual local se contrai, normalizando o fluxo
sanguíneo. Esse fenômeno é referido como “autorregulação”, significando
simplesmente a regulação do fluxo sanguíneo pelo próprio tecido. Quando o
aumento do volume sanguíneo eleva o débito cardíaco, o fluxo sanguíneo se
eleva em todos os tecidos do corpo; assim, esse mecanismo de
autorregulação contrai os vasos sanguíneos em todo o corpo, o que, por sua
vez, eleva a resistência periférica total.
Por fim, como a pressão arterial é igual ao débito cardía co multiplicado
pela resistência periférica total, o aumento secundário desta, resultante do
mecanismo de autorregulação, contribui, de forma importante, para a
elevação da pressão arterial. Por exemplo, aumento de apenas 5% a 10% do
débito cardíaco pode elevar a pressão arterial do valor médio normal de 100
mmHg para até 150 mmHg. De fato, o aumento discreto do débito cardíaco
não é com muita frequência mensurável.
Figura 19-7. Estágios sequenciais pelos quais o aumento do volume do líquido extracelular eleva a pressão arterial. Note, especialmente, que o aumento do débito cardíaco produz tanto um efeito direto de elevação da pressão arterial, como efeito indireto pelo aumento primeiro da resistência periférica total.
A Importância do Sal (NaCl) no Esquema Rim-Líquidos
Corporais para o Controle da Pressão Arterial
Embora a discussão até este ponto tenha enfatizado a importância do
volume de líquido na regulação da pressão arterial, estudos experimentais mostraram que o aumento da ingestão de sal tem probabilidade muito maior
de elevar a pressão arterial que a elevação da ingestão de água. O motivo
desse achado é que a água pura é normalmente excretada pelos rins, com
quase a mesma rapidez com que é ingerida, o que não ocorre com o sal. O
acúmulo de sal no corpo também eleva, de modo indireto, o volume de
líquido extracelular por dois motivos básicos:
1. Quando ocorre excesso de sal no líquido extracelular, a osmolalidade do
líquido aumenta, o que estimula o centro da sede no encéfalo, fazendo
com que a pessoa beba quantidade maior de água para normalizar a
concentração extracelular de sal. Isso eleva o volume do líquido
extracelular.
2. O aumento da osmolalidade, causado pelo sal em excesso no líquido
extracelular, estimula também o mecanismo secretor do hipotálamo-
hipófise posterior, que passa a liberar maior quantidade de hormônio
antidiurético. (Isso é discutido no Cap. 29.) Esse hormônio faz com que
os rins reabsorvam quantidade muito aumentada de água pelos túbulos
renais, reduzindo o volume excretado de urina e elevando o volume do
líquido extracelular.
Assim, por essas razões importantes, a quantidade de sal acumulada no
corpo é o principal determinante do volume do líquido extracelular. Como
apenas pequenos aumentos do volume do líquido extracelular e do sangue
podem, com frequência, elevar muito a pressão arterial, se a capacidade
vascular não aumentar ao mesmo tempo, o acúmulo extra de pequena
quantidade de sal no corpo pode acarretar elevação considerável da pressão
arterial. Entretanto, isso somente é verdade quando a acumulação de
excesso de sal leva a um aumento no volume sanguíneo e se, ao mesmo
tempo, não eleva a capacidade vascular.
Como discutido antes, o aumento da ingestão de sal, na ausência da
função renal comprometida ou formação excessiva de hormônios antinatriuréticos, em geral não eleva muito a pressão arterial, pois os rins
rapidamente eliminam o excesso de sal e o volume sanguíneo dificilmente é
alterado.
A Hipertensão Crônica (Pressão Sanguínea Alta) é
Causada pelo Déficit da Função Renal
Quando se afirma que a pessoa tem hipertensão crônica (ou “pressão alta”),
isso significa que sua pressão arterial média é maior que o limite superior
da medida aceita como normal. A pressão arterial média acima de 110
mmHg (o valor normal é cerca de 90 mmHg) é considerada hipertensiva.
(Esse nível de pressão média ocorre quando a pressão sanguínea diastólica
é maior que aproximadamente 90 mmHg e a pressão sistólica é maior que
135 mmHg.) Na hipertensão grave, a pressão arterial média pode se elevar
para 150 a 170 mmHg, com pressão diastólica de até 130 mmHg e pressão
sistólica atingindo, ocasionalmente, até 250 mmHg.
Mesmo a elevação moderada da pressão arterial causa redução da
expectativa de vida. Sob pressões extremamente altas, isto é, pressões
arteriais médias 50% ou mais acima do normal, a expectativa de vida é de
poucos anos, a menos que a pessoa seja tratada adequadamente. Os efeitos
letais da hipertensão ocorrem por três modos principais:
1. O trabalho cardíaco excessivo leva à insuficiência cardíaca e à doença
coronariana precoces, frequentemente causando a morte por ataque
cardíaco.
2. A alta pressão frequentemente lesa vaso sanguíneo cerebral importante,
ocasionando a morte de grandes partes do cérebro, é um infarto cerebral.
Clinicamente, ele é chamado “acidente vascular cerebral” (AVC).
Conforme a parte afetada do cérebro, o AVC pode ser fatal ou provocar
paralisia, demência, cegueira ou muitos outros distúrbios cerebrais
graves.
3. A pressão alta quase sempre lesa os rins, produzindo muitas áreas de
destruição renal e, por fim, insuficiên cia renal, uremia e morte.
O estudo de tipo de hipertensão, chamado “hipertensão por sobrecarga de
volume”, foi crucial para o entendimento do papel do mecanismo rim-
líquidos corporais, para a regulação da pressão arterial. A hipertensão por
sobrecarga de volume é causada pelo acúmulo de líquido extracelular no
corpo, e alguns exemplos são relatados a seguir.
Hipertensão Experimental por Sobrecarga de Volume
Ocasionada pela Redução da Massa Renal com um Aumento
Simultâneo na Ingestão de Sal. A Figura 19-8 mostra experimento
típico que apresenta hipertensão por sobrecarga de volume em grupo de
cães com remoção de 70% de sua massa renal. No primeiro círculo branco
da curva, os dois polos de um dos rins foram removidos, já no segundo
círculo branco, todo o rim oposto foi removido, deixando os animais com
apenas 30% de massa renal normal. Note que a remoção dessa massa renal
elevou a pressão arterial por apenas 6 mmHg em média. Então, os cães
receberam solução salina, em vez de água para beber. Como a solução
salina não satisfaz a sede, os cães ingeriram volume duas a quatro vezes
maior que o normal, e após alguns dias a pressão arterial média aumentou
para cerca de 40 mmHg acima do normal. Após 2 semanas, os cães
receberam água normal, em vez da solução salina; e a pressão se
normalizou dentro de 2 dias. Por fim, ao final do experimento, os cães
receberam novamente a solução salina e, dessa vez, a pressão aumentou
com rapidez muito maior para um nível elevado, o que revela, de novo, a
hipertensão por sobrecarga de volume.
Se o leitor considerar outra vez os determinantes básicos da regulação da
pressão arterial a longo prazo, torna-se aparente por que ocorreu
hipertensão no experimento de sobrecarga de volume da ilustrado na Figura
19-8. Inicialmente, a redução da massa renal para 30% da normal diminuiu muito a capacidade dos rins de excretar sal e água. Assim, essas substâncias
se acumularam no corpo e em poucos dias elevaram a pressão arterial até o
nível suficiente para excretar o excesso ingerido de sal e água.
Figura 19-8. Efeito médio sobre a pressão arterial da ingestão de solução salina a 0,9%, em vez de água, em quatro cães com 70% de seu tecido renal removido. (Modificada de Langston JB, Guyton AC, Douglas BH, et al: Effect of changes in salt intake on arterial pressure and renal function in partially nephrectomized dogs. Circ Res 12:508, 1963. Com a permissão da American Heart Association, Inc.)
Alterações Sequenciais da Função Circulatória durante o
Desenvolvimento de Hipertensão por Sobrecarga de Volume. É
especialmente instrutivo estudar as alterações sequenciais da função
circulatória durante o desenvolvimento progressivo da hipertensão por
sobrecarga de volume. A Figura 19-9 mostra essas alterações.
Aproximadamente, uma semana antes do ponto “0”, a massa renal havia
sido reduzida para apenas 30% do normal. Então, nesse ponto, a ingestão de
sal e água foi aumentada para cerca de seis vezes o normal e mantida subsequentemente nesse nível. O efeito agudo foi o aumento do volume de
líquido extracelular, do volume sanguíneo e do débito cardíaco para 20% a
40% acima do normal. Ao mesmo tempo, a pressão arterial começou a se
elevar, mas inicialmente não tanto quanto o volume de líquido e o débito
cardíaco. A razão para essa elevação mais lenta da pressão arterial pode ser
entendida pela análise da curva da resistência periférica total, que mostra
diminuição inicial. Essa redução foi causada pelo mecanismo barorreceptor,
discutido no Capítulo 18, que transientemente atenuou a elevação da
pressão. Entretanto, após 2 a 4 dias, os barorreceptores se adaptaram e não
foram mais capazes de impedir o aumento da pressão. Nesse momento, a
pressão arterial havia se elevado, ao máximo, devido ao aumento do débito
cardíaco, embora a resistência periférica total ainda estivesse em nível
quase normal.
Após essas alterações agudas iniciais nas variáveis circulatórias,
alterações secundárias mais prolongadas ocorreram nas semanas seguintes.
Entre elas, foi de modo especialmente importante o aumento progressivo da
resistência periférica total, ao mesmo tempo em que o débito cardíaco se
reduziu praticamente ao normal, em grande parte, como resultado do
mecanismo de autorregulação do fluxo sanguíneo a longo prazo, discutido
em detalhes no Capítulo 17 e no início deste Capítulo. Ou seja, depois que a
grande elevação do débito cardíaco produziu a hipertensão, o fluxo
sanguíneo excessivo pelos tecidos provocou a constrição progressiva das
arteríolas locais, retornando os fluxos sanguíneos locais dos tecidos do
corpo e também o débito cardíaco aos valores normais, enquanto
provocava, simultaneamente, a elevação secundária da resistência
periférica total.
Note que os volumes do líquido extracelular e do sangue retornaram
praticamente ao normal junto com a redução do débito cardíaco. Esse
desfecho resultou de dois fatores: primeiro, porque o aumento na resistência arteriolar reduziu a pressão capilar, permitindo que o líquido nos espaços
teciduais fosse reabsorvido para o sangue. Segundo, porque a pressão
arterial elevada fez com que os rins excretassem o excesso de líquido que se
havia acumulado de início no corpo.
Várias semanas após o início da sobrecarga de volume. Encontramos os
seguintes efeitos:
1. Hipertensão.
2. Aumento acentuado da resistência periférica total.
3. Normalização quase total do volume do líquido extracelular, do volume
sanguíneo e do débito car díaco.
Por conseguinte, pode-se dividir a hipertensão por sobrecarga de volume
em dois estágios sequenciais. O primeiro estágio resulta do aumento do
volume de líquido, causando elevação do débito cardíaco. Essa elevação
medeia a hipertensão. O segundo é caracterizado pela alta pressão arterial e
alta resistência periférica total, com retorno do débito cardíaco para níveis
tão próximos do normal que as técnicas habituais de medida com frequência
não conseguem detectar qualquer elevação de seu valor.
Assim, o aumento da resistência periférica total na hipertensão por
sobrecarga de volume ocorre após o desenvolvimento da hipertensão e,
portanto, é secundário a ela e não a sua causa.
Figura 19-9. Alterações progressivas em variáveis importantes do sistema circulatório durante as primeiras semanas de hipertensão por sobrecarga de volume. Note especialmente o aumento inicial do débito cardíaco como a causa básica da hipertensão. Subsequentemente, o mecanismo de autorregulação retorna o débito cardíaco quase ao normal, enquanto causa ao mesmo tempo aumento secundário da resistência periférica total. (Modificada de Guyton AC: Arterial Pressure and Hypertension. Philadelphia: WB Saunders, 1980.)
Hipertensão por Sobrecarga de Volume em Pacientes
que não Têm Rins, mas que São Mantidos por Rim Artificial
Quando um paciente é mantido sob terapia de substituição renal, é
especialmente importante manter seu volume de líquido corporal no nível
normal mediante a remoção de uma quantidade apropriada de água e sal,
cada vez que o paciente é submetido à diálise. Se essa etapa não for efe tua‐
da e se permite que o volume do líquido extracelular aumente, isso resulta,
de modo quase invariável, em hipertensão, precisamente, da forma
demonstrada na Figura 19-9, isto é, o débito cardíaco de início aumenta,
causando hipertensão. Então, o mecanismo de autorregulação normaliza o
débito cardíaco, enquanto provoca aumento secundário da resistência
periférica total. Assim, ao final, a hipertensão ocasionada parece ser do tipo
de alta resistência periférica, embora a causa inicial seja a acumulação de
um excesso de volume.
Hipertensão Causada por Excesso de Aldosterona
Outro tipo de hipertensão, por sobrecarga de volume, é causado por excesso
de aldosterona no corpo ou ocasionalmente por excesso de outros tipos de
esteroides. Pequeno tumor em uma das glândulas adrenais, por vezes,
secreta grande quantidade de aldosterona, condição referida como
“aldosteronismo primário”. Como discutido nos Capítulos 28 e 30, a
aldosterona aumenta a intensidade da reabsorção de sal e de água pelos
túbulos renais, reduzindo sua eliminação dessas substâncias na urina e
aumentando o volume do sangue e do líquido extracelular.
Consequentemente, a hipertensão se desenvolve. Além disso, se a ingestão
de sal for aumentada ao mesmo tempo, a hipertensão fica ainda mais
intensa. Se a condição persistir por meses ou anos, a pressão arterial
excessiva com muita frequência causa alterações patológicas nos rins,
fazendo-os reter ainda mais sal e água além do que é retido pela ação direta da aldosterona. Assim, a hipertensão é agravada até ao ponto de se tornar