Tratado de Fisiologia Médica

John E. Hall · Capítulo 67 de 351

Páginas do PDF

Tratado de Fisiologia Médica

Distensibilidade Vascular

CaPÍTULO 15

 

Distensibilidade Vascular e

 

Funções dos Sistemas Arterial e

 

Venoso

 

DISTENSIBILIDADE VASCULAR

 

Característica importante do sistema vascular é a de que todos os vasos

sanguíneos são distensíveis. A natureza elástica das artérias permite que

acomodem o débito pulsátil do coração, impedindo os extremos de pressão

das pulsações. Essa capacidade proporciona um fluxo de sangue suave e

contínuo através dos vasos sanguíneos muito pequenos dos tecidos.

As veias são, por larga margem, os vasos mais distensíveis do sistema. Até

mesmo pequenos aumentos da pressão venosa fazem com que as veias

armazenem 0,5 a 1,0 litro de sangue a mais. Por isso, as veias fornecem um

reservatório para o armazenamento de grande quantidade de sangue que pode ser utilizado, quando for necessário, em qualquer outra parte da

circulação.

 

Unidades de Distensibilidade Vascular. A distensibilidade vascular é

normalmente expressa como a fração de aumento do volume para cada

milímetro de mercúrio de elevação da pressão, de acordo com a seguinte

fórmula:

 

Em outras palavras, se 1 mmHg fizer com que o vaso, que antes continha

10 mililitros de sangue, aumente seu volume por 1 mililitro, a

distensibilidade é de 0,1 por mmHg, ou 10% por mmHg.

 

As Veias são Muito Mais Distensíveis do que as Artérias. As

paredes das artérias são mais espessas e muito mais fortes que as das veias.

Consequentemente, as veias, em média, são cerca de oito vezes mais

distensíveis que as artérias, isto é, determinado aumento de pressão provoca

aumento oito vezes maior no volume sanguíneo em uma veia do que em

artéria de diâmetro comparável.

Na circulação pulmonar, as distensibilidades das veias pulmonares são

semelhantes às da circulação sistêmica. Entretanto, as artérias pulmonares

normalmente operam sob pressões que correspondem a um sexto das do

sistema arterial sistêmico, com distensibilidades correspondentes, ou seja,

cerca de seis vezes maiores que as das artérias sistêmicas.

 

Complacência Vascular (ou Capacitância Vascular)

Em estudos hemodinâmicos é usualmente muito mais importan te conhecer

a quantidade total de sangue, que pode ser armazenada em determinada região da circulação para cada mmHg de aumento da pressão, do que

conhecer as distensibi li dades dos vasos individuais. Esse valor é referido

como compla cência ou capacitância do respectivo leito vascular; ou seja,

 

Complacência e distensibilidade são bastante diferentes. Vaso muito

distensível que apresente pequeno volume pode ser muito menos

complacente que o vaso muito menos distensível que apresente grande

volume, porque a complacência é igual à distensibilidade multiplicada pelo

volume.

A complacência de veia sistêmica é cerca de 24 vezes maior que a de sua

artéria correspondente, porque é cerca de oito vezes mais distensível e

apresenta volume aproximadamente três vezes maior (8 × 3 = 24).

 

Curvas de Volume-Pressão das Circulações Arterial e

Venosa

Método conveniente de expressar a relação entre pressão e volume em um

vaso ou em qualquer parte da circulação é pelo uso da chamada curva de

volume-pressão. Na Figura 15-1, as curvas contínuas vermelha e azul

representam, respectivamente, as curvas de volume-pressão dos sistemas

arterial e venoso sistêmicos normais, demonstrando que quando o sistema

arterial do adulto médio (incluindo todas as grandes artérias, pequenas

artérias e arteríolas) está cheio, com 700 mililitros de sangue, a pressão

arterial média é de 100 mmHg, mas quando está com apenas 400 mililitros

de sangue a pressão cai a zero.

Em todo o sistema venoso sistêmico, o volume, em geral, varia de 2.000 a

3.500 mililitros, e é necessária variação de muitas centenas de mililitros

para que a pressão venosa se altere por apenas 3 a 5 mmHg. Essa exigência explica fundamentalmente, em grande parte, por que se pode transfundir até

meio litro de sangue, em poucos minutos, para pessoa saudável sem que

ocorra qualquer grande alteração na função circulatória.

 

Figura 15-1. “Curvas de volume-pressão” das circulações arterial e venosa sistêmicas, mostrando o efeito da estimulação ou da inibição dos nervos simpáticos sobre o sistema circulatório.

 

Efeito da Estimulação ou da Inibição Simpática sobre as

Relações de Volume-Pressão dos Sistemas Arterial e Venoso.

Também na Figura 15-1, são demonstrados os efeitos nas curvas de volume-

pressão quando os nervos simpáticos vasculares são excitados ou inibidos.

É evidente que o aumento do tônus da musculatura lisa vascular, causado

pela estimulação simpática, eleva a pressão das artérias ou das veias em

cada volume, enquanto a inibição simpática diminui a pressão sob cada

volume. O controle vascular dos vasos pelo sistema nervoso simpático é um

meio eficiente de diminuir as dimensões de um segmento da circulação,

consequentemente transferindo, dessa forma, o sangue para outros segmentos. Por exemplo, o aumento do tônus vascular ao longo da

circulação sistêmica pode fazer com que grande volume de sangue seja

desviado para o coração, o que constitui um dos principais métodos que o

organismo utiliza para aumentar rapidamente o bombeamento cardíaco.

O controle simpático da capacitância vascular é também muito importante

durante as hemorragias. O aumento do tônus simpático, especialmente nas

veias, reduz os calibres dos vasos, de tal forma que a função circulatória

permanece quase normal, mesmo com a perda de até 25% do volume

sanguíneo total.

 

Complacência Tardia (Estresse-Relaxamento) dos Vasos

O termo “complacência tardia” ou retardada significa que o vaso submetido

a aumento de volume apresenta, logo de início, grande aumento da pressão,

mas o estiramento tardio progressivo do músculo liso na parede vascular

permite que a pressão retorne ao normal dentro de minutos ou horas. Esse

efeito é mostrado na Figura 15-2. Nessa figura, a pressão é registrada em

pequeno segmento de veia ocluí da em ambas as extremidades. Um volume

adicional de sangue é subitamente injetado até que a pressão suba de 5 para

12 mmHg. Mesmo que qualquer fração do sangue seja removida após a

injeção, a pressão começa a cair de imediato e aproxima-se de 9 mmHg,

após vários minutos. Em outras palavras, o volume de sangue injetado

provoca a distensão elástica imediata da veia, mas suas fibras musculares

lisas começam então pouco a pouco a “engatinhar” (creep) para maior

comprimento, e suas tensões diminuem na mesma proporção de modo

correspondente. Esse efeito é característico de todos os tecidos musculares

lisos, referido como estresse-relaxamento, explicado no Capítulo 8.

A complacência tardia é mecanismo importante, pelo qual a circulação

pode acomodar sangue adicional quando necessário, como após transfusão

excessivamente volumosa. A complacência tardia, no sentido oposto, é um dos modos como a circulação se ajusta, de forma automática, após pe río do