Tratado de Fisiologia Médica
Controle da Excreção Renal de Cálcio e da Concentração de Íon Cálcio Extracelular
As diretrizes alimentares publicadas por várias organizações internacionais
recomendam redução da ingestão de cloreto de sódio para cerca de 65 mmol/dia
(correspondendo a 1,5 g/dia de cloreto de sódio), enquanto a ingestão de potássio
deve aumentar para 120 mmol/dia (4,7 g/dia), para adultos saudáveis.
CONTROLE DA EXCREÇÃO RENAL DE CÁLCIO E DA
CONCENTRAÇÃO DE ÍON CÁLCIO EXTRACELULAR
Os mecanismos de regulação da concentração de íons cálcio são discutidos,
em detalhes, no Capítulo 80, em conjunto com a endocrinologia dos
hormônios reguladores do cálcio, o paratormônio (PTH) e a calcitonina. Por
esse motivo, a discussão sobre a regulação dos íons cálcio, neste Capítulo, é
resumida.
A concentração de íons cálcio no líquido extracelular normalmente
permanece estreitamente controlada dentro de alguns pontos percentuais de
seu nível normal de 2,4 mEq/L. Quando a concentração iônica de cálcio
diminui (hipocalcemia), a excitabilidade das células nervosas e musculares
aumenta de forma acentuada, podendo resultar, nos casos extremos, em
tetania hipocalcêmica. Essa condição clínica se caracteriza por contrações
espásticas da musculatura esquelética. A hipercalcemia (concentração
elevada do cálcio) deprime a excitabilidade neuromuscular e pode causar
arritmias cardíacas.
Cerca de 50% do cálcio total presente no plasma (5 mEq/L) estão na
forma ionizada, que representa a forma biologicamente ativa nas
membranas celulares. O restante está ligado às proteínas plasmáticas (em
torno de 40%) ou complexadas na forma não ionizada, com ânions como
fosfato e citrato (em torno de 10%).
As alterações da concentração de íons hidrogênio no plasma podem
influenciar o grau de ligação do cálcio com as proteí nas plasmáticas. Em
casos de acidose, há união de menor quantidade de cálcio às proteínas
plasmáticas. Na alcalose, no entanto, tem-se o efeito oposto, e grande quantidade de cálcio se liga às proteínas plasmáticas. Assim, os pacientes
com alcalose são mais suscetíveis à tetania hipocalcêmica.
Como ocorre com outras substâncias no corpo, a ingestão de cálcio deve
ser equilibrada com a perda efetiva de cálcio a longo prazo. Ao contrário do
que acontece com os íons sódio e cloreto, entretanto, grande parte da
excreção de cálcio ocorre pelas fezes. A ingestão usual dietética de cálcio
oscila em torno de 1.000 mg/dia, com excreção de aproximadamente 900
mg/dia nas fezes. Sob certas condições, a excreção fecal do cálcio pode ser
maior que sua ingestão, por ele também poder ser secretado para o lúmen
intestinal. Assim, o trato gastrointestinal e os mecanismos reguladores que
influenciam a absorção e a secreção de cálcio têm participação importante
na homeostasia do cálcio, como discutido no Capítulo 80.
Quase todo o cálcio no corpo (99%) está armazenado no osso, com apenas
0,1% no líquido extracelular e 1% no líquido intracelular e organelas
celulares. Como resultado, o osso atua como grande reservatório para o
armazenamento de cálcio e como fonte de cálcio quando sua concentração
no líquido extracelular tende a baixar.
Um dos reguladores mais importantes da captação e da liberação de
cálcio pelo osso é o PTH. Quando a concentração de cálcio no líquido
extracelular cai até níveis abaixo do normal, as glândulas paratireoides são
diretamente estimuladas pelos baixos níveis de cálcio, para promover
aumento da secreção do PTH. Esse hormônio, portanto, atua de forma
direta sobre os ossos, aumentando a reabsorção de sais ósseos (liberação de
sais pelos ossos) e, como consequência, libera grande quantidade de cálcio
no líquido extracelular, restabelecendo os níveis normais de cálcio. Quando
a concentração de íons cálcio está elevada, a secreção do PTH diminui,
ocorrendo reabsorção óssea quase nula; em vez disso, o excesso de cálcio é
depositado nos ossos pela neoformação óssea. Dessa maneira, a regulação diária da concentração de íons cálcio é mediada, em grande parte, pelos
efeitos do PTH sobre a reabsorção óssea.
Todavia, os ossos contêm suprimento inesgotável de cálcio. Em períodos
longos, a ingestão de cálcio deve ser equilibrada com sua excreção pelo
trato gastrointestinal e pelos rins. Nesses dois locais do corpo, o regulador
mais importante da reabsorção de cálcio é também o PTH. Desse modo, o
PTH regula a concentração plasmática do cálcio por meio de três efeitos
básicos: (1) por estimular a reabsorção óssea; (2) por promover a ativação
da vitamina D, que aumenta a reabsorção intestinal de cálcio; e (3) por
aumentar, diretamente, a reabsorção de cálcio nos túbulos renais (Figura
30-11). O controle da reabsorção gastrointestinal do cálcio e as trocas de
cálcio com o osso são discutidos em outro local. O restante desta seção
enfoca os mecanismos controladores da excreção renal de cálcio.
Figura 30-11. Respostas compensatórias à queda da concentração plasmática de cálcio ionizado mediadas pelo paratormônio (PTH) e pela vitamina D.
CONTROLE DA EXCREÇÃO DE CÁLCIO PELOS RINS
O cálcio é filtrado e reabsorvido nos rins, mas não é secretado. Sua
excreção renal é calculada da seguinte forma:
Excreção renal de cálcio =
Cálcio filtrado − Cálcio reabsorvido
Apenas 60% do cálcio plasmático são ionizados, enquanto o restante,
40%, fica ligado às proteínas plasmáticas e 10% complexados com ânions,
tais como o fosfato. Assim, apenas 60% do cálcio plasmático podem ser
filtrados pelo glomérulo. Normalmente, cerca de 99% do cálcio filtrado são
reabsorvidos pelos túbulos, com excreção de apenas 1%. Aproximadamente
65% do cálcio filtrado são reabsorvidos no túbulo proximal, 25% a 30% na
alça de Henle, e 4% a 9% nos túbulos distais e coletores. Esse padrão de
reabsorção é semelhante ao do sódio.
Como acontece com outros íons, a excreção de cálcio é ajustada para
atender às necessidades do corpo. Com aumento da ingestão de cálcio,
também há elevação da excreção de cálcio, apesar de muito desse aumento
na ingestão ser eliminado nas fezes. Com a depleção de cálcio, a excreção
de cálcio pelos rins diminui como resultado da maior reabsorção tubular.
Reabsorção Tubular Proximal de Cálcio. Grande parte da reabsorção
de cálcio no túbulo proximal acontece pela via paracelular, dissolvido em
água e carregado com o líquido reabsorvido à medida que flui entre as
células. Apenas cerca de 20% da reabsorção tubular proximal de cálcio
ocorrem pela via transcelular, em duas etapas: (1) difusão de cálcio do
lúmen tubular para a célula, estabelecida pelo gradiente eletroquímico
devido à concentração muito maior de cálcio no lúmen tubular, em
comparação com o citoplasma da célula epitelial, e porque o interior da
célula tem carga negativa em relação ao lúmen tubular; e (2) o cálcio sai da
célula pela membrana basolateral, por meio de uma bomba de cálcio-
ATPase e pelo contratransportador de sódio-cálcio (Figura 30-12).
Figura 30-12. Mecanismos da reabsorção de cálcio, pelas vias paracelular e transcelular, nas células do túbulo proximal.
Alça de Henle e Reabsorção de Cálcio no Túbulo Distal. Na alça
de Henle, a reabsorção de cálcio é restrita à parte ascendente espessa. Cerca
de 50% da reabsorção de cálcio na porção ascendente espessa ocorrem pela
via paracelular por difusão passiva, devido à pequena carga positiva do
lúmen tubular em relação ao líquido intersticial. Os 50% remanescentes da
reabsorção de cálcio na parte ascendente espessa ocorrem por via
transcelular, processo que é estimulado pelo PTH.
No túbulo distal, a reabsorção de cálcio ocorre quase que inteiramente por
transporte ativo através da membrana celular. O mecanismo para esse
transporte ativo é similar ao do túbulo proximal e da parte ascendente
espessa, e envolve difusão pela membrana luminal pelos canais de cálcio,
saindo pela membrana basolateral, por meio de bomba cálcio-ATPase,
assim como pelo mecanismo de contratransporte de sódio-cálcio. Nesse segmento, bem como na alça de Henle, o PTH estimula a reabsorção de
cálcio. A vitamina D (calcitriol) e a calcitonina também estimulam a
reabsorção de cálcio na parte ascendente espessa da alça de Henle e no
túbulo distal, apesar de esses hormônios não serem tão importantes,
quantitativamente, quanto a PTH na redução de excreção renal de cálcio.
Fatores que Regulam a Reabsorção Tubular de Cálcio. Um dos
principais controladores da reabsorção tubular renal de cálcio é o PTH.
Níveis elevados desse hormônio estimulam a reabsorção de cálcio nas alças
ascendentes espessas de Henle e nos túbulos distais, o que reduz sua
excreção urinária. De modo inverso, a redução do PTH promove a excreção
de cálcio por diminuir sua reabsorção nas alças de Henle e nos túbulos
distais.
No túbulo proximal, a reabsorção de cálcio usualmente se equipara à
reabsorção de sódio e de água e é inde penden te do PTH. Assim, nos casos
de expansão do volume extracelular ou de aumento da pressão arterial —
ambos diminuem a reabsorção proximal de sódio e de água — há também
redução da reabsorção do cálcio e, consequentemente, elevação da excreção
urinária de cálcio. De modo oposto, com a contração do volume
extracelular ou queda da pressão sanguínea, a excreção de cálcio diminui,‐
primariamente, em função do aumento da reabsorção tubular proximal.
Outro fator que influencia a reabsorção do cálcio é a concentração
plasmática de fosfato. Elevação do fosfato plasmático estimula o PTH, o
que aumenta a reabsorção do cálcio pelos túbulos renais e, desse modo,
reduz a excreção de cálcio. No caso de redução da concentração plasmática
do fosfato, ocorre o oposto.
A reabsorção de cálcio é também estimulada pela acidose metabólica e
inibida pela alcalose metabólica. Assim, a acidose tende a aumentar a
excreção de cálcio, enquanto a alcalose tende a reduzir a excreção de cálcio.
Grande parte dos efeitos da concentração dos íons hidrogênio sobre a excreção de cálcio tem origem nas variações da reabsorção de cálcio no
túbulo distal.
Resumo dos fatores conhecidos por influenciarem a excreção do cálcio
pelos túbulos renais é mostrado na Tabela 30-2.
Tabela 30-2 Fatores que Alteram a Excreção Renal de Cálcio
↓ Excreção de Cálcio ↑ Excreção de Cálcio
↑ Paratormônio (PTH) ↓ PTH
↓ Volume de líquido extracelular ↑ Volume de líquido extracelular
↓ Pressão sanguínea ↑ Pressão sanguínea
↑ Fosfato plasmático ↓ Fosfato plasmático
Alcalose metabólica Acidose metabólica
Vitamina D3
REGULAÇÃO DA EXCREÇÃO RENAL DE FOSFATO
A excreção de fosfato pelos rins é controlada primariamente por mecanismo
de extravasamento, explicado a seguir: os túbulos renais têm transporte
máximo normal para a reab sorção de fosfato de cerca de 0,1 mmol/min.
Quando existe quantidade de fosfato inferior a essa no filtrado glomerular,
basicamente todo o fosfato filtrado é reabsorvido. Em presença de
quantidade maior, o excesso é excretado. Por conseguinte, o fosfato
normalmente começa a vazar para a urina quando sua concentração no
líquido extracelular é maior que o limiar de cerca de 0,8 mM/L, o que
resulta em carga tubular de fosfato de aproximadamente 0,1 mmol/min,
admitindo-se FG de 125 mL/min. Como a maioria das pessoas ingere
quantidades abundantes de fosfato por meio dos produtos derivados do leite
e da carne, a concentração de fosfato, em geral, é mantida acima de 1
mM/L, nível em que ocorre excreção contínua de fosfato pela urina.