Tratado de Fisiologia Médica
Distribuição do Líquido Extracelular Entre os Espaços Intersticiais e o Sistema Vascular
permanecerem, tais como as que ocorrem quando existe deficiência de
eritropoietina ou de outro fator necessário para estimular a produção de
células sanguíneas, o volume plasmático irá simplesmente compensar a
diferença, e o volume total do sangue voltará, essencialmente, ao normal,
apesar da baixa massa de glóbulos vermelhos.
DISTRIBUIÇÃO DO LÍQUIDO EXTRACELULAR ENTRE
OS ESPAÇOS INTERSTICIAIS E O SISTEMA VASCULAR
Pela Figura 30-14 fica evidente que os volumes de sangue e de líquido
extracelular são usualmente controlados de forma paralela e recíproca. O
líquido ingerido, de início, vai para o sangue, mas em tempo muito curto,
vai ser distribuído entre os espaços intersticiais e o plasma. Desse modo, em
geral ocorre o controle simultâneo dos volumes de sangue e de líquido
extracelular.
Existem, no entanto, circunstâncias em que acontecem grandes variações
na distribuição do líquido extracelular entre os espaços intersticiais e o
sangue. Conforme discutido no Capítulo 25, os principais fatores capazes
de provocar acúmulo de líquido nos espaços intersticiais incluem (1)
pressão hidrostática capilar elevada; (2) pressão coloidosmótica
plasmática reduzida; (3) permeabilidade aumentada dos capilares; e (4)
obstrução dos vasos linfáticos. Em todas essas condições, uma alta
proporção, pouco comum, do líquido extracelular vai ser distribuída para os
espaços intersticiais.
A Figura 30-16 mostra a distribuição normal de líquido entre os espaços
intersticiais e o sistema vascular, bem como a que ocorre nos estados de
edema. Quando pequenas quantidades de líquido se acumulam no sangue
como resultado do excesso na ingestão de líquidos ou da redução do débito
renal de líquido, cerca de 20% a 30% permanecem no sangue e aumentam o volume sanguíneo. O restante é distribuído para os espaços intersticiais.
Quando o volume do líquido extracelular se eleva em torno de 30% a 50%
acima do normal, quase todo o líquido extra vai para os espaços intersticiais
e só pequena quantidade permanece no sangue. Essa distribuição ocorre
porque os espaços intersticiais teciduais ficam complacentes assim que a
pressão do líquido intersticial sobe de seu valor normalmente negativo para
um valor positivo; dessa forma, grande quantidade de líquido flui para os‐
tecidos sem que ocorra elevação muito maior da pressão do líquido
intersticial. Em outras palavras, há perda do fator de segu rança contra a
formação do edema devido à pressão crescente do líquido intersticial que
neutraliza o acúmulo de líquido nos tecidos, uma vez que os tecidos ficam
muito complacentes.
Desse modo, sob condições normais, os espaços intersticiais atuam como
reservatórios de “extravasamento” para o líquido em excesso, tendo, por
vezes, aumento de volume de 10 a 30 litros. Essa situação ocasiona a
formação do edema, como explicado noCapítulo 25, mas também atua
como importante válvula de escape para a circulação, protegendo o sistema
cardiovascular contra sobrecarga perigosa, capaz de levar a quadros de
edema pulmonar e insuficiência cardíaca.
Em resumo, os volumes do líquido extracelular e do sangue são, muitas
vezes, controlados simultaneamente, mas os valores quantitativos da
distribuição de líquido entre o interstício e o sangue dependem das
propriedades físicas da circulação e dos espaços intersticiais, bem como da
dinâmica das trocas de líquido através das membranas dos capilares.