Tratado de Fisiologia Médica
Secreção de Saliva
Assim, o muco tem a capacidade de permitir o fácil deslizamento do alimento
pelo trato gastrointestinal e de evitar danos escoriativos ou químicos ao epitélio. A
pessoa tem conhecimento agudo das qualidades lubrificantes do muco, quando as glândulas salivares não secretam saliva, porque é difícil deglutir alimentos sólidos,
mesmo quando ingeridos com grandes quantidades de líquidos.
SECREÇÃO DE SALIVA
A Saliva Contém uma Secreção Serosa e uma Secreção de
Muco. As principais glândulas salivares são as glândulas parótidas,
submandibulares e sublinguais; além delas, há diversas minúsculas
glândulas orais. A secreção diária de saliva, normalmente, é de 800 a 1.500
mililitros, com valor médio de 1.000 mililitros (Tabela 65-1).
A saliva contém dois tipos principais de secreção de proteína: (1) a
secreção serosa contendo ptialina (uma α-amilase), que é uma enzima para
a digestão de amido; e (2) a secreção mucosa, contendo mucina, para
lubrificar e proteger as superfícies.
As glândulas parótidas produzem quase toda a secreção de tipo seroso,
enquanto as glândulas submandibulares e sublinguais produzem secreção
serosa e mucosa. As glândulas bucais só secretam muco. A saliva tem pH
entre 6,0 e 7,0, uma faixa favorável à ação digestiva da ptialina.
Tabela 65-1 Secreção Diária de Sucos Intestinais
Tipos de Secreção Volume Diário (mL) pH
Saliva 1.000 6,0-7,0
Secreção gástrica 1.500 1,0-3,5
Secreção pancreática 1.000 8,0-8,3
Bile 1.000 7,8
Secreção do intestino delgado 1.800 7,5-8,0
Secreção da glândula de Brunner 200 8,0-8,9
Secreção do intestino grosso 200 7,5-8,0
Total 6.700
Secreção de Íons na Saliva. A saliva contém quantidade especialmente
elevada de íons potássio e bicarbonato. Por outro lado, as concentrações de
íons sódio e de íons cloreto são menores na saliva que no plasma. Pode-se
entender as concentrações especiais de íons na saliva, a partir da seguinte
descrição do mecanismo de secreção.
A Figura 65-2 mostra a secreção pela glândula submandibular, típica
glândula composta contendo ácinos e ductos salivares. A secreção de saliva
é uma operação de dois estágios: o primeiro envolve os ácinos e o segundo
envolve os ductos salivares. Os ácinos produzem secreção primária
contendo ptialina e/ou mucina em solução de íons em concentrações não
muito diferentes das típicas dos líquidos extracelulares. À medida que a
secreção primária flui pelos ductos, ocorrem dois importantes processos de
transporte ativo que modificam bastante a composição iônica da saliva.
Primeiro, íons sódio são reabsorvidos ativamente nos ductos salivares, e
íons potássio são ativamente secretados por troca do sódio. Portanto, a
concentração de íons sódio da saliva diminui, enquanto a concentração de
íons potássio fica maior. Entretanto, a reabsorção de sódio excede a
secreção de potássio, o que cria negatividade elétrica de cerca de −70
milivolts nos ductos salivares; por sua vez, essa negatividade faz com que
íons cloreto sejam reabsorvidos passivamente. Por conseguinte, a
concentração de íons cloreto no líquido salivar cai a nível muito baixo,
compa rado à concentração de íons sódio.
Segundo, íons bicarbonato são secretados pelo epitélio dos ductos para o
lúmen do ducto. Essa secreção é, em parte, causado pela troca de
bicarbonato por íons cloreto e, em parte, resulta de processo secretório
ativo.
O resultado efetivo desses processos de transporte é que, em condições de
repouso, as concentrações de íons sódio e cloreto na saliva são de apenas 15
mEq/L, cerca de um sétimo a um décimo de suas concentrações no plasma.
Por outro lado, a concentração de íons potássio é aproximadamente 30
mEq/L, sete vezes maior do que a concentração no plasma; e a
concentração de íons bicarbonato é de 50 a 70 mEq/L, cerca de duas a três
vezes a do plasma.
Quando a secreção salivar atinge sua intensidade máxima, as
concentrações iônicas salivares se alteram consideravelmente, porque a
velocidade de formação de saliva primária pelos ácinos pode aumentar em
até 20 vezes. Essa secreção acinar, então, flui tão rapidamente pelos ductos
que a modificação no ducto da saliva é muito reduzida. Assim, quando
grande quantidade de saliva é produzida, a concentração de cloreto de sódio
fica em torno da metade ou dois terços da concentração do plasma, e a
concentração de potássio aumenta apenas por quatro vezes em relação à do
plasma.
Função da Saliva na Higiene Oral. Sob condições basais de vigília, cerca de
0,5 mililitro de saliva é secretado a cada minuto, quase inteiramente do tipo
mucoso; entretanto, durante o sono ocorre pouca secreção. Essa secreção tem
função extremamente importante para a manutenção da saúde dos tecidos orais.
A boca hospeda bactérias patogênicas que podem destruir facilmente os tecidos e causar cáries dentárias. A saliva ajuda a evitar os processos de deterioração de
diversas maneiras.
1. O fluxo de saliva ajuda a lavar a boca das bactérias patogênicas, bem como
das partículas de alimentos que provêm suporte metabólico a essas bactérias.
2. A saliva contém vários fatores que destroem as bactérias. São eles os íons
tiocianato e diversas enzimas proteolíticas — a mais importante é a lisozima — que (a) atacam as bactérias; (b) ajudam os íons tiocianato a entrar nas
bactérias, onde se tornam bactericidas; e (c) digerem partículas de alimentos, ajudando, assim, a remover, ainda mais o suporte metabólico das bactérias.
3. A saliva frequentemente contém quantidades significativas de anticorpos
proteicos, que podem destruir as bactérias orais, incluindo algumas das que
causam cáries dentárias. Na ausência de salivação, os tecidos orais, com
frequência, ficam ulcerados e até infectados, e as cáries dentárias podem ser comuns.
REGULAÇÃO NERVOSA DA SECREÇÃO SALIVAR
A Figura 65-3 mostra as vias nervosas parassimpáticas que regulam a
salivação, demonstrando que as glândulas salivares são controladas
principalmente por sinais nervosos parassimpáticos que se originam nos
núcleos salivatórios superior e inferior, no tronco cerebral.
Os núcleos salivatórios estão localizados aproximadamente na junção
entre o bulbo e a ponte e são excitados por estímulos gustativos e táteis, da
língua e de outras áreas da boca e da faringe. Muitos estímulos gustativos,
especialmente o sabor azedo (causado por ácidos), provocam copiosa
secreção de saliva — com frequência, 8 a 20 vezes a secreção basal. Além
disso, estímulos táteis, como a presença de objetos de superfície lisa na
boca (p. ex., um seixo), causam salivação acentuada, enquanto objetos
ásperos causam menor salivação e, às vezes, até mesmo a inibem.
A salivação pode também ser estimulada, ou inibida, por sinais nervosos
que chegam aos núcleos salivatórios provenien tes dos centros superiores do
sistema nervoso central. Por exemplo, quando a pessoa sente o cheiro ou
come os alimentos preferidos, a salivação é maior do que quando ela come
ou cheira alimento de que não gosta. A área do apetite, do cérebro que
regula parcialmente esses efeitos, localiza-se na proximidade dos centros
parassimpáticos do hipotálamo anterior e funciona principalmente em
resposta aos sinais das áreas do paladar e do olfato do córtex cerebral ou da
amígdala.
A salivação ocorre, ainda, em resposta aos reflexos que se originam no
estômago e na parte superior do intestino delgado — em particular, quando
alimentos irritativos são ingeridos ou quando a pessoa está nauseada por
alteração gastrointestinal. A saliva, quando engolida, ajuda a remover o fator irritativo do trato gastrointestinal ao diluir ou neutralizar as
substâncias irritativas.
A estimulação simpática também pode aumentar por pouco a salivação,
porém bem menos do que a estimulação parassimpática. Os nervos
simpáticos se originam nos gânglios cervicais superiores e penetram as
glândulas salivares ao longo das superfícies das paredes dos vasos
sanguíneos.
Um fator secundário que afeta a secreção salivar é o suprimento de sangue
para as glândulas, porque essa secreção sempre requer nutrientes
adequados do sangue. Os sinais nervosos parassimpáticos que induzem
salivação abundante também dilatam moderadamente os vasos sanguíneos.
Além disso, a própria salivação dilata, de modo direto, os vasos sanguíneos,
proporcionando, assim, maior nutrição das glândulas salivares, necessária
às células secretoras. Parte desse efeito vasodilatador adicional é causado
pela calicreína, secretada pelas células salivares ativadas que, por sua vez,
agem como enzima a qual cliva uma das proteínas do sangue, alfa2-
globulina, para formar a bradicinina, potente vasodilatador.