Tratado de Fisiologia Médica

John E. Hall · Capítulo 294 de 351

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Tratado de Fisiologia Médica

Secreção de Saliva

Assim, o muco tem a capacidade de permitir o fácil deslizamento do alimento

pelo trato gastrointestinal e de evitar danos escoriativos ou químicos ao epitélio. A

pessoa tem conhecimento agudo das qualidades lubrificantes do muco, quando as glândulas salivares não secretam saliva, porque é difícil deglutir alimentos sólidos,

mesmo quando ingeridos com grandes quantidades de líquidos.

 

SECREÇÃO DE SALIVA

 

A Saliva Contém uma Secreção Serosa e uma Secreção de

Muco. As principais glândulas salivares são as glândulas parótidas,

submandibulares e sublinguais; além delas, há diversas minúsculas

glândulas orais. A secreção diária de saliva, normalmente, é de 800 a 1.500

mililitros, com valor médio de 1.000 mililitros (Tabela 65-1).

A saliva contém dois tipos principais de secreção de proteína: (1) a

secreção serosa contendo ptialina (uma α-amilase), que é uma enzima para

a digestão de amido; e (2) a secreção mucosa, contendo mucina, para

lubrificar e proteger as superfícies.

As glândulas parótidas produzem quase toda a secreção de tipo seroso,

enquanto as glândulas submandibulares e sublinguais produzem secreção

serosa e mucosa. As glândulas bucais só secretam muco. A saliva tem pH

entre 6,0 e 7,0, uma faixa favorável à ação digestiva da ptialina.

 

Tabela 65-1 Secreção Diária de Sucos Intestinais

Tipos de Secreção Volume Diário (mL) pH

Saliva 1.000 6,0-7,0

Secreção gástrica 1.500 1,0-3,5

Secreção pancreática 1.000 8,0-8,3

Bile 1.000 7,8

Secreção do intestino delgado 1.800 7,5-8,0

Secreção da glândula de Brunner 200 8,0-8,9

Secreção do intestino grosso 200 7,5-8,0

Total 6.700

 

Secreção de Íons na Saliva. A saliva contém quantidade especialmente

elevada de íons potássio e bicarbonato. Por outro lado, as concentrações de

íons sódio e de íons cloreto são menores na saliva que no plasma. Pode-se

entender as concentrações especiais de íons na saliva, a partir da seguinte

descrição do mecanismo de secreção.

A Figura 65-2 mostra a secreção pela glândula submandibular, típica

glândula composta contendo ácinos e ductos salivares. A secreção de saliva

é uma operação de dois estágios: o primeiro envolve os ácinos e o segundo

envolve os ductos salivares. Os ácinos produzem secreção primária

contendo ptialina e/ou mucina em solução de íons em concentrações não

muito diferentes das típicas dos líquidos extracelulares. À medida que a

secreção primária flui pelos ductos, ocorrem dois importantes processos de

transporte ativo que modificam bastante a composição iônica da saliva.

Primeiro, íons sódio são reabsorvidos ativamente nos ductos salivares, e

íons potássio são ativamente secretados por troca do sódio. Portanto, a

concentração de íons sódio da saliva diminui, enquanto a concentração de

íons potássio fica maior. Entretanto, a reabsorção de sódio excede a

secreção de potássio, o que cria negatividade elétrica de cerca de −70

milivolts nos ductos salivares; por sua vez, essa negatividade faz com que

íons cloreto sejam reabsorvidos passivamente. Por conseguinte, a

concentração de íons cloreto no líquido salivar cai a nível muito baixo,

compa rado à concentração de íons sódio.

Segundo, íons bicarbonato são secretados pelo epitélio dos ductos para o

lúmen do ducto. Essa secreção é, em parte, causado pela troca de

bicarbonato por íons cloreto e, em parte, resulta de processo secretório

ativo.

O resultado efetivo desses processos de transporte é que, em condições de

repouso, as concentrações de íons sódio e cloreto na saliva são de apenas 15

mEq/L, cerca de um sétimo a um décimo de suas concentrações no plasma.

Por outro lado, a concentração de íons potássio é aproximadamente 30

mEq/L, sete vezes maior do que a concentração no plasma; e a

concentração de íons bicarbonato é de 50 a 70 mEq/L, cerca de duas a três

vezes a do plasma.

Quando a secreção salivar atinge sua intensidade máxima, as

concentrações iônicas salivares se alteram consideravelmente, porque a

velocidade de formação de saliva primária pelos ácinos pode aumentar em

até 20 vezes. Essa secreção acinar, então, flui tão rapidamente pelos ductos

que a modificação no ducto da saliva é muito reduzida. Assim, quando

grande quantidade de saliva é produzida, a concentração de cloreto de sódio

fica em torno da metade ou dois terços da concentração do plasma, e a

concentração de potássio aumenta apenas por quatro vezes em relação à do

plasma.

Função da Saliva na Higiene Oral. Sob condições basais de vigília, cerca de

0,5 mililitro de saliva é secretado a cada minuto, quase inteiramente do tipo

mucoso; entretanto, durante o sono ocorre pouca secreção. Essa secreção tem

função extremamente importante para a manutenção da saúde dos tecidos orais.

A boca hospeda bactérias patogênicas que podem destruir facilmente os tecidos e causar cáries dentárias. A saliva ajuda a evitar os processos de deterioração de

diversas maneiras.

1. O fluxo de saliva ajuda a lavar a boca das bactérias patogênicas, bem como

das partículas de alimentos que provêm suporte metabólico a essas bactérias.

2. A saliva contém vários fatores que destroem as bactérias. São eles os íons

tiocianato e diversas enzimas proteolíticas — a mais importante é a lisozima — que (a) atacam as bactérias; (b) ajudam os íons tiocianato a entrar nas

bactérias, onde se tornam bactericidas; e (c) digerem partículas de alimentos, ajudando, assim, a remover, ainda mais o suporte metabólico das bactérias.

3. A saliva frequentemente contém quantidades significativas de anticorpos

proteicos, que podem destruir as bactérias orais, incluindo algumas das que

causam cáries dentárias. Na ausência de salivação, os tecidos orais, com

frequência, ficam ulcerados e até infectados, e as cáries dentárias podem ser comuns.

 

REGULAÇÃO NERVOSA DA SECREÇÃO SALIVAR

 

A Figura 65-3 mostra as vias nervosas parassimpáticas que regulam a

salivação, demonstrando que as glândulas salivares são controladas

principalmente por sinais nervosos parassimpáticos que se originam nos

núcleos salivatórios superior e inferior, no tronco cerebral.

Os núcleos salivatórios estão localizados aproximadamente na junção

entre o bulbo e a ponte e são excitados por estímulos gustativos e táteis, da

língua e de outras áreas da boca e da faringe. Muitos estímulos gustativos,

especialmente o sabor azedo (causado por ácidos), provocam copiosa

secreção de saliva — com frequência, 8 a 20 vezes a secreção basal. Além

disso, estímulos táteis, como a presença de objetos de superfície lisa na

boca (p. ex., um seixo), causam salivação acentuada, enquanto objetos

ásperos causam menor salivação e, às vezes, até mesmo a inibem.

A salivação pode também ser estimulada, ou inibida, por sinais nervosos

que chegam aos núcleos salivatórios provenien tes dos centros superiores do

sistema nervoso central. Por exemplo, quando a pessoa sente o cheiro ou

come os alimentos preferidos, a salivação é maior do que quando ela come

ou cheira alimento de que não gosta. A área do apetite, do cérebro que

regula parcialmente esses efeitos, localiza-se na proximidade dos centros

parassimpáticos do hipotálamo anterior e funciona principalmente em

resposta aos sinais das áreas do paladar e do olfato do córtex cerebral ou da

amígdala.

A salivação ocorre, ainda, em resposta aos reflexos que se originam no

estômago e na parte superior do intestino delgado — em particular, quando

alimentos irritativos são ingeridos ou quando a pessoa está nauseada por

alteração gastrointestinal. A saliva, quando engolida, ajuda a remover o fator irritativo do trato gastrointestinal ao diluir ou neutralizar as

substâncias irritativas.

A estimulação simpática também pode aumentar por pouco a salivação,

porém bem menos do que a estimulação parassimpática. Os nervos

simpáticos se originam nos gânglios cervicais superiores e penetram as

glândulas salivares ao longo das superfícies das paredes dos vasos

sanguíneos.

Um fator secundário que afeta a secreção salivar é o suprimento de sangue

para as glândulas, porque essa secreção sempre requer nutrientes

adequados do sangue. Os sinais nervosos parassimpáticos que induzem

salivação abundante também dilatam moderadamente os vasos sanguíneos.

Além disso, a própria salivação dilata, de modo direto, os vasos sanguíneos,

proporcionando, assim, maior nutrição das glândulas salivares, necessária

às células secretoras. Parte desse efeito vasodilatador adicional é causado

pela calicreína, secretada pelas células salivares ativadas que, por sua vez,

agem como enzima a qual cliva uma das proteínas do sangue, alfa2-

globulina, para formar a bradicinina, potente vasodilatador.