Tratado de Fisiologia Médica
Difusão
Todas as moléculas e íons no corpo, inclusive as moléculas de água e as
substâncias dissolvidas nos líquidos corporais, estão em constante
movimento, cada partícula movendo-se por seu modo distinto. A
movimentação dessas partículas é o que os físicos chamam de “calor” –
quanto maior a movimentação, maior a temperatura – e o movimento nunca
cessa a não ser na temperatura do zero absoluto. Quando a molécula em
movimento, A, se aproxima da molécula estacionária, B, a força
eletrostática e outras forças nucleares da molécula A repelem a molécula B,
transferindo parte da energia do movimento da molécula A para a molécula
B. Consequentemente, a molécula B ganha energia cinética do movimento,
enquanto a molécula A passa a se mover mais lentamente, perdendo parte
de sua energia cinética. Como mostrado na Figura 4-3, em solução uma só
molécula colide violentamente com as outras moléculas, primeiro em uma
direção, e depois em outra, e assim por diante, sempre alea toriamente,
colidindo milhares de vezes a cada segundo. Esse movimento contínuo de
moléculas umas contra as outras, nos líquidos ou nos gases, é chamado
difusão.
Os íons difundem-se da mesma maneira que as moléculas inteiras, e até
mesmo partículas coloidais em suspensão se difundem de modo
semelhante, a não ser pelo fato de a dispersão dos coloides ser bem mais
lenta do que a das substâncias moleculares, por eles serem maiores.
Figura 4-3. Difusão de moléculas em fluidos durante um milésimo de segundo.
DIFUSÃO ATRAVÉS DA MEMBRANA CELULAR
A difusão através da membrana celular é dividida em dois subtipos,
chamados difusão simples e difusão facilitada. A difusão simples significa
que o movimento cinético das moléculas ou dos íons ocorre através de
abertura na membrana ou através dos espaços intermoleculares, sem que
ocorra qualquer interação com as proteínas carreadoras da membrana. A
intensidade da difusão é determinada pela quantidade de substância
disponível, pela velocidade do movimento cinético, e pelo número e
tamanho das aberturas na membrana, pelas quais as moléculas e os íons
podem se mover.
A difusão facilitada requer a interação com uma proteína carreadora. A
proteína carreadora ajuda a passagem das moléculas ou dos íons, através da
membrana, por meio de ligação química com eles, transportando-os, dessa
forma, em movimento de vaivém através da membrana.
A difusão simples pode ocorrer através da membrana celular por duas
vias: (1) pelos interstícios da bicamada lipídica, no caso da substância que
se difunde ser lipossolúvel; e (2) pelos canais aquosos que penetram por
toda a espessura da membrana, por meio de alguma das grandes proteínas
transportadoras, como mostrado à esquerda da Figura 4-2. Difusão das Substâncias Lipossolúveis através da Bicamada
Lipídica. Um fator importante que determina quão rapidamente a
substância se difunde pela bicamada lipídica é a lipossolubilidade dessa
substância. As lipossolubilidades do oxigênio, do nitrogênio, do dióxido de
carbono e do álcool, por exemplo, são altas; assim, todas elas podem se
dissolver diretamente na bicamada lipídica e se difundir através da
membrana celular, do mesmo modo como ocorre a difusão para solutos
hidrossolúveis nas soluções aquosas. A velocidade de difusão de cada uma
dessas substâncias através da membrana é diretamente proporcional à sua
lipossolubilidade. De modo especial, grandes quantidades de oxigênio
podem ser transportadas dessa maneira; por essa razão, o oxigênio pode ser
levado para o interior das células quase como se não existisse a membrana
celular.
Difusão das Moléculas de Água e de Outras Moléculas
Insolúveis em Lipídios pelos Canais Proteicos. Ainda que a água
seja extremamente insolúvel nos lipídios da membrana, ela passa com
facilidade pelos canais das moléculas de proteínas que penetram por toda a
espessura das membranas. Muitas das membranas celulares do corpo
contêm “poros” proteicos chamados aquaporinas que permitem, seletiva‐
mente, a passagem rápida de água através da membrana celular. As
aquaporinas são altamente especiali zadas, e existem pelo menos 13 tipos
diferentes delas nas várias células dos mamíferos.
A rapidez com que as moléculas de água podem se difundir através da
maioria das membranas celulares é impressionante. Como exemplo, a
quantidade total de água que se difunde em cada direção pelas membranas
das hemácias, a cada segundo, é cerca de 100 vezes maior que o volume da
própria hemácia.
Outras moléculas insolúveis em lipídios podem passar pelos canais dos
poros das proteínas do mesmo modo que as moléculas de água, caso sejam hidrossolúveis e suficientemente pequenas. Todavia, à medida que suas
dimensões aumentam, sua penetração diminui acentuadamente. Por
exemplo, o diâmetro da molécula da ureia é somente 20% maior do que o
da de água, e mesmo assim sua penetração, através dos poros da membrana
celular, é cerca de 1.000 vezes menor do que a da água. Ainda assim,
considerando-se a incrível velocidade de penetração da água, essa
intensidade da penetração da ureia ainda permite o rápido transporte da
ureia através da membrana em poucos minutos.
DIFUSÃO PELOS CANAIS PROTEICOS E AS
“COMPORTAS” DESSES CANAIS
As reconstruções tridimensionais computadorizadas dos canais proteicos
demonstraram vias tubulares por toda a espessura da membrana entre os
líquidos extra e intracelulares. Por conseguinte, substâncias podem se
deslocar por difusão simples diretamente através desses canais de um lado
ao outro da membrana.
Os poros são compostos de proteínas integrais da membrana celular que
formam tubos abertos através da membrana e que ficam sempre abertos. No
entanto, o diâmetro do poro e sua carga elétrica fornecem seletividade que
permite a passagem de somente algumas moléculas. Por exemplo, poros
proteicos, denominados aquaporinas ou canais de água, permitem a
passagem rápida de água através da membrana celular, mas excluem outras
moléculas. Já foram encontrados pelo menos 13 tipos diferentes de
aquaporinas em várias células do corpo humano. As aquaporinas têm um
poro estreito que permite a difusão de moléculas de água através da
membrana em fila única. O poro é muito estreito para permitir a passagem
de qualquer outro íon hidratado. Como discutido nos Capítulos 30 e 76, a
densidade de algumas aquaporinas (p. ex., aquaporina 2), nas membranas celulares, não é estática, mas pode ser alterada em diferentes condições
fisiológicas.
As proteínas canais são distinguidas por duas características importantes:
(1) elas, em geral, são seletivamente permeáveis a certas substâncias; e (2)
muitos dos canais podem ser abertos ou fechados por comportas que são
reguladas por sinais elétricos (canais dependentes de voltagem) ou
químicos que se ligam a proteínas do canal (canais dependentes de
ligantes).
Permeabilidade Seletiva das Proteínas Canais. Muitas das
proteínas canais são altamente seletivas para o transporte de um ou mais
íons ou moléculas específicas. Essa seletividade resulta das características
do canal propriamente dito, como seu diâmetro, sua forma, e a natureza das
cargas elétricas e das ligações químicas ao longo de suas superfícies
internas.
Canais de potássio permitem a passagem de íons potássio, através da
membrana celular, aproximadamente 1.000 vezes mais facilmente do que
permitem íons sódio. Esse alto grau de seletividade não pode ser explicado
inteiramente pelo diâmetro molecular dos íons, já que os íons potássio são
levemente maiores do que os de sódio. Qual é, então, o mecanismo para
essa notável seletividade iônica? Essa pergunta foi parcialmente respondida
quando a estrutura do canal de potássio de uma bactéria foi determinada
por cristalografia de raios X. Foi descoberto que os canais de potássio têm a
estrutura tetramérica, consistindo em quatro subunidades proteicas
idênticas, envolvendo o poro central (Fig. 4-4). No topo do poro do canal
existem alças que formam filtro de seletividade estreita. Revestindo o filtro
de seletividade encontram-se oxigênios carbonílicos. Quando íons potássio
hidratados entram no filtro de seletividade, eles interagem com os oxigênios
carbonílicos e perdem a maioria das suas moléculas de água ligadas,
permitindo a passagem dos íons potássio desidratados pelo canal. Os oxigênios carbonílicos estão muito afastados, porém, para permitir que eles
interajam de perto com os íons sódio menores e que são, portanto,
eficazmente excluídos pelo filtro de seletividade na passagem pelo poro.
Acredita-se que os diferentes filtros de seletividade para os vários tipos de
canais iônicos são determinantes, em grande parte, na especificidade dos
diferentes canais para cátions ou ânions, ou para íons particulares, tais como
sódio (Na + + ++ ), potássio (K ) e cálcio (Ca), que ganham acesso aos canais.
Uma das mais importantes proteínas canais, o conhecido canal de sódio,
tem apenas 0,3 a 0,5 nanômetro de diâmetro, mas, o que é mais importante,
a superfície interna desse canal tem forte carga negativa, como mostrado
pelos sinais negativos no interior da proteína canal no painel superior
da Figura 4-5. Essas fortes cargas negativas podem puxar os íons sódio
desidratados para dentro desses canais, na verdade, afastando os íons sódio
das moléculas de água que os hidratam. Uma vez no canal, os íons sódio se
dispersam em qualquer direção, de acordo com as leis usuais de difusão.
Desse modo, o canal de sódio é altamente seletivo para a passagem de íons
sódio.
Figura 4-4. A estrutura do canal de potássio. O canal é composto de quatro subunidades (apenas duas são mostradas), cada uma com duas hélices transmembrana. O estreito filtro de seletividade é formado pelas alças do poro e os oxigênios carbonílicos forram os muros do filtro de seletividade, formando sítios para a ligação transiente dos íons desidratados de potássio. A interação dos íons potássio com os oxigênios carbonílicos faz com que os íons potássio percam as moléculas de água ligadas, permitindo a passagem dos íons potássio desidratados pelo poro.
Figura 4-5. Transporte de íons sódio e potássio através das proteínas canais. Também são mostradas as mudanças conformacionais nas moléculas de proteína para abrir e fechar as “comportas” dos canais.
As Comportas das Proteínas Canais. As comportas das proteínas
canais fornecem meio para controlar a permeabili dade iônica dos canais.
Esse mecanismo é mostrado nos dois painéis da Figura 4-5 para os
controles da seletividade dos íons potássio e sódio. Acredita-se que algumas
dessas com por tas sejam extensões da molécula, como se fossem comportas,
semelhantes às das proteínas transportadoras que podem ocluir a abertura
do canal ou podem ser removidas dessa abertura por alteração da
conformação da própria molécula de proteína.
A abertura e o fechamento desses canais podem ser controlados por dois
modos:
1. Por variações da voltagem. No caso de ativação da comporta por
voltagem, a conformação molecular do canal ou das suas ligações
químicas reage ao potencial elétrico através da membrana celular. Por
exemplo, no painel superior da Figura 4-5, uma forte carga negativa no
lado interno da membrana celular, poderia presumivelmente fazer com
que as comportas externas do canal do sódio permanecessem fechadas;
de modo inverso, se o lado interno da membrana perdesse sua carga
negativa, essas comportas poderiam de modo abrupto se abrir,
permitindo que o sódio entrasse na célula, passando pelos poros de
sódio. Esse processo é o mecanismo básico para a geração de potenciais
de ação nas fibras nervosas responsáveis pelos sinais nervosos. No
painel inferior da Figura 4-5, as comportas para o potássio ficam
localizadas na extremidade intracelular dos canais de potássio e se abrem
quando a parte interna da membrana celular fica positivamente
carregada. A abertura desses canais é responsável, em parte, pelo
término do potencial de ação, um processo discutido com mais detalhes
no Capítulo 5.
2. Por controle químico (por ligantes). Algumas comportas das proteínas
canais dependem da ligação de substâncias químicas (ou ligante) com a
proteína, que causa alteração conformacional da proteína ou de suas
ligações químicas na molécula da proteína que abre ou fecha sua
comporta. Um dos mais importantes exemplos de controle químico é o
efeito da acetilcolina no chamado canal de acetilcolina. A acetilcolina
abre a comporta desse canal, formando poro negativamente carregado,
com diâmetro de cerca de 0,65 nanômetro, que permite a passagem de
moléculas sem carga ou de íons positivos menores que seu diâmetro.
Esse tipo de comporta é extremamente importante para a transmissão dos
sinais nervosos de célula nervosa para outra (Cap. 46) e das células
nervosas para as células musculares, para causar a contração muscular
(Cap. 7).
Estado Aberto versus Estado Fechado dos Canais com
Controle. A Figura 4-6A mostra a característica interessante da maioria
dos canais controlados por voltagem. Essa figura mostra dois registros da
corrente elétrica que flui por canal único (isolado) de sódio, sob gradiente
de potência aproximado de 25 milivolts, através da membrana. Observe que
o canal conduz ou não conduz corrente elétrica, ou seja, é do tipo “tudo ou
nada”. Isto é, a comporta do canal abre de estalo e, em seguida, fecha
também de estalo, com cada perío do do estado aberto do canal durando
apenas fração de milissegundo a vários milissegundos, o que demonstra a
extrema rapidez com que as alterações podem ocorrer durante a abertura e o
fechamento das comportas moleculares dos canais moleculares da proteína.
Em determinado potencial de voltagem, o canal pode permanecer fechado
por todo o tempo, ou por quase todo o tempo, enquanto em outro nível de
voltagem pode permanecer aberto por todo o tempo, ou por quase todo o
tempo. Em voltagens intermediárias, como mostrado na figura, o canal
tende a abrir e fechar subitamente de modo intermitente, resultando em
fluxo médio da corrente que se situa entre os valores mínimo e máximo.
Figura 4-6. A, Registro do fluxo de corrente por um canal de sódio, dependente da voltagem isolado, demonstrando o princípio “tudo ou nada” da abertura e do fechamento do canal. B, O método de “fixação de placas” (patch-clamp) para o registro do fluxo corrente por canal proteico isolado. À esquerda, o registro é realizado em “placa” da membra na celular viva. À direita, o registro é em placa de membrana retirada da célula.
Método da Fixação de Placa (Patch-Clamp) para Registrar a
Corrente Iônica que Flui por Canais Únicos. O método de “fixação
de placa” (patch-clamp), para o registro do fluxo de uma corrente iônica
através de 1 único canal proteico isolado, é ilustrado na Figura 4-6B. De
forma muito simplificada, uma micropipeta com diâmetro de apenas 1 ou 2
micrômetros é colocada sobre a parte externa da membrana celular. Em
seguida, é feita sucção pela pipeta para aspirar a membrana contra a ponta
da pipeta, o que cria uma selagem entre a ponta da pipeta e a membrana
celular. O resultado é placa diminuta de membrana que se “fixa” na ponta
da pipeta, por onde o fluxo de corrente elétrica pode ser registrado.
Alternativamente, como mostrado na parte inferior direita na Figura 4-6B,
a pequena placa de membrana celular na ponta da pipeta pode ser removida
da célula. A pipeta com a placa selada é então colocada em solução livre, o
que permite que as voltagens dentro da micropipeta e na solução externa
possam ser modificadas à vontade. Também, a voltagem entre os dois lados
da membrana pode ser fixada em um determinado valor.
Foi possível a obtenção de placas suficientemente pequenas para conter só
um canal único proteico na membrana a ser estudada. Por meio da variação
da concentração de diferentes íons, bem como da voltagem através da
membrana, pode-se determinar as características do transporte do canal
isolado, junto com as propriedades de suas comportas.
A DIFUSÃO FACILITADA NECESSITA DE PROTEÍNAS
CARREADORAS DE MEMBRANA
A difusão facilitada é também conhecida como difusão media da por
carreador, porque a substância que é transporta da por esse processo se
difunde através da membrana com a ajuda de uma proteína carreadora
específica para auxiliar. Isto é, o carreador facilita a difusão da substância
para o outro lado.
A difusão facilitada difere, de modo importante, da difusão simples pelo
seguinte modo: apesar de a velocidade da difusão simples, através de um
canal aberto, aumentar em propor ção direta à concentração da substância
difusora, na difusão facilitada a velocidade da difusão tende a um máximo,
designado como V , à medida que a concentração da substância difusora máx
aumenta. Essa diferença entre a difusão simples e a difusão facilitada é
demonstrada na Figura 4-7. Essa figura mostra que, enquanto a
concentração da substância difusora aumenta, a intensidade da difusão
simples continua a aumentar proporcionalmente, mas na difusão facilitada a
velocidade da difusão não pode aumentar acima do nível do V . máx
O que limita a velocidade da difusão facilitada? A resposta provável é o
mecanismo ilustrado na Figura 4-8. Essa figura mostra a proteína
carreadora com poro suficientemente grande para transportar a molécula
específica por parte de seu trajeto. Mostra também um “receptor” de ligação
na parte interna da proteína carreadora. A molécula a ser transportada entra
no poro e se liga. Então, em fração de segundo, ocorre alteração
conformacional ou química na proteína carreadora, de forma que o poro
agora se abre para o lado oposto da membrana. Em razão da ligação do
receptor ser fraca, a movimentação térmica da molécula ligada faz com que
esta se separe e seja liberada no lado oposto da membrana. A velocidade,
com que moléculas podem ser transportadas por esse mecanismo nunca,
pode ser maior do que a velocidade, com que a molécula de proteína
carreadora, pode se alterar entre suas duas conformações. Não obstante,
note especificamente que esse mecanismo permite que a molécula
transportada se mova — ou seja, “se difunda”— em qualquer direção
através da membrana.
Entre as várias substâncias, que atravessam a membrana das células por
difusão facilitada, estão a glicose e a maioria dos aminoácidos. No caso da
glicose, pelo menos 14 membros de uma família de proteínas de membrana (chamadas de GLUT) que transportam moléculas de glicose foram já
descobertas em vários tecidos. Algumas de estas GLUT podem também
transportar vários outros monossacarídeos com estruturas semelhantes à da
glicose, incluindo a galactose e a frutose. Uma delas, a molécula
transportadora de glicose 4 (GLUT4), é ativada pela insulina, que pode
aumentar em 10 a 20 vezes a velocidade da difusão facilitada da glicose nos
tecidos sensíveis à insulina. Esse é o principal mecanismo pelo qual a
insulina controla o uso da glicose pelo organismo, como discutido
no Capítulo 79.
Figura 4-7. Efeito da concentração de substância sobre a velocidade de difusão através da membrana, por difusão simples e por difusão facilitada. Este gráfico mostra que a difusão
facilitada tende para uma velocidade máxima, chamada V . máx
Figura 4-8. Mecanismo postulado para a difusão facilitada.
FATORES QUE AFETAM A VELOCIDADE EFETIVA DA
DIFUSÃO
Até agora, já ficou evidente que muitas substâncias podem se difundir
através da membrana celular. O que em geral é mais importante é a
velocidade efetiva da difusão da substância em determinada direção
desejada. Essa velocidade efetiva é determinada por diversos fatores.
A Intensidade da Difusão Efetiva é Proporcional à Diferença de
Concentração através da Membrana. A Figura 4-9Amostra a
membrana celular com uma maior concentração de uma substância no lado
externo e concentração mais baixa no lado interno. A velocidade com que a
substância vai se difundir para o lado interno é proporcional à concentração
das moléculas no lado externo, porque essa concentração determina quantas moléculas atingem a parte externa da membrana a cada segundo. Ao
contrário, a velocidade com que as moléculas se difundem para o lado
externo é proporcional à sua concentração no lado interno da membrana.
Por essa razão, a velocidade efetiva da difusão para dentro da célula é
proporcional à concentração externa menos a concentração interna, ou:
onde C é a concentração externa e C é a concentração interna. e i
Efeito do Potencial Elétrico da Membrana sobre a Difusão dos
Íons — O “Potencial de Nernst”. Se um potencial elétrico for aplicado
através da membrana, como mostrado na Figura 4-9B, a carga elétrica dos
íons faz com que eles se movam através da membrana mesmo que não
exista diferença de concentração para provocar esse movimento. Assim, no
painel esquerdo da Figura 4-9B, a concentração iônica negativa é a mesma
em ambos os lados da membrana, mas aplicou-se carga positiva ao lado
direito da membrana e carga negativa ao lado esquerdo, criando gradiente
elétrico através da membrana. A carga positiva atrai os íons negativos, ao
passo que a carga negativa os repele. Portanto, a difusão efetiva ocorre da
esquerda para a direita. Depois de algum tempo, grandes quantidades de
íons negativos se moveram para a direita, criando a condição mostrada no
painel direito daFigura 4-9B, no qual se desenvolveu diferença da
concentração iônica na direção oposta à diferença de potencial elétrico.
Agora, a diferença de concentração tende a mover os íons para a esquerda,
enquanto a diferença elétrica tende a movê-los para a direita. Quando a
diferença da concentração aumenta o bastante, os dois efeitos se
contrabalançam. Na temperatura normal do corpo (37 °C), a diferença
elétrica que vai contrabalançar dada diferença de concentração de íons
univalentes + — como íons Na — pode ser determinada pela fórmula a
seguir, chamada equação de Nernst:
na qual FEM é a força eletromotriz (voltagem) entre o lado 1 e o lado 2 da
membrana, C é a concentração no lado 1, e C é a concentração no lado 2. 1 2
Essa equação é extremamente importante para a compreensão da
transmissão dos impulsos nervosos e é discutida com mais detalhes
no Capítulo 5.
Figura 4-9. Efeito da diferença de concentração (A), diferença do potencial elétrico que afeta os íons negativos (B) e da diferença de pressão (C) para causar a difusão das moléculas e íons através da membrana celular.
Efeito da Diferença de Pressão através da Membrana. Algumas
vezes, diferenças consideráveis de pressão se desenvolvem entre os dois
lados de membrana difusível. Essa diferença de pressão ocorre, por
exemplo, na membrana capilar sanguínea, em todos os tecidos do corpo. A
pressão é de cerca de 20 mmHg, maior dentro do capilar do que fora.
Pressão na verdade significa a soma de todas as forças das diferentes
moléculas que se chocam com a determinada área de superfície em certo
instante. Então, ao ter uma pressão maior em um lado da membrana do que
no outro lado, isso significa que a soma de todas as forças das moléculas se
chocando contra o canal em um lado da membrana é maior que do outro
lado. Na maioria das vezes, essa situação é causada por grande número de
moléculas se chocando a cada segundo com um dos lados da membrana do
que no outro lado. O resultado é quantidade maior de energia dispo nível
para causar o movimento efetivo das moléculas do lado de alta pressão para
o lado de menor pressão. Esse efeito é demonstrado na Figura 4-9C, que
mostra um pistão desenvolvendo alta pressão de um lado do “poro”, desse
modo fazendo com que mais moléculas se choquem contra um lado do poro
e assim mais moléculas “se difundam” para o outro lado.
OSMOSE ATRAVÉS DE MEMBRANAS SELETIVAMENTE
PERMEÁVEIS — “DIFUSÃO EFETIVA” DE ÁGUA
De longe, a substância mais abundante que se difunde através da membrana
celular é a água. A água se difunde usualmente nas duas direções, através
da membrana das hemácias, a cada segundo, em volume correspondente a
cerca de 100 vezes o volume da própria célula. Todavia, nas condições
normais, a quantidade que se difunde nas duas direções é tão precisamente
balanceada que o movimento efetivo da água é zero. Consequentemente, o
volume da célula permanece constante. Entretanto, sob certas
circunstâncias, pode-se desenvolver diferença da concentração da água
através da membrana. Quando ocorre essa diferença de concentração para a
água, passa a existir um movimento efetivo de água através da membrana
celular, fazendo com que a célula inche ou encolha, dependendo da direção
do movimento da água. Esse processo efetivo de movimento da água
causado por sua diferença de concentração é denominado osmose.
Para ilustrar a osmose, vamos considerar as condições mostradas
na Figura 4-10, com água pura de um lado da membrana celular e solução
de cloreto de sódio do outro lado. As moléculas de água passam facilmente
através da membrana celular para o outro lado, ao passo que os íons sódio e
cloreto só passam com dificuldade. Assim, a solução de cloreto de sódio é
na verdade uma mistura de moléculas de água permeáveis e de íons sódio e
cloreto não permeáveis, sendo a membrana tida como seletivamente
permeável para a água, mas bem menos para os íons sódio e cloreto.
Contudo, a presença do sódio e do cloreto deslocou parte das moléculas de
água do lado da membrana, no qual estão presen tes esses íons, e por
conseguinte reduziu a concentração de moléculas de água para menos do
que a concentração da água pura. Como resultado, no exemplo da Figura 4-
10, mais moléculas de água se chocam com os canais do lado esquerdo,
onde está a água pura, do que do lado direito, onde a concentração de água
foi reduzida. Dessa maneira, o movimen to efetivo de água ocorre da
esquerda para a direita — ou seja, ocorre osmose da água pura para a
solução de cloreto de sódio.
Figura 4-10. Osmose na membrana celular, quando a solução de cloreto de sódio é colocada em um lado da membrana e a água é colocada do outro lado.
Pressão Osmótica
Se na Figura 4-10 fosse aplicada pressão sobre a solução de cloreto de
sódio, a osmose da água para essa solução poderia diminuir, parar, ou até
mesmo se inverter. A quantidade de pressão necessária para interromper a
osmose é conhecida como pressão osmótica da solução de cloreto de sódio.
O princípio de diferença de pressão contrária à osmose é demonstrado
na Figura 4-11, que mostra a membrana seletivamente permeável separando
duas colunas de líquido, uma contendo água pura e a outra contendo a
solução de água e qualquer soluto que não possa penetrar a membrana. A
osmose de água da coluna B para a coluna A faz com que o nível do líquido
nas colunas fique cada vez mais diferente até que eventualmente a diferença
de pressão desenvolvida entre os dois lados da membrana seja
suficientemente intensa para se opor ao efeito osmótico. A diferença de pressão através da membrana nesse ponto é igual à pressão osmótica da
solução que contém o soluto não difusível.
Figura 4-11. Demonstração da pressão osmótica causada por osmose em membrana semipermeável.
A Importância do Número das Partículas Osmóticas
(Concentração Molar) na Determinação da Pressão Osmótica. A
pressão osmótica exercida pelas partículas em solução, sejam elas
moléculas ou íons, é determinada pelo número dessas partículas por
unidade de volume de líquido, e não pela massa das partículas. A razão
para isso é que cada partícula em solução, independentemente de sua massa,
exerce em média a mesma quantidade de pressão contra a membrana. Isto é,
partículas grandes com mais massa (m) do que as pequenas partículas se movem com velocidade menor (v). As partículas pequenas movem-se com
maior velocidade, de modo tal que suas energias cinéticas médias (k)
determinadas pela equação
são as mesmas para cada pequena partícula, bem como para cada partícula
maior. Consequentemente, o fator que determina a pressão osmótica de uma
solução é a concentração da solução em termos de número de partículas
(que é o mesmo que a concentração molar, no caso de molécula não
dissociada), e não em termos de massa do soluto.
“Osmolalidade” — O Osmol. Para expressar a concentração da solução
em termos do número de partículas, a unidade chamada osmol é usada no
lugar de gramas.
Um osmol é o peso de 1 molécula grama de soluto osmoticamente ativo.
Desse modo, 180 gramas de glicose, que correspondem a 1 molécula grama
de glicose, equivalem a 1 osmol de glicose porque a glicose não se dissocia
em íons. Caso um soluto se dissocie em dois íons, 1 molécula grama desse
soluto vai corresponder a 2 osmóis, porque o número de partículas
osmoticamente ativas é agora duas vezes maior do que para o soluto não
dissociado. Assim, quando totalmente dissociado, 1 molécula grama de
cloreto de sódio, 58,5 gramas, é igual a 2 osmóis.
Nesse caso, a solução que contém 1 osmol de soluto, dissolvido em cada
quilograma de água, é conhecida por ter osmolalidade de 1 osmol por
quilograma, e a solução com 1/1.000 osmol dissolvido por quilograma tem
osmolalidade de 1 miliosmol por quilograma. A osmolalidade normal dos
líquidos extra e intracelular é de cerca de 300 miliosmois por quilograma de
água.