Tratado de Fisiologia Médica
Crontrole Autônomo da Acomodação e da Abertura Pupilar
olho dominante, então, ficar cego, a visão no olho reprimido poderá ser desenvolvida somente até certa extensão, nos adultos, porém, muito mais em
crianças pequenas. Isso demonstra que a acuidade visual é muito dependente do desenvolvimento apropriado das conexões sinápticas do sistema nervoso central
dos olhos. De fato, até anatomicamente, o número de conexões neuronais diminui nas áreas do córtex visual que, nas condições normais, receberiam sinais do olho
reprimido.
CONTROLE AUTÔNOMO DA ACOMODAÇÃO E DA
ABERTURA PUPILAR
NERVOS AUTÔNOMOS DOS OLHOS
O olho é inervado por fibras nervosas parassimpáticas e simpáticas, como
mostra a Figura 52-11. As fibras pré-ganglionares parassimpáticas se
originam no núcleo de Edinger-Westphal (a parte do núcleo visceral do
terceiro par de nervo craniano) e, depois, passam pelo terceiro nervo até o
gânglio ciliar, situado imediatamente atrás do olho. Aí, as fibras pré-
ganglionares fazem sinapse com neurônios parassimpáticos pós-
ganglionares que, por sua vez, enviam fibras pelos nervos ciliares para o
globo ocular. Esses nervos excitam (1) o músculo ciliar que controla o foco
do cristalino; e (2) o esfíncter da íris, que causa constrição da pupila.
A inervação simpática do olho se origina nas células do corno
intermediolateral do primeiro segmento torácico da medula espinal. Daí, as
fibras simpáticas entram na cadeia simpática e sobem para o gânglio
cervical superior, onde fazem sinapse com os neurônios pós-ganglionares.
As fibras simpáticas pós-ganglionares então se propagam ao longo das
superfícies da artéria carótida e artérias, sucessivamente menores, até que
cheguem ao olho. Ali, as fibras simpáticas inervam as fibras radiais da íris
(que aumentam o diâmetro pupilar), bem como vários músculos
extraoculares do olho, discutidos adiante, em relação à síndrome de Horner.
Figura 52-11. Inervação autônoma do olho, mostrando também o arco reflexo do reflexo à luz. (Modificada de Ranson SW, Clark SL: Anatomy of the Nervous System: Its Development and Function, 10th ed. Philadelphia: WB Saunders, 1959.)
CONTROLE DA ACOMODAÇÃO (FOCALIZAÇÃO DOS
OLHOS)
O mecanismo de acomodação — isto é, o mecanismo que focaliza o sistema
do cristalino do olho — é essencial para o alto grau de acuidade visual. A
acomodação resulta da contração ou relaxamento do músculo ciliar do olho.
A contração causa aumento do poder refrativo do cristalino, como
explicado no Capítulo 50, e o relaxamento causa diminuição desse poder.
Como a pessoa ajusta a acomodação para manter os olhos focalizados o
tempo todo?
A acomodação do cristalino é regulada por um mecanismo de feedback
negativo que, automaticamente, ajusta o poder refrativo do cristalino para
obter o maior grau de acuidade visual. Quando os olhos focalizam algum
objeto distante e precisam, subitamente, focalizar objeto próximo, o
cristalino normalmente se acomoda para melhor acuidade da visão, em
menos de 1 segundo. Embora o mecanismo do controle preciso, que causa
essa focalização rápida e precisa do olho, ainda não esteja claro, são
conhecidas as seguintes características.
Primeiro, quando os olhos subitamente mudam a distância do ponto de
fixação, o cristalino muda seu poder de convergência na direção apropriada
para atingir novo estado de foco em fração de segundo. Segundo, diferentes
tipos de indícios ajudam a mudar a força do cristalino na direção
apropriada:
1. A aberração cromática parece ser importante. Isso significa que os
raios de luz vermelha focalizam posteriormente aos raios de luz azul,
porque o cristalino curva os raios azuis mais que os raios vermelhos. Os
olhos parecem ser capazes de detectar quais desses dois tipos de raios
estão no melhor foco, e esse indício retransmite informações para o
mecanismo de acomodação, com o objetivo de aumentar ou diminuir o
poder de convergência do cristalino.
2. Quando os olhos se fixam em objeto próximo, eles precisam convergir.
Os mecanismos neurais para convergência causam sinal simultâneo para
regular a força do cristalino.
3. Como a fóvea se situa em depressão escavada pouco mais profunda que
o restante da retina, a nitidez de foco na profundidade da fóvea é
diferente da nitidez de foco nas margens. Essa diferença também dá‐
indícios sobre o modo pelo qual a força do cristalino precisa ser mudada.
4. O grau de acomodação do cristalino oscila discre tamente todo o tempo
na frequência de até duas vezes por segundo. A imagem visual fica mais
clara quando a oscilação do cristalino está mudando na direção
apropriada e piora quando a força do cristalino está mudando na direção
errada. Isso poderia dar indício rápido quanto ao modo pelo qual a força
do cristalino precisa mudar para proporcionar foco apropriado.
As áreas corticais cerebrais que controlam a acomodação trabalham em
estreita correlação, paralelas às que controlam os movimentos de fixação
dos olhos. A análise dos sinais visuais, nas áreas corticais 18 e 19 de
Brodmann e a transmissão de sinais motores para o músculo ciliar ocorrem
pela área pré-tectal no tronco cerebral e depois pelo núcleo de Edinger-
Westphal, e, por fim, por meio das fibras nervosas parassimpáticas para os
olhos.
CONTROLE DO DIÂMETRO PUPILAR
A estimulação dos nervos parassimpáticos também excita o músculo
esfíncter da pupila, diminuindo, assim, a abertura pupilar; esse processo é
chamado miose. Inversamente, a estimulação dos nervos simpáticos excita
as fibras radiais da íris e causa dilatação da pupila, chamada midríase.
Reflexo Fotomotor. Quando a luz incide sobre os olhos, as pupilas se
contraem, uma reação chamada reflexo fotomotor. A via neuronal, para esse
reflexo, é demonstrada pelas duas setas negras superiores na Figura 52-11.
Quando a luz invade a retina, alguns dos impulsos resultantes passam dos nervos ópticos para os núcleos pré-tectais. Daí, impulsos secundários
passam para o núcleo de Edinger-West phal e, por fim, voltam pelos nervos
parassimpáticos para a contração do esfíncter da íris. Inversamente, na
escuridão, o reflexo é inibido, o que resulta em dilatação da pupila.
A função do reflexo luminoso é a de ajudar o olho a se adaptar, de forma
extremamente rápida, às mudanças das condições de luminosidade, como
explicado no Capítulo 51. Os limites do diâmetro pupilar são de cerca de
1,5 milímetro, no lado pequeno e de 8 milímetros, no lado grande. Portanto,
como o brilho da luz na retina aumenta com o quadrado do diâmetro
pupilar, a faixa de adaptação à luz e ao escuro que pode ser ocasionada pelo
reflexo pupilar é de cerca de 30 para 1 — isto é, até 30 vezes mais de
variação da quantidade de luz que entra no olho.
Reflexos ou Reações Pupilares nas Doenças do Sistema Nervoso Central.
Algumas doenças do sistema nervoso central danificam a transmissão nervosa
dos sinais visuais das retinas para o núcleo de Edinger-Westphal, bloqueando, assim, algumas vezes, os reflexos pupilares. Tais bloqueios podem ocorrer como
resultado de sífilis do sistema nervoso central, alcoolismo, encefalite, e assim por diante. O bloqueio, em geral, ocorre na região pré-tectal do tronco cerebral, embora possa resultar da destruição de algumas das fibras delgadas nos nervos
ópticos.
As fibras nervosas finais na via que atravessa a área pré-tectal para o núcleo de
Edinger-Westphal são, em sua maioria, do tipo inibitório. Quando seu efeito inibitório é perdido, o núcleo se torna cronicamente ativo, fazendo com que as pupilas continuem na maior parte do tempo contraídas, além de falhar em
responder à luz.
Ainda assim, as pupilas podem se contrair um pouco mais, se o núcleo de
Edinger-Westphal for estimulado por meio de alguma outra via. Por exemplo,
quando os olhos se fixam em objeto próximo, os sinais que causam acomodação
do cristalino e os que causam convergência dos dois olhos provocam ao mesmo tempo grau leve de constrição pupilar. Esse fenômeno é chamado reação pupilar
à acomodação. A pupila que deixa de responder à luz, mas continua respondendo
à acomodação, sendo também de diâmetro reduzido (pupila de Argyll Robertson) é sinal importante para o diagnóstico de doenças do sistema nervoso central, como sífilis.
Síndrome de Horner. Os nervos simpáticos do olho são ocasionalmente
interrompidos. A interrupção ocorre, com frequência na cadeia simpática cervical,
o que causa a patologia clínica chamada síndrome de Horner. Essa síndrome
consiste nos seguintes efeitos: primeiro, devido às interrupções das fibras
nervosas simpáticas para o músculo dilatador da pupila, a pupila continua
persistentemente contraída apresentando diâmetro menor do que a pupila do olho
contralateral. Segundo, a pálpebra superior cai porque normalmente ela é mantida
na posição aberta durante as horas da vigília, em parte, por contração de fibras
musculares lisas imersas na pálpebra superior e inervadas pelas fibras
simpáticas. Assim, a destruição dos nervos simpáticos torna impossível abrir a
pálpebra superior de modo muito amplo como normalmente. Terceiro, os vasos
sanguíneos no lado correspondente da face e da cabeça ficam persistentemente
dilatados. Quarto, a sudorese (que exige sinais dos nervos simpáticos) não pode
ocorrer no lado da face e da cabeça afetado pela síndrome de Horner.
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