Tratado de Fisiologia Médica
Visão Geral da Regulação de Cálcio e Fosfato no Líquido Extracelular e no Plasma
CAPÍTULO 80
Paratormônio, Calcitonina,
Metabolismo de Cálcio e Fosfato,
Vitamina D, Ossos e Dentes
A fisiologia do metabolismo de cálcio e fosfato, a formação dos ossos e dos
dentes, bem como a regulação da vitamina D, do paratormônio (PTH) e da
calcitonina estão intimamente interligadas. A concentração extracelular do
cálcio iônico, por exemplo, é determinada pela interação entre a absorção
intestinal, a excreção renal e a captação/liberação óssea desse elemento;
cada um desses processos, por sua vez, é regulado pelos hormônios aqui
mencionados. Como a homeostasia do fosfato e a do cálcio estão
estritamente associadas, elas serão discutidas em conjunto, neste Capítulo.
VISÃO GERAL DA REGULAÇÃO DE CÁLCIO E FOSFATO
NO LÍQUIDO EXTRACELULAR E NO PLASMA
A concentração de cálcio no líquido extracelular é, normalmente, regulada
de forma precisa, raras vezes apresentando elevação ou baixa de algumas
porcentagens a mais ou a menos do valor normal em torno de 9,4 mg/dL, o
que equivale a 2,4 mmol de cálcio por litro. Esse controle preciso é
essencial, já que o cálcio desempenha um papel fundamental em muitos
processos fisiológicos, incluindo a contração dos músculos esqueléticos,
cardíacos e lisos, a coagulação sanguínea e a transmissão de impulsos
nervosos, citando apenas alguns deles. As células excitáveis, como os
neurônios, são sensíveis às alterações das concentrações do cálcio iônico;
assim, aumentos da concentração deste elemento iônico acima do normal
(hipercalcemia) provocam depressão progressiva do sistema nervoso,
enquanto a diminuição dessa concentração (hipocalcemia) causa mais
excitação desse sistema.
Uma característica importante da regulação extracelular do cálcio repousa
no fato de que apenas 0,1% deste elemento corporal total encontra-se no
líquido extracelular, cerca de 1% nas células e suas organelas, e o restante é
armazenado nos ossos. Portanto, os ossos podem servir como amplos
reservatórios, liberando cálcio em caso de queda na concentração do líquido
extracelular e armazenando o cálcio, em casos de excesso.
Aproximadamente 85% do fosfato corporal se encontram armazenados
nos ossos, 14% a 15% nas células e menos de 1% no líquido extracelular.
Embora a concentração de fosfato no líquido extracelular não seja tão bem
regulada como a concentração de cálcio, o fosfato desempenha diversas
funções importantes, sendo controlado por muitos dos fatores reguladores
do cálcio.
CÁLCIO NO PLASMA E NO LÍQUIDO INTERSTICIAL
O cálcio no plasma está presente em três formas, como mostrado na Figura
80-1: (1) cerca de 41% (1 mmol/L) do cálcio encontram-se combinado às proteínas plasmáticas e, nessa forma, não é difusível através da membrana
dos capilares; (2) aproximadamente 9% do cálcio (0,2 mmol/L) são
difusíveis através da membrana dos capilares, mas está combinado às
substâncias aniônicas do plasma e líquidos intersticiais (p. ex., citrato e
fosfato) e, desse modo, não é ionizado; e (3) os 50% restantes do cálcio no
plasma apresentam-se como difusíveis através da membrana dos capilares e
ionizados.
Dessa forma, os líquidos plasmáticos e intersticiais mostram concentração
normal do cálcio iônico de aproximadamente 1,2 mmol/L (ou 2,4 mEq/L,
por ser íon divalente), nível correspondente apenas à metade da
concentração plasmática total desse elemento. Esse cálcio iônico é a forma
relevante para a maior parte das funções do cálcio no corpo, incluindo seu
efeito sobre o coração, o sistema nervoso e a formação óssea.
Figura 80-1. ++ Distribuição de cálcio iônico (Ca) difusível, mas não ionizado, unido a ânions, e cálcio não difusível, ligado a proteínas no plasma sanguíneo.
FOSFATO INORGÂNICO NOS LÍQUIDOS
EXTRACELULARES
O fosfato inorgânico no plasma se encontra, em grande parte, sob duas
formas: HPO = − = e H PO . A concentração de HPO é cerca de 1,05 4 2 4 4
mmol/L, enquanto a de H − PO oscila em torno de 0,26 mmol/L. Quando a 2 4
quantidade total de fosfato no líquido extracelular aumenta, também se
eleva a quantidade de cada um desses dois tipos de íons fosfato. Além
disso, quando o pH do meio extracelular fica mais ácido, há aumento e
declínio relativos em H − = PO e HPO respectivamente, enquanto ocorre o 2 4 4 ,
oposto quando esse meio fica alcalino. Essas relações foram apresentadas
na discussão do equilíbrio acidobásico, no Capítulo 31.
Como é difícil a determinação química das quantidades exatas de HPO = e 4
H − PO no sangue, a quantidade total do fosfato costuma ser expressa em 2 4
termos de miligramas de fósforo por decilitro (100 mL) de sangue. A
quantidade total média do fósforo inorgânico, representado por ambos os
íons fosfato, está por volta de 4 mg/dL, variando entre os limites normais de
3 a 4 mg/dL nos adultos e 4 a 5 mg/dL nas crianças.
EFEITOS FISIOLÓGICOS NÃO ÓSSEOS DAS
ALTERAÇÕES DAS CONCENTRAÇÕES DE CÁLCIO E DE
FOSFATO NOS LÍQUIDOS CORPORAIS
A variação dos níveis de fosfato, no líquido extracelular, para valores bem
abaixo do normal até duas a três vezes a mais, não provoca efeitos
imediatos importantes no organismo. Em contraste, até leves aumentos ou
quedas do íon cálcio no líquido extracelular podem causar efeitos
fisiológicos extremos e imediatos. Além disso, a hipocalcemia ou a
hipofosfatemia crônicas reduzem intensamente a mineralização óssea, como
é explicado adiante, neste Capítulo.
A Hipocalcemia Causa Excitação do Sistema Nervoso e Tetania.
Quando a concentração de íons cálcio no líquido extracelular cai abaixo do normal, o sistema nervoso fica progressivamente mais excitável, pois isso
leva ao aumento da permeabilidade da membrana neuronal dos íons sódio,
permitindo o desencadeamento natural de potenciais de ação. Em
concentrações plasmáticas do cálcio iônico de aproximadamente 50%
abaixo do normal, as fibras nervosas periféricas ficam tão excitáveis, a
ponto de induzir descargas espontâneas, desencadeando uma série de
impulsos nervosos; tais impulsos, por sua vez, são transmitidos até os
músculos esqueléticos periféricos, provocando a contração muscular
tetânica. Consequentemente, a hipocalcemia causa tetania e,
ocasionalmente, crises epilépticas devido à sua ação de aumento da
excitabilidade do cérebro.
A Figura 80-2 exibe a tetania na mão, que costuma ocorrer, antes do
desenvolvimento desse quadro, em muitas outras partes do corpo. Esse
evento recebe o nome de “espasmo carpopédico”.
Em geral, a tetania ocorre quando a concentração sanguínea de cálcio
diminui de seu nível normal de 9,4 mg/dL para cerca de 6 mg/dL, o que
corresponde a apenas 35% abaixo da concentração normal desse elemento;
a concentração letal costuma ser de aproximadamente 4 mg/dL.
Em animais de laboratório, a hipocalcemia extrema pode ocasionar outros
efeitos raramente evidentes em pacientes humanos, como dilatação
acentuada do coração, alterações nas atividades enzimáticas celulares,
aumento da permeabilidade da membrana em algumas células (além dos
neurônios) e distúrbio na coagulação sanguínea.
Figura 80-2. Tetania hipocalcêmica na mão, denominada espasmo carpopédico.
A Hipercalcemia Deprime o Sistema Nervoso e a Atividade
Muscular. Quando o nível de cálcio nos líquidos corporais se eleva acima
do normal, o sistema nervoso fica deprimido, e as atividades reflexas do
sistema nervoso central tornam-se lentificadas. Além disso, o aumento da
concentração de cálcio iônico reduz o intervalo QT do coração e provoca
falta de apetite e constipação, provavelmente em decorrência da
contratilidade deprimida das paredes musculares do trato gastrointestinal.
Esses efeitos depressores começam a aparecer quando o nível sanguíneo
do cálcio se eleva acima de 12 mg/dL, podendo ser intensificados no
momento em que o nível desse elemento passa de 15 mg/dL. Quando o
nível do cálcio ultrapassa 17 mg/dL no sangue, é provável a ocorrência de
precipitação dos cristais de fosfato de cálcio por todo o corpo; essa
condição é discutida, adiante, em associação à intoxicação paratireóidea.
ABSORÇÃO E EXCREÇÃO DE CÁLCIO E FOSFATO Absorção Intestinal e Excreção Fecal de Cálcio e Fosfato. Os
valores usuais da ingestão são em torno de 1.000 mg/dia de cálcio e fósforo,
separadamente, o que corresponde às quantidades presentes em 1 litro de
leite. Normalmente, os cátions divalentes, como os íons cálcio, são mal
absorvidos pelos intestinos. Entretanto, como discutido adiante, a vitamina
D promove a absorção de cálcio pelos intestinos, e cerca de 35% (350
mg/dia) do cálcio ingerido costuma ser absorvido; o cálcio, remanescente
no intestino, é excretado nas fezes. Quantidade adicional de 250 mg/dia de
cálcio chega aos intestinos por meio dos sucos gastrointestinais secretados e
pelas células descamadas da mucosa. Dessa forma, aproximadamente 90%
(900 mg/dia) da ingestão diária de cálcio é excretada nas fezes (Figura 80-
3).
A absorção intestinal de fosfato ocorre com facilidade. Exceto pela porção
de fosfato excretada nas fezes, em combinação ao cálcio não absorvido,
quase todo o fosfato da dieta é absorvido para o sangue do intestino e
depois excretado na urina.
Figura 80-3. Visão geral da troca de cálcio entre os diferentes compartimentos teciduais, em pessoa submetida à ingestão de 1.000 mg de cálcio por dia. Note que grande parte do cálcio ingerido é, normalmente, eliminada nas fezes, embora os rins tenham a capacidade de excretar quantidades abundantes de cálcio, por meio de redução na reabsorção tubular de cálcio.
Excreção Renal de Cálcio e Fosfato. Por volta de 10% (100 mg/dia)
do cálcio ingerido são excretados na urina. Cerca de 41% do cálcio
plasmático estão ligados às proteínas plasmáticas e, portanto, não é filtrado
pelos capilares glomerulares. O restante é combinado aos ânions como
fosfato (9%) ou ionizado (50%), sendo filtrado pelos glomérulos para os
túbulos renais.
Normalmente, os túbulos renais reabsorvem 99% do cálcio filtrado e em
torno de 100 mg/dia são excretados na urina. Aproximadamente 90% do
cálcio no filtrado glomerular são reabsorvidos nos túbulos proximais, nas
alças de Henle e nos túbulos distais iniciais.
Nos túbulos distais finais e nos ductos coletores iniciais, a reabsorção dos
10% remanescentes é seletiva, dependendo da concentração do cálcio
iônico no sangue.
Quando a concentração do cálcio é baixa, essa reabsorção se mostra
acentuada; assim, quase nenhum cálcio é perdido na urina. Inversamente,
até mesmo um aumento insignificante da concentração sanguínea de cálcio
iônico acima do normal eleva acentuadamente a excreção desse elemento.
Veremos adiante, neste Capítulo, que o PTH representa o fator mais
importante de controle dessa re absorção de cálcio nas porções distais do
néfron e, consequentemente, de controle da intensidade da excreção desse
elemento.
A excreção renal do fosfato é controlada por um mecanismo de
transbordamento, como explicado no Capítulo 30. Ou seja, quando a
concentração de fosfato no plasma está abaixo do valor crítico de
aproximadamente 1 mmol/L, todo o fosfato no filtrado glomerular é reabsorvido, não ocorrendo qualquer perda pela urina. No entanto, acima