Tratado de Fisiologia Médica
Anormalidades da Onda T
bizarros (p. ex., ondas Q especialmente proeminentes), voltagem reduzida e
alargamento do QRS.
Figura 12-22. Eletrocardiogramas de infarto das paredes anteriores e posteriores que ocorreram há cerca de 1 ano, mostrando a onda Q na derivação I no infarto de parede anterior e a onda Q na derivação III no infarto da parede posterior.
Corrente de Lesão na Angina Pectoris. “Angina pectoris” significa
dor vinda do coração, sentida nas regiões peitorais do tórax superior. Essa
dor usualmente se irradia para o lado esquerdo do pescoço e para baixo, no
braço esquerdo. Tipica mente, a dor é causada por isquemia moderada do
coração. Em geral, a dor não é sentida enquanto a pessoa está em repouso,
mas logo que ela sobrecarrega o coração a dor aparece.
Às vezes, aparece potencial de lesão no ECG durante uma crise grave de
angina pectoris, porque a insuficiência coronariana passa a ser
suficientemente intensa para impedir a repolarização adequada de algumas
áreas do coração durante a diástole.
ANORMALIDADES DA ONDA T
Antes, neste Capítulo, foi apontado que a onda T é normalmente positiva
em todas as derivações bipolares-padrão dos membros e que isso é causado
pela repolarização do ápice e das superfícies externas dos ventrículos, antes
das superfícies intraventriculares. Isto é, a onda T fica anormal quando não ocorre a sequência normal da repolarização. Vários fatores podem alterar
essa sequência de repolarização.
Efeito da Condução Lenta da Onda de Despolarização
nas Características da Onda T
Voltando para a Figura 12-14, nota-se que o complexo QRS é considerado
alargado (prolongado). A razão para esse alargamento é o retardo da
condução no ventrículo esquerdo, resultante do bloqueio do ramo esquerdo.
Essa condução retardada faz com que o ventrículo esquerdo fique
despolarizado cerca de 0,08 segundo após a despolarização do ventrículo
direito, o que dá grande vetor QRS médio para a esquerda. Entretanto, os
períodos refratários das massas musculares ventriculares esquerda e direita
não são muito diferentes uns dos outros. Portanto, o ventrículo direito
começa a se repolarizar muito antes do ventrículo esquerdo; isso causa forte
positividade no ventrículo direito e negatividade no ventrículo esquerdo, no
momento em que a onda T está se desenvolvendo. Em outras palavras, o
eixo médio da onda T está agora desviado para a direita, o que é contrário
ao eixo elétrico médio do complexo QRS no mesmo ECG. Assim, quando a
condução do impulso de despolarização pelos ventrículos é muito retardada,
a onda T tem quase sempre polaridade oposta à do complexo QRS.
Despolarização Encurtada em Porções do Músculo
Ventricular Pode Causar Anormalidades da Onda T
Se a base dos ventrículos tiver período de despolarização anormalmente
curto, isto é, um potencial de ação encurtado, a repolarização dos
ventrículos não começará no ápice como ocorre normalmente. Em vez
disso, a base dos ventrículos se repolarizaria antes do ápice, e o vetor de
repolarização apontaria do ápice em direção à base do coração, oposto ao vetor padrão de repolarização. Consequentemente, a onda T em todas as
três derivações-padrão seria negativa, em vez de positiva. Assim, o simples
fato de que a base dos ventrículos tem período encurtado de despolarização
é suficiente para causar mudanças pronunciadas na onda T, até mesmo a
ponto de alterar toda a polaridade da onda T, como mostrado na Figura 12-
23.
Isquemia leve é de longe a causa mais comum de encurtamento da
despolarização do músculo cardíaco, porque esta condição clínica aumenta
o fluxo de corrente pelos canais de potássio. Quando a isquemia ocorre em
apenas uma área do coração, o período de despolarização dessa área
diminui sem proporção às outras áreas. Como resultado, podem ocorrer
alterações definidas da onda T. A isquemia pode resultar de oclusão
coronariana progressiva crônica; oclusão coronariana aguda; ou
insuficiência coronariana relativa, como a que ocorre durante o exercício.
Modo de detectar insuficiência coronariana leve é fazer o paciente se
exercitar e registrar o ECG, reparando quando ocorrem alterações das ondas
T. Essas alterações das ondas T não precisam ser específicas, porque
qualquer alteração na onda T, em qualquer derivação — inversão, por
exemplo, ou onda bifásica —, é, em geral, evidência suficiente de que
alguma parte do músculo ventricular está com período de despolarização
desproporcional ao resto do coração, causado por insuficiência coronariana
leve a moderada.
Figura 12-23. Onda T invertida, resultante de isquemia leve na base dos ventrículos.
Efeito de Digitálicos na Onda T. Como discutido no Capítulo 22, os
digitálicos são fármacos que podem ser usados na insuficiência coronariana
para aumentar a força da contração muscular cardíaca. Entretanto, quando
são ministradas superdosagens de digitálicos, a duração da despolarização
em parte dos ventrículos pode ficar aumentada, desproporcionalmente às
outras partes. Como resultado, mudanças inespecíficas, como inversão da
onda T ou ondas T bifásicas, podem ocorrer em uma ou mais derivações
eletrocardiográficas. A onda T bifásica, causada por administração
excessiva de digitálicos, é mostrada naFigura 12-24. Assim, alterações da
onda T durante administração de digitálicos são, em geral, os sinais mais
precoces de intoxicação digitálica.
Figura 12-24. Onda T bifásica, causada por intoxicação digitálica.
Bibliografia
Veja as referências do Capítulo 13.
OceanofPDF.com
CAPÍTULO 13
Arritmias Cardíacas e sua
Interpretação Eletrocardiográfica
Alguns dos tipos mais preocupantes de mau funcionamento cardíaco
ocorrem como resultado de ritmo cardíaco anormal. Por exemplo, algumas
vezes o batimento dos átrios não é coordenado com o batimento dos
ventrículos; assim, os átrios já não funcionam como bombas de escorva
para os ventrículos.
A finalidade deste Capítulo é discutir a fisiologia das arritmias cardíacas
comuns e seus efeitos sobre o bombeamento cardíaco, bem como seu
diagnóstico por eletrocardiografia. As causas das arritmias cardíacas
geralmente são combinações das seguintes anormalidades da ritmicidade-
sistema de condução do coração:
•Ritmicidade anormal do marca-passo.
•Mudança do marca-passo do nodo sinusal para outro ponto do coração.
•Bloqueios, em diferentes pontos, da propagação do impulso no coração.