Tratado de Fisiologia Médica
Parto
AUMENTO DA EXCITABILIDADE UTERINA PRÓXIMO AO
TERMO
Parto significa o nascimento do bebê. Ao final da gravidez, o útero fica
progressivamente mais excitável, até que, por fim, desenvolve contrações
rítmicas tão fortes que o bebê é expelido. Não se sabe a causa exata do
aumento da atividade uterina, mas pelo menos duas categorias principais de
eventos levam às contrações intensas, responsáveis pelo parto: (1)
mudanças hormonais progressivas que aumentam a excitabilidade da
musculatura uterina; e (2) mudanças mecânicas progressivas.
Os Fatores Hormonais que Aumentam a Contratilidade
Uterina
Maior Proporção de Estrogênios em Relação à Progesterona. A
progesterona inibe a contratilidade uterina durante a gravidez, ajudando,
assim, a evitar a expulsão do feto. Por sua vez, os estrogênios têm tendência
definida para aumentar o grau de contratilidade uterina, em parte porque
elevam o número de junções comunicantes entre as células do músculo liso
uterino adjacentes, mas também devido a outros efeitos pouco entendidos
ainda. Tanto a progesterona quanto o estrogênio são secretados em
quantidades progressivamente maiores durante grande parte da gravidez,
mas, a partir do sétimo mês, a secreção de estrogênio continua a aumentar,
enquanto a de progesterona permanece constante ou até mesmo diminui um
pouco. Por isso, já se postulou que a produção estrogênio-progesterona
aumenta o suficiente até o final da gravidez para ser pelo menos
parcialmente responsável pelo aumento da contratilidade uterina.
A Ocitocina Causa Contração do Útero. A ocitocina é um hormônio
secretado pela neuro-hipófise que, especificamente, causa contrações
uterinas ( Capítulo 76). Existem quatro razões para se acreditar que a
ocitocina pode ser importante para aumentar a contratilidade do útero
próximo ao termo:
1. A musculatura uterina aumenta seus receptores de ocitocina e, portanto,
aumenta sua sensibilidade a uma determinada dose de ocitocina nos
últimos meses de gravidez.
2. A secreção de ocitocina pela neuro-hipófise é, consideravelmente,
maior no momento do parto.
3. Muito embora animais hipofisectomizados ainda consigam ter seus
filhotes a termo, o trabalho de parto é prolongado.
4. Experimentos em animais indicam que a irritação ou a dilatação do colo
uterino, como ocorre durante o trabalho de parto, pode causar reflexo
neurogênico, através dos núcleos paraventricular e supraóptico, que faz
com que a hipófise posterior (a neuro-hipófise) aumente sua secreção de
ocitocina.
Os Efeitos de Hormônios Fetais no Útero. A hipófise do feto secreta
grande quantidade de ocitocina, o que teria algum papel na excitação
uterina. Além disso, as glândulas adrenais do feto secretam grande
quantidade de cortisol, outro possível estimulante uterino. E, mais, as
membranas fetais liberam prostaglandinas em concentrações elevadas, no
momento do trabalho de parto, que também podem aumentar a intensidade
das contrações uterinas.
Os Fatores Mecânicos que Aumentam a Contratilidade
Uterina Distensão da Musculatura Uterina. A simples distensão de órgãos de
musculatura lisa geralmente aumenta sua contratilidade. Ademais, a
distensão intermitente, como ocorre repetidamente no útero, por causa dos
movimentos fetais, pode também provocar a contração dos músculos lisos.
Observe, particularmente, que os gêmeos nascem em média 19 dias antes
de um só bebê, o que enfatiza a importância da distensão mecânica em
provocar contrações uterinas.
Distensão ou Irritação do Colo Uterino. Há razões para se acreditar
que a distensão ou a irritação do colo uterino seja particularmente
importante para provocar contrações uterinas. Por exemplo, os próprios
obstetras, muitas vezes, induzem o trabalho de parto, rompendo as
membranas, de maneira que a cabeça do bebê distenda o colo uterino mais
efetivamente que o usual, ou irritando-o de outras formas.
Não se sabe o mecanismo pelo qual a irritação cervical excita o corpo
uterino. Já foi sugerido que a distensão ou irritação de terminais sensoriais
no colo uterino provoque contrações uterinas reflexas; no entanto, as
contrações poderiam ser resultantes da pura e simples transmissão
miogênica de sinais do colo ao corpo uterino.
O INÍCIO DO TRABALHO DE PARTO — UM MECANISMO
DE FEEDBACK POSITIVO PARA O SEU
DESENCADEAMENTO
Durante grande parte da gravidez, o útero sofre episódios periódicos de
contrações rítmicas fracas e lentas, denominadas contrações de Braxton
Hicks. Essas contrações ficam progressivamente mais fortes ao final da
gravidez; então, mudam subitamente, em questão de horas, e ficam
excepcionalmente fortes, começando a distender o colo uterino e,
posteriormente, forçando o bebê através do canal de parto, levando, assim, ao parto. Esse processo é denominado trabalho de parto, e as contrações
fortes, que resultam na parturição final, são denominadas contrações do
trabalho de parto.
Não sabemos o que muda subitamente a ritmicidade lenta e fraca do útero
para as contrações fortes do trabalho de parto. Entretanto, com base na
experiência com outros tipos de sistemas de controle fisiológico, propôs-se
uma teoria para explicar o início do trabalho de parto. A teoria de feedback
positivo sugere que a distensão do colo uterino pela cabeça do feto torna-se,
finalmente, tão grande que provoca forte reflexo no aumento da
contratilidade do corpo uterino. Isso empurra o bebê para frente, o que
distende mais o colo e desencadeia mais feedback positivo ao corpo uterino.
Assim, o processo se repete até o bebê ser expelido. Essa teoria está
ilustrada na Figura 83-9, e as observações que a corroboram são as que se
seguem.
Em primeiro lugar, as contrações do trabalho de parto obedecem a todos
os princípios de feedback positivo, ou seja, quando a força da contração
uterina ultrapassa certo valor crítico, cada contração leva a contrações
subsequentes que vão se tornando cada vez mais fortes, até atingir o efeito
máximo. Voltando à discussão do Capítulo 1 a respeito de feedback positivo
nos sistemas de controle, é possível ver que se trata da natureza precisa de
todos os mecanismos de feedback positivo quando o ganho de feedback
ultrapassa o valor crítico.
Em segundo lugar, dois conhecidos tipos de feedback positivo aumentam
as contrações uterinas durante o trabalho de parto: (1) a distensão do colo
uterino faz com que todo o corpo do útero se contraia, e tal contração
distende o colo ainda mais, devido à força da cabeça do bebê para baixo; e
(2) a distensão cervical também faz com que a hipófise secrete ocitocina,
que é outro meio de aumentar a contratilidade uterina.
Resumindo, podemos assumir que múltiplos fatores aumentam a
contratilidade do útero ao final da gravidez. Por fim, uma contração uterina
torna-se forte o bastante para irritar o útero, especialmente no colo, o que
aumenta a contratilidade uterina ainda mais devido ao feedback positivo,
resultando em segunda contração uterina mais forte que a primeira, uma
terceira mais forte que a segunda, e assim por diante. Quando essas
contrações se tornam fortes o bastante para causar esse tipo de feedback,
com cada contração sucessiva mais forte que a precedente, o processo
chega ao fim. Poderíamos questionar a respeito dos muitos casos de
trabalho de parto falso, nos quais as contrações ficam cada vez mais fortes e
depois diminuem e desaparecem. Lembre-se de que para o feedback
positivo persistir, cada novo ciclo devido ao processo de feedback positivo
deve ser mais forte que o precedente. Se em algum momento, depois de
iniciado o trabalho de parto, as contrações não conseguirem reexcitar o
útero suficientemente, o feedback positivo poderia entrar em declínio
retrógrado, e as contrações do trabalho de parto desapareceriam.
Figura 83-9. Teoria do desencadeamento de contrações intensamente fortes durante o trabalho de parto.
AS CONTRAÇÕES MUSCULARES ABDOMINAIS
DURANTE O TRABALHO DE PARTO
Quando as contrações uterinas se tornam fortes durante o trabalho de parto,
sinais de dor originam-se tanto do útero quanto do canal de parto. Esses
sinais, além de causarem sofrimento, provocam reflexos neurogênicos na
medula espinal para os músculos abdominais, causando contrações intensas
desses músculos. As contrações abdominais acrescentam muito à força que
provoca a expulsão do bebê.
Mecanismos do Parto
As contrações uterinas durante o trabalho de parto começam basicamente no
topo do fundo uterino e se espalham para baixo, por todo o corpo uterino. Além
disso, a intensidade da contração é grande no topo e no corpo uterino, mas fraca
no segmento inferior do útero adjacente ao colo. Portanto, cada contração uterina tende a forçar o bebê para baixo, na direção do colo uterino.
No início do trabalho de parto, as contrações ocorrem apenas a cada 30
minutos. À medida que o trabalho de parto progride, as contrações finalmente surgem com tanta frequên cia quanto uma vez a cada 1 a 3 minutos, e sua
intensidade aumenta bastante, com períodos muito breves de relaxamento entre
elas. As contrações da musculatura uterina e abdominal combinadas durante a expulsão do bebê causam força descendente do feto equivalente a 12 kg, durante
cada contração forte.
Felizmente, essas contrações do trabalho de parto ocorrem intermitentemente,
pois contrações fortes impedem ou às vezes até mesmo interrompem o fluxo sanguíneo através da placenta e poderiam causar o óbito do feto, se fossem
contínuas. Na verdade, o uso excessivo de diversos estimulantes uterinos, como a ocitocina, pode causar espasmo uterino em vez de contrações rítmicas e levar o feto ao óbito.
Em mais de 95% dos nascimentos, a cabeça é a primeira parte do bebê a ser
expelida e, na maioria dos outros casos, as nádegas apresentam-se primeiro.
Quando o bebê entra no canal de parto primeiro com as nádegas ou os pés, isso é chamado apresentação pélvica.
A cabeça age como uma cunha que abre as estruturas do canal de parto
enquanto o feto é forçado para baixo. A primeira grande obstrução à expulsão do feto é o próprio colo uterino. Ao final da gravidez, o colo se torna friável,
permitindo-lhe que se distenda quando as contrações do trabalho de parto
começam no útero. O chamado primeiro estágio do trabalho de parto é o período
de dilatação cervical progressiva, que dura até a abertura cervical estar tão grande quanto a cabeça do feto. Esse estágio, geralmente, tem duração de 8 a 24
horas, na primeira gestação, mas muitas vezes apenas alguns minutos depois de
várias gestações.
Quando o colo está totalmente dilatado, as membranas fetais geralmente se
rompem, e o líquido amniótico vaza subitamente pela vagina. Em seguida, a
cabeça do feto se move rapidamente para o canal de parto, e, com a força descendente adicional, ele continua a forçar caminho através do canal até a
expulsão final. Trata-se do segundo estágio do trabalho de parto, e pode durar tão
pouco quanto 1 minuto, depois de várias gestações, até 30 minutos ou mais, na
primeira gestação.
Separação e Expulsão da Placenta
Durante 10 a 45 minutos depois do nascimento do bebê, o útero continua a se
contrair, diminuindo cada vez mais de tamanho, causando efeito de cisalhamento
entre as paredes uterinas e placentárias, separando, assim, a placenta do seu
local de implantação. A separação da placenta abre os sinusoides placentários e
provoca sangramento. A quantidade de sangue limita-se, em média, a 350
mililitros pelo seguinte mecanismo: as fibras dos músculos lisos da musculatura
uterina estão dispostas em grupos de oito ao redor dos vasos sanguíneos, onde
estes atravessam a parede uterina. Portanto, a contração do útero, depois da
expulsão do bebê, contrai os vasos que antes proviam sangue à placenta. Além
disso, acredita-se que prostaglandinas vasoconstritoras, formadas no local da
separação placentária, causem mais espasmo nos vasos sanguíneos.
Dores do Trabalho de Parto
A cada contração uterina, a mãe sente dor considerável. A cólica, no início do
trabalho de parto, provavelmente se deve, em grande parte, à hipoxia do músculo
uterino, decorrente da compressão dos vasos sanguíneos no útero. Essa dor não
é sentida quando os nervos hipogástricos sensoriais viscerais, que carregam as
fibras sensoriais viscerais que saem do útero, tiverem sido seccionados.
Entretanto, durante o segundo estágio do trabalho de parto, quando o feto está
sendo expelido através do canal de parto, uma dor muito mais forte é causada
pela distensão cervical, distensão perineal e distensão ou ruptura de estruturas no
próprio canal vaginal. Essa dor é conduzida à medula espinal e ao cérebro da
mãe por nervos somáticos, em vez de por nervos sensoriais viscerais.
Involução do Útero depois do Parto
Durante as primeiras 4 a 5 semanas depois do parto, o útero involui. Seu peso
fica menor que a metade do peso imediatamente após o parto no prazo de uma
semana; e, em quatro semanas, se a mãe amamentar, o útero torna-se tão
pequeno quanto era antes da gravidez. Esse efeito da lactação resulta da
supressão da secreção de gonadotropina hipofisária e dos hormônios ovarianos
durante os primeiros meses de lactação, conforme discutiremos adiante. Durante
a involução inicial do útero, o local placentário na superfície endometrial sofre
autólise, causando uma excreção vaginal conhecida como “lóquia”, que primeiro é
de natureza sanguinolenta e depois serosa, mantendo-se por cerca de 10 dias, no