Tratado de Fisiologia Médica

John E. Hall · Capítulo 310 de 351

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Tratado de Fisiologia Médica

Anormalidades da Regulação da Temperatura Corporal

CORPORAL

 

FEBRE

 

Febre, que significa temperatura corporal acima da faixa normal de

variação, pode ser provocada por anormalidades no cérebro ou por

substâncias tóxicas que afetam os centros reguladores da temperatura.

Algumas causas de febre (e também das temperaturas subnormais) são

apresentadas na Figura 74-10. Elas incluem doenças bacterianas ou víricas,

tumores cerebrais e condições ambientais que podem resultar em uma

intermação.

 

Figura 74-10. Temperaturas corporais sob diferentes condições. (Modificada de DuBois EF: Fever. Springfield, IL: Charles C. Thomas, 1948.)

Reajuste do Centro de Regulação Hipotalâmico da

Temperatura nas Doenças Febris — Efeito dos

Pirogênios

 

Muitas proteínas, produtos da degradação das proteínas e algumas outras

substâncias, especialmente toxinas de lipossacarídeos oriundas das

membranas celulares de bactérias, podem fazer com que o ponto de ajuste

do termostato hipotalâmico se eleve. As substâncias que causam esse efeito

são chamadas pirogênios.

Os pirogênios liberados por bactérias tóxicas ou os liberados por tecidos

corporais em degeneração, causam febre durante condições patológicas.

Quando o ponto de ajuste do centro de regulação hipotalâmico da

temperatura se eleva acima do normal, todos os mecanismos para a

elevação da temperatura corporal começam a atuar, incluindo a conservação

de calor e o aumento da produção de calor. Em algumas horas, após a

elevação do ponto de ajuste, a temperatura corporal se aproxima desse

nível, como mostrado na Figura 74-11.

Figura 74-11. Efeitos da alteração do ponto de ajuste do controlador de temperatura hipotalâmico.

 

Mecanismo de Ação dos Pirogênios na Causa da Febre — O

Papel das Citocinas. Experimentos em animais demonstraram que

alguns pirogênios, quando injetados no hipotálamo, podem atuar direta e

imediatamente sobre o centro de regulação da temperatura no hipotálamo e

aumentar seu ponto de ajuste. Outros pirogênios atuam indiretamente e

podem necessitar de várias horas de latência antes de causar seus efeitos.

Esse fato é válido para vários pirogênios bacteria nos, especialmente as

endotoxinas das bactérias gram-negativas.

Quando as bactérias ou os produtos da degradação das bactérias estão nos

tecidos ou no sangue, eles são fagocitados pelos leucócitos do sangue, pelos

macrófagos teciduais e pelos grandes linfócitos “killers” granulares. Todas

essas células digerem os produtos bacterianos e, em seguida, liberam

citocinas, grupo diferenciado de moléculas peptídicas de sinalização,

participantes das respostas imunes e adaptativas. Uma das mais importantes

dessas citocinas para causar febre é a interleucina 1 (IL-1), também

chamada pirogênio leuco citário ou pirogênio endógeno. A IL-1 é liberada

pelos macrófagos para os líquidos corporais e, ao chegar ao hipotálamo,

quase imediatamente ativa os processos produtores de febre aumentando,

por vezes, a temperatura corporal, por valor significativo em apenas 8 a 10

minutos. Aproximadamente um décimo de milionésimo de grama do

lipossacarídeo endotoxina de bactéria, atuando em conjunto com os

leucócitos do sangue, macrófagos dos tecidos e linfócitos exterminadores,

pode causar febre. A quantidade de IL-1 que é formada em resposta ao

lipossacarídeo suficiente para causar febre é de apenas alguns nanogramas.

Vários experimentos sugeriram que a IL-1 inicialmente cause febre pela

indução da formação de prostaglandinas, principalmente a prostaglandina

E ou substância similar, que atua no hipotálamo para desencadear a reação 2

da febre. Quando a formação de prostaglandinas é bloqueada por fárma cos,‐

a febre pode ser abortada ou diminuída. De fato, esta pode ser a explicação

para o mecanismo de atuação da aspiri na na redução da febre, pois a

aspirina impede a forma ção de prostaglandinas, a partir do ácido

araquidônico. Fárma cos como a aspirina, que reduzem a febre, são

chamados antipiréticos.

 

Febre Causada por Lesões Cerebrais. Quando o neurocirurgião

opera na região do hipotálamo, quase sempre é desencadeada febre grave;

raramente, o efeito oposto, hipotermia, ocorre, demonstrando tanto a

potência dos mecanismos hipotalâmicos para o controle da temperatura

corporal quanto a facilidade com as quais as anormalidades do hipotálamo

podem alterar o ponto de ajuste do controle da temperatura. Outra condição

que frequentemente causa temperatura alta prolongada é a compressão do

hipotálamo por tumor cerebral.

 

Características das Condições Febris

Calafrios. Quando o ponto de ajuste do centro de controle de temperatura no

hipotálamo é subitamente alterado do nível normal para um nível mais alto do que

o normal (como resultado da destruição tecidual, substâncias pirogênicas ou desidratação), a temperatura corporal geralmente leva várias horas para atingir o novo ponto de ajuste da temperatura.

A Figura 74-11 demonstra o efeito da elevação súbita do ponto de ajuste da

temperatura para o nível de 39,4°C. Como a temperatura do sangue agora é

menor do que o ponto de ajuste do controlador hipotalâmico da temperatura,

ocorrem as respostas usuais que causam a elevação da temperatura. Durante

esse período, a pessoa experimenta calafrios e sente frio intenso, mesmo que sua temperatura já esteja acima do normal. Além disso, a pele fica fria devido à

vasoconstrição e a pessoa treme. Os calafrios continuam até que a temperatura

corporal chegue ao ponto de ajuste hipotalâmico de 39,4°C. A partir desse ponto,

a pessoa não apresenta mais calafrios e não sente frio ou calor. Enquanto o fator que causa elevação do ponto de ajuste do controlador da temperatura

hipotalâmico estiver presente, a temperatura do corpo é regulada quase da

mesma forma, mas em nível de ponto de ajuste mais alto.

Crise ou “Rubor”. Se o fator que está causando a alta da temperatura for

removido, o ponto de ajuste do controlador da temperatura hipotalâmico será

reduzido para valor mais baixo — talvez volte mesmo ao normal, como mostrado

na Figura 74-11. Nesse caso, a temperatura do corpo se mantém em 39,4°C, mas

o hipotálamo tenta regular a temperatura para 37°C. Essa situação é análoga ao

aquecimento excessivo da área hipotalâmica anterior pré-óptica, que causa

sudorese intensa e o desenvolvimento súbito de aquecimento da pele por causa

da vasodilatação generalizada. Essa mudança súbita de eventos no estado febril

é conhecida como “crise” ou, mais apropriada mente, “rubor”. Antes do advento

dos antibióticos, a crise era ansiosamente esperada, pois quando ela ocorria o

médico considerava que a temperatura do paciente logo estaria diminuindo.

Choque Térmico

O limite superior da temperatura do ar que a pessoa pode suportar depende em

grande parte de se o ar é seco ou úmido. Se o ar está seco e correntes de ar de

convecção suficientes estão fluindo para promover a rápida evaporação do corpo,

a pessoa pode resistir durante várias horas na temperatura do ar de 54,4°C.

Inversamente, se o ar está com 100% de umidade ou se o corpo está imerso na

água, a temperatura corporal começa a se elevar sempre que a temperatura

ambiental estiver acima de 34,4°C. Se a pessoa está realizando trabalho braçal, a

temperatura ambiental crítica acima da qual provavelmente ocorrerá intermação

pode ser de 29,4 a 32,2°C.

Quando a temperatura corporal se eleva além de temperatura crítica, na

variação entre 40,5 e 42,2°C, a pessoa provavelmente desenvolverá uma

intermação. Os sintomas incluem desorientação, desconforto abdominal, algumas

vezes acompanhado por vômitos, às vezes, delírios, com eventual perda da

consciência se a temperatura corporal não for rapidamente diminuída. Esses

sintomas em geral são exacerbados por grau de choque circulatório ou pela

excessiva perda de líquidos e eletrólitos pelo suor.

A hiperpirexia também é extremamente prejudicial para os tecidos corporais,

especialmente para o cérebro, sendo responsável por muitos desses efeitos. De

fato, mesmo poucos minutos em temperatura corporal muito alta algumas vezes

podem ser fatais. Por esse motivo, muitas autoridades recomendam o tratamento

imediato da intermação pelo resfriamento do indivíduo com banho gelado. Como

esse procedimento causa calafrios incontroláveis, com aumento considerável da

produção de calor, outros autores sugeriram que o uso de esponja ou o

resfriamento da pele com borrifos de água gelada provavelmente seriam mais

eficientes para a diminuição rápida da temperatura central do corpo.

Efeitos Prejudiciais das Altas Temperaturas. Os achados patológicos em uma

pessoa que morra por hiperpirexia são hemorragias locais e degeneração

parenquimatosa das células de todo o corpo, mas especialmente no cérebro. Após a destruição das células neuronais, elas não podem ser substituídas. Além

disso, as lesões no fígado, rins e outros órgãos, em geral, podem ser graves o suficiente para levar à falência de um ou mais desses órgãos, eventualmente

levando ao óbito, que algumas vezes pode ocorrer vários dias após a intermação.

Aclimatação ao Calor. Pode ser extremamente importante a aclimatação ao

calor extremo. Exemplos de pessoas que necessitam de aclimatação são soldados a serviço nos trópicos ou mineradores que trabalham a 3 quilômetros de

profundidade nas minas de ouro da África do Sul, onde a temperatura ambiente é

próxima da temperatura corporal e a umidade do ar se aproxima de 100%. Pessoa exposta ao calor por várias horas durante o dia, realizando trabalho relativamente pesado, desenvolverá maior tolerância às condições quentes e úmidas em

período de 1 a 3 semanas.

Entre as alterações fisiológicas mais importantes que ocorrem durante esse

processo de aclimatação, encontra-se a elevação de aproximadamente duas

vezes nos índices máximos da sudorese, aumento do volume plasmático e

diminuição da perda de sais no suor e na urina; esses dois últimos efeitos resultam do aumento da secreção de aldosterona pelas glândulas adrenais.

Exposição do Corpo ao Frio Extremo

A menos que seja tratada imediatamente, a pessoa exposta à água gelada

durante 20 a 30 minutos, em geral, morre por parada cardíaca ou fibrilação

cardíaca. Nesse momento, a temperatura interna do corpo cai para

aproximadamente 25°C. Se for aquecido rapidamente, pela aplicação de calor externo, a vida da pessoa pode ser salva.

Perda da Regulação da Temperatura nas Baixas Temperaturas. Como é

destacado na Figura 74-10, quando a temperatura corporal cai abaixo de 29,4°C (85°F), o hipotálamo perde sua capacidade de regular a temperatura; essa

capacidade fica seriamente deteriorada quando a temperatura cai abaixo de

34,4°C (94°F). Em parte, o motivo dessa diminuição da regulação da temperatura se dá pela diminuição dos índices da produção química de calor em cada célula; para cada diminuição de 5,5°C na temperatura corporal a capacidade de produção

de calor da célula cai por duas vezes. Além disso, o estado de sonolência

(seguido de coma) deprime a atividade dos mecanismos de controle de calor que ocorrem no sistema nervoso central, impedindo os calafrios.

Enregelamento. Quando o corpo é exposto a temperaturas extremamente

baixas, as áreas superficiais podem congelar; um fenômeno conhecido como

enregelamento. Esse problema ocorre especialmente nos lobos das orelhas e nos

dedos das mãos e dos pés. Se o congelamento for suficiente para formar cristais

de gelo nas células, há lesão permanente, tal como dano circulatório permanente

e destruição tecidual local. Em geral, o descongelamento é acompanhado por‐

gangrena e as áreas enregeladas devem ser removidas cirurgicamente.

A Vasodilatação Induzida pelo Frio É Mecanismo de Proteção Final Contra

o Enregelamento nas Temperaturas Próximas ao Congelamento. Quando a

temperatura dos tecidos cai a valores próximos ao ponto de congelamento, a

musculatura lisa nas paredes vasculares fica paralisada pelo frio, ocorrendo a

vasodilatação súbita, geralmente manifestada por rubor da pele. Isto ajuda a

prevenir contra o enregelamento, levando sangue quente para a pele. Esse

mecanismo é menos desenvolvido em humanos do que em animais que vivem no

frio.

Hipotermia Artificial. É fácil diminuir a temperatura da pessoa, inicialmente,

pela administração de forte sedativo para deprimir a reatividade do controlador de

temperatura hipotalâmico, seguida do resfriamento da pessoa com gelo ou

cobertores de resfriamento até que a temperatura caia. A temperatura pode ser

mantida abaixo dos 32,2°C durante vários dias ou semanas pela aspersão

contínua de água fria ou álcool sobre o corpo. Esse resfriamento artificial pode ser

utilizado durante cirurgias cardíacas, para que o coração seja parado

artificialmente, durante vários minutos. O resfriamento a esse nível não causa

dano tecidual, mas diminui a frequência cardíaca e diminui, enormemente, o

metabolismo celular, de modo que as células corporais possam sobreviver 30

minutos a mais de 1 hora, sem que haja fluxo sanguíneo durante o procedimento

cirúrgico.

 

Bibliografia

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UNIDADE XIV 

 

Endocrinologia e Reprodução

 

RESUMO DA UNIDADE

 

CAPÍTULO 75 - Introdução à Endocrinologia

Coordenação das Funções Corporais por Mensageiros

Químicos

Estrutura Química e Síntese de Hormônios

Secreção Hormonal, Transporte e Depuração de Hormônios

do Sangue

Mecanismos de Ação dos Hormônios

CAPÍTULO 76 - Hormônios Hipofisários e seu Controle

pelo Hipotálamo

A Glândula Hipófise e sua Relação com o Hipotálamo

O Hipotálamo Controla a Secreção Hipofisária

Funções Fisiológicas do Hormônio do Crescimento

Hipófise Posterior e sua Relação com o Hipotálamo

CAPÍTULO 77 - Hormônios Metabólicos da Tireoide

Síntese e Secreção dos Hormônios Metabólicos

Tireoidianos

Funções Fisiológicas dos Hormônios Tireoidianos

Regulação da Secreção do Hormônio Tireoidiano

CAPÍTULO 78 - Hormônios Adrenocorticais

Corticosteroides: Mineralocorticoides, Glicocorticoides e

Androgênios

Síntese e Secreção dos Hormônios Adrenocorticais

Funções dos Mineralocorticoides — Aldosterona

Funções dos Glicocorticoides

CAPÍTULO 79 - Insulina, Glucagon e Diabetes Melito

A Insulina e seus Efeitos Metabólicos

O Glucagon e suas Funções

Resumo da Regulação da Glicose Sanguínea

CAPÍTULO 80 - Paratormônio, Calcitonina,

Metabolismo de Cálcio e Fosfato, Vitamina D, Ossos e

Dentes

Visão Geral da Regulação de Cálcio e Fosfato no Líquido

Extracelular e no Plasma

Osso e sua Relação com o Cálcio e o Fosfato

Extracelulares

Vitamina D

Paratormônio

Calcitonina

Resumo do Controle da Concentração de Cálcio Iônico

Fisiologia dos Dentes

CAPÍTULO 81 - Funções Reprodutivas e Hormonais

Masculinas (e Função da Glândula Pineal)

Espermatogênese

Ato Sexual Masculino

Testosterona e Outros Hormônios Sexuais Masculinos

CAPÍTULO 82 - Fisiologia Feminina Antes da Gravidez

e Hormônios Femininos

Anatomia Fisiológica dos Órgãos Sexuais Femininos

Oogênese e Desenvolvimento Folicular nos Ovários

Sistema Hormonal Feminino

Ciclo Ovariano Mensal; Função dos Hormônios

Gonadotrópicos

Funções dos Hormônios Ovarianos — Estradiol e

Progesterona

Regulação do Ritmo Mensal Feminino — Interação Entre os

Hormônios Ovarianos e Hipotalâmico‐Hipofisários

O Ato Sexual Feminino

CAPÍTULO 83 - Gravidez e Lactação

Maturação e Fertilização do Óvulo

Nutrição Inicial do Embrião

Anatomia e Função da Placenta

Fatores Hormonais na Gravidez

Parto

Lactação

CAPÍTULO 84 - Fisiologia Fetal e Neonatal

 

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