Tratado de Fisiologia Médica
Anormalidades da Regulação da Temperatura Corporal
CORPORAL
FEBRE
Febre, que significa temperatura corporal acima da faixa normal de
variação, pode ser provocada por anormalidades no cérebro ou por
substâncias tóxicas que afetam os centros reguladores da temperatura.
Algumas causas de febre (e também das temperaturas subnormais) são
apresentadas na Figura 74-10. Elas incluem doenças bacterianas ou víricas,
tumores cerebrais e condições ambientais que podem resultar em uma
intermação.
Figura 74-10. Temperaturas corporais sob diferentes condições. (Modificada de DuBois EF: Fever. Springfield, IL: Charles C. Thomas, 1948.)
Reajuste do Centro de Regulação Hipotalâmico da
Temperatura nas Doenças Febris — Efeito dos
Pirogênios
Muitas proteínas, produtos da degradação das proteínas e algumas outras
substâncias, especialmente toxinas de lipossacarídeos oriundas das
membranas celulares de bactérias, podem fazer com que o ponto de ajuste
do termostato hipotalâmico se eleve. As substâncias que causam esse efeito
são chamadas pirogênios.
Os pirogênios liberados por bactérias tóxicas ou os liberados por tecidos
corporais em degeneração, causam febre durante condições patológicas.
Quando o ponto de ajuste do centro de regulação hipotalâmico da
temperatura se eleva acima do normal, todos os mecanismos para a
elevação da temperatura corporal começam a atuar, incluindo a conservação
de calor e o aumento da produção de calor. Em algumas horas, após a
elevação do ponto de ajuste, a temperatura corporal se aproxima desse
nível, como mostrado na Figura 74-11.
Figura 74-11. Efeitos da alteração do ponto de ajuste do controlador de temperatura hipotalâmico.
Mecanismo de Ação dos Pirogênios na Causa da Febre — O
Papel das Citocinas. Experimentos em animais demonstraram que
alguns pirogênios, quando injetados no hipotálamo, podem atuar direta e
imediatamente sobre o centro de regulação da temperatura no hipotálamo e
aumentar seu ponto de ajuste. Outros pirogênios atuam indiretamente e
podem necessitar de várias horas de latência antes de causar seus efeitos.
Esse fato é válido para vários pirogênios bacteria nos, especialmente as
endotoxinas das bactérias gram-negativas.
Quando as bactérias ou os produtos da degradação das bactérias estão nos
tecidos ou no sangue, eles são fagocitados pelos leucócitos do sangue, pelos
macrófagos teciduais e pelos grandes linfócitos “killers” granulares. Todas
essas células digerem os produtos bacterianos e, em seguida, liberam
citocinas, grupo diferenciado de moléculas peptídicas de sinalização,
participantes das respostas imunes e adaptativas. Uma das mais importantes
dessas citocinas para causar febre é a interleucina 1 (IL-1), também
chamada pirogênio leuco citário ou pirogênio endógeno. A IL-1 é liberada
pelos macrófagos para os líquidos corporais e, ao chegar ao hipotálamo,
quase imediatamente ativa os processos produtores de febre aumentando,
por vezes, a temperatura corporal, por valor significativo em apenas 8 a 10
minutos. Aproximadamente um décimo de milionésimo de grama do
lipossacarídeo endotoxina de bactéria, atuando em conjunto com os
leucócitos do sangue, macrófagos dos tecidos e linfócitos exterminadores,
pode causar febre. A quantidade de IL-1 que é formada em resposta ao
lipossacarídeo suficiente para causar febre é de apenas alguns nanogramas.
Vários experimentos sugeriram que a IL-1 inicialmente cause febre pela
indução da formação de prostaglandinas, principalmente a prostaglandina
E ou substância similar, que atua no hipotálamo para desencadear a reação 2
da febre. Quando a formação de prostaglandinas é bloqueada por fárma cos,‐
a febre pode ser abortada ou diminuída. De fato, esta pode ser a explicação
para o mecanismo de atuação da aspiri na na redução da febre, pois a
aspirina impede a forma ção de prostaglandinas, a partir do ácido
araquidônico. Fárma cos como a aspirina, que reduzem a febre, são
chamados antipiréticos.
Febre Causada por Lesões Cerebrais. Quando o neurocirurgião
opera na região do hipotálamo, quase sempre é desencadeada febre grave;
raramente, o efeito oposto, hipotermia, ocorre, demonstrando tanto a
potência dos mecanismos hipotalâmicos para o controle da temperatura
corporal quanto a facilidade com as quais as anormalidades do hipotálamo
podem alterar o ponto de ajuste do controle da temperatura. Outra condição
que frequentemente causa temperatura alta prolongada é a compressão do
hipotálamo por tumor cerebral.
Características das Condições Febris
Calafrios. Quando o ponto de ajuste do centro de controle de temperatura no
hipotálamo é subitamente alterado do nível normal para um nível mais alto do que
o normal (como resultado da destruição tecidual, substâncias pirogênicas ou desidratação), a temperatura corporal geralmente leva várias horas para atingir o novo ponto de ajuste da temperatura.
A Figura 74-11 demonstra o efeito da elevação súbita do ponto de ajuste da
temperatura para o nível de 39,4°C. Como a temperatura do sangue agora é
menor do que o ponto de ajuste do controlador hipotalâmico da temperatura,
ocorrem as respostas usuais que causam a elevação da temperatura. Durante
esse período, a pessoa experimenta calafrios e sente frio intenso, mesmo que sua temperatura já esteja acima do normal. Além disso, a pele fica fria devido à
vasoconstrição e a pessoa treme. Os calafrios continuam até que a temperatura
corporal chegue ao ponto de ajuste hipotalâmico de 39,4°C. A partir desse ponto,
a pessoa não apresenta mais calafrios e não sente frio ou calor. Enquanto o fator que causa elevação do ponto de ajuste do controlador da temperatura
hipotalâmico estiver presente, a temperatura do corpo é regulada quase da
mesma forma, mas em nível de ponto de ajuste mais alto.
Crise ou “Rubor”. Se o fator que está causando a alta da temperatura for
removido, o ponto de ajuste do controlador da temperatura hipotalâmico será
reduzido para valor mais baixo — talvez volte mesmo ao normal, como mostrado
na Figura 74-11. Nesse caso, a temperatura do corpo se mantém em 39,4°C, mas
o hipotálamo tenta regular a temperatura para 37°C. Essa situação é análoga ao
aquecimento excessivo da área hipotalâmica anterior pré-óptica, que causa
sudorese intensa e o desenvolvimento súbito de aquecimento da pele por causa
da vasodilatação generalizada. Essa mudança súbita de eventos no estado febril
é conhecida como “crise” ou, mais apropriada mente, “rubor”. Antes do advento
dos antibióticos, a crise era ansiosamente esperada, pois quando ela ocorria o
médico considerava que a temperatura do paciente logo estaria diminuindo.
Choque Térmico
O limite superior da temperatura do ar que a pessoa pode suportar depende em
grande parte de se o ar é seco ou úmido. Se o ar está seco e correntes de ar de
convecção suficientes estão fluindo para promover a rápida evaporação do corpo,
a pessoa pode resistir durante várias horas na temperatura do ar de 54,4°C.
Inversamente, se o ar está com 100% de umidade ou se o corpo está imerso na
água, a temperatura corporal começa a se elevar sempre que a temperatura
ambiental estiver acima de 34,4°C. Se a pessoa está realizando trabalho braçal, a
temperatura ambiental crítica acima da qual provavelmente ocorrerá intermação
pode ser de 29,4 a 32,2°C.
Quando a temperatura corporal se eleva além de temperatura crítica, na
variação entre 40,5 e 42,2°C, a pessoa provavelmente desenvolverá uma
intermação. Os sintomas incluem desorientação, desconforto abdominal, algumas
vezes acompanhado por vômitos, às vezes, delírios, com eventual perda da
consciência se a temperatura corporal não for rapidamente diminuída. Esses
sintomas em geral são exacerbados por grau de choque circulatório ou pela
excessiva perda de líquidos e eletrólitos pelo suor.
A hiperpirexia também é extremamente prejudicial para os tecidos corporais,
especialmente para o cérebro, sendo responsável por muitos desses efeitos. De
fato, mesmo poucos minutos em temperatura corporal muito alta algumas vezes
podem ser fatais. Por esse motivo, muitas autoridades recomendam o tratamento
imediato da intermação pelo resfriamento do indivíduo com banho gelado. Como
esse procedimento causa calafrios incontroláveis, com aumento considerável da
produção de calor, outros autores sugeriram que o uso de esponja ou o
resfriamento da pele com borrifos de água gelada provavelmente seriam mais
eficientes para a diminuição rápida da temperatura central do corpo.
Efeitos Prejudiciais das Altas Temperaturas. Os achados patológicos em uma
pessoa que morra por hiperpirexia são hemorragias locais e degeneração
parenquimatosa das células de todo o corpo, mas especialmente no cérebro. Após a destruição das células neuronais, elas não podem ser substituídas. Além
disso, as lesões no fígado, rins e outros órgãos, em geral, podem ser graves o suficiente para levar à falência de um ou mais desses órgãos, eventualmente
levando ao óbito, que algumas vezes pode ocorrer vários dias após a intermação.
Aclimatação ao Calor. Pode ser extremamente importante a aclimatação ao
calor extremo. Exemplos de pessoas que necessitam de aclimatação são soldados a serviço nos trópicos ou mineradores que trabalham a 3 quilômetros de
profundidade nas minas de ouro da África do Sul, onde a temperatura ambiente é
próxima da temperatura corporal e a umidade do ar se aproxima de 100%. Pessoa exposta ao calor por várias horas durante o dia, realizando trabalho relativamente pesado, desenvolverá maior tolerância às condições quentes e úmidas em
período de 1 a 3 semanas.
Entre as alterações fisiológicas mais importantes que ocorrem durante esse
processo de aclimatação, encontra-se a elevação de aproximadamente duas
vezes nos índices máximos da sudorese, aumento do volume plasmático e
diminuição da perda de sais no suor e na urina; esses dois últimos efeitos resultam do aumento da secreção de aldosterona pelas glândulas adrenais.
Exposição do Corpo ao Frio Extremo
A menos que seja tratada imediatamente, a pessoa exposta à água gelada
durante 20 a 30 minutos, em geral, morre por parada cardíaca ou fibrilação
cardíaca. Nesse momento, a temperatura interna do corpo cai para
aproximadamente 25°C. Se for aquecido rapidamente, pela aplicação de calor externo, a vida da pessoa pode ser salva.
Perda da Regulação da Temperatura nas Baixas Temperaturas. Como é
destacado na Figura 74-10, quando a temperatura corporal cai abaixo de 29,4°C (85°F), o hipotálamo perde sua capacidade de regular a temperatura; essa
capacidade fica seriamente deteriorada quando a temperatura cai abaixo de
34,4°C (94°F). Em parte, o motivo dessa diminuição da regulação da temperatura se dá pela diminuição dos índices da produção química de calor em cada célula; para cada diminuição de 5,5°C na temperatura corporal a capacidade de produção
de calor da célula cai por duas vezes. Além disso, o estado de sonolência
(seguido de coma) deprime a atividade dos mecanismos de controle de calor que ocorrem no sistema nervoso central, impedindo os calafrios.
Enregelamento. Quando o corpo é exposto a temperaturas extremamente
baixas, as áreas superficiais podem congelar; um fenômeno conhecido como
enregelamento. Esse problema ocorre especialmente nos lobos das orelhas e nos
dedos das mãos e dos pés. Se o congelamento for suficiente para formar cristais
de gelo nas células, há lesão permanente, tal como dano circulatório permanente
e destruição tecidual local. Em geral, o descongelamento é acompanhado por‐
gangrena e as áreas enregeladas devem ser removidas cirurgicamente.
A Vasodilatação Induzida pelo Frio É Mecanismo de Proteção Final Contra
o Enregelamento nas Temperaturas Próximas ao Congelamento. Quando a
temperatura dos tecidos cai a valores próximos ao ponto de congelamento, a
musculatura lisa nas paredes vasculares fica paralisada pelo frio, ocorrendo a
vasodilatação súbita, geralmente manifestada por rubor da pele. Isto ajuda a
prevenir contra o enregelamento, levando sangue quente para a pele. Esse
mecanismo é menos desenvolvido em humanos do que em animais que vivem no
frio.
Hipotermia Artificial. É fácil diminuir a temperatura da pessoa, inicialmente,
pela administração de forte sedativo para deprimir a reatividade do controlador de
temperatura hipotalâmico, seguida do resfriamento da pessoa com gelo ou
cobertores de resfriamento até que a temperatura caia. A temperatura pode ser
mantida abaixo dos 32,2°C durante vários dias ou semanas pela aspersão
contínua de água fria ou álcool sobre o corpo. Esse resfriamento artificial pode ser
utilizado durante cirurgias cardíacas, para que o coração seja parado
artificialmente, durante vários minutos. O resfriamento a esse nível não causa
dano tecidual, mas diminui a frequência cardíaca e diminui, enormemente, o
metabolismo celular, de modo que as células corporais possam sobreviver 30
minutos a mais de 1 hora, sem que haja fluxo sanguíneo durante o procedimento
cirúrgico.
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UNIDADE XIV
Endocrinologia e Reprodução
RESUMO DA UNIDADE
CAPÍTULO 75 - Introdução à Endocrinologia
Coordenação das Funções Corporais por Mensageiros
Químicos
Estrutura Química e Síntese de Hormônios
Secreção Hormonal, Transporte e Depuração de Hormônios
do Sangue
Mecanismos de Ação dos Hormônios
CAPÍTULO 76 - Hormônios Hipofisários e seu Controle
pelo Hipotálamo
A Glândula Hipófise e sua Relação com o Hipotálamo
O Hipotálamo Controla a Secreção Hipofisária
Funções Fisiológicas do Hormônio do Crescimento
Hipófise Posterior e sua Relação com o Hipotálamo
CAPÍTULO 77 - Hormônios Metabólicos da Tireoide
Síntese e Secreção dos Hormônios Metabólicos
Tireoidianos
Funções Fisiológicas dos Hormônios Tireoidianos
Regulação da Secreção do Hormônio Tireoidiano
CAPÍTULO 78 - Hormônios Adrenocorticais
Corticosteroides: Mineralocorticoides, Glicocorticoides e
Androgênios
Síntese e Secreção dos Hormônios Adrenocorticais
Funções dos Mineralocorticoides — Aldosterona
Funções dos Glicocorticoides
CAPÍTULO 79 - Insulina, Glucagon e Diabetes Melito
A Insulina e seus Efeitos Metabólicos
O Glucagon e suas Funções
Resumo da Regulação da Glicose Sanguínea
CAPÍTULO 80 - Paratormônio, Calcitonina,
Metabolismo de Cálcio e Fosfato, Vitamina D, Ossos e
Dentes
Visão Geral da Regulação de Cálcio e Fosfato no Líquido
Extracelular e no Plasma
Osso e sua Relação com o Cálcio e o Fosfato
Extracelulares
Vitamina D
Paratormônio
Calcitonina
Resumo do Controle da Concentração de Cálcio Iônico
Fisiologia dos Dentes
CAPÍTULO 81 - Funções Reprodutivas e Hormonais
Masculinas (e Função da Glândula Pineal)
Espermatogênese
Ato Sexual Masculino
Testosterona e Outros Hormônios Sexuais Masculinos
CAPÍTULO 82 - Fisiologia Feminina Antes da Gravidez
e Hormônios Femininos
Anatomia Fisiológica dos Órgãos Sexuais Femininos
Oogênese e Desenvolvimento Folicular nos Ovários
Sistema Hormonal Feminino
Ciclo Ovariano Mensal; Função dos Hormônios
Gonadotrópicos
Funções dos Hormônios Ovarianos — Estradiol e
Progesterona
Regulação do Ritmo Mensal Feminino — Interação Entre os
Hormônios Ovarianos e Hipotalâmico‐Hipofisários
O Ato Sexual Feminino
CAPÍTULO 83 - Gravidez e Lactação
Maturação e Fertilização do Óvulo
Nutrição Inicial do Embrião
Anatomia e Função da Placenta
Fatores Hormonais na Gravidez
Parto
Lactação
CAPÍTULO 84 - Fisiologia Fetal e Neonatal
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