Tratado de Fisiologia Médica
Regulação da Troca de Líquidos e Equilíbrio Osmótico Entre os Líquidos Intracelular e Extracelular
ser medida, e o volume total de sangue pode ser calculado usando-se o
princípio indicador-diluição. Uma substância frequentemente utilizada para
marcar as hemácias é o cromo radioativo ( 51Cr), que se liga fortemente às
hemácias.
REGULAÇÃO DA TROCA DE LÍQUIDOS E EQUILÍBRIO
OSMÓTICO ENTRE OS LÍQUIDOS INTRA E
EXTRACELULARES
Problema frequente no tratamento de pacientes seriamente doentes é a
manutenção da composição adequada em um ou ambos os compartimentos
intra e extracelulares. Como discutido no Capítulo 16 e mais adiante neste
Capítulo, as quantidades relativas de líquido extracelular, distribuídas entre
o plasma e os espaços intersticiais, são determinadas principalmente pelo
equilíbrio das forças hidrostáticas e coloidosmóticas, através das
membranas capilares.
A distribuição dos líquidos entre os compartimentos intra e extracelulares,
em contraste, é determinada, sobretudo, pelo efeito osmótico de solutos
menores — especialmente sódio, cloreto e outros eletrólitos — agindo
através da membrana celular. A razão para isso é que as membranas
celulares são muito permeáveis à água, mas relativamente impermeáveis a
íons menores que a água, tais como sódio e cloreto. Portanto, a água se
move rapidamente através da membrana celular e o líquido intracelular
permanece isotônico em relação ao líquido extracelular.
Na próxima seção, discutiremos as inter-relações entre os volumes dos
líquidos intra e extracelulares e os fatores osmóticos que podem causar
movimento de líquidos entre esses dois compartimentos.
Princípios Básicos da Osmose e da Pressão Osmótica O princípio básico da osmose e da pressão osmótica foi apresentado
no Capítulo 4. Portanto, iremos revisar aqui somente os aspectos mais
importantes desses princípios, conforme se apliquem à regulação do
volume.
Devido às membranas celulares serem relativamente impermeáveis para a
maioria dos solutos, mas muito permeáveis à água (i. e., são seletivamente
permeáveis), sempre que existir maior concentração de soluto de um lado
da membrana celular a água se difunde pela membrana em direção ao lado
de maior concentração de soluto. Dessa maneira, se o soluto, por exemplo,
o cloreto de sódio for adicionado ao líquido extracelular, rapidamente
ocorrerá difusão de água através da membrana celular, da célula para o
líquido extracelular, até que a concentração de água em ambos os lados da
membrana se igualem. Inversamente, se o soluto como o cloreto de sódio
for removido do líquido extracelular ocorrerá difusão de água do líquido
extracelular através das membranas celulares e para as células. A
intensidade da difusão da água é conhecida como intensidade da osmose.
Osmolalidade e Osmolaridade. A concentração osmolar de uma
solução é chamada osmolalidade quando a concentração é expressa em
osmóis por quilograma de água; já essa concentração expressa em osmóis
por litro de solução é conhecida por osmolaridade. Em soluções diluídas,
por exemplo, os líquidos corporais, esses dois termos podem ser utilizados
quase como sinônimos, porque suas diferenças são muito pequenas. Na
maioria dos casos, é mais fácil de se expressar a quantidade de líquidos
corporais em litros de líquido do que em quilogramas de água. Portanto, a
maioria dos cálculos usados clinicamente e os cálculos expressos nos
próximos Capítulos são baseados muito mais na osmolaridade que na
osmolalidade.
Cálculo da Osmolaridade e Pressão Osmótica de uma Solução.
Utilizando-se a lei de van’t Hoff, pode-se calcular a pressão osmótica
potencial de uma solução, assumindo que a membrana celular é
impermeável ao soluto.
Por exemplo, a pressão osmótica de solução de cloreto de sódio a 0,9% é
calculada da seguinte forma: solução de cloreto de sódio a 0,9% significa
que existe 0,9 grama de cloreto de sódio por 100 mililitros de solução, ou 9
g/L. Em razão do peso molecular do cloreto de sódio ser 58,5 g/mol, a
molaridade da solução é 9 g/L divididos por 58,5 g/mol, ou algo em torno
de 0,154 mol/L. Devido a cada molécula de cloreto de sódio ser igual a 2
osmóis, a osmolaridade da solução é 0,154 × 2, ou 0,308 Osm/L. Portanto,
a osmolaridade dessa solução é 308 mOsm/L. A pressão osmótica potencial
dessa solução seria 308 mOsm/L × 19,3 mmHg/mOsm/L, ou 5.944 mmHg.
Esse cálculo é somente aproximado, porque os íons cloreto e sódio não se
comportam de modo totalmente independente na solução, por causa da
atração interiônica existente entre eles. Podem-se corrigir esses desvios
existentes ao se utilizar a lei de van’t Hoff e o fator de correção conhecido
por coeficiente osmótico. Para o cloreto de sódio, o coeficiente osmótico é
em torno de 0,93. Logo, a osmolaridade real de uma solução de cloreto de
sódio a 0,9% é 308 × 0,93, ou cerca de 286 mOsm/L. Por questões práticas,
os coeficientes osmóticos de diferentes solutos são algumas vezes ignorados
ao se determinar a osmolaridade e a pressão osmótica de soluções
fisiológicas.
Osmolaridade dos Líquidos Corporais. Retornando à Tabela 25-2,
observe a osmolaridade aproximada de várias substâncias osmoticamente
ativas no plasma, no líquido intersticial e no líquido intracelular. Observe
que quase 80% da osmolaridade total do líquido intersticial e do plasma são
devidos aos íons sódio e cloreto, enquanto para o líquido intracelular quase a metade da osmolaridade é devida aos íons potássio, e o restante é dividido
entre as muitas outras substâncias intracelulares.
Como mostra a Tabela 25-2, a osmolaridade total de cada um dos três
compartimentos fica em torno de 300 mOms/L, sendo a osmolaridade do
plasma em torno de 1 mOsm/L maior que nos líquidos intersticial e
intracelular. Essa pequena diferença entre a osmolaridade do plasma e do
líquido intersticial é causada pelos efeitos osmóticos das proteínas do
plasma, que mantêm pressão osmótica nos capilares cerca de 20 mmHg
maior do que nos espaços intersticiais adjacentes, como discutido
no Capítulo 16.
Atividade Osmolar Corrigida dos Líquidos Corporais. Na parte
inferior da Tabela 25-2 são mostradas as atividades osmolares corrigidas do
plasma, do líquido intersticial e do líquido intracelular. A razão para essas
correções é que os cátions e os ânions na solução exercem atração
interiônica que pode causar discreta redução na “atividade osmótica” da
substância dissolvida.
O Equilíbrio Osmótico É Mantido Entre os líquidos Intra
e Extracelulares
Altas pressões osmóticas podem ser desenvolvidas através da membrana
celular, com alterações relativamente pequenas da concentração de solutos
do líquido extracelular. Como discutido antes, para cada miliosmol no
gradiente de concentração de soluto impermeante na membrana, 19,3
mmHg de pressão osmótica são aplicados à membrana celular. Caso a
membrana celular seja exposta à água pura e a osmola ridade do líquido
intracelular seja de 282 mOsm/L, a pressão osmótica potencial, que pode se
desenvolver de um lado a outro da membrana celular, é maior que 5.400
mmHg. Isto demonstra a enorme força que pode mover a água através da membrana celular quando os líquidos intra e extracelulares não estão em
equilíbrio osmótico. Como resultado dessas forças, alterações relativamente
pequenas na concentração de solutos impermeantes do líquido extracelular
podem causar grandes alterações no volume da célula.
Líquidos Isotônicos, Hipotônicos e Hipertônicos. O efeito de
diferentes concentrações de solutos impermeantes do líquido extracelular
sobre o volume das células é mostrado na Figura 25-5. Se a célula for
colocada em solução de solutos impermeantes com osmolaridade de 282
mOsm/L, a célula não terá seu volume alterado, pois as concentrações de
água, nos líquidos intra e extracelulares, são iguais e os solutos não podem
entrar ou sair da célula. Tal solução é dita isotônica por não alterar o
volume das células. Exemplos de soluções isotônicas incluem a solução de
cloreto de sódio a 0,9% ou a solução de glicose a 5%. Essas soluções são
importantes na medicina clínica por poderem ser infundidas no sangue sem
risco de perturbar o equilíbrio osmótico entre os líquidos intra e
extracelulares.
Se a célula for colocada em solução hipotônica, com concentração de
solutos impermeantes (< 282 mOsm/L), a água se difundirá do líquido
extracelular para a célula, causando inchamento; a água continuará a se
difundir pela célula diluindo o líquido intracelular até que este se torne
isotônico em relação ao extracelular. Caso o inchamento da célula
ultrapasse a capacidade de distensão da membrana, esta se rompe. Soluções
de cloreto de sódio com concentração menor do que 0,9% são hipotônicas.
Se a célula for colocada em solução hipertônica, com concentração maior
de solutos impermeantes que o líquido intracelular, água sairá da célula para
o líquido extracelular, concentrando o líquido intracelular e diluindo o
líquido extracelular. Nesse caso, a célula encolherá até que a osmolaridade
do líquido intracelular se iguale à do meio extracelular. As soluções de
cloreto de sódio maiores do que 0,9% são hipertônicas.
Figura 25-5. Efeitos de soluções isotônica (A), hipertônica (B) e hipotônica (C) sobre o volume das células.
Líquidos Isosmóticos, Hiperosmóticos e Hipo-osmóticos. Os
termos isotônico, hipotônico e hipertônico referem-se às soluções que
causarão alterações do volume celular. A tonicidade de uma solução
depende de sua concentração de solutos impermeantes. Entretanto, alguns
solutos podem permear a membrana celular. Soluções com a mesma
osmolaridade que a célula são ditas isosmóticas, independentemente do
soluto poder penetrar na membrana celular.
Os termos hiperosmótico e hipo-osmótico referem-se às soluções com
maior e menor osmolaridade, respectivamente, em relação à do líquido
extracelular normal, se os solutos não forem permeantes. Soluções com substâncias muito permeantes, como a ureia, podem causar alterações