Tratado de Fisiologia Médica
Controle das Funções Motoras pelo Tronco Cerebral
das mãos e dos dedos. Isso não significa que os músculos das mãos e dos dedos
não possam se contrair; em lugar disso, a capacidade de controlar os movimentos
finos é o que se perde. Partindo dessas observações, pode-se concluir que a área
piramidal é essencial para o início voluntário dos movimentos finamente
controlados, em especial das mãos e dos dedos.
Espasticidade Muscular Causada por Lesões Que Atinjam Grandes Áreas
Adjacentes ao Córtex Motor. O córtex motor primário normalmente exerce efeito
estimulador tônico e contínuo sobre os neurônios motores da medula espinal;
quando esse efeito estimulador é removido, ocorre hipotonia. A maioria das lesões
do córtex motor, sobretudo as causadas por AVC, envolve não apenas o córtex
motor primário, mas também partes adjacentes do cérebro, como os núcleos da
base. Nesses casos, quase invariavelmente, ocorre espasmo muscular nas áreas
musculares afetadas no lado oposto do corpo (porque as vias motoras cruzam
para o lado oposto). Esse espasmo resulta em especial da lesão de vias
acessórias das partes não piramidais do córtex motor. Essas vias costumam inibir
os núcleos motores vestibulares e reticulares do tronco cerebral. Quando esses
núcleos perdem seu estado de inibição (i. e., são “desinibidos”), ficam
espontaneamente ativos e causam tônus espástico excessivo nos músculos
envolvidos, como ainda discutiremos de maneira mais completa neste Capítulo.
Essa espasticidade em geral acompanha o “AVC” no ser humano.
CONTROLE DAS FUNÇÕES MOTORAS PELO TRONCO
CEREBRAL
O tronco cerebral é formado por bulbo, ponte e mesencéfalo. Por um lado,
ele é a extensão da medula espinal na cavidade craniana, porque contém
núcleos motores e sensoriais que realizam as funções motoras e sensoriais
da face e da cabeça, do mesmo modo que a medula espinal é responsável
por essas funções, para regiões do pescoço para baixo. Entretanto, por outro
lado, o tronco cerebral é diretamente responsável por muitas funções
especiais de controle, como as seguintes:
1. Controle da respiração.
2. Controle do sistema cardiovascular.
3. Controle parcial da função gastrointestinal.
4. Controle de muitos movimentos estereotipados do corpo.
5. Controle do equilíbrio.
6. Controle dos movimentos oculares.
Finalmente, o tronco cerebral serve como estação de passagem para
“sinais de comando” dos centros neurais superiores. Nas seções a seguir,
discutiremos o papel do tronco cerebral no controle do movimento corporal
total e no equilíbrio. Especialmente importante para essas finalidades são os
núcleos reticulares e os núcleos vestibulares do tronco cerebral.
SUSTENTAÇÃO DO CORPO CONTRA GRAVIDADE —
PAPÉIS DOS NÚCLEOS RETICULARES E
VESTIBULARES
A Figura 56-7 mostra as localizações dos núcleos reticulares e vestibulares
no tronco cerebral.
Figura 56-7. Localizações dos núcleos reticulares e vestibulares no tronco cerebral.
Antagonismo Excitatório-Inibitório Entre Núcleos
Reticulares Pontinos e Bulbares
Os núcleos reticulares se dividem em dois grupos principais: (1) núcleos
reticulares pontinos, localizados um pouco posterior e lateral à ponte,
estendendo-se para o mesencéfalo; e (2) núcleos reticulares bulbares, que
se estendem por todo o bulbo, situando-se ventral e medialmente perto da
linha média. Esses dois grupos de núcleos funcionam, em particular, de
maneira antagônica entre si, com os pontinos excitando os músculos
antigravitários e os bulbares relaxando os mesmos músculos.
Sistema Reticular Pontino. Os núcleos reticulares pontinos transmitem
sinais excitatórios descendentes para a medula espinal pelo trato
reticuloespinal pontino na coluna anterior da medula, como mostrado na
Figura 56-8. As fibras dessa via terminam nos neurônios motores
anteriores mediais, responsáveis pela excitação dos músculos axiais do
corpo, que sustentam o corpo contra a gravidade — isto é, os músculos da
coluna vertebral (paravertebrais) e os músculos extensores das
extremidades.
Os núcleos reticulares pontinos têm alto grau de excitabilidade natural.
Ademais, recebem fortes sinais excitatórios dos núcleos vestibulares, bem
como dos núcleos profundos do cerebelo. Portanto, quando o sistema
excitatório pontino fica sem oposição pelo sistema reticular bulbar provoca
excitação tão poderosa dos músculos antigravitários em todo o corpo, que
animais quadrúpedes, quando colocados na posição em pé, sustentam o
corpo contra a gravidade sem qualquer sinal dos níveis mais altos do
cérebro.
Figura 56-8. Tratos vestibuloespinal e reticuloespinal descendo pela medula espinal, para excitar (linhas contínuas) ou inibir (linhas tracejadas) os neurônios motores anteriores que controlam a musculatura axial do corpo.
Sistema Reticular Bulbar. Os núcleos reticulares bulbares transmitem
sinais inibitórios para os mesmos neurônios motores anteriores
antigravitários por meio de trato diferente, o trato reticuloespinal bulbar,
localizado na coluna lateral da medula, como também é mostrado na
Figura 56-8. Os núcleos reticulares bulbares recebem fortes colaterais de
aferência: (1) do trato corticoespinal; (2) do trato rubroespinal; e (3) de
outras vias motoras. Esses tratos e vias normalmente ativam o sistema
inibitório reticular bulbar para contrabalançar os sinais excitatórios do
sistema reticular pontino, assim, sob condições normais, os músculos
corporais não ficam anormalmente tensos.
Ainda assim, alguns sinais de áreas superiores do encéfalo podem
“desinibir” o sistema bulbar, quando se deseja excitar o sistema pontino
para que o indivíduo fique em pé. Em outras ocasiões, a excitação do
sistema reticular bulbar pode inibir músculos antigravitários em certas partes do corpo para permitir que essas partes realizem atividades motoras
especiais. Os núcleos reticulares excitatórios e inibitórios formam sistema
controlável, que é manipulado por sinais motores do córtex cerebral e de
outras partes, provocando contrações musculares de fundo, necessárias para
ficar em pé contra a gravidade e para inibir os grupos de músculos
apropriados, conforme necessário, de modo que outras funções possam ser
realizadas.
Papel dos Núcleos Vestibulares para Excitar os
Músculos Antigravitários
Todos os núcleos vestibulares, mostrados na Figura 56-7, funcionam em
associação com os núcleos reticulares pontinos para controlar os músculos
antigravitários. Os núcleos vestibulares transmitem fortes sinais excitatórios
para os músculos antigravitários por meio dos tratos vestibuloespinais
lateral e medial, nas colunas anteriores da medula espinal, como mostrado
na Figura 56-8. Sem essa sustentação dos núcleos vestibulares, o sistema
reticular pontino perderia grande parte de sua excitação dos músculos
antigravitários axiais.
O papel específico dos núcleos vestibulares, contudo, é o de controlar
seletivamente os sinais excitatórios para os diferentes músculos
antigravitários, de modo a manter o equilíbrio em resposta a sinais do
sistema vestibular. Discutimos esse conceito mais completamente adiante
no Capítulo.
O Animal Descerebrado Desenvolve Rigidez Espástica. Quando o
tronco cerebral de animal é seccionado abaixo do nível médio do
mesencéfalo, mas seus sistemas reticulares da ponte e do bulbo, bem como
o sistema vestibular são deixados intactos, desenvolve-se a patologia
chamada rigidez de descerebração. Essa rigidez não ocorre em todos os músculos do corpo, todavia, ocorre nos músculos antigravitários — os