Tratado de Fisiologia Médica

John E. Hall · Capítulo 46 de 351

Páginas do PDF

Tratado de Fisiologia Médica

Características do Eletrocardiograma Normal

Figura 11-1. Eletrocardiograma normal.

 

CARACTERÍSTICAS DO ELETROCARDIOGRAMA

NORMAL

 

O ECG normal (Fig. 11-1) é composto por onda P, complexo QRS e onda T.

O complexo QRS apresenta, com frequência, mas nem sempre, três ondas

distintas: a onda Q, a onda R e a onda S.

A onda P é produzida pelos potenciais elétricos gerados quando os átrios

se despolarizam, antes de a contração atrial começar. O complexo QRS é

produzido pelos potenciais gerados quando os ventrículos se despolarizam

antes de sua contração, isto é, enquanto a onda de despolarização se

propaga pelos ventrículos. Portanto, tanto a onda P como os componentes

do complexo QRS são ondas de despolarização.

A onda T é produzida pelos potenciais gerados, enquanto os ventrículos se

restabelecem do estado de despolarização. Esse processo no músculo

ventricular normalmente ocorre 0,25 a 0,35 segundo após a sua

despolarização, e a onda T é conhecida como onda de repolarização.

Assim, o ECG é formado por ondas de despolarização e por ondas de

repolarização. Os princípios da despolarização e da repolarização foram

discutidos no Capítulo 5. A distinção entre as ondas de despolarização e as ondas de repolarização é tão importante na eletrocardiografia que

esclarecimento adicional se faz necessário.

 

Ondas de Despolarização versus Ondas de

Repolarização

A Figura 11-2 mostra uma fibra muscular única do coração em quatro fases

diferentes do processo de despolarização e de repolarização. Nessa figura, a

cor vermelha indica a despolarização. Durante a despolarização, o potencial

negativo normal presente no interior da fibra se inverte, ficando levemente

positivo no interior e negativo no exterior.

Na Figura 11-2A, a despolarização representada pelas cargas positivas

vermelhas, no interior, e pelas cargas negativas vermelhas, no exterior da

fibra, está se deslocando da esquerda para a direita. A primeira metade da

fibra já se despolarizou, enquanto a metade restante ainda está polarizada.

Entretanto, o eletródio esquerdo, situado no exterior da fibra, está em área

negativa, e o eletródio direito está em área positiva, o que faz com que o

aparelho registre valor positivo. À direita da fibra muscular, evidencia-se o

registro das variações que ocorrem no potencial entre os dois eletródios

como mostra o aparelho registrador de alta velocidade. Na Figura 11-2A,

observe que, quando a des polarização alcança a metade do comprimento da

fibra, o registro sobe até o valor positivo máximo.

Na Figura 11-2B, a despolarização já se estendeu por toda a fibra

muscular, e o registro à direita retornou à linha de base zero, porque ambos

os eletródios estão agora em áreas igualmente negativas. A onda completa é

uma onda de despolarização, pois resulta da propagação da despolarização

ao longo da membrana da fibra muscular.

A Figura 11-2C mostra metade do trecho da mesma fibra muscular já

repolarizada. A positividade está retornando para o lado externo da fibra.

Nesse momento, o eletródio esquerdo está em área positiva, e o eletródio direito em área negativa. Essa polaridade agora é oposta à polaridade

mostrada na Figura 11-2A. Como consequência, o registro mostrado à

direita fica negativo.

Na Figura 11-2D, a fibra muscular se repolarizou completamente, e ambos

os eletródios estão agora em áreas positivas, de modo que não existe

diferença de potencial entre eles para ser registrada. Assim, no registro à

direita, o potencial retorna novamente ao zero. Essa onda negativa completa

é uma onda de repolarização, porque resulta da propagação da repolarização

ao longo da membrana da fibra muscular.

Figura 11-2. Registro da onda de despolarização (A e B) e da onda de repolarização (C e D) de fibra muscular do coração.

 

Relação entre o Potencial de Ação Monofásico do Músculo

Ventricular e as Ondas QRS e T do Eletrocardiograma Padrão. O

potencial de ação monofásico do músculo ventricular, discutido no Capítulo

10, dura normalmente de 0,25 a 0,35 segundo. A parte superior da Figura

11-3 mostra um potencial de ação monofásico registra do por um

microeletródio inserido no interior de uma fibra muscular única ventricular. A deflexão inicial, ascenden te e íngreme desse potencial de ação é

produzida pela despolarização, e o retorno do potencial à linha de base é

causado pela repolarização.

A parte inferior da Figura 11-3 mostra o registro do ECG simultâneo desse

mesmo ventrículo. Observa-se que as ondas QRS surgem no início do

potencial de ação monofásico, aparecendo a onda T no final. Observe,

sobretudo, que nenhum potencial é registrado no ECG quando o músculo

ventricular está completamente polarizado ou completamente

despolarizado. Somente quando o músculo está em parte polarizado e em

parte despolarizado é que a corrente flui de uma parte dos ventrículos para

outra e, consequentemente, flui também até a superfície do corpo,

permitindo o registro ECG.

 

Figura 11-3. Acima, Potencial de ação monofásico de fibra do músculo ventricular durante a função cardíaca normal, mostrando a despolarização rápida, seguida pela repolarização lenta, durante a fase de platô, e pela repolarização rápida, já próximo do final do processo. Abaixo, Registro eletrocardiográfico feito simultaneamente.

 

Relação entre a Contração Atrial e a Ventricular e as

Ondas do Eletrocardiograma Antes que a contração do músculo possa ocorrer, é preciso que a

despolarização se propague pelo músculo para iniciar os processos

químicos da contração. Voltando à Figura 11-1: a onda P ocorre no início da

contração dos átrios, e o complexo QRS de ondas ocorre no início da

contração dos ventrículos. Os ventrículos permanecem contraídos até que a

repolarização tenha ocorrido, ou seja, até o final da onda T.

Os átrios se repolarizam cerca de 0,15 a 0,20 segundo, após o término da

onda P, coincidindo aproximadamente com o momento em que o complexo

QRS está sendo registrado no ECG. Como consequência, a onda de

repolarização atrial conhecida como onda T atrial é em geral encoberta pelo

complexo QRS que é muito maior. Por essa razão, raramente se observa

uma onda T atrial no ECG.

A onda de repolarização ventricular é a onda T do ECG normal.

Normalmente, a repolarização do músculo ventricular começa em algumas

fibras, cerca de 0,20 segundo após o início da onda de despolarização (o

complexo QRS), mas em muitas outras fibras demora até 0,35 segundo.

Assim, o processo de repolarização ventricular se estende por período

longo, cerca de 0,15 segundo. Por isso, a onda T do ECG normal é uma

onda de longa duração, mas sua voltagem é consideravelmente menor que a

voltagem do complexo QRS, em parte por causa de sua duração

prolongada.

 

Calibração da Voltagem e do Tempo do

Eletrocardiograma

 

Todos os registros ECG são feitos com linhas de calibração apropriadas no

papel de registro. Essas linhas de calibração já podem estar traçadas no

papel, como ocorre quando se utilizam aparelhos com pena inscritora, ou

são registradas no papel ao mesmo tempo em que o ECG é registrado, como

ocorre nos eletrocardiógrafos de tipo fotográfico.

Como mostrado na Figura 11-1, as linhas de calibração horizontais do

ECG padrão estão dispostas de tal modo que cada 10 linhas horizontais

correspondem a 1 milivolt, as linhas horizontais acima da linha de base

indicam valores positivos, e as que estão abaixo da linha de base indicam

valores negativos.

As linhas verticais do ECG são as linhas de calibração do tempo. Um

ECG típico tem velocidade de impressão de 25 milímetros por segundo,

embora às vezes sejam usadas velocidades maiores. Portanto, cada 25

milímetros na direção horizontal correspondem a 1 segundo, e cada

segmento de 5 milímetros indicado por linhas verticais escuras representa

0,20 segundo. Os intervalos de 0,20 segundo estão, por sua vez, divididos

em cinco intervalos menores por linhas finas, e cada um desses intervalos

menores corresponde a 0,04 segundo.

 

Voltagens Normais do Eletrocardiograma. As voltagens das ondas

registradas no ECG normal dependem da maneira pela qual os eletródios

são postos em contato com a superfície do corpo e de quão próximos eles

estão do coração. Quando um eletródio é colocado diretamente sobre os

ventrículos e um segundo eletródio é disposto em outro lugar do corpo,

distante do coração, a voltagem do complexo QRS pode atingir 3 a 4

milivolts. Inclusive essa voltagem é pequena quando comparada com o

potencial de ação monofásico de 110 milivolts registrado diretamente na

membrana da fibra muscular cardíaca. Assim que ECGs são registrados por

eletródios colocados nos dois braços ou em um braço e uma perna, a

voltagem do complexo QRS é geralmente de 1,0 a 1,5 milivolt desde o pico

da onda R até o ponto mais baixo da onda S. Já a voltagem da onda P

permanece entre 0,1 e 0,3 milivolt, e a da onda T fica entre 0,2 e 0,3

milivolt.