Tratado de Fisiologia Médica
Sistema Linfático
excesso de líquido nesses espaços, seria necessário fluxo de líquido 68
vezes maior que o normal para o sistema linfático, o que é duas a cinco
vezes maior que a capacidade total dos linfáticos. Como consequência, o
líquido tenderia a se acumular nos espaços intersticiais resultando em
edema.
Por sua vez, se a pressão capilar cair a valor muito baixo, ocorrerá
reabsorção efetiva de líquido pelos capilares em vez de filtração, e o volume
sanguíneo aumentará à custa do volume de líquido intersticial. Esses efeitos
da falha de balanceamento na membrana capilar em relação ao
desenvolvimento de diferentes tipos de edema são discutidos no Capítulo
25.
SISTEMA LINFÁTICO
O sistema linfático representa a via acessória, por meio da qual o líquido
pode fluir dos espaços intersticiais para o sangue. É importante notar que os
linfáticos transportam para fora dos espaços teciduais proteínas e grandes
partículas, que não podem ser removidas por absorção direta pelos capilares
sanguíneos. Esse retorno da proteína para o sangue dos espaços intersticiais
é função essencial, sem a qual morreríamos em torno de 24 horas.
Canais Linfáticos do Corpo
Quase todos os tecidos corporais têm canais linfáticos especiais, que drenam
o excesso de líquido diretamente dos espaços intersticiais. As exceções
incluem as porções superficiais da pele, o sistema nervoso central, o
endomísio dos músculos e os ossos. Entretanto, mesmo esses tecidos têm
canais minúsculos, referidos como pré-linfáticos, pelos quais o líquido
intersticial pode fluir; esse líquido é, por fim, drenado para vasos linfáticos ou, no caso do encéfalo, para o líquido cerebrospinal e dele diretamente de
volta ao sangue.
Em essência, todos os vasos linfáticos da parte inferior do corpo escoam-
se por fim para o ducto torácico que, por sua vez, escoa-se para o sistema
venoso de sangue, na junção da veia jugular interna esquerda com a veia
subclávia esquerda, como mostra aFigura 16-7.
A linfa do lado esquerdo da cabeça, do braço esquerdo e de partes da
região torácica também penetra o ducto torácico antes de se escoar nas
veias.
A linfa do lado direito da cabeça e pescoço, braço direito e partes do
hemitórax direito segue pelo ducto linfático direito (muito menor que o
ducto torácico), que se escoa no sistema venoso de sangue, na junção da
veia subclávia com a veia jugular interna direita.
Figura 16-7. Sistema linfático.
Capilares Linfáticos Terminais e sua Permeabilidade. A maior
parte do líquido filtrado nas extremidades arteriais dos capilares
sanguíneos flui por entre as células, sendo finalmente reabsorvido de volta
pelas extremidades venosas dos capilares sanguíneos; no entanto, em
média, cerca de um décimo do líquido segue para os capilares linfáticos e
retorna ao sangue pelo sistema linfático, em vez de fazê-lo pelos capilares
venosos. O volume total dessa linfa é normalmente de apenas 2 a 3 litros
por dia.
O líquido que retorna à circulação pelos linfáticos é extremamente
importante, por conter substâncias de alto peso molecular, tais como
proteínas que não podem ser absorvidas dos tecidos por qualquer outra via, embora possam entrar nos capilares linfáticos quase sem impedimentos. A
razão desse mecanismo é uma estrutura especial dos capilares linfáticos,
mostrada na Figura 16-8. Essa figura exibe as células endoteliais do capilar
linfático presas por filamentos de ancoragem ao tecido conjuntivo que o
circunda. Nas junções entre as células endoteliais adjacentes, a borda de
uma célula se sobrepõe à borda da célula seguinte, de modo que a borda
sobreposta fica livre para se dobrar para dentro, formando, assim, uma
válvula minúscula, que se abre para o interior do capilar linfático. O líquido
intersticial, junto com as partículas suspensas, pode pressionar e abrir a
válvula, fluindo diretamente para o capilar linfático. Entretanto, esse líquido
tem dificuldade para deixar o capilar uma vez que tenha entrado porque
qualquer refluxo fecha a válvula. Dessa forma, os linfáticos têm válvulas
nas extremidades dos capilares linfáticos terminais, bem como válvulas ao
longo de seus vasos mais grossos até o ponto em que se escoam para a
circulação sanguínea.
Figura 16-8. Estrutura especial dos capilares linfáticos permitindo a passagem de substâncias de alto peso molecular para a linfa.
Formação da Linfa
A linfa é derivada do líquido intersticial que flui para os linfáticos. Por isso,
logo após entrar nos linfáticos terminais, ela apresenta praticamente a
mesma composição que o líquido intersticial.
A concentração de proteína no líquido intersticial da maioria dos tecidos é,
em média, cerca de 2 g/dL, e a da linfa que flui desses tecidos é próxima a
esse valor. A linfa formada no fígado apresenta concentração elevada de
proteína de 6 g/dL, e a linfa formada nos intestinos tem concentração de
proteína de 3 a 4 g/dL. Como aproximadamente dois terços de toda a linfa
são, em condições normais, derivados do fígado e dos intestinos, a linfa do
ducto torácico, que é a mistura da linfa de todas as partes do corpo, tem em
geral, concentração de proteínas de 3 a 5 g/dL.
O sistema linfático é também uma das principais vias de absorção de
nutrientes vindos do trato gastrointestinal, em especial para a absorção de
praticamente todos os lipídios dos alimentos, como discutido no Capítulo
66. De fato, após refeição rica em gorduras, a linfa do ducto torácico chega
a conter por vezes até 1% a 2% de lipídios.
Por fim, mesmo grandes partículas, como bactérias, podem passar através
das células endoteliais e entrar nos capilares linfáticos e desse modo chegar
à linfa. À medida que a linfa passa pelos linfonodos, essas partículas são
quase inteiramente removidas e destruídas, como discutido no Capítulo 34.
Intensidade do Fluxo Linfático
Cerca de 100 mL de linfa fluem por hora pelo ducto torácico do humano em
repouso, e aproximadamente outros 20 mL fluem para a circulação a cada hora por outros canais, perfazendo o total estimado do fluxo linfático de
cerca de 120 mL/h, ou 2 a 3 L por dia.
Efeito da Pressão do Líquido Intersticial sobre o Fluxo Linfático.
A Figura 16-9 mostra o efeito de diferentes níveis de pressão do líquido
intersticial sobre o fluxo linfático medido em animais. Note que o fluxo
linfático normal é muito pequeno, com pressões do líquido intersticial
abaixo do valor normal de −6 mmHg. Então, à medida que a pressão
aumenta para 0 mmHg (pressão atmosférica), o fluxo aumenta por mais de
20 vezes. Por conseguinte, qualquer fator que aumente a pressão do líquido
intersticial também aumenta o fluxo linfático se os vasos linfáticos
estiverem funcionando normalmente. Esses fatores incluem:
•Pressão hidrostática capilar elevada.
•Pressão coloidosmótica diminuída do plasma.
•Pressão coloidosmótica aumentada do líquido intersticial.
•Permeabilidade aumentada dos capilares.
Todos esses fatores fazem com que o balanceamento das trocas de líquido
na membrana capilar sanguínea favoreça o movimento de líquido para o
interstício, dessa forma aumentando ao mesmo tempo o volume e a pressão
do líquido intersticial e o fluxo linfático.
Entretanto, note na Figura 16-9 que, quando a pressão do líquido
intersticial fica 1 a 2 mmHg maior que a pressão atmosférica (> 0 mmHg), o
fluxo linfático para de aumentar, mesmo sob pressões maiores. Isso ocorre
porque o aumento da pressão tecidual não somente aumenta a entrada de
líquido para os capilares linfáticos, mas comprime também as superfícies
externas dos grandes linfáticos, impedindo o fluxo de linfa. Sob pressões
maiores, esses dois fatores se contrabalançam de forma quase exata; assim,
atinge-se a “intensidade/velocidade máxima do fluxo linfático”,
representada pelo platô superior na Figura 16-9.
Figura 16-9. Relação entre a pressão do líquido intersticial e o fluxo linfático na perna de
cão. Note que o fluxo linfático atinge o máximo quando a pressão intersticial P se eleva T ligeiramente acima da pressão atmosférica (0 mmHg). (Cortesia de Drs. Harry Gibson e Aubrey Taylor.)
A Bomba Linfática Aumenta o Fluxo de Linfa. Todos os canais
linfáticos têm válvulas. Na Figura 16-10 são mostradas válvulas típicas dos
linfáticos coletores que drenam os linfáticos capilares.
Filmagens de vasos linfáticos expostos em animais e em humanos
demonstram que, quando o linfático coletor ou vaso linfático maior é
estirado pelo líquido, o músculo liso na parede desse vaso se contrai
automaticamente. Além disso, cada segmento do vaso linfático entre
válvulas sucessivas funciona como uma bomba automática isolada, ou seja,
mesmo o pequeno enchimento de um segmento provoca sua contração, e o
líquido é bombeado pela válvula para o segmento linfático seguinte. Isso
enche o segmento subsequente e, após alguns segundos, este também se
contrai; esse processo ocorre ao longo de todo o vaso linfático, até que o líquido finalmente se escoe na circulação sanguínea. Em vasos linfáticos
muito grandes como o ducto torácico, essa bomba linfática pode gerar
grandes pressões de até 50 a 100 mmHg.
Figura 16-10. Estrutura de capilares linfáticos e um linfático coletor mostrando também válvulas linfáticas.
Bombeamento Causado pela Compressão Intermitente Externa
dos Linfáticos. Além do bombeamento provocado pela contração
intermitente intrínseca das paredes dos vasos linfáticos, qualquer fator
externo, que comprima o vaso linfático também de modo intermitente, pode
provocar o bombeamento. Em ordem de importância, esses fatores são:
•Contração dos músculos esqueléticos circundantes.
•Movimento de partes do corpo.
•Pulsações de artérias adjacentes aos linfáticos.
•Compressão dos tecidos por objetos externos ao corpo.
A bomba linfática fica muito ativa durante o exercício, frequentemente
aumentando o fluxo linfático por 10 a 30 vezes. Ao contrário, durante
períodos de repouso, o fluxo linfático é extremamente lento, quase nulo. Bomba Capilar Linfática. O capilar linfático terminal também é capaz
de bombear linfa, além do bombeamento realizado pelos vasos linfáticos
maiores. Como explicado neste Capítulo, as paredes dos capilares linfáticos
aderem firmemente às células do tecido circundante por meio de filamentos
de ancoragem. Assim, cada vez que o excesso de líquido chega ao tecido e
faz com que ele se inche, os filamentos de ancoragem puxam a parede do
capilar linfático, e o líquido flui para o terminal linfático pelas junções entre
as células endoteliais. Então, quando o tecido é comprimido, a pressão no
interior do capilar aumenta e faz com que as bordas sobrepostas das células
endoteliais se fechem como válvulas. Por esse motivo, a pressão empurra a
linfa para frente em direção ao linfático coletor, ao invés de para trás, em
direção às junções celulares.
As células endoteliais do capilar linfático também contêm alguns
filamentos contráteis de actomiosina. Em alguns tecidos animais (p. ex., a
asa do morcego), observou-se que esses filamentos provocam a contração
rítmica dos capilares linfáticos, da mesma forma rítmica que ocorre com
muitos dos pequenos vasos sanguíneos e linfáticos maiores. Por isso, é
provável que pelo menos parte do bombeamento resulte da contração das
células endoteliais dos capilares linfáticos, além da contração dos linfáticos
musculares maiores.
Resumo dos Fatores que Determinam o Fluxo Linfático. Pela
discussão anterior, é possível notar que os dois fatores principais
determinativos do fluxo linfático são (1) a pressão do líquido intersticial; e
(2) a atividade da bomba linfática. Portanto, podemos afirmar que de modo
geral a intensidade do fluxo linfático é determinada pelo produto da pressão
do líquido intersticial pela atividade da bomba linfática.
O Sistema Linfático Desempenha um Papel-Chave no
Controle da Concentração de Proteína, do Volume e da Pressão do Líquido Intersticial
Já está claro que o sistema linfático funciona como um “mecanismo de
transbordamento” (overflow), para devolver à circulação o excesso de
proteína e de líquido nos espaços teciduais. Portanto, desempenha também
papel central no controle (1) da concentração de proteínas; (2) do volume; e
(3) da pressão do líquido intersticial. Vamos explicar como esses fatores
interagem.
Em primeiro lugar, lembre-se de que pequena quantidade de proteínas
extravasa continuamente dos capilares sanguíneos para o interstício.
Somente quantidade muito pequena, se ocorrer, da proteína extravasada
retorna à circulação pelas extremidades venosas dos capilares sanguíneos.
Por isso, essa proteína tende a se acumular no líquido intersticial, o que
aumenta a pressão coloidosmótica dos líquidos intersticiais.
Em segundo lugar, o aumento da pressão coloidosmótica do líquido
intersticial desloca o balanço das forças na membrana do capilar sanguíneo
em favor da filtração de líquido para o interstício. Assim, efetivamente
ocorre a translocação osmótica de líquido causada pela proteína para fora da
parede capilar em direção ao interstício, aumentando o volume e a pressão
do líquido intersticial.
Em terceiro lugar, a elevação da pressão do líquido intersticial provoca
grande aumento da velocidade do fluxo linfático que remove o líquido
intersticial e a proteína em excesso que se acumularam nos espaços.
Assim, uma vez que a concentração de proteína no líquido intersticial
atinge certo nível e provoca aumento comparável do volume e da pressão do
líquido, o retorno da proteína e do líquido pelo sistema linfático passa a ser
suficientemente grande para contrabalancear a velocidade do
extravasamento de proteína e de líquido para o interstício pelos capilares
sanguíneos. Por conseguinte, os valores quantitativos de todos esses fatores
atingem equilíbrio estável (steady state); eles permanecerão balanceados nesses níveis até que alguma coisa altere a intensidade do extravasamento
da proteína e do líquido pelos capilares sanguíneos.
Significância da Pressão Negativa do Líquido Intersticial
como Forma de Manter os Tecidos Unidos
Tradicionalmente, assumiu-se que os diferentes tecidos do corpo são
mantidos unidos de forma integral pelas fibras do tecido conjuntivo.
Entretanto, em muitas partes do corpo, as fibras de tecido conjuntivo são
muito fracas ou até mesmo ausentes. Isso ocorre de modo particular nos
pontos onde os tecidos deslizam uns sobre os outros (p. ex., na pele que
desliza sobre o dorso da mão ou sobre a face). Contudo, mesmo nesses
lugares, os tecidos são mantidos unidos pela pressão negativa do líquido
intersticial, que é na verdade um vácuo parcial. Quando os tecidos perdem
sua pressão negativa, ocorre acúmulo de líquido nos espaços, resultando na
condição chamada edema. Isto é discutido no Capítulo 25.
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