Tratado de Fisiologia Médica
Inflamação: o Papel dos Neutrófilos e Macrófagos
permitindo que todo o sangue passe dos capilares para os cordões da polpa
vermelha. A seguir, o sangue gradativamente se espreme pela rede
trabecular desses cordões, para após certo tempo retornar à circulação
através das paredes endoteliais dos seios venosos. As trabéculas da polpa
vermelha e os seios venosos são revestidos por grande número de
macrófagos. Essa passagem peculiar do sangue pelos cordões da polpa
vermelha representa meio excepcional de fagocitose de detritos indesejáveis
encontrados no sangue, incluindo especialmente hemácias senis e anormais.
Figura 34-5. Estruturas funcionais do baço.
INFLAMAÇÃO: O PAPEL DOS NEUTRÓFILOS E
MACRÓFAGOS
INFLAMAÇÃO
Quando ocorre lesão tecidual, seja ela causada por bactérias, trauma,
agentes químicos, calor ou qualquer outro fenômeno, diversas substâncias
são liberadas pelos tecidos danificados, ocasionando graves alterações
secundárias nos tecidos não lesionados ao redor. Todo esse complexo de
alterações teciduais é chamado inflamação.
A inflamação se caracteriza por (1) vasodilatação dos vasos sanguíneos
locais, com o consequente aumento do fluxo sanguíneo local; (2) aumento
da permeabilidade dos capilares, permitindo a saída de grande quantidade
de líquido para os espaços intersticiais; (3) coagulação do líquido nos
espaços intersticiais, devido à quantidade aumentada de fibrinogênio e
outras proteínas que saíram dos capilares; (4) migração de grande
quantidade de granulócitos e monócitos para os tecidos; e (5) dilatação das
células teciduais. Alguns dos muitos produtos teciduais causadores dessas
reações incluem a histamina, a bradicinina, a serotonina, as
prostaglandinas, diversos produtos da reação do sistema de complemento
(descrito no Capítulo 35), produtos da reação do sistema da coagulação
sanguínea e várias substâncias designadas como linfocinas, liberadas pelas
células T sensibilizadas (parte do sistema imune; também discutidas
no Capítulo 35). Várias dessas substâncias ativam, com grande intensidade,
o sistema macrofágico, e, em algumas horas, os macrófagos começam a
devorar os tecidos destruídos. Entretanto, por vezes, os macrófagos também
lesionam as células teciduais ainda vivas.
Efeito de “Emparedamento” da Inflamação. Um dos primeiros
resultados da inflamação é o “emparedamento” da área lesada, isolando-a
dos tecidos a seu redor. Os espaços teciduais e os vasos linfáticos, na área
inflamada, são bloqueados por coágulos de fibrinogênio de modo que, após
algum tempo, o líquido quase não consegue fluir por esses espaços. Esse
processo de isolamento retarda a disseminação de bactérias ou de produtos
tóxicos.
A intensidade do processo inflamatório é, em geral, proporcional ao grau
da lesão tecidual. Por exemplo, quando estafilococos invadem os tecidos,
eles liberam toxinas celulares extremamente letais. Como resultado, a
inflamação se desenvolve com muita rapidez — na verdade, com
velocidade muito maior que a capacidade de os estafilococos se
multiplicarem e disseminarem-se. Assim, a infecção estafilocócica local,
em pouco tempo e de forma característica, é emparedada, impedindo sua
disseminação por todo o corpo. Os estreptococos, em contraste, não causam
destruição tão intensa dos tecidos locais. Por isso, o processo de
emparedamento se desenvolve mais lentamente, dentro de período de
muitas horas, enquanto muitos estreptococos se reproduzem e migram.
Consequentemente, os estreptococos têm tendência muito maior de se
disseminar pelo corpo e de causar morte do que os estafilococos, mesmo
que os estafilococos sejam muito mais destrutivos para os tecidos.
RESPOSTAS DOS MACRÓFAGOS E NEUTRÓFILOS
DURANTE A INFLAMAÇÃO
Os Macrófagos Teciduais Proporcionam uma Primeira Linha de
Defesa Contra a Infecção. Alguns minutos após o início da inflamação,
os macrófagos já estão presentes nos tecidos, sejam eles histiócitos nos
tecidos subcutâneos, macrófagos alveolares nos pulmões, micróglia no
cérebro, ou outros, iniciando imediatamente suas ações fagocíticas. Quando
ativados pelos produtos da infecção e da inflamação, o primeiro efeito é o
rápido aumento do tamanho de cada uma dessas células. A seguir, muitos
dos macrófagos previamente sésseis se soltam de suas ligações e passam a
ser móveis, formando a primeira linha de defesa contra as infecções durante
a primeira hora. O número desses macrófagos mobilizados inicialmente não
é grande, mas são todos salvadores da vida.
A Invasão por Neutrófilos das Áreas Inflamadas é uma Segunda
Linha de Defesa. Aproximadamente 1 hora após o início da inflamação,
grande número de neutrófilos invade a área inflamada a partir do sangue.
Essa invasão é causado por citocinas inflamatórias (p. ex., fator de necrose
tumoral e interleucina 1) e outros produtos bioquímicos produzidos pelos
tecidos inflamados que iniciam as reações a seguir:
1. Eles causam aumento da expressão de moléculas de aderência, tais
como seletinas e molécula de aderência intracelular 1 (ICAM-1), na
superfície de células endoteliais em capilares e vênulas. Essas moléculas
de aderência, reagindo com moléculas integrinas complementares nos
neutrófilos, levam o neutrófilo a grudar nas paredes dos capilares e
vênulas da área inflamada. Esse efeito se chama marginação e é mostra‐
do na Figura 34-2 e, em mais detalhes, na Figura 34-6.
2. Eles também fazem com que as fixações intercelulares entre as células
endoteliais dos capilares e o afrouxamento das vênulas pequenas se
afrouxem, permitindo aberturas grandes o suficiente para que os
neutrófilos rastejem diretamente do sangue para os espaços teciduais por
diapedese.
3. Eles causam a quimiotaxia dos neutrófilos para os tecidos lesados,
como explicado anteriormente.
Assim, algumas horas após o início do dano tecidual, a área fica bem
suprida de neutrófilos. Como os neutrófilos sanguíneos já são células
maduras, estão prontos para começar, imediatamente, suas funções de
“carniceiros” para matar bactérias e remover tecido estranho.
Figura 34-6. Migração dos leucócitos do sangue para o tecido inflamado. Citocinas e outros produtos bioquímicos dos tecidos inflamados provocam o aumento da expressão de selectinas e de moléculas de aderência intracelular 1 (ICAM-1) na superfície das células endoteliais. Essas moléculas de aderência se ligam a moléculas complementares/receptores, na neurofila, fazendo com que fiquem aderidas à parede dos capilares e das vênulas. O neutrófilo então migra através da parede vascular, por diapedese, para o local da lesão tecidual.
Aumento Agudo no Número de Neutrófilos no Sangue —
“Neutrofilia”. Também, em questão de horas, após o início de inflamação
aguda e grave, o número de neutrófilos no sangue algumas vezes aumenta
por 4 a 5 vezes — do normal de 4.000 a 5.000 para 15.000 a 25.000
neutrófilos por microlitro. Esse fenômeno é chamado neutrofilia, que
significa elevação do número de neutrófilos no sangue. A neutrofilia é
causada pelos produtos da inflamação que caem na corrente sanguínea e são
transportados para a medula óssea, onde atuam sobre os neutrófilos
armazenados na medula para mobilizar essas células para o sangue
circulante. Isso faz com que quantidade ainda maior de neutrófilos fique
disponível para a área inflamada do tecido.
A Segunda Invasão de Macrófagos no Tecido Inflamado É uma
Terceira Linha de Defesa. Juntamente com a invasão dos neutrófilos, os
monócitos do sangue chegam ao tecido inflamado e aumentam de volume, transformando-se em macrófagos. Entretanto, o número de monócitos no
sangue circulante é baixo. Além disso, a reserva armazenada de monócitos
na medula óssea é muito menor que a de neutrófilos. Assim, o aumento do
número de macrófagos no tecido inflamado é muito mais lento que o de
neutrófilos, necessitando de vários dias para ser efetivo. Além disso, mesmo
após a invasão do tecido inflamado, os monócitos ainda são células
imaturas, requerendo 8 ou mais horas para aumentar de volume e
desenvolver quantidades imensas de lisossomos; só após isso adquirem a
capacidade completa dos macrófagos teciduais para a fagocitose. Além
disso, após dias ou semanas, os macrófagos, por fim, conseguem dominar
as células fagocíticas da área inflamada por meio da produção
extremamente elevada de novos monócitos pela medula óssea, como
descrito adiante.
Como destacado previamente, os macrófagos podem fagocitar quantidade
maior de bactérias (cerca de cinco vezes mais), além de partículas maiores,
incluindo os neutrófilos propriamente ditos e grande quantidade de tecido
necrótico do que os neutrófilos. Além disso, os macrófagos têm papel
importante no início do desenvolvimento dos anticorpos, como discutido
no Capítulo 35.
O Aumento da Produção de Granulócitos e de Monócitos pela
Medula Óssea é uma Quarta Linha de Defesa. A quarta linha de
defesa é a produção muito aumentada de granulócitos e de monócitos pela
medula óssea. Essa ação resulta da estimulação das células progenitoras
granulocíticas e monocíticas da medula. Entretanto, leva entre 3 e 4 dias
para que os granulócitos e monócitos recém-formados atinjam o estágio de
deixar a medula óssea. Se o estímulo do tecido inflamado for mantido, a
medula óssea pode continuar a produzir essas células, em quantidades
enormes, durante meses, ou mesmo anos, por vezes com intensidade 20 a
50 vezes a normal.
Controle por Feedback das Respostas dos Macrófagos e
Neutrófilos
Apesar de mais de duas dúzias de fatores estarem implicadas no controle da
resposta dos macrófagos à inflamação, acredita-se que cinco deles
desempenhem papéis dominantes. Esses fatores são mostrados na Figura
34-7 e consistem em (1) fator de necrose tumoral (TNF), (2) interleucina 1
(IL-1), (3) fator estimulante de colônias de granulócitos-monócitos (GM-
CSF), (4) fator estimulante de colônias de granulócitos (G-CSF) e (5) fator
estimulante de colônias de monócitos (M-CSF). Esses fatores são formados
pelas células de macrófagos ativados nos tecidos inflamados e, em menores
quantidades, por outras células teciduais inflamadas.
O aumento da produção de granulócitos e monócitos pela medula óssea
ocorre, em grande parte, por três fatores estimulantes de colônias, um dos
quais, GM-CSF, estimula a produção de granulócitos e de monócitos; os
outros dois, G-CSF e M-CSF, estimulam a produção de granulócitos e
monócitos, respectivamente. Essa combinação de TNF, IL-1 e fatores
estimulantes de colônias gera potente mecanismo de feedback, que começa
com a inflamação do tecido e prossegue para a formação de grande número
de leucócitos defensivos que ajudam a remover a causa da inflamação.
Figura 34-7. Controle da produção de granulócitos e monócitos-macró fagos pela medula óssea, em resposta aos múltiplos fatores de cresci mento liberados pelos macrófagos ativados em um tecido inflamado. G-CSF, fator estimulante de colônias de granulócitos; GM-CSF, fator estimulante de colônias de granulócitos-monócitos; IL-1, interleucina 1; M-CSF, fator estimulante de monócitos; TNF, fator de necrose tumoral.
Formação de Pus
Quando os neutrófilos e macrófagos engolfam grande número de bactérias e
de tecido necrótico, em essência, todos os neutrófilos e muitos, se não a
maioria, dos macrófa gos eventualmente morrem. Após vários dias, com
frequên cia, uma cavidade é escavada nos tecidos inflamados. Essa cavidade contém porções variáveis de tecido necrótico, neutrófilos mortos,