Tratado de Fisiologia Médica
Estimulação de Órgãos Discretos em Algumas Circunstâncias e Estimulação em Massa em Outras Circunstâncias pelos Sistemas Simpático e Parassimpático
impulsos à medula espinal sacra e esta, por sua vez, causa a contração reflexa da
bexiga e o relaxamento dos esfíncteres urinários promovendo dessa forma a
micção.
Importantes também são os reflexos sexuais, iniciados tanto por estímulos
psíquicos, vindo do encéfalo, como por estímulos dos órgãos sexuais. Impulsos
dessas duas fontes convergem na medula espinal sacral e no homem, resultam
primeiro na ereção em grande parte função parassimpática e depois, na
ejaculação, função parcialmente simpática.
Outras funções de controle autônomo incluem contribuições dos reflexos à
regulação da secreção pancreática, esvaziamento da vesícula biliar, excreção de
urina pelos rins, sudorese, concentração de glicose no sangue e muitas outras
funções viscerais, que são discutidas detalhadamente em outros pontos deste
livro.
ESTIMULAÇÃO DE ÓRGÃOS DISCRETOS EM ALGUMAS
CIRCUNSTÂNCIAS E ESTIMULAÇÃO EM MASSA EM
OUTRAS CIRCUNSTÂNCIAS PELOS SISTEMAS
SIMPÁTICO E PARASSIMPÁTICO
O Sistema Simpático às Vezes Responde por Descarga em
Massa. Em algumas circunstâncias, quase todas as porções do sistema
nervoso simpático descarregam simultaneamente como unidade completa,
fenômeno chamado descarga de massa. Isso ocorre com frequência quando
o hipotálamo é ativado por medo ou terror, ou por dor intensa. O resultado é
a reação disseminada por todo o corpo chamada resposta de alarme ou de
estresse, que discutiremos resumidamente.
Em outras ocasiões, a ativação ocorre em porções isoladas do sistema
nervoso simpático. Exemplos importantes são:
1. Durante o processo da regulação de calor, os simpáticos controlam a
sudorese e o fluxo sanguíneo na pele, sem afetar os outros órgãos
inervados pelos simpáticos.
2. Muitos “reflexos locais” envolvem fibras aferentes sensoriais que
trafegam pelos nervos periféricos, em direção aos gânglios simpáticos e
à medula espinal, e causam respostas reflexas muito localizadas. Por
exemplo, o aquecimento de área da pele provoca vasodilatação local e
sudorese aumentada nesse mesmo local, enquanto o resfriamento causa
efeitos opostos.
3. Muitos dos reflexos simpáticos que controlam funções gastrointestinais
operam por vias neurais que não entram na medula espinal simplesmente
passando do trato digestivo até os gânglios paravertebrais, e, depois, de
volta ao trato digestivo pelos nervos simpáticos para controlar a
atividade motora ou secretora.
O Sistema Parassimpático, Usualmente, Causa Respostas
Localizadas Específicas. As funções controladas pelo sistema
parassimpático são, com frequência, muito específicas. Por exemplo, os
reflexos cardiovasculares parassimpáticos, em geral, só agem no coração
para aumentar ou diminuir sua frequência de batimentos. De forma
semelhante, outros reflexos parassimpáticos causam secreção
principalmente pelas glândulas da boca, e em outras ocasiões, de modo
majoritário pelas glândulas do estômago. Por fim, o reflexo de
esvaziamento retal não afeta outras partes do intestino de modo
significativo.
Mesmo assim, muitas vezes há associação entre funções parassimpáticas
intimamente conectadas. Por exemplo, embora a secreção salivar possa
ocorrer, inde pendentemente da secreção gástrica, essas duas muitas vezes
também acontecem juntas, e a secreção pancreática também ocorre com
frequência no mesmo momento. O reflexo de esvaziamento retal também
muitas vezes inicia o reflexo de esvaziamento vesical, resultando no
esvaziamento simultâneo da bexiga e do reto. Por sua vez, o reflexo de
esvaziamento vesical pode ajudar a iniciar o esvaziamento retal. RESPOSTA DE “ALARME” OU “ESTRESSE” DO
SISTEMA NERVOSO SIMPÁTICO
Quando grandes porções do sistema nervoso simpático descarregam ao
mesmo tempo — isto é, por descarga em massa — isto aumenta de muitas
formas a capacidade do organismo exercer atividade muscular vigorosa,
como se resume na lista seguinte:
1. Pressão arterial elevada.
2. Fluxo sanguíneo para os músculos ativos aumentado e, ao mesmo
tempo, fluxo sanguíneo dimi nuído para os órgãos não necessários para a
rápida atividade motora, tais como o trato gastrointestinal e os rins.
3. O metabolismo celular aumentado no corpo todo.
4. Concentração de glicose no sangue aumentada.
5. Glicólise aumentada no fígado e no músculo.
6. Força muscular aumentada.
7. Atividade mental aumentada.
8. Velocidade/intensidade da coagulação sanguínea elevada.
A soma desses efeitos permite à pessoa exercer atividade física com muito
mais energia do que seria possível de outra forma. Como o estresse mental
ou físico pode excitar o sistema simpático, muitas vezes se diz que a
finalidade do sistema simpático é a de fornecer a ativação extra do corpo
nos estados de estresse, que é chamado resposta ao estresse simpática.
O sistema simpático é ativado de forma especialmente forte em muitos
estados emocionais. Por exemplo, no estado de raiva suscitado, em grande
parte, pela estimulação do hipotálamo sinais são transmitidos pela formação
reticular do tronco cerebral para a medula espinal, causando descarga
simpática maciça; a maioria dos efeitos simpáticos mencionados se segue
imediatamente. Isso é chamado reação de alarme simpática. Também é
chamado reação de luta ou fuga porque o animal, nesse estado, decide
quase instantaneamente se é para parar e lutar ou para fugir. Em ambos os casos, a reação de alarme simpática torna as atividades subsequentes do
animal mais vigorosas.
CONTROLE BULBAR, PONTINO E MESENCEFÁLICO DO
SISTEMA NERVOSO AUTÔNOMO
Muitas áreas da formação reticular no tronco cerebral e, ao longo do trato
solitário do bulbo, da ponte e do mesencéfalo, bem como em muitos
núcleos especiais (Figura 61-5), controlam funções autônomas diferentes,
tais como a pressão arterial, a frequência cardíaca, a secreção glandular no
trato gastrointestinal, o peristaltismo gastrointestinal e o grau de contração
da bexiga. O controle de cada uma delas é discutido nos pontos adequados
deste livro. Alguns dos fatores mais importantes controlados pelo tronco
cerebral são a pressão arterial, a frequência cardíaca e a frequência
respira tória. De fato, a transecção do tronco cerebral acima do nível médio-
pontino permite ao controle basal da pressão arterial continuar como antes,
mas impede sua modulação pelos centros nervosos superiores, como o
hipotálamo. Por sua vez, a transecção, imediatamente abaixo do bulbo, faz
com que a pressão arterial caia para menos da metade do normal.
Os centros bulbares e pontinos para a regulação da respiração, discutidos
no Capítulo 42, estão intimamente associados aos centros regulatórios
cardiovasculares, no tronco cerebral. Embora a regulação da respiração não
seja considerada uma função autônoma, é uma das funções involuntárias do
organismo.
Figura 61-5. Áreas de controle autônomo no tronco cerebral e no hipotálamo.
Controle dos Centros Autônomos do Tronco Cerebral por Áreas
Superiores. Sinais do hipotálamo e até mesmo do telencéfalo podem
afetar as atividades de quase todos os centros de controle autônomos no
tronco cerebral. Por exemplo, a estimulação em áreas corretas, sobretudo do
hipotálamo posterior, pode ativar os centros de controle cardiovasculares
bulbares o suficiente para aumentar a pressão arterial a mais que o dobro do
normal. De forma semelhante, outros centros hipotalâmicos controlam a
temperatura do corpo, aumentam ou diminuem a salivação e a atividade
gastrointestinal e causam o esvaziamento da bexiga. Até certo grau então os
centros autônomos no tronco cerebral funcionam como estações de
retransmissão para controlar as atividades iniciadas em níveis superiores do
encéfalo, especialmente no hipotálamo.
Nos Capítulos 59 e 60 foi também mostrado que muitas das nossas
respostas comportamentais são mediadas (1) pelo hipotálamo; (2) por áreas
reticulares do tronco cerebral; e (3) pelo sistema nervoso autônomo. De
fato, algumas áreas superiores do encéfalo podem alterar certas funções do
sistema nervoso autônomo, como um todo ou de porções dele, forte o
suficiente para ocasionar doença grave induzida de forma autônoma, como
úlcera péptica do estômago ou duodeno, constipação, palpitação cardíaca ou
até ataque cardíaco.
Farmacologia do Sistema Nervoso Autônomo
Fármacos que Atuam em Órgãos Efetores Adrenérgicos — Fármacos
Simpatomiméticos
Da discussão recente, fica óbvio que a injeção intravenosa de norepinefrina
causa no organismo praticamente os mesmos efeitos que a estimulação
simpática. Portanto, a norepinefrina é referida como fármaco simpatomimético ou adrenérgico. Epinefrina e metoxamina são também fármacos simpatomiméticos, e ainda existem diversos outros. Elas diferem entre si no grau em que estimulam
diferentes órgãos efetores simpáticos e na duração de sua ação. Norepinefrina e
epinefrina têm ações tão curtas quanto 1 a 2 minutos, enquanto a ação de alguns outros fármacos simpatomiméticos comumente usados dura por 30 minutos a 2
horas.
Fármacos importantes, que estimulam receptores adrenérgicos específicos, são
a fenilefrina (receptores alfa), o isoproterenol (receptores beta) e o albuterol
(apenas receptores beta ). 2
Fármacos que Promovem a Liberação de Norepinefrina das Terminações
Nervosas. Certos fármacos têm ação simpatomimética indireta, em vez de excitarem diretamente os órgãos efetores adrenérgicos. Esses fármacos incluem a efedrina, a tiramina e a anfetamina. Seu efeito é causar a liberação de
norepinefrina de suas vesículas de armazenamento nas terminações nervosas
simpáticas. A liberação de norepinefrina em retorno ocasiona efeitos simpáticos.
Fármacos que Bloqueiam a Atividade Adrenérgica. A atividade adrenérgica
pode ser bloqueada em diversos pontos no processo estimulatório, como a seguir:
1. A síntese e o armazenamento da norepinefrina, nas terminações nervosas
simpáticas, podem ser evitados. O fármaco melhor conhecido que provoca esse
efeito é a reserpina.
2. A liberação da norepinefrina das terminações simpáticas pode ser bloqueada.
Isso pode ser causado pela guanetidina.
3. Os receptores simpáticos alfa podem ser bloqueados. Dois fármacos que
bloqueiam os receptores adrenérgicos alfa e alfa são a fenoxibenzamina e a 1 2
fento lamina. Os bloqueadores adrenérgicos alfa seletivos incluem a prazosina 1
e a terazosina, enquanto a ioimbina bloqueia os receptores alfa . 2
4. Os receptores simpáticos beta podem ser bloqueados. Fármaco que bloqueia
os receptores beta e beta é o propranolol. Drogas que bloqueiam 1 2
principalmente os receptores beta são atenolol, nebivolol e meto prolol. 1
5. A atividade simpática pode ser bloqueada por fármacos que bloqueiam a
transmissão de impulsos nervosos pelos gânglios autônomos. Eles são discutidos em seção posterior; mas fármaco importante para o bloqueio da
transmissão simpática e da parassimpática através do gânglio é o hexametônio.
Fármacos que Agem nos Órgãos Efetores Colinérgicos
Fármacos Parassimpatomiméticos (Fármacos Colinérgicos). A acetilcolina
injetada intravenosamente, em geral, não causa exatamente os mesmos efeitos
no organismo que a estimulação parassimpática, porque a maior parte da
acetilcolina é destruí da pela colinesterase no sangue e nos líquidos corporais
antes que possa alcançar todos os órgãos efetores. Ainda assim, diversos outros
fármacos, que não são tão rapidamente destruí dos, podem produzir efeitos
parassimpáticos típicos disseminados; são chamados fármacos
parassimpatomiméticos.
Dois fármacos parassimpatomiméticos comumente usados são a pilocarpina e a
metacolina. Elas agem diretamente no tipo muscarínico dos receptores
colinérgicos.
Fármacos que Potencializam os Efeitos Parassimpáticos — Fármacos
Anticolinesterásicos. Alguns fármacos não exercem efeito direto sobre algum
órgão efetor parassimpático, mas potencializam os efeitos da acetilcolina
naturalmente secretada nas terminações parassimpáticas. Eles são os mesmos
fármacos discutidos no Capítulo 7, que potencializam o efeito da acetilcolina na
junção neuromuscular. Incluem a neostigmina, a piridostigmina e o ambenônio.
Esses fármacos inibem a acetilcolinesterase, evitando a destruição rápida da
acetilcolina, liberada nas terminações nervosas parassimpáticas. Como
consequência, a quantidade de acetilcolina aumenta com estímulos sucessivos, e
o grau de ação também aumenta.
Fármacos que Bloqueiam a Atividade Colinérgica nos Órgãos Efetores —
Fármacos Antimuscarínicos. A atropina e fármacos semelhantes, como
homatropina e escopolamina, bloqueiam a ação da acetilcolina nos receptores colinérgicos de tipo muscarínico dos órgãos efetores. Esses fármacos não afetam
a ação nicotínica da acetilcolina nos neurônios pós-ganglionares ou nos músculos esqueléticos.
Fármacos que Estimulam ou Bloqueiam os Neurônios Simpáticos e Parassimpáticos Pós-ganglionares
Fármacos que Estimulam os Neurônios Autônomos Pós-ganglionares. Os
neurônios pré-ganglionares do sistema nervoso parassimpático e do simpático
secretam acetilcolina nas suas terminações, e a acetilcolina, por sua vez, estimula os neurônios pós-ganglionares. Além disso, a acetilcolina injetada também pode
estimular os neurônios pós-ganglionares de ambos os sistemas, consequentemente, causando ao mesmo tempo efeitos simpáticos e
parassimpáticos pelo corpo todo.
A nicotina é outro fármaco que pode estimular neurônios pós-ganglionares, da
mesma forma que a acetilcolina, porque todas as membranas desses neurônios
contêm o tipo nicotínico do receptor de acetilcolina. Portanto, fármacos que causam efeitos autônomos, pela estimulação de neurônios pós-ganglionares, são chamados fármacos nicotínicos. Alguns outros fármacos, como a metacolina, têm
ações tanto nicotínicas quanto muscarínicas, enquanto a pilocarpina só tem
efeitos muscarínicos.
A nicotina excita tanto os neurônios pós-ganglionares simpáticos quanto os
parassimpáticos, ao mesmo tempo, levando à forte vasoconstrição simpática nos
órgãos abdominais e membros, mas ao mesmo tempo resultando em efeitos parassimpáticos, tais como atividade gastrointestinal aumentada.
Fármacos Bloqueadores Ganglionares. Entre os fármacos que bloqueiam a
transmissão de impulsos dos neurônios pré-ganglionares autônomos para os neurônios pós-ganglionares, incluem-se o íon tetraetilamônia, o íon hexametônio e
o pentolínio. Esses fármacos bloqueiam a estimulação pela acetilcolina dos
neurônios pós-ganglionares nos sistemas simpáticos e parassimpáticos simultaneamente. Eles são usados, muitas vezes, para bloquear a atividade simpática, mas raramente para bloquear a atividade parassimpática porque seus
efeitos de bloqueio simpático geralmente prevalecem muito sobre seus efeitos de
bloqueio parassimpático. Os fármacos bloqueadores ganglionares podem reduzir especialmente a pressão arterial rapidamente, mas não são úteis clinicamente
porque seus efeitos são difíceis de se controlar.
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CAPÍTULO 62
Fluxo Sanguíneo Cerebral,
Líquido Cefalorraquidiano e
Metabolismo Cerebral
Até este ponto, discutimos a função do cérebro como se ele fosse
independente do seu fluxo sanguíneo, do metabolismo e do líquido
cefalorraquidiano. Entretanto, isso está longe de ser verdade, pois
anormalidades de qualquer um desses aspectos podem afetar
profundamente a função cerebral. Por exemplo, a cessação completa do
fluxo sanguíneo para o cérebro leva à inconsciência dentro de 5 a 10
segundos, porque a falta do aporte de oxigênio às células cerebrais impede a
maior parte do metabolismo dessas células. Em escala de tempo maior,
anormalidades do líquido cefalorraquidiano, tanto na sua composição,
quanto na sua pressão hidrostática, também podem ter efeitos igualmente
graves sobre a função cerebral.